Concurseiros.

Éramos um grupo seleto que faria, em poucos dias, a prova para professor substituto de psicologia da UFRJ.

Era exigência da seleção que todos os candidatos estivessem perfeitamente saudáveis. Eu tive que comprar um pacote de adesivos de nicotina para mim.

Quando chegou o dia da prova, descobri que a avaliação consistia em criar uma obra de arte sob o olhar avaliador severo de um psiquiatra.

Comecei a cumprimentar os demais participantes, quando notei um deles sendo levado para uma sala afastada. Era o orientador que o puxava pelo colarinho enquanto ele chorava silenciosamente e bebia de uma garrafa de cachaça.

– O que é que está acontecendo ali? – perguntei. – Para onde o estão levando?

– Então, o problema dele está nos dentes, então vão ter de arrancá-los antes da prova.

No minuto seguinte começaram os gritos. Gritos roucos, que eram rapidamente abafados pelo som de alguma aparelhagem de dentista. Os barulhos dos aparelhos eram altos, barulhos de brocas e sons metálicos, pinças, ganchos e espátulas para raspar as cavidades abertas dos dentes retirados. Em seguida o silêncio. Provavelmente o momento da costura das carnes abertas. O choro virou um leve, mas constante ressonar trêmulo, aflito, resignado, mas enraivecido.

O orientador desponta da câmara de tortura, encharcado de sangue, para resolver alguns problemas burocráticos. Eu achei melhor ir ver como o candidato estava. Quem pensa em competição nessas horas?  

Entrei vagarosamente na sala e lá estava ele com um fio grosso de sangue escorrendo como baba do canto da boca. Não era possível nem mesmo saber o que ele estava vestindo. Naquele momento ele poderia estar nu, que só se veria o sangue cobrindo seu corpo. Estava sentado em uma carteira comum de estudante, ao lado dele, a mesa do professor com os instrumentos de dentista.

Fui chegando perto dele, que fez sinal para que lhe passasse a bebida estendendo a mão na direção da garrafa e grunhindo. Bebeu de um gole o líquido que havia restado e se levantou de maneira estranha, ao mesmo tempo cambaleante, mas passando a impressão de estar seguramente decidido de alguma coisa. Demorei a entender, tentei ajuda-lo a ficar de pé, mas ele se inclinou na direção da mesa da tortura. Tive um insight gelado que percorreu meu corpo como um calafrio.

Saí correndo da sala. Tentei puxar o orientador dele, que ria e batia papo com outros adjuntos, para alertá-lo do que estava para acontecer. Ele se desvencilhou e me censurou por qualquer motivo, eu já não estava mais prestando atenção. Eu olhava em volta e começava a incitar o resto dos candidatos a saírem do prédio. O meu orientador, surpreendentemente, nos acompanhou.

Quando o candidato saiu da sala, ainda cambaleando, carimbando as paredes ao redor de sangue cada vez que se apoiava nelas e se lançava na direção do seu próprio orientador, eu reparei que este me olhou e eu gritei já do lado de fora do prédio:

– Eu ia te avisar que ele estava indo te matar!

O tempo que o orientador levou para me direcionar um olhar de incredulidade foi fatal. Num último impulso o rapaz havia se jogado contra o orientado e enfiado em sua garganta uma broca de dentista.

Todos começaram a gritar e correr para todos os lados, mas uma voz foi ficando cada vez mais clara no meu ouvido.

– Acorda, vamos lá, acorda, amor. Você acabou dormindo, mas está na hora de voltar a estudar. A prova já está chegando. Falta só mais um pouco.

 

Pequeno manifesto pela arte independente.

Hoje foi dia de aquarela, escrita criativa, teatro, comida boa e bonita e muita literatura.

Ser um artista independente não é fácil. Ser um artista independente e um empreendedor é mais complicado ainda. Dominar a arte criativa e a arte burocrática da administração de uma empresa de sucesso é para poucos. Certamente é o caso da idealizadora da Sonhos de Bolso, Natalia Ávila

Eu estou feliz por ser uma modesta parte deste projeto e posso dizer que tudo é feito com muito amor e muita garra. Meter as caras e fazer o projeto acontecer exige esforço e dedicação.

Eu participo do projeto ministrando, junto com a Natalia, a oficina “Alquimia da Palavra”.

Nesta oficina, debatemos os elementos fundamentais da escrita e técnicas de criação de narrativas e personagens. Tudo num mix de teoria e prática.

Este texto não é só de propaganda, não. Se acalme. Eu sei que propaganda costuma deixar a gente irritado. Apesar de vivermos num sistema capitalista; sim, quem dera o artista se alimentasse da sua arte não só emocional e espiritualmente, mas também fisicamente. Por enquanto, não tem jeito. Se você se enfurece com isso, lute pelo fim do sistema no qual vivemos e não contra o cara que quer te vender o que produz de coração.

Nossa, meu pensamento foi longe.

Sabe aquele rapaz que vende poesia na porta do CCBB? Falo assim, com essa intimidade, porque ele sempre está lá. Antes eu também não comprava os textos dele, não. Hoje em dia, eu entendo e vejo o valor nesse tipo de iniciativa.

A gente pode até reclamar dos preços dos livros que estão lá nas estantes das grandes livrarias, mas acabam sendo eles que a gente compra. A gente tem muita dificuldade em valorizar o que está próximo de nós. Preferimos os autores que não conhecemos, os artistas inacessíveis que acenam para nós da varanda do Copacabana Palace.

Isso não quer dizer que você tem que engolir tudo que a arte independente produz. Você aprecia o que fizer sentido para você. Se o cara não for bom para você, esquece. O problema é que a gente tem um certo preconceito em validar a arte de alguém desconhecido, que não tem já uma fama consolidada. A gente precisa da validação do capital – traduzido na fama ou na chancela de alguém que tem poder – para poder dizer que gosta também daquele produto.

Eu gosto da tal “inclusão digital” enquanto muitos a odeiam.

Aí a galera reclama que tem muita besteira na internet porque todo mundo faz o que quer. Faz mesmo! E que bom. Sem a internet, antes da internet, se você parar para pensar, você vai perceber, tinha muita coisa ruim também e as pessoas também faziam o que queriam. Mas… O grupo de pessoas que faziam coisas ruins e produziam o que queriam era muito seleto, porque até para isso, era necessário status e dinheiro. Hoje em dia, mesmo que você não tenha status ou dinheiro, você pode fazer o que você quer.

Pense comigo: Na Idade Média, tinha muita gente ruim fazendo um monte de merda, estas pessoas eram os homens da nobreza ou do clero. Na Antiguidade tinha um monte de gente ruim fazendo merda, eram os cidadãos romanos (homens, nascidos em Roma, que eram pais de família). Atualmente essas pessoas que possuem status, dinheiro ou fama, ainda estão por aí fazendo merda: atores famosos, deputados, presidentes, senadores. A diferença é que agora eles são obrigados a dividir o palco comigo, com o seu vizinho e por aí vai.

A produção da merda é generalizada. Não importa que seja merda, tudo que se torna mais democrático é positivo (vou arriscar essa frase agora e vou pensar mais sobre isso depois).

Ah, seria bom se não fizessem tanta merda por aí; conteúdo merda, comentário merda. Concordo plenamente. Mas é melhor que todos possam falar do que a existência de um monopólio dos locais de fala.

A discussão da Terra plana, por exemplo. Que merda! Mas, de boa, como que você foi convencido de que a Terra não é plana? Você já circulou ao redor do globo? Foi ao espaço? A gente é educado para acreditar nas “fontes confiáveis”. E é bom que isso exista. As fontes confiáveis conferem estabilidade à nossa vida. Mas se você procurar no google formas de provar que a Terra é plana, pode ser que você se surpreenda. Eu me surpreendi muito quando eu percebi que eu nunca tinha me perguntado isso antes. Foi ouvir na escola: “A Terra é redonda”, que eu anotei e nunca mais pensei nisso. Essa história toda é ainda mais absurda se você considerar que, alguns anos depois, eu ouvi, na mesma escola, que a Terra não era redonda! Ela é meio oval, sei lá. Mano, que viagem. Eu precisei da galera da Terra plana para perceber a bizarrice dessa situação. A própria escola te oferece duas versões diferentes da mesma história, mas, como a escola monopoliza a nossa educação, a gente aceita e vai embora. Aí vem a internet, com a galera falando merda por aí, e você questiona verdades elementares da sua existência. Então, eu não acredito que a Terra seja plana, eu acredito que ela seja elíptica, mas eu acredito nisso com muito mais propriedade do que antes e um senso crítico muito maior.  

Se você tem contato com um mar de opiniões diferentes, ainda que elas sejam de baixa qualidade, você, pelo menos, está sendo confrontado com a diferença e isso move as pessoas, os sentimentos, põe a cabeça para funcionar. Quando você tem uma voz consistente e poderosa te dizendo alguma coisa, é mais difícil discordar. Imagina se por um mero acaso histórico, a do Bolsonaro fosse a única voz? Todo movimento revolucionário e progressivo dependeu de uma emergência de diferentes vozes.

Na internet essa pluralidade se faz cada vez mais presente.

O que me ajuda a não ficar irritada quando eu vejo uma besteira na internet é precisamente essa perspectiva que adotei para pensar sobre o fenômeno. Se tem tanta gente fazendo bobagem por aí, cabe a nós refletir e tentar entender o que isso significa, rever e fortalecer a nossa voz singular, tentar encontrar o que nos agrada mais, o que tem mais afinidade com os nossos valores e percepções, no lugar de tentar, tiranicamente, fazer as pessoas se calarem e continuarem ouvindo as mesmas vozes chanceladas por um poder que escapa completamente das nossas mãos.

E se você ficar irritado além da conta com alguma bobagem da internet, ainda tem duas ferramentas maravilhosa que são “compartilhar + escrever publicação”. Ou seja, vocêzinho também pode falar merda na internet! Porque, pasme você, mas, enquanto você acha que tudo que você fala é pérola, tem gente que acha que você só fala merda. Acredita nisso?!

Retomo então a história do cara que ficava na frente do CCBB. Quando eu comecei a me dar conta de que as pessoas compram e, às vezes, leem um best seller caro de livraria só porque algum funcionário colocou o tal livro numa prateleira com uma placa que dizia que aquele era um best seller mundial – sem que você conheça o autor ou do que trata o livro – mas apenas pelo puro e simples poder daquela plaquinha, e nem cogitam gastar dois reais para conhecer a literatura do cara do CCBB, eu me dei conta de que tinha alguma coisa muito triste e equivocada. E eu fazia a mesma coisa, confiando na chancela da notoriedade. É coisa de você se pegar pensando: “Lá vem esse cara encher o saco, vou ali dentro na livraria para escapar dele, aproveito e compro a Trilogia Tebana”. Esse é um pensamento estúpido e sem sentido. Não estou falando contra os best sellers, sou vítima de alguns, nem contra os clássicos, estou apenas tentando falar a favor de quem não se enquadra nem em uma nem em outra categoria.

Novamente: se não tem qualidade para você, não absorva essa arte. Não vai te fazer bem. Mas abra sua mente para sofrer desgosto dos artistas independentes e não só dos famosos, você pode acabar se maravilhando com esse universo. A arte independente está em todos os mercados e nichos, você vai achar algo para encher os olhos e se refestelar. Exemplos de nichos onde você encontra produção independente: cerveja, comida doce e salgada, roupa, literatura, pintura, decoração, fotografia e muito mais. É um universo infinito.

E não se engane, tem muita gente foda por aí que vai morrer pobre e sem casa própria.

 

Vai subir, motorista!

Outro dia, estava eu suando dentro de um ônibus na Presidente Vargas. Era o meio da tarde, o sol estava alto ainda, um calorão, mas o ônibus estava vazio. Graças a deus. Havíamos acabados de sair do ponto da Cidade Nova em direção à Praça da Bandeira.
Foi quando a vi apontando para o céu, gritando para o motorista que acelerava; uma mulher que seria deixada para trás. Meu coração disparou e eu ainda olhei para o motorista: vai subir! Mas, no lugar de demonstrar compaixão, ele deu um sorrisinho maroto e foi embora.
Mais adiante, já perto da estação de São Cristóvão, escuto o motorista xingando e gritando, ele gesticula e eu me levanto assustada.
Que isso? Assalto?
Com quem você pensa que está falando – grita uma voz aguda.
Começo a espixar o pescoço e olhar para os lados. O que está havendo?
Os outros passageiros, muito sagazes, já explicam: não, o que aconteceu foi o seguinte, ela fez sinal lá atrás e ele não parou. Foi isso.
Vou até as janelas da frente do ônibus do lado do motorista e vejo um táxi fechado o ônibus e a tal mulher em pé no meio da rua gritando com motorista que ele não sabia quem ela era, ele não tinha idéia de quem ela era. Ah! Se ele soubesse. Ela xingava o motorista e de quebra, o prefeito da cidade, e todo mundo ia pegar. Aquilo não ia ficar daquele jeito.
O motorista se engaja na conversa: eu sei, sei muito bem quem você é sim. Minha senhora, você quer saber quem eu sou? Vou te falar quem eu sou. Você vai ver bem.
Eles pareciam que não iam se cansar nunca daquela discussão. Mas os passageiros começaram a reclamar: Vamos embora motorista!
Ele engata a marcha ré, a mulher ainda dá um trote atrás dele e esbofeteia o ônibus que consegue se desvencilhar e arrancar. O motorista xinga a mulher até o Meier, pelo menos.
Eu saltei na Dias da Cruz me perguntando quem devia ser aquela mulher, no fim das contas? Meu primeiro impulso foi pensar: juíza. Mas, porra, pegando ônibus?!
Me distraio porque ouço a voz de novo, já familiar, lá estava ela, dentro do táxi, colada na traseira do ônibus.
Vai dar merda, com certeza.

Vai à merda, ansiedade!

Hoje temos um texto super especial de uma pessoa que eu gostaria que fizesse muitos mais guestposts no blog! Meu marido: Luizinho!

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Estava na hora, não dava mais pra aguentar essa situação não. Tinha que fazer alguma coisa. Tinha ficado com aquele texto na cabeça há mais de uma semana e, verdade seja dita, tinha achado completamente ridícula a ideia.

Mas, dia sim dia não, era a mesma sensação de morte toda vez que passava por qualquer coisinha. E sabia que eram coisinhas, claro que sabia. Mas vai lembrar disso na hora que o motorista de ônibus dá o troco errado, ou na hora de entrar numa sala de aula com um pouco de atraso. Não tinha deus que desse jeito naquela palpitação, naquele suor frio, naquele desejo de desaparecer, de se esconder e não fazer mais nada.

Já tinha decidido tentar fazer alguma coisa a respeito, mas não sabia por onde começar. Foi quando, por mero acaso, viu aquele texto na descrição de um evento que um amigo tinha confirmado no face que ia. Surpreendentemente, aquela ideia ficou na cabeça, germinando; e germinando, floresceu. Não tinha nada de complicado na verdade, era só arranjar coragem para fazer. Por coincidência ia pegar o metrô nesse mesmo dia. Acreditava que ia tentar, por que não?

Já tendo embarcado há um tempo pensou “Vamos lá!”. Se levantou, tentou começar a falar, mas era como se uma mão tapasse sua boca ou um punho tivesse sido enfiado na sua garganta, não tinha certeza. Sentou-se. Era 3 da tarde, o metrô ainda não estava lotado. Sentiu-se muito mal, achou que mais uma vez não ia conseguir mesmo há poucos minutos estando certo de que iria tentar. Chegou na estação terminal, teve que descer, sentou numa das cadeiras da plataforma, sentiu muita vontade de chorar. Queria dizer que só sairia dali quando conseguisse fazer o que tinha ido fazer, mas se conhecia muito bem para saber que afirmar isso não seria possível, talvez só piorasse a situação.  Ficou ali mais umas dezenas de minutos e decidiu voltar para casa. Já não dava mais tempo mesmo de ir no seu compromisso.

Conseguiu sentar, mas o metrô foi enchendo porque o pessoal já estava começando a voltar do trabalho. Por algum motivo, não se sentia tão mal como costumava se sentir. Sabia que queria mesmo fazer alguma coisa e que tinha realmente tentado, ativamente tentado. Não tinha conseguido, é verdade; mas tinha conseguido lidar de uma forma relativamente boa com esse fato. Uma pequena satisfação tomou conta do seu espírito quando pensou nisso. Percebeu que estava de pé e olhou para fora para ver se era sua estação, mas não era. Conseguiu ler o nome da estação na plataforma momentos antes do metrô parar e, como num redemoinho, as palavras, duas únicas palavras, vieram do fundo sabe-se lá de onde, ecoando dentro de si com o volume cada vez mais alto, e num momento em que tudo foi silêncio, de olhos fechados as palavras saíram de sua boca: “Presidente Vargas!”

“Puta que pariu!” foram as palavras que teve que fazer um esforço imenso para não gritar logo depois. Tinha feito, se segurava muito forte no corrimão do alto, com medo de desabar, pois suas pernas estavam tão bambas que achou que elas iam desmontar. “E agora?”, pensou. “Talvez a parte mais difícil tenha passado”. Abriu os olhos. Algumas pessoas ainda lhe olhavam. Já estava chegando a próxima estação e ele sabia qual era de cor. Pensou se devia sair correndo porta afora, mas decidiu ficar. E novamente antes do metrô parar, bradou: “Central do Brasil!”. Várias pessoas lhe olharam novamente. Muitas outras entraram e o metrô já ficava do jeito pelo qual era conhecido o metrô no Rio de Janeiro. Mal acreditava, mas de fato tinha ficado mais fácil, sentia-se gradualmente mais calmo.

“Nossa, não acredito que é você! Quanto tempo!”

Tinha certeza de que sentia sua alma deixando seu corpo, mesmo não acreditando em alma. A voz vinha de uma pessoa que havia entrado na última estação e era uma pessoa conhecida. Não tinha escolha, ia se desculpar e aí sim sair correndo na próxima estação, quem sabe vomitar na lixeira mais próxima. Ficou parado e pálido, no entanto, incapaz de fazer qualquer outra coisa.

“Cidade Nova!” gritou novamente. “Imbecil! Por que diabo de caralho fui fazer isso?”. Uma segunda voz veio de trás, acompanhada de um cutucão no ombro: “Por que você tá fazendo isso?” Ele continuou de olhos abertos, mas tudo ficou escuro por um momento. A voz riu e insistiu: “Você fugiu do hospício? Aí, Gustavo! Acho que alguém fugiu do Pinel…!”

Não conseguia acreditar naquilo. Se tivesse alguma ordem de pensamento naquela hora, estaria se amaldiçoando por ter dado ouvido a qualquer merda que leu no facebook. Não conseguiu responder, ficou ali olhando na direção da pessoa conhecida, de boca meio aberta, com o coração pulsando o que parecia ser suor por todos os poros do seu corpo.

“São Cristóvão!” Não tinha mais ideia do que estava acontecendo. Não saiu na estação recém anunciada por sua própria boca. Não pensava mais, parecia que tinha saído do seu corpo, mas não estava fora. Parecia preso no seu próprio corpo, exceto que o corpo não era mais seu, era uma simples forma que continuava gritando os nomes das estações sem motivo aparente. “Ei, você pode parar com isso!? Idiota…” Forçou-se a olhar de onde vinha a terceira voz e viu que era de uma moça grávida sentada no assento especial a poucos metros de si, lhe encarando com cara de desprezo.

“Maracanã!”, gritou novamente. O texto estava todo errado. O número de pessoas que estavam olhando só aumentava. “Perdeu todos os parafusos, Gustavo…”, “Tá tudo bem com você?”, perguntou a primeira voz. “Já falei pra parar, porra!” E mais uma voz se juntou à orquestra de vozes na sua cabeça “Você não ouviu a senhora não, imbecil? Pára com esse caralho!” Era uma nova voz que veio com um empurrão forte, abrupto e insinuando que não seria o último. Parecia que quanto mais a situação escalonava, mais difícil era manter algum rastro da sequência de eventos que tinham culminado naquela situação.

 

“Triagem!”. A resposta foi quase imediata: “Já te avisei, filhadaputa!” e veio acompanhada de um soco no canto do queixo. Uma enxurrada de gritos dissonantes veio depois, enquanto seu corpo caia no chão, finalmente largando o corrimão do teto. Mais gritos, um se sobressaiu “Ele tá armado!!!” Um barulho surdo e opaco, correria, gente pisoteada e tudo ficava escuro outra vez, dessa vez por mais tempo.

 

“Maria da Graça!” foi o que acordou gritando, tremendo e com o corpo mergulhado em suor. Estava sentado num banco dentro do metrô. Era sua estação, a porta estava para fechar, mas não antes de dar tempo de sair tropeçando, chorando convulsivamente, pensando “VAI À MERDA, ANSIEDADE!!!”

“De S. a K.”.

Já escrevi alguns textos no blog sobre blackout poetry. Você pode vê-los  aqui e aqui.

Pois é… Hoje eu tive um dia bem tenso e estressante e não estava me sentindo muito bem quando cheguei em casa depois de passar o dia inteiro na rua cumprindo obrigações que eu ainda não sei muito bem a qual propósito vão servir na minha vida. Quando cheguei em casa, pensei no blog e eu ainda não tinha preparado o texto de hoje. O que melhor para se fazer, depois de um dia estressante, do que passar algum tempo fazendo algo que vai te fazer se sentir bem? (Lembra do texto de ontem? Eu realmente uso aquele modelo de tabela para pensar sobre a minha vida. Com o hábito, eu já nem sempre preciso desenhá-la no papel, eu apenas mantenho-a em mente para avaliar os meus dias). Tendo isso em visto, eu pensei que o texto de hoje deveria ser especialmente terapêutico para mim.  Neste momento tive um insight! Vou cutucar a minha dissertação!

Eu sei! Não parece nada terapêutico! Mas isso é porque você ainda não fez blackout poetry na sua dissertação. Foi libertador!

Eu ainda pretendo fazer nela inteira. Hoje foi só o primeiro passo.

E eis como ficou o resumo da minha dissertação… (Orientador, caso o senhor esteja lendo isso, saiba que a blackout poetry não é desrespeitosa com o texto, pelo contrário: é uma forma potente de apropriação da escrita do autor. E deus sabe que os estudantes universitários sofrem com o sentimento de desconexão em relação ao resultado dos seus trabalhos acadêmicos. Eu ainda vou realizar uma oficina com ex-estudantes de pós-graduação só para fazer trabalhos artísticos terapêuticos com as teses e dissertações. Quem tiver interesse… inbox!).

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de s a k

Uma brinde à mim.

Um brinde às últimas chances que não dei aos que me maltrataram!
Um brinde à minha coragem de gritar: parem de me bater!
Um brinde à minha insensibilidade em relação às lágrimas de crocodilo deles!
Um brinde ao quanto tive que aturar esses idiotas!

E nos vemos livres enfim! O tão sonhado, amado fim das noites mal dormidas! Das trepadas em que fomos malcomidas e desdenhadas em prol do gozo alheio! Fim dos dias em que fomos traídas por amigos e choramos desacompanhadas. Fim das mordaças que caem aos nossos pés babadas e putrefatas.

Eu brindo à minha saúde! A deles, que se acabe no amargor da incapacidade de lidar com outro ser humano! E o diabo que os carregue a todos!

Improvisação.

Cara, eu não faço a mínima ideia a respeito do que escrever hoje.

Há dias em que tudo falha. Todas as suas estratégias e planos bem pensados e pesquisados e fundamentado… Nada disso funciona e tudo parece desabar.

Chega a hora de improvisar.

Uma voz lá no fundo da minha cabeça fala: “Não está ok improvisar o tempo inteiro”! Concordo.

Mas que fique claro que não me refiro ao improviso como um modo relapso de lidar com as obrigações.

Estou há dois dias pensando no que escrever hoje, no dia 31 de outubro de 2017, e nada me vem à cabeça. Queria escrever alguma coisa sobre Halloween. Mas a história que me veio á cabeça é meio dramática e eu não quero estragar a festa de vocês, portanto o que me resta é escrever sobre a dificuldade de escrever.

Estou surpresa que isso tenha demorado tanto a acontecer. E a minha perspectiva é a de que isso ainda aconteça muitas vezes no futuro.

Então, me resta improvisar usando todas as minhas magníficas habilidades de escrita e as minhas experiências de vida. Vamos ver no que vai dar.

Até porque essa sensação não é nova para mim.

Me lembro como se fosse ontem das incontáveis vezes que eu cheguei na escola com mochila, cadernos e apostilas e encontrei meus amigos apenas com a caneta na mão, pois havíamos adentrado a semana de provas e eu, como de costume, não sabia disso.

Quando eu estava no Colégio GPI, onde estudei todo o meu ensino médio, meus amigos sempre me zoavam quando eu chegava com o material todo na semana de provas. Eles já sabiam que eu estava completamente desinformada. Veja bem, na semana de provas, só tinha a prova mesmo, que fosse uma ou duas, e acabou. Dpois de fazer a prova a gente era liberado. A galera só levava a caneta.

Chegava eu, segunda feira pela manhã no colégio, desavisada. O que eu fazia na prova? Improvisava. Aí, ao longo da semana, eu ia tirando o atraso dos estudos.

Sentava na carteira, olhava para a prova e utilizava todo o meu charme literário e o que tinha ficado das aulas para tentar conquistar uns décimos aqui, um pontinho ali; e, é claro, contava também com um pouco de sorte nas questões de múltipla escolha.

(Até nas provas de matemática, eu descrevia literariamente o meu raciocínio sobre os problemas e as minhas soluções, com medo do professor não entender o primor super elaborado que era o cálculo que eu fazia. As provas de geometria eram as mais loucas, eu já gostava de desenhar, eu criava figuras em cima da figura que vinha na prova e ia intuindo valores para os ângulos, chegando assim, à resposta da questão de um jeito mirabolante que eu tinha que explicar com palavras. Muitas vezes, eu deixava mais de uma alternativa de resposta – uma delas estrategicamente riscada – para tentar confundir o professor. Bons tempos. Nas minhas provas de matemática, uma imagem não era equivalente a mil palavras; pelo contrário, eram necessárias mil palavras para explicar as imagens que eu desenhava).

Minha nossa! Chegava a ser divertido fazer prova. Eu dava asas à minha imaginação.

Minha improvisação, naquela época, não era muito bem fundamentada.

Você já deve ter concluído que, todos os anos, eu ia parar na recuperação.

Eu só virei CDF na universidade. (até hoje eu não tenho certeza do que significa esta sigla, mas… como estamos falando em escola… não pude deixar de lembrar dela).

Minha iluminação foi no terceiro ano do ensino médio. Imagine eu, uma adolescente de dezesseis anos fazendo canto e dança, gostando de ler e escrever. Eu nunca tinha parado par apensar em profissões. Sabe aquelas crianças que falam desde novas: “Quero ser médica!”, “Quero ser veterinária!”. Eu não me lembro de ter tido esse tipo de desejo quando. Eu via muito anime, então, quando alguém perguntava para mim, quando eu tinha dez anos de idade, o que eu queria ser quando eu crescesse eu respondia: “Quero ser andarilha no Japão” (até hoje eu amo Samurai X). E eu levava esse sonho muito a sério. Eu fiz curso de japonês dos dez aos quinze anos e fiz Kung Fu também (embora por bem menos tempo, pois a minha mãe ficava apavorada comigo, pequena e deficiente visual, na aula com todas aquelas outras pessoas enormes que me batiam na hora de lutar em duplas no final).

Eu sempre tive uns sonhos assim meio aleatórios e nunca tinha considerado a sério uma carreira.

Quando eu optei por psicologia, foi muito por influência de pessoas ao meu redor. Eu dizia que queria entender o ser humano e a galera me orientou: “Vai fazer psicologia, então”. Ok.

Nunca me arrependi dessa decisão. Amo a psicologia, mas eu demorei a perceber que ela ia ter que conviver com o amor pela escrita. Não é a pior combinação. Psicologia e escrita andam bem juntas.

De qualquer modo, era necessário passar no vestibular.

No meio do ano, quando eu me decidi pela psicologia, ou seja, quando eu estabeleci um objetivo, eu mergulhei de cabeça. Estava no GPI, tinha aula até domingo do pré-vestibular.

Me lembro de chegar na escola um certo dia e dizer aos meus amigos que eu havia decidido passar na UFRJ. É uma história foda hoje em dia porque deu certo, não é mesmo? Decidi, me dediquei e passei. Ah… que alívio.

Na faculdade eu fui ganha para o mundo intelectual acadêmico e deu no que deu: não consegui sair deste universo até hoje e me faltam ainda mais três anos de doutorado. Vida que segue. Enfim…

Hoje em dia eu ainda improviso. A diferença é que eu me forço a ser muito segura das minhas capacidades intelectuais, coisa que a escola não ajudou a construir (tendo mesmo deixado uma insegurança profunda que se transformou atualmente na Síndrome do Impostor que me aflige. É por isso, e é possível que você tenha estranhado quando eu escrevi, que eu tenho que me forçar a ser segura quanto a minha capacidade intelectual. Autoconfiança intelectual é uma característica que a educação nem de longe estimula e, se bobear, destrói).

Bom, neste novo cenário, improvisar passa a significar adaptar o conhecimento que eu possuo a uma situação inesperada.

Para você ver como isso rende… Um improviso que parte de algum lugar. Gostei dos lugares aos quais eu fui levada por estes devaneios. Acho, inclusive, que podemos ficar por aqui, pois já consegui escrever um bom texto para a postagem de hoje.

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A intenção da “pintura” de ontem.

Ontem eu fiz um texto psicodélico (não estou mentindo, veja aqui), coisa que eu não costumo fazer.
Quando eu leio narrativas das quais eu não consiga retirar um sentido explícito (algo que faça sentido para mim, não falo nada da intuição do autor), eu fico desconfortável. Sinceramente, prefiro narrativas racionais.

Por isso mesmo acho que o exercício de ontem foi bom e talvez eu faça mais dele no futuro.
Por enquanto eu vou ser indulgente com as minhas necessidades racionalistas e vou discorrer sobre o sentimento que me dominou ontem.

A filha de uma amiga minha de infância adoeceu e, apesar de eu não ter falado com esta amiga nos últimos dias, fiquei apreensiva, torcendo pela saúde da menina e pensando na barra que minha amiga devia estar passando.
Foi quando me dei conta do quanto a gente cresceu.

A gente: a galera que ficava no meu portão comendo brigadeiro caseiro da mesma colher e dividindo uma garrafa Pet de água.

E a gente cresceu muito.

Cresceu e nossos universos sedimentaram de um modo que, ontem, me pareceu total e indestrutível.

Na infância e na adolescência, eu experimentei um milhão de atividades diferentes: dança, luta, língua japonesa, canto e por aí vai. Todas as carreiras e estilos de vida possíveis estavam ao meu dispor.

Conforme eu fui envelhecendo, conforme todos nós fomos envelhecendo, fomos fazendo escolhas aparentemente mais marcantes e duradouras. Fomos deixando de enxergar caminhos possíveis onde antes víamos algo que estava ao alcance da mão.

Acho que ontem, pensando na situação da minha amiga com a filha doente (que já melhorou e está toda serelepe novamente), eu olhei para as nossas vidas, a minha e a dela e de todos nós que crescemos juntos nas últimas décadas e perdi a esperança de que um mínimo dessa liberdade aguada que a gente prova no dia a dia fosse sobreviver ao peso das escolhas que fomos fazendo e das portas que fomos fechando. Como se outras vidas já não fossem possíveis (ou como se achássemos mesmo impossível desejarmos outras coisas).

A salvação foi que eu me lembrei de uma pergunta escrota que fizeram para um colega meu há uns dois anos atrás. Disseram: “Vem cá, o que há para se esperar da vida depois dos trinta além da morte”?

A resposta dele foi digna de um sábio oriental. Ele, com uma extrema sensibilidade, se lembrou das próprias angústias dos vinte e poucos anos, quando ele mesmo achava que era isso aí mesmo que a vida ia ser para sempre. A revelação foi que ele sentiu tudo mudar depois dos trinta. Ele sentiu um ânimo novo e impetuoso. Sentia que a vida estava só começando e que tudo era possível novamente.
Eu acrescentaria ainda, depois de parar para refletir sobre a resposta dele e observar as gerações anteriores a minha, que a vida recomeça a cada nova década.

Passamos por pequenas renovações anuais, mas o que me parece é que as pessoas, ao adentrarem uma nova década de vida, são sempre tomadas por um novo fôlego, um novo olhar para o futuro. E aquela liberdade pálida ganha corpo e se torna um universo de possibilidades tão rico quanto aquele que vislumbramos embasbacados éramos adolescentes.
A diferença é que, quando a gente envelhece, a gente tem talvez ainda mais meios de escolher seguir um desses caminhos que nos der na telha.

O único vilão que temos que combater é a nossa própria prisão mental que nos diz que o mundo aberto da juventude ficou para trás e que estamos presos às escolhas que fizemos pelas responsabilidades que adquirimos ao longo da vida.

Não falo de jogar tudo para o alto irresponsavelmente. Falo de acreditar em si mesmo, avaliar nossos recursos e possibilidades e nunca se deixar convencer de que “é isso aí mesmo e a vida nunca vai ser mais do que isso”.

Tenho o pé no chão ainda que esteja defendendo este discurso de esperança de que tudo vai ficar bem no final. Esse discurso não pode mais ser feito sem pensarmos nos preconceitos: machismo, racismo, LGBTfobia e todos os outros preconceitos que oprimem e matam pelo país afora. Existem posições desfavorecidas na nossa sociedade que dificultam em muito a busca de novos caminhos e alternativas. Dificultam verdadeiramente, sem espaço para o blá blá blá ridículo do “se se esforçar consegue”. Ainda assim, afirmo que há esperança. Esperança que muitas pessoas vão encontrar na luta por melhores condições de vida, igualdade, dignidade; esperança numa revolução. Estes são os agentes da mudança não apenas da vida própria, mas também são agentes de uma mudança há muito devida para todos. O que eu quero defender é que todo mundo tem que ter o direito de tentar ser feliz nesta vida e se sentir realizado de alguma forma.

Portanto, procure saber o que te motiva, se agarre a isso e siga em direção à mudança ou em direção à luta pela possibilidade da mudança. Vai te fazer bem.

Doidera, não é? Mas era este o raciocínio por detrás do quadro que eu gostaria de ter pintado (realmente pintado, com tinta e tudo) ontem e não consegui. Faz sentido para você?

 

Se eu soubesse pintar não teria escrito este texto.

Esse já é o quarto texto que eu começo a escrever hoje e nenhum dos anteriores me deixou satisfeita.

Cheguei em casa com uma forte vontade de pintar. Coloquei uma música no computador, peguei o meu material de pintura e pintei.

O problema é que eu pinto muito mal e fiquei muito frustrada. Desde que comecei a escrever, minha veia artística vem pressionando para desabrochar, mas eu não sei fazer nada além de escrever mesmo. O que eu queria era ter postado a minha pintura hoje. Mas eu não vou tirar foto desse negócio aqui para postar. Está feio demais. Eu não consegui pintar o que eu queria. Isso é muito desapontante. Quando se trata de um texto, eu vou escolher as palavras, o formato do texto, a pontuação e vou passar a minha voz para a narrativa (ou, pelo menos, eu consigo trabalhar com esse material e ver um resultado que, de alguma forma, me carrega junto). Com as tintas e o papel e os pincéis eu simplesmente não sei lidar. Ainda. Quem sabe no futuro…

Uma saída meio doida que me ocorreu é descrever a pintura que eu gostaria de ter pintado. Vamos a ela, por mais psicodélico que isso possa ser:

 

<<<Uma linha marrom nasce na ponta inferior esquerda de uma tela, fina e débil. Ela se sente insegura e chora a todo momento. Tem muito colo disponível. Ela se refestela. Conforme Marron avança em direção ao centro do quadro, ela se adensa e se torna cada vez mais amarela. Amarela de medo, amarela de dor de barriga, amarela por causa do brilho do sol, amarela por causa das flores que tem no cabelo. No ponto em que o marrom já não comparece e Amarelo domina a cena em um traçado grosso, mas leve e suave, diversos outros veios coloridos começam a despontar, desviando-se do caminho principal. Os frágeis tracinhos coloridos tomam o espaço branco ao redor, alguns mais grossos, mas ainda finos, outros tão, tão finos que quase não se vê. De repente, um dos finos capilares, do qual era difícil divisar a origem, ganha corpo e desponta bem marcado galgando o canto superior direito da tela. Ele é cheio de energia e paixão. Não recebe ordens e não leva desaforo para casa. Ignora tudo e todos ao redor e vai somente pela própria cabeça. Está vermelho de ódio e vermelho de dor, amor e tudo o mais que rima e termina em or, como calor, estupor, fedor, horror, vigor e por aí vai. Desse canal de tinta vermelho e sanguíneo, ainda correm alguns traçados laterais de cores vivas. Todas as cores se cruzam e bagunçam o meio da pintura que, no mais, poderia ter sido uma dança moderna no lugar de uma narrativa sem sentido. Não é possível seguir um só traço até o seu derradeiro fim.

Acompanhamos a Vermelha até o momento em que todas as cores do mundo, representadas, na minha pintura, por todas as tintas que eu possuo, desabrocham dando um último suspiro angustiado de sua ponta que, após encontrar a tal borda superior direita da tela, se volta para a diagonal oposta e começa um caminho descendente.

Contudo, sem que ninguém tivesse se dado conta, a despeito de todos os intensos protestos da pintora e se expressando quase que por meio de um sussurro, do meio das cores vivas que despontavam como raios da mancha vermelha se insinuava um fio marrom que se avoluma horrendamente conforme o traçado retorna a sua origem.

Marron segue fingindo segurança de si, firme, numa jornada de ponta cabeça em queda livre pelo meio da tela. Ele acha que volta para onde veio, mas ninguém sabe onde ele vai parar, mas ele finge saber e acreditar que está indo para onde decide ir. Todos os brilhantes fiozinhos de tinta coloridos que dominavam o restante do quadro foram arrancados por Marrom pela raiz. Alguns cotocos permanecem para contar a história do que Marrom poderia ter sido, mas Marrom tem muito medo de ser qualquer outra coisa além daquilo que se acostumou a ser por mero acaso. Se fosse outro o quadro, talvez Marrom ainda pudesse ter se tornado Verde, Rosa, Preto ou Laranja, mas neste quadro Marrom vai morrer Marrom.>>>

 

Talvez eu intitulasse o quadro de O CAMINHO.

Tributo ao sofrimento adolescente.

Mai gosta de ouvir músicas de bandas desconhecidas e super melancólicas no youtube acompanhando as letras, cantando e chorando junto enquanto pensa em suicídio.

Quando Mai acorda pela manhã, com o celular despertando às seis e meia, ela abre os olhos com as pálpebras pesadas. Suas mãos geralmente demoram a encontrar o celular que fica todo dia exatamente no mesmo lugar em sua mesinha de cabeceira. Ela desliga o alarme e volta a dormir. Passam-se mais uns quinze minutos até sua mãe vir bater na porta do quarto, gritando. A mãe grita porque Mai já está atrasada para a escola. Mai levanta irritada, vai para a escola com raiva. Ela pisa forte no chão, olha para baixo, anda sempre com as mãos enfiadas no bolso de um casaco preto que ela usa mesmo no pior dos calores. O fone de ouvido fica na orelha até o professor mandar tirar na sala de aula. Ela tira o fone para ouvir os outros adolescentes rindo da sua inadequação. Onde estão os seus amigos, Mai? E, mais importante, cadê o livro, Mai? Só trouxe esse caderno velho de novo? Algumas poesias por aí, rasgadas. E página depois de página, as folhas do caderno estão tomadas por rabiscos circulares feitos com caneta preta. Ela coloca a caneta na ponta da página e vai desenhando círculos até chegar ao centro do papel e ela continua riscando e riscando e riscando. A folha rasga, a caneta acaba e ela risca e risca e risca. Quando se dá conta ela está em casa com uma lâmina na mão fazendo mais um corte no braço. As bandas desconhecidas estão tocando no computador, ela canta junto e chora muito. A dor emocional é insuportável para ela. Dói. O clichê dói para caralho. Naquele momento dói mais do que tudo no mundo. Os cortes na pele são cada vez mais profundos. Seu sofrimento era clichê, até seu braço era clichê. Eles sangram como todo braço quando cortado por uma lâmina. 

No final, temos mais uma adolescente que tinha tudo para vencer na vida morta por suicídio.