Vai à merda, ansiedade!

Hoje temos um texto super especial de uma pessoa que eu gostaria que fizesse muitos mais guestposts no blog! Meu marido: Luizinho!

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Estava na hora, não dava mais pra aguentar essa situação não. Tinha que fazer alguma coisa. Tinha ficado com aquele texto na cabeça há mais de uma semana e, verdade seja dita, tinha achado completamente ridícula a ideia.

Mas, dia sim dia não, era a mesma sensação de morte toda vez que passava por qualquer coisinha. E sabia que eram coisinhas, claro que sabia. Mas vai lembrar disso na hora que o motorista de ônibus dá o troco errado, ou na hora de entrar numa sala de aula com um pouco de atraso. Não tinha deus que desse jeito naquela palpitação, naquele suor frio, naquele desejo de desaparecer, de se esconder e não fazer mais nada.

Já tinha decidido tentar fazer alguma coisa a respeito, mas não sabia por onde começar. Foi quando, por mero acaso, viu aquele texto na descrição de um evento que um amigo tinha confirmado no face que ia. Surpreendentemente, aquela ideia ficou na cabeça, germinando; e germinando, floresceu. Não tinha nada de complicado na verdade, era só arranjar coragem para fazer. Por coincidência ia pegar o metrô nesse mesmo dia. Acreditava que ia tentar, por que não?

Já tendo embarcado há um tempo pensou “Vamos lá!”. Se levantou, tentou começar a falar, mas era como se uma mão tapasse sua boca ou um punho tivesse sido enfiado na sua garganta, não tinha certeza. Sentou-se. Era 3 da tarde, o metrô ainda não estava lotado. Sentiu-se muito mal, achou que mais uma vez não ia conseguir mesmo há poucos minutos estando certo de que iria tentar. Chegou na estação terminal, teve que descer, sentou numa das cadeiras da plataforma, sentiu muita vontade de chorar. Queria dizer que só sairia dali quando conseguisse fazer o que tinha ido fazer, mas se conhecia muito bem para saber que afirmar isso não seria possível, talvez só piorasse a situação.  Ficou ali mais umas dezenas de minutos e decidiu voltar para casa. Já não dava mais tempo mesmo de ir no seu compromisso.

Conseguiu sentar, mas o metrô foi enchendo porque o pessoal já estava começando a voltar do trabalho. Por algum motivo, não se sentia tão mal como costumava se sentir. Sabia que queria mesmo fazer alguma coisa e que tinha realmente tentado, ativamente tentado. Não tinha conseguido, é verdade; mas tinha conseguido lidar de uma forma relativamente boa com esse fato. Uma pequena satisfação tomou conta do seu espírito quando pensou nisso. Percebeu que estava de pé e olhou para fora para ver se era sua estação, mas não era. Conseguiu ler o nome da estação na plataforma momentos antes do metrô parar e, como num redemoinho, as palavras, duas únicas palavras, vieram do fundo sabe-se lá de onde, ecoando dentro de si com o volume cada vez mais alto, e num momento em que tudo foi silêncio, de olhos fechados as palavras saíram de sua boca: “Presidente Vargas!”

“Puta que pariu!” foram as palavras que teve que fazer um esforço imenso para não gritar logo depois. Tinha feito, se segurava muito forte no corrimão do alto, com medo de desabar, pois suas pernas estavam tão bambas que achou que elas iam desmontar. “E agora?”, pensou. “Talvez a parte mais difícil tenha passado”. Abriu os olhos. Algumas pessoas ainda lhe olhavam. Já estava chegando a próxima estação e ele sabia qual era de cor. Pensou se devia sair correndo porta afora, mas decidiu ficar. E novamente antes do metrô parar, bradou: “Central do Brasil!”. Várias pessoas lhe olharam novamente. Muitas outras entraram e o metrô já ficava do jeito pelo qual era conhecido o metrô no Rio de Janeiro. Mal acreditava, mas de fato tinha ficado mais fácil, sentia-se gradualmente mais calmo.

“Nossa, não acredito que é você! Quanto tempo!”

Tinha certeza de que sentia sua alma deixando seu corpo, mesmo não acreditando em alma. A voz vinha de uma pessoa que havia entrado na última estação e era uma pessoa conhecida. Não tinha escolha, ia se desculpar e aí sim sair correndo na próxima estação, quem sabe vomitar na lixeira mais próxima. Ficou parado e pálido, no entanto, incapaz de fazer qualquer outra coisa.

“Cidade Nova!” gritou novamente. “Imbecil! Por que diabo de caralho fui fazer isso?”. Uma segunda voz veio de trás, acompanhada de um cutucão no ombro: “Por que você tá fazendo isso?” Ele continuou de olhos abertos, mas tudo ficou escuro por um momento. A voz riu e insistiu: “Você fugiu do hospício? Aí, Gustavo! Acho que alguém fugiu do Pinel…!”

Não conseguia acreditar naquilo. Se tivesse alguma ordem de pensamento naquela hora, estaria se amaldiçoando por ter dado ouvido a qualquer merda que leu no facebook. Não conseguiu responder, ficou ali olhando na direção da pessoa conhecida, de boca meio aberta, com o coração pulsando o que parecia ser suor por todos os poros do seu corpo.

“São Cristóvão!” Não tinha mais ideia do que estava acontecendo. Não saiu na estação recém anunciada por sua própria boca. Não pensava mais, parecia que tinha saído do seu corpo, mas não estava fora. Parecia preso no seu próprio corpo, exceto que o corpo não era mais seu, era uma simples forma que continuava gritando os nomes das estações sem motivo aparente. “Ei, você pode parar com isso!? Idiota…” Forçou-se a olhar de onde vinha a terceira voz e viu que era de uma moça grávida sentada no assento especial a poucos metros de si, lhe encarando com cara de desprezo.

“Maracanã!”, gritou novamente. O texto estava todo errado. O número de pessoas que estavam olhando só aumentava. “Perdeu todos os parafusos, Gustavo…”, “Tá tudo bem com você?”, perguntou a primeira voz. “Já falei pra parar, porra!” E mais uma voz se juntou à orquestra de vozes na sua cabeça “Você não ouviu a senhora não, imbecil? Pára com esse caralho!” Era uma nova voz que veio com um empurrão forte, abrupto e insinuando que não seria o último. Parecia que quanto mais a situação escalonava, mais difícil era manter algum rastro da sequência de eventos que tinham culminado naquela situação.

 

“Triagem!”. A resposta foi quase imediata: “Já te avisei, filhadaputa!” e veio acompanhada de um soco no canto do queixo. Uma enxurrada de gritos dissonantes veio depois, enquanto seu corpo caia no chão, finalmente largando o corrimão do teto. Mais gritos, um se sobressaiu “Ele tá armado!!!” Um barulho surdo e opaco, correria, gente pisoteada e tudo ficava escuro outra vez, dessa vez por mais tempo.

 

“Maria da Graça!” foi o que acordou gritando, tremendo e com o corpo mergulhado em suor. Estava sentado num banco dentro do metrô. Era sua estação, a porta estava para fechar, mas não antes de dar tempo de sair tropeçando, chorando convulsivamente, pensando “VAI À MERDA, ANSIEDADE!!!”

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