Sobre a série Carbono Alterado. Ou como transformar uma história perfeitamente ok num lixo puramente comercial.

Resenha escrita por meu amado marido. Ao lado de quem eu tive o desprazer de assistir esta série.

Eu já não tinha grandes expectativas mesmo, mas ele, tendo lido com interesse o primeiro livro, ficou empolgado com o lançamento da série. Foi triste ter de assistir não só aos lamentáveis episódios da série, mas também ao desapontamento dele.

A única coisa boa que saiu disso foi esta resenha. Com um ótimo resumo da história do livro e uma analise crítica precisa da série.

 

Primeiramente, este texto tem spoilers tanto do livro quanto da série, ambos intitulados Carbono Alterado (Altered Carbon).

 

Ok, começando por uma breve sinopse do livro: A raça humana colonizou outros planetas. A direção desse processo foi a ONU, com um exército de ocupação de soldados transformados em máquinas de manipulação, assassinato e tortura. Esses soldados foram chamados emissários. O protagonista e narrador da história é um emissário renegado, chamado Takeshi Kovacs que é morto no início da história. O que vamos descobrir depois é que a morte vem perdendo a batalha contra a humanidade porque uma tecnologia foi desenvolvida para permitir o download da mente das pessoas. Esse download é feito num cartucho conectado ao sistema nervoso na região da nuca e, desde que não seja danificado, pode ser transplantado para outro corpo, que passará a ser o novo lar da consciência da pessoa em questão.

Sinceramente, a história principal que vai envolver o Takeshi não é lá essas coisas. É meramente um enredo policial em que o protagonista tem que solucionar um crime. Você encontra isso em qualquer conto da Agatha Christie ou do Dan Brown. A única parte interessante dessa história é que o Takeshi tinha sido preso, ou melhor, sua mente tinha sido armazenada numa espécie de “prisão na nuvem”. Quem contrata ele é um magnata terráqueo que já viveu mais de 300 anos e que acha que foi assassinado quando todo mundo acha que ele se suicidou. Ele é carinhosamente conhecido na cultura terráquea como um Matusa, referência a Matusalém da bíblia que foi um humano que viveu em torno de mil anos. Obviamente esse cara é podre de rico, porque é claro que numa sociedade super avançada o capitalismo ainda reina de vento em popa e a desigualdade social permanece a mesma.

Enfim, como eu disse, essa história é clichê. O final é tão previsível que você acaba não se interessando pelos detalhes que tomam boa parte da narrativa. Mesmo assim, na pior das hipóteses o livro é ok, porque tem pontos positivos para balancearem esse lenga lenga do enredo.

Um desses pontos é obviamente o pano de fundo da história. O protagonista veio de outro planeta, o planeta de Harlan, que o autor consegue descrever em nuances, salientando diferenças e semelhanças culturais em relação ao que a gente percebe hoje na nossa sociedade terráquea. Como exemplo de semelhança, em Harlan tem a lenda do “Homem Retalho” que é uma espécie de “Bicho Papão” daqui. Mas lá, os cidadãos comuns tendem mais a se posicionar e intervir em questões de conflitos cotidianos do que na Terra. Além disso, Takeshi é um ex-super-soldado da ONU que participou da destruição de rebeliões nativas dos planetas que o exército do qual fazia parte ocupou. Ele desertou quando percebeu que fazia a mesma coisa que os criminosos comuns só que numa escala genocida.

Outro ponto é a tecnologia que torna possível adiar a chegada da morte, maior fonte de medo da psique humana. Já ouvi críticas do ponto de vista metafísico dessa abordagem de que a mente poder ser baixada digitalmente seria já um jargão materialista de que a consciência e a mente estão no cérebro e não passam de sinapses e reações químicas. O corpo e aspectos como hormônios e DNA ficam em segundo plano. Sinceramente, eu não vejo um grande problema nessa questão. Foi um ponto de vista que o autor escolheu para construir seu universo e tem alguns indícios na ciência de hoje de que isso pode ter um fundo de verdade. E, ora, é uma obra de ficção científica. Você faz concessões para as premissas do autor para aproveitar a história. Acha que não vai conseguir? Não lê o livro ou pelo menos não reclama quando se desapontar. Particularmente, eu não compro essa posição metafísica da mente se resumir ao cérebro, mas entendo porque ela é atraente. Sua consequência é o que torna o universo de Carbono Alterado tão cativante:

As pessoas não precisam mais morrer no fim da vida de seus corpos.

Elas podem continuar vivendo aqui nesse mundo. Elas até podem morrer também, mas ao critério delas. Talvez esse seja o mote da existência de toda a Medicina e provavelmente de boa parte da ciência, quer se admita ou não, todos gostaríamos de poder vencer a morte. A possibilidade de, um dia, vencer ou pelo menos conseguir escapar da morte, desperta um sentimento que mexe com o coração do ser humano mais resignado com a realidade, seja para ansiar por essa possibilidade, seja para acusa-la de inatural ou herege (inclusive, no livro aparece a seita dos Católicos que são contra a tecnologia de trazer as pessoas de volta).

Um outro típico de discussão interessante levantado pelo livro, é pensar em até que ponto a mente e a consciência definem uma pessoa. Eu já falei que, por exemplo, o corpo fica em segundo plano na premissa do autor, então você poderia afirmar que a pessoa está onde está a mente dela. No entanto, no universo do livro é possível fazer cópias da sua mente e colocar a cópia em outra “capa” vazia. Será que isso seria clonagem? Esse processo criou uma pessoa nova? Se sim, por que e como ela é diferente da pessoa anterior? Se não, ela é só uma cópia; e se for assim o que diferencia ela da original? Esses debates foram atualmente trazidos por alguns episódios de Black Mirror e foram tão inquietantes quanto, mas ver isso apresentado num romance tecnicamente bem escrito é uma experiência bem intensa. O ponto mais alto do livro, na minha opinião, é sem dúvida quando o protagonista passa um capítulo inteiro conversando com a sua própria mente, mas num outro corpo; ou seja, ele se duplica num corpo diferente e tem a oportunidade de levar um lero amigável consigo mesmo. Em uma das partes da conversa, eles discutem qual dos dois terá que morrer se for necessário. Uma conversa consigo mesmo é o que todo mundo faz dentro da própria cabeça, mas ver a sua consciência ou a cópia dela tomar corpo na sua frente e ainda poder conversar com ela é certamente algo interessante de se imaginar As sutilezas e a imaginação necessária para transformar esse devaneio filosófico numa cena que se encaixa perfeitamente numa história humana é de se admirar, além de libertar nossas próprias imaginação e inquietação com essas questões.

Tão interessante (na verdade, até mais interessante) do que esse retrato do universo do autor, é a história de Quellcrist Falconer e dos quellistas. Infelizmente, pouco se fala sobre isso ao longo do livro, mas o autor consegue sintetizar um componente principal de toda a história da humanidade na expansão interplanetária, a história de resistência ao poder oficial. A resistência dos quellistas acontece no planeta de Harlan e é incerto saber se o planeta era já ocupado antes ou não. Eu diria que não. Mas o que ocorre é que após a colonização do Protetorado da ONU, a sociedade que se forma começa a se rebelar contra o Protetorado e dá origem a um grupo de combate armado pela independência de Harlan. Esse grupo é liderado por Quellcrist Falconer que tem claramente um discurso com um caráter propagandístico muito potente e não só é antissistema, mas com componentes claramente de defesa de igualdade social, de liberdade em detrimento do poder dominador dos ricos e poderosos e de companheirismo entre o povo oprimido. No livro, dá a entender que Quell já morreu, mas que o movimento quellista continua vivo e militante no planeta de Harlan e talvez em outros planetas também.

Um ponto importante dessa parte é a seguinte: se você não teve contato com nenhuma das obras de Carbono Alterado e tentou imaginar o personagem de Quell na leitura desse parágrafo, responda à pergunta em sua mente: qual o sexo de Quell? Ele (a) é homem ou mulher? Pois é, na história Quell não é homem. Quell é mulher. Ou seja, a líder de uma porra de exército armado, claramente progressista em comparação ao Protetorado, que produziu teoria política, obras de literatura e ainda criou um movimento de massa que influenciou gerações depois de sua morte é mulher. O autor não conseguiu escapar muito do básico e dos clichês ao criar personagens femininas na sua história, mas o fato de ter escolhido Quell como mulher é, no mínimo, ousada, pois esta personagem é central desenvolvimento do pano de fundo moral de Carbono Alterado, é a protagonista de um dos mais interessantes adendos da história do livro e ainda é a representante da resistência popular heroica da história da humanidade. Não é preciso ser nenhum especialista em estudos de gênero para saber que isso tem uma certa importância simbólica, já que esse papel é sempre dado a homens.

Sinceramente, se o livro apresentasse o mesmo universo e contasse a história de Quell Falconer ao invés de Kovacs teria sido uma obra muito mais apreciável, salientando é claro que dependeria muito da competência do autor, que sinceramente não inspirou muita confiança. Dá até um pouco de medo de ler os dois outros livros da trilogia. Aparentemente a mente da Quell aparece em um dos personagens do terceiro livro. Mas o mais interessante mesmo teria sido a história da revolta e trajetória quellista em Harlan. Será que não rola um esforço, Richard Morgan?

É nesse gancho que começo a falar alguns dos muitos motivos da série ser uma completa destruição dos pontos positivos presentes no livro. Não estou falando dos detalhes que mudaram, sejam importantes, como os quellistas passarem a ser chamados de emissários ou terem feito os Matusa desnecessariamente supermalvadões para tentar forçar o telespectador a odiar mais eles e se regozijarem quando eles forem punidos no fim; ou não tão importantes, como por exemplo terem mudado o nome do hotel de Hendrix para Raven, onde o dono era uma imitação do próprio Poe; vai ver é porque trata-se de uma referência que deve ser requisito para o James Brian poder estar na série.

O livro já tinha alguns traços machistas, como o uso da prostituição como uma presença e um mote constante no livro (estamos numa sociedade uns 500 anos à frente do agora, com tecnologia para quase derrotar a morte, mas não se avançou quase nada em termo de igualdade social e Deus livre o autor de pensar uma solução humanitária para a prostituição), usar mulheres mortas como fio condutor do enredo etc. Isso é esperado de um romance escrito por um homem que não prefere ou não tem a capacidade de se aventurar além do arroz com feijão do romance policial tradicional.

A proeza magnífica da série foi pegar esses traços e transformá-los numa tendência vergonhosa que piora episódio a episódio. É feito de uma maneira tão impressionantemente estúpida que quando você se convence de que não pode piorar, a série fica ainda níveis inteiros pior. Vai desde a cena paradigmática da misoginia onde aparece a tenente Ortega da polícia, sidekick do protagonista (mais um traço clichê do livro, mas pelo menos a personagem tem vida e motivação própria, enquanto na série isso é quase apagado), está atirando e matando em clones atrás de clones de outra mulher. E se eu te pedir para imaginar a roupa da mulher que é consecutivamente assassinada, será que você adivinha? Exatamente. Sem roupa. Não é brincadeira. Essa cena não está no livro, mas incrivelmente a série conseguiu mudar a história a ponto de incluir uma cena feminicida com um fetiche estranho por clone que o diretor ou o roteirista da série devem ter, que é simplesmente praticada e sofrida por mulheres. Quem quiser pode ler mais sobre o tipo de sentimento que essa cena desperta em qualquer pessoa normal aqui:

https://encantodoscontos.com/2018/02/20/carbono-alterado-resenha/

 

Essa cena é auge da misoginia disfarçada de arte presente na série. Enquanto o autor do livro poderia, pelo menos por mim, ser desculpado em prol dos pontos positivos que conseguiu desenvolver e por não ter abusado dessa tendência; a série parece apostar e usar a censura de 18 anos como desculpa para mostrar um show de horrores, não sendo nada mais do que um clichê hollywoodiano onde as mulheres aparecem como personagens que só aparecem para morrer ou para servir um homem e não tem nenhum papel importante na história. É um absurdo que se esteja tentando passar essa cena como algum tipo deturpado de empoderamento feminino.

Você acha que acabou? Não acabou, não. Pode pegar a pipoca que tem mais. Lembra a senhora Quellcrist Falconer? A personagem mais promissora da história do livro, que infelizmente não aparece na história para além de alguns fragmentos? Pois é. Na série ela aparece, líder dos quellistas (que na série são chamados de emissários, sabe-se lá porque) e, e digo e porque é claro que a série não podia parar por aí, par romântico do nosso amado protagonista. Exatamente.

É óbvio que uma história de amor, ou mesmo só de sexo poderia ser bem-vinda, se bem construída. No entanto, nas telas, como a série não poderia deixar de contribuir para destruir qualquer vestígio de qualidade e realidade nas relações com mulheres, Quell aparece como uma mulher completamente insegura no que diz respeito aos seus sentimentos por Kovacs, dizendo que “não deviam” transar quando ela parecia querer, ou deixando ele a enganar num exercício de treinamento por causa do afeto que tinha por ele etc. Então, reparem só, a guerreira, líder da resistência quellista se apaixona perdidamente pelo machão da história e age como uma adolescente insegura que não sabe lidar com seu tesão. É importante ressaltar aqui; no livro eles sequer se conhecem. Quell não é responsável pelo treinamento desumano de Kovacs, ela lidera um exército clandestino contra o exército de homens treinados como Kovacs, e como no Vietnã, conta com o conhecimento de seu território e a causa justa que mobiliza as massas a lutar contra um inimigo invasor ou um hóspede não mais bem-vindo. Quell é rebelde, forjada na luta clandestina contra um inimigo mais poderoso e mesmo assim não abandona um idealismo agitador que usa muito bem em sua propaganda. Kovacs, por outro lado, vivia como um criminoso egoísta, mesmo após a deserção, tentando conseguir dinheiro sujo para desfrutar prazeres mundanos. Portanto, mesmo na hipótese de terem se conhecido, é inteiramente improvável que tivessem algum tipo de relacionamento.

Após a conversão do personagem, são as palavras de Quell, no livro, aparecem como um guia moral para o protagonista, que apesar de ainda ser um bufão egoísta, apresenta um código de conduta mais ou menos construído, onde a principal base da noção de justiça parece vir do compasso ideológico quellista. Esse aspecto, junto com uma certa maneira de apreciar algumas coisas ao seu redor de maneira atenta, quase ingênua e infantil são alguns dos pontos que tornam o protagonista interessante e cativante ao mesmo tempo. Dar forma ao personagem de Quell na série foi não só um erro, pois diminui a importância da personagem e acaba com uma das principais fontes de mistério que era imaginar como foi a resistência no planeta de Harlan, mas completamente artificial e ridícula em colocá-la como pupila de Takeshi na sua descoberta do amor.

Essa maneira como Quell é retratada é um dos componentes que transformam o protagonista no verdadeiro clichê do pica de mel. O gostosão que toda mulher quer laçar. Não basta que o personagem de Kovacs seja bonito ou charmoso, é completamente necessário nas fantasias misóginas e doentias dos organizadores da série que todas as mulheres ao redor dele que tenham algum tipo de participação na trama queiram comer ele, que estejam ali na história com o único intuito de servirem como ferramentas para sua jornada individual de machão para concluir sua superimportante missão. Quell por exemplo, mesmo morta, fica aparecendo como fantasminha na mente do protagonista para guiá-lo pelas dificuldades da vida e o “amor” que Kovacs sente por ela fazem que ele siga em frente. Até no último capítulo, a gente fica sabendo que o cartucho da Quell está intacto em algum lugar e ele, o príncipe no cavalo branco vai atrás dela tentar resgatá-la. Esse é aquele artifício mais do que manjado e esdrúxulo que jogam no final da história para quem sabe no futuro, se verem que dá para ganhar mais dinheiro, poderem fazer uma segunda temporada.

Tem mais? Tem mais sim. Já falamos da Quell. Além dela, já nos primeiros episódios, a Miriam, que é esposa do cara que contratou ele vai atrás dele para seduzi-lo e tentar fazê-lo largar a investigação. Não bastasse ela escolher usar sexo para isso, no livro, segundas intenções de ambos a parte, a relação sexual pelo menos aparece como consensual e satisfatória para os dois; já na série, a Miriam praticamente tem que drogar e estuprar o cara para levar ele para cama. É como se ele estivesse sendo vítima da sedução pecaminosa daquela mulher, ele jamais se rebaixaria a transar com ela.

A tenente Ortega, que tem um relacionamento anterior com o sujeito (que foi preso injustamente) que estava anteriormente no corpo que Kovacs usa na história, em relação aos sentimentos sexuais, ela está meio confusa por ver o corpo do homem que amava com uma mente diferente. O livro chega a descrever a atração entre os dois, como uma espécie de química entre os corpos, que é recíproca; pois Kovacs parece se importar também com a tenente, tanto pelo relacionamento que vai sendo construído entre os dois quanto por essa memória sentimental corporal de sua capa. Eles transam no livro e ambos parecem saber que o principal fator foi esse tesão corporal entre os dois, o que não impede de ambos aproveitarem e quererem de fato transar. Quando o Kovacs já aparece em outro corpo, ele diz (o livro é em primeira pessoa, como eu disse) que já não sente a tal química e parece perceber que a tenente também não, o que não quer dizer que ambos deixam automaticamente de se importar um com outro. Qual você, caro leitor, acha que será a versão desse relacionamento nas telinhas? A tenente Ortega, também mulher, que no livro aparece pelo menos como uma personagem de alma própria, com seus motivos e desejos próprios, fica loucamente apaixonada pelo machão da história. Chegando ao ridículo de Kovacs ter que “magoar os sentimentos” dela para afastá-la dele e dos perigos que o enredo trouxe. Tirando o fato do Kovacs tê-la salvo na série várias vezes, enquanto o livro descreve mais um trabalho de equipe igualmente distribuído quando eles dividem cenas. É um perfeito caso de donzela em perigo. Nesse cenário, o roteiro só tinha duas possibilidades: fazer a tenente tentar conquistar o protagonista machão com sexo ou, e eu não sei o que é pior, mantê-la como donzela, insinuando que ela está moralmente acima das outras mulheres e não deixar o machão comer ela para que ela permaneça virginal e pura; ou seja, ela deverá, mesmo estando apaixonada, se resguardar para quando seu verdadeiro amor voltar e o Kovacs, que não a ama, não pode simplesmente manchar a honra dela com sexo se não for para ficarem juntos para sempre. Nenhuma das duas possibilidades clichês despertam interesse ou chance de se construir algum relacionamento real e significativo. Isso vai sendo carregado por alguns episódios, mas o que acontece mesmo é essa primeira alternativa. Chega a dar a entender que o Kovacs fica tentado a ficar com ela no final da série, mas a tenente acaba tendo que se contentar com o outro cara mesmo porque o Kovacs vai atrás da Quell. Grande surpresa. Patético. Roteiro realmente patético. Que perda de tempo ter assistido essa série.

Por último, mesmo apesar de não haver o componente sexual explícito, não dá para esquecer a imbecilidade monumental da série de criar uma irmã do protagonista que também não só conheceu a Quell, mas a matou por ciúme! Sim, por ciúme! É óbvio, já que esse é quase o único meio de duas mulheres interagirem na série, ou seja, disputar o afeto de um homem. Foi ela, Raileen, que arquitetou todo o plano para trazer o irmão para a Terra. E se ela não quer trepar com ele literalmente, o que eu nem tenho certeza, podemos quase afirmar que isso seria menos insano do que o que ela de fato quer, que é ter o irmão só para ela para todo o sempre, sentimento nada doentio e tão normal a ponto de ela ameaçar matar todo mundo que ele teve contato na Terra caso ele não seguisse suas ordens. Ou seja, mais uma mulher ciumenta atrás do machão pica doce da história.

Essa mulher, claro é a vilãzona da história. Logo, ela deve morrer no final. E morre. Sabe como? Pedindo para o irmão matar ela, porque ela é má e pervertida pelo mal e que se ele não a matar, ela não vai parar e vai seguir fazendo o mal. Não é brincadeira. A vilã, mulher obviamente, diz que quer morrer pelas mãos do homem amado para poder não mais fazer mal a ele! Caralho! Qualquer semelhança com “apanhou/morreu/foi estuprada porque mereceu/pediu” não é mera coincidência! É exatamente aquele sentimento de quando você acha que não pode piorar, a “história” desce mais alguns níveis! Não precisa mais fazer uma série que defenda e justifique a violência contra a mulher porque são todas malvadas e safadas. Esse completo lixo de série de merda já fez esse papel como poucos imbecis conseguem fazer. A única coisa que é realmente digna de uma trama de ficção, pois é extremamente difícil de compreender, é que a pessoa que criou o roteiro da série seja uma mulher (fato que é certo de merecer uma discussão a parte).

Essas críticas devem ser feitas pelo enjoo que causam de ver o mesmo padrão desde a infância repetido várias vezes e, mais do que isso, pela imagem completamente negativa e degenerada que retratam as mulheres. Isso tem um impacto que não é difícil de rastrear quando o estereótipo da mulher inclui a histeria, o ciúme, a sedutora maligna, a que se apega demais, a insegura etc. Sendo homem, eu já fico puto com esses discursos misóginos disfarçadas de arte ou senso comum, imagina quem sofre na pele os prejuízos imediatos desse processo. A maior parte do público de ficção científica parece ser masculino e, em vista dessa série, isso não é surpresa. É muito difícil permitir que esse nixo abandone, ou pelo menos critique essas velhas práticas de estigmatização e misoginia se a gente pelo menos não começar a discutir o assunto.

Por último, eu tenho uma última crítica a fazer a essa obra, que, sem exagero subiu para as primeiras posições de piores séries já assistidas. Vou falar uma última vez da personagem, que já deve ter ficado claro, é minha favorita: Quellcrist Falconer.

Além de mostrar a líder da resistência sendo morta por uma de suas militantes por ciúme do irmão, tem outra tosqueira no enredo. Lembra a resistência que ela liderava? Pois é… a série faz questão de mostrar essa resistência sendo completamente dizimada. Isso está num nível maior de estupidez, pois tudo bem uma adaptação para série mudar algumas coisas, mas qual a necessidade de escolher mudar a porra do livro para pior, ou seja, mostrar uma resistência progressista sendo completamente morta pelas forças do Estado. O adaptador de roteiro resolve exercer a sua liberdade de mudar um ponto ou outro do enredo e muda especificamente isso? Por quê? Qual a mensagem que é enviada com isso? É aquela mentira clichê de que não importa o que você faça, o Estado sempre vence? Porque isso parece baixo demais até para esse chorume de série. Enfim, isso é no mínimo revoltante. E é claro, mentiroso. Uma resistência organizada a nível planetário, com fama interplanetária, caçada pelo imperialismo da ONU por décadas, obviamente tomaria todas as providências possíveis para impedir que fosse extinta de uma vez só. Táticas de células independentes, dirigentes que não sabem de todas as operações. Qualquer pessoa consegue pensar medidas para não deixar isso acontecer. A história de resistência contra o poder dominante é a história desses métodos. Mesmo que os quellistas tivessem sofrido derrotas e baixas, a organização e a ideologia teriam perdurado, isso é um fato. Você pode matar pessoas, não ideias. Como se já não bastasse essa palhaçada toda, foi preciso coroar a bizarrice da série com uma cereja de ignorância.

Persistente em tirar da Quell e dos quellistas qualquer caráter revolucionário, a série resolve mostrar o plano último da organização, que é, obviamente, destruir a tecnologia de armazenamento de mentes (tecnologia que, segundo a série, foi a própria Quell quem criou e depois parece que se arrependeu). É muito fácil ser levado a pensar que o problema é a tecnologia em si, mas qualquer pessoa pode ver a existência de prolongar a vida, por qualquer método tecnológico que seja, é uma coisa boa. A Quell da série faz um discurso quase fundamentalista religioso, dizendo que não é humano viver tanto. Diz que só quem tem dinheiro pode viver para sempre e os pobres, não. É importante reafirmar que esse último ponto é de fato um problema; mas destruir avanços tecnológicos não pode ser e nunca será a resposta. Não é porque o SUS é pior que hospitais particulares que a solução é destruir a medicina. Esse raciocínio é simplesmente estapafúrdio. E sem contar que mesmo que tivessem sido bem-sucedidos, era só começar a desenvolver a tecnologia toda de novo.

Nos trechos do livro e em algumas reflexões do Kovacs, fica claro que a organização quellista é contra a desigualdade social e tanto se propõe como convoca outros e outras a combatê-la, inclusive violentamente. É contra os interesses dos generais e ricos que mandam no governo, que jogam pobres contra pobres para continuarem acumulando poder, que sugam as riquezas de seus territórios (qualquer semelhança não é mera coincidência) etc.

As pessoas que fizeram a série conseguiram fazer um esforço monumental e, mais uma vez, usar da liberdade de adaptação para fazer uma asneira inacreditável. Esse ponto da história é tão absurdo que ainda me vem à cabeça em momentos aleatórios, sempre acompanhado daquele sentimento de vergonha alheia e da pergunta “Como alguém pode ser tão idiota a esse ponto?”.

“Quando perguntarem como morri, diga a eles: ainda com raiva [da série Carbono Alterado]” (Quellcrist Falconer).

“Carbono Alterado”. Resenha.

A nudez empoderadora dos vários de corpos nus daquelas mulheres mortas.

Um depois do outro, os corpos já saem estragados de suas capsulas. Sujos de sangue e danificados. Provavelmente ninguém aceitaria usá-los naquelas condições. Prefeririam corpos novos e frescos, sem imperfeições.

Muitos homens olham, muitas mulheres olham. Na verdade, está ali para o olhar de todos.

Nudez frontal completa.

Proibida.

Quanto paus você já viu pendurados em filmes por aí?

Mesmo em filme pornô, se for heterossexual, aposto que não terão sido lá tantos assim.

Mas mesmo uma pessoa que nunca assistiu a um filme pornô já viu muita mulher pelada nessa vida.

Já me falaram “é característica sexual secundária, não pode mostrar o pau do homem porque é primária”.

O biólogo entendido querendo me falar de moral e opressão. Ou melhor, o biólogo nem acha que opressão existe mais. Vocês já estão libertas. Agora ficou o seu ciúme, a sua inveja, a sua histeria.

E eu vejo aquela mulher nua, ensanguentada.

Eu não vejo poder.

E, como se não bastasse, mais uma e mais uma e mais uma. Caindo mortas. Os crânios abertos, os mamilos duros, a buceta à mostra, a bunda para o alto. E lá vem outra também caída, morta.

Mas o problema não é que a cena seja violenta.

O problema não é que tenha nudez.

O problema é que essa nudez violenta é entretenimento na tela do Netflix, mas é real dentro das casas durante a noite, ou quando não tem ninguém por perto, ou quando só as crianças estão por perto.

E se você perguntar para uma mulher, nua, agredida “você se sente empoderada”? Ela vai te responder que não.

Será que o marido dessa mulher nua que apanha e sangra depois de assistir Carbono Alterado vai ter sua consciência aliviada? A mulher dele ali jogada no chão com a marca da botina no estomago perfeitamente

Empoderada.

Poderia estar na tela da TV como símbolo do empoderamento.

Ops. Desculpe. Está sim.

Por que agora eu tenho que engolir que corpos mortos, nus, esparramados pelo chão, de mulheres assassinadas são uma forma poderosa do empoderamento feminino.

Mas eu já estou acostumada. Tentaram me convencer dessa mesma patifaria na humilhação da Cersei Lannister.

Uma mulher nua, em quem bateram, cuspiram, jogaram fezes, gozaram. Essa, me disseram também, era uma mulher empoderada. Foda. Que aturou tudo e ia dar a volta por cima.

Grandes merda, seus babacas.

Empoderamento de merda esse que querem me enfiar goela abaixo. Esse empoderamento serve para colocar as mulheres em cenas extremamente depravadas, degradantes, violentas, apontar o dedo e dizer “Tudo isso que ela aguenta é sinal de poder e não tem nenhum homem gozando com isso. Tudo isso ela faz por que quer”.

Melhor já ir logo dizendo: não rasguem as minhas roupas, não joguem merda em mim quando eu passar pela rua, não gozem na minha cara, não me assassinem. Esse não é o empoderamento que eu quero para mim.  

 

 

A imagem nua e crua do assédio sexual.

David Schwimmer, o ator que interpretou Ross na série “Friends”, junto com o diretor Sigal Avin, criou uma série de seis episódios que retratam cenas de assédio sexual baseados em fatos reais.
A série se chama #thatsharassment e o os episódio estam disponíveis na página do Facebook com o mesmo nome.
Os episódios são impactantes e têm o objetivo de mostrar o que é o assédio sexual e como ele acontece.

Resenha: “Assassinato no Expresso do Oriente”.

Aviso: este texto contém spoilers.

O filme Assassinato no Expresso do Oriente é irresponsável.
É importante deixar claro que eu não li o livro. Falo especificamente do filme. Mas, se o diretor usou da sua liberdade artística para fazer modificações no enredo ou se ele não usou dessa liberdade, os dois casos são igualmente lamentáveis.
No filme, o investigador Hercule Poirot, após resolver rápida e miraculosamente o caso do roubo de uma relíquia religiosa em Jerusalém, é convocado numa nova missão que o leva a pegar o trem Expresso do Oriente em direção a Londres.
A certa altura da viagem, que duraria vários dias, um homem é misteriosamente assassinado. A tensão aumenta pois, além do assassinato, o trem sofre com um descarrilhamento após ser atingido por uma avalanche de neve.
A tarefa de investigar o assassinato antes do trem alcançar seu destino final recai sobre o investigador.
A partir daí, acompanhamos os interrogatórios conduzidos por Hercule Poirot com os passageiros. Começa a vir à tona, a partir de pedaços de informações garimpadas dos discursos dos doze passageiros a bordo do trem, a história de um outro crime ao qual muitos dos passageiros pareciam estar conectados. Tratava-se do sequestro e assassinato de uma criança.
Ao final do filme a trama chega ao clímax quando o bigodudo confronta de uma só vez os doze passageiros. Numa cena pretensamente comovente, descobrimos que todos estavam mancomunados na execução do crime.
No fim das contas o assassinado havia sido o suposto perpetrador do sequestro e assassinato da criança, o que, de uma forma ou de outra, afetou a vida de todos os passageiros do trem.
Hercule Poirot se defronta com um grave dilema moral: o investigador acusava os doze pela execução brutal de um sequestrador e assassino de crianças ou encobria a vingança? Afinal, os doze eram pessoas de bem, não eram assassinos por natureza, apenas pessoas amargurados que haviam sofrido uma terrível injustiça, que tiveram suas vidas paralisadas ou destruídas há muitos anos atrás e que buscavam, uma vez que a polícia havia falhado em encontrar o culpado da violência sofrida pela criança, fazer justiça com as próprias mãos.
Poirot “decide com o coração” e ignora os fatos que havia descoberto, encobrindo a verdade, para que aquele grupo de pessoas pudessem seguir suas vidas e tentar viver em paz dali em diante.
É verdade que a discussão a respeito de se o que é ilegal é necessariamente errado é longa e tem as suas nuances. No entanto, há casos em que o convívio social já avançou satisfatoriamente. O fato de considerarmos o assassinato uma coisa errada, tanto do ponto de vista legal quanto social, é uma das coisas positivas do avanço da organização dos seres humanos em sociedades (pena de morte também discutida a parte em outro momento). O que o filme faz é glorificar e romantizar uma prática extremamente reacionária, retrógrada, atitude que já deveria ter sido superada há anos. Essa atitude, no filme, se torna ainda mais grave porque vem encarnada na figura do personagem que representa a razão universal e a força da moralidade humanista.
Isso sem contar com o fato de que o filme deixa completamente de lado a exploração do caso da criança. Se tratou apenas do uso deliberado de uma violência brutal apenas para colocar em cena outra violência brutal. A criança em si foi apenas um peão completamente esvaziado de vida.
Em segundo lugar, a própria vingança foi “necessária” pois a investigação oficial do caso não levou a lugar nenhum. Foi malfeita, corrupta e descuidada. De modo que o filme não convence o expectador curioso em relação à trama de que o homem assassinado no trem era de fato o culpado do assassinato da criança. Esse descuido com a fundamentação do enredo de uma história tão séria faz com que o sentimento incitado na plateia seja o de aceitação inquestionável da culpa do suposto vilão e da validação da premeditada vingança com requintes de crueldade.
O filme não nos leva a refletir sobre os limites dessa prática de linchamento. É muito fácil odiar um assassino de crianças, mas a história está cheia de supostos assassinos de crianças, bruxas, comunistas, judeus etc. que foram perseguidos e mortos por cidadãos de bem sem direito às mínimas garantias da sociedade liberal a um julgamento justo e ao respeito pelo valor intrínseco da vida humana.
E nós ainda podemos ir além. Se cruzarmos o limite ético da proibição do assassinato onde iremos reestabelecer este limite?
Mataríamos apenas assassinos de crianças? E os assassinos dos adultos? Resolveríamos estender a concessão a eles também? Os assassinos passionais se distinguiram ainda dos premeditados? E os assassinatos culposos, e as mortes decorrentes de falhas humanas, e os médicos que receitam remédios para pessoas que acabam utilizando-os para cometer suicídio? Pode ser que você, leitor, considere este último caso absurdo, mas talvez a mãe de um jovem que usou a medicação prescrita pelo psiquiatra que falhou em salvar a vida do filho dela veja as coisas de outra forma.
E aquelas pessoas que ficam muito, muito, muito irritadas quando são assaltadas? Pode ser que elas passem a achar justo matar os ladrões (que vira e mexe já são linchados).
O sentido da nossa argumentação não é moralista. É perfeitamente compreensível que uma pessoa que teve seu ente querido assassinado seja tomada por um desejo de vingança. Não estamos nem discutindo a questão da vingança em si. O que é inadmissível é que a figura de autoridade, a lei, julgue tais crimes de maneira parcial, fora do que a lei permite. E é exatamente isso que acontece no filme, a figura do investigador que representa a integridade ética social cede à barbárie e valida um crime meticulosamente arquitetado, deixando livre e nos fazendo sentir uma piedade acrítica por uma gangue de assassinos linchadores.

A filha do mineiro e a filha do burguês no Germinal de Émile Zola.

Mais ou menos às quatro da madrugada, durante seis dias na semana, acordavam os mineiros e suas filhas, também mineiras, para um dia extenuante de trabalho, em semi-jejum:

“(…) Catherine fez um esforço desesperado. Espreguiçava-se, crispava as mãos nos cabelos ruivos que se emaranhavam na testa e na nuca. Franzina para seus quinze anos, não mostrava dos membros senão uns pés azulados, como tatuados com carvão, que saiam para fora da bainha da camisola estreita, e os braços delicados, alvos como leite, contrastando com a cor macilenta do rosto, já estragado pelas contínuas lavagens com sabão preto. Um único bocejo abriu-lhe a boca um pouco grande, com dentes magníficos incrustados na palidez clorótica das gengivas, enquanto seus olhos cinzentos choravam de tanto combater o sono. Era uma expressão dolorosa e abatida que parecia encher de cansaço toda a sua nudez” (p. 21).

 

Seis horas mais tarde, acordavam as poucas filhas dos burgueses e os burgueses, para uma mesa posta de pães e bolos e um dia de ócio produtivo.

“(…) forrado de seda azul, com mobiliário laqueado de branco e filetes azuis, um capricho de criança mimada satisfeito pelos pais. No alvor informe do leito, à meia luz filtrada pela abertura de um cortinado, a mocinha dormia, cabeça apoiada no braço nu. Não era bonita, mas muito sadia, muito vigorosa, madura mesmo nos seus dezoito anos, com uma carnação soberba, uma frescura de leite, cabelos castanhos, rosto redondo, narizinho voluntarioso afundado entre as faces. As cobertas tinham escorregado e podia-se vê-la respirando, mas tão levemente que a respiração nem sequer movimentava seu colo já desenvolvido” (p. 83).

 

Zola, Émile. GERMINAL. Tradução de Francisco Bittencourt. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

“Com amor, Van Gogh”.

Eu tenho estado na vibe das indicações e das resenhas ultimamente.

E eu reprimi por muito tempo o desejo de escrever resenhas e de indicar filmes e livros.
Além de ter um gosto meio estranho, algumas vezes estou sensível demais, outras cética demais, tem fases ainda que eu só quero ver comédia… enfim, eu também achava que era necessário ter algum conhecimento mais rebuscado sobre artes. Mas dane-se isso.
Hoje assisti “Com amor, Van Gogh”.
O filme é lindo.
Segundo o que dizem os créditos de abertura, este é o primeiro filme feito inteiramente com pintura a óleo sobre tela. Foram mais de 100 artistas que participaram da confecção de mais de 55 mil quadros.
Os traços e as cores utilizadas pelos artistas foram baseadas na obra Van Gogh.
Não é só por isso que o filme é sensacional, contudo.
A história é bem legal. Quase um thriller que conta a história do filho de um carteiro, amigo de Van Gogh, que tenta entregar a última carta que o pintor escreveu para o irmão, mas essa acaba não sendo uma tarefa fácil e, no caminho, o rapaz começa quase que por acaso a investigar o suicídio do artista.
O que verdadeiramente aconteceu com o pai da arte moderna?
O filme acerta na hora de passar uma visão de mundo sensível através da retratação de algumas cenas da vida do pintor e das falas dos personagens que são entrevistados sobre sua morte.
Ainda mais um mérito do filme, foi ter me apresentado uma música maravilhosa durante os créditos finais. Eu não a conhecia, mas minha mãe afirmou ser bastante antiga: Starry, Starry Night. Canção de Don McLean.
Você já vai chorar ouvindo a música.

“13 Reasons Why”

A série “13 Reasons Why” foi muito comentada há pouco tempo e dividiu opiniões. Há os que defendem a importância de existir uma série que tenha se arriscado a abordar o tema tabu do suicídio, há os que afirmam que a série romantiza o ato e corre o risco de, por esta e outras razões, acabar se tornando uma forma de incentivo para aqueles que pensam em pôr fim à própria vida.

Eu me insiro dentro do primeiro grupo. Acho que é muito positivo que uma série se proponha a falar do tema do suicídio. Não é correto afirmar que falar sobre o tema é um incentivo ao ato. Pelo contrário, quando pensamos em prevenção, a primeira coisa que ouvimos falar (após uma pesquisa minimamente séria) é: precisamos falar mais sobre o suicídio. Se você procurar, por exemplo, o manual de prevenção do suicídio do Ministério da Saúde (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_editoracao.pdf), será possível observar que filmes, séries, livros e músicas não são fatores de risco para o suicídio. O que é essencial para a prevenção do ato é conversar sobre o tema (incluindo perguntar diretamente a uma pessoa se ela está pensando em se matar).

Falando sobre a série especificamente. Assistir 13 Reasons Why foi, para mim, uma experiência muito gratificante. Já tendo pensado em pôr fim a minha própria vida mais vezes do que tive um amigo ao meu lado para conversar sobre o assunto, a série foi muito significativa para que eu sentisse uma parte importante da minha vida emocional acolhida e não invisibilizada. O desejo de se matar e o ato do suicídio em si, não é nem um pouco tão incomum quanto imaginamos, mas é quase impossível conversar sobre ele com uma outra pessoa. A série abriu inúmeros diálogos mundo afora sobre o tema e fez com que houvesse uma sobrecarga dos aparatos sociais que oferecem apoio para a legião de pessoas insatisfeitas com a própria vida, mergulhadas em intenso sofrimento. Tive contato, inclusive, com pessoas que já forma assombradas pelo fantasma do suicídio no passado e que, após assistir à séria, procuraram serviços voluntários (como o CVV – http://www.cvv.org.br/) não só para pedir ajuda para si próprio, mas também com a intenção de se tornarem voluntários e começarem a trabalhar do outro lado da linha de quem procura apoio neste momento tão delicado. Já tendo participado do treinamento para me tornar voluntária em grupos de prevenção ao suicídio, posso afirmar que uma boa parte dos voluntários são pessoas que já estiveram, literalmente, com a faca no pescoço. É terapêutico para esses voluntários poder ajudar pessoas que estão passando pelo que eles já passaram, segundo relatos.

Eu mesma fiquei particularmente surpresa com isso, a princípio. Eu achava que eu seria a única pessoa que já havia pensado em se matar e ia resolver trabalhar com pacientes suicidas. Pensando no efeito Werther, tão comentado ultimamente, ver e ter contato com pessoas estão valorizando o suicídio como saída para uma vida que desprezam e cometendo efetivamente o ato deveria levar os voluntários, principalmente com histórico de tentativas ou desejo suicida a cometerem o ato. Não é o que frequentemente se verifica. Vemos pessoas enfrentando os próprios fantasmas e tirando força do fato de estarem ajudando os outros.

Algumas pessoas tomaram a decisão final de se matar e executaram o ato após assistir a série? É possível que sim. Meu ponto não é afirmar que isso é impossível. A série pode ter sido a gota d’água para algumas pessoas. O que não quer dizer que elas necessariamente não cometeriam o ato caso não tivessem assistidos a série. O fato é que a série não constitui essencialmente um catalizador para o suicídio.

Você deve estar se perguntando a respeito do “Efeito Werther” que mencionei acima. Certo? Este efeito não goza de plena aceitação no mundo científico. Existem autores (MINOIS, Georges. História do suicídio: a sociedade ocidental perante a morte voluntária. Tradução: Serafim Ferreira. Lisboa: Editorial Teorema, 1998.) que afiram que o tal efeito é o resultado da atenção midiática dada à certas mortes e que os suicídios literários ou cinematográficos são mais a expressão de um clima social do que uma apologia ao ato. Quando aceitamos uma ideia como a do “Efeito Werther” fica difícil explicar o porquê d’Os Sofrimentos do jovem Werther causar tal comoção e não o suicídio de Madame Bovary, por exemplo. Existiram suicídios ilustres e romantizados ao longo da história que não teriam desencadeada o suposto efeito.

Por fim, vale comentar que a série, a despeito da questão do suicídio em si, é uma bela metáfora para os problemas que assolam a adolescência. Cada lado de cada fita representando um tipo de problema específico – com a amiga, o primeiro paquera, o assediador do colégio… Por pelo menos um destes problemas TODOS nós já passamos e a série captura bem o modo caótico como essas questões se desenrolam na vida dos adolescentes e os impactos emocionais que eles exercem sobre nós.

 

Para os interessados em saber mais sobre a história do suicídio, sugiro conferir meu e-book sobre o tema que será lançado em breve.  

“The Good Place”.

Depois de passar momentos maravilhosos assistindo a esta série resolvi fazer uma recomendação.
The Good Place é uma série do Netflix que está, atualmente, na metade da segunda temporada.
A outra metade da segunda temporada está prevista para retornar na metade de janeiro de 2018.
A série conta a história de um grupo de quatro pessoas que, após a morte, vão para um bom lugar, o paraíso. Uma lugar no qual serão reunidas com suas verdadeiras almas gêmeas e serão felizes por toda a eternidade.
Uma dessas pessoas, contudo, acredita que está no lugar errado. Após ter levado uma vida bastante questionável, a personagem Eleanor, percebe que foi mandada para o lugar bom por engano. A partir de então, ela começa a ter aulas de ética com sua suposta alma gêmea, que era um professor de ética e moral na universidade.
A série é centrada nos conflitos éticos que se apresentam para a personagem que terá o apoio de sua alma gêmea até uma grande reviravolta, quando descobrimos algo de inacreditável sobre o lugar bom.
Com muita filosofia e muitas menções a pensadores ilustres, a série consegue ser bastante inteligente e divertida.
Para quem procura uma série de comédia que tem o mérito de nos fazer pensar muito sobre a vida e a morte de uma maneira leve e profunda na medida certa, esta é a indicação ideal.

O que é e como fazer Blackout Poetry. 

Tenho feito experimentos com Blackout Poetry. Esta técnica e outras, como a Caviardage, parecem ter tido origem na ação de censurar um texto, apagando certas passagens do mesmo com um grifo preto.

Atualmente existem inúmeras formas de se fazer Blackout Poetry. Mas o essencial é que você deve pegar uma matéria de jornal ou uma página de um livro (ou qualquer outro texto que desejar) e olhar para ela, sem necessariamente ler com muita atenção, envolvendo as palavras ou passagens que chamarem sua atenção. Depois, você pode cobrir o resto do texto da forma que quiser! (Veja um exemplo no final do post).

A técnica ainda mostra como são equivocadas idéias muito arraigadas e tradicionais, como as de autoria e de originalidade.
Normalmente pensamos no autor como aquele que se fecha em uma cabana no meio do mato e cria algo inédito a partir da folha em branco. Ele sai de seu refúgio com sua grande obra em mãos. Mas o autor nunca está só e a folha nunca está verdadeiramente em branco, sempre há algo por detrás do que escrevemos, outros lugares, outras sensibilidades que tiveram acesso às mesmas coisas. E o que nós condensamos e colocamos no papel não é nada além da nossa forma de acesso a um conteúdo que é essencialmente compartilhado. Nada é verdadeiramente nosso. Como poderia ser? “Escrita é citação em cima de citação”.
A Espanhola 

Insolente

Mundana

Tingia os cabelos

Doidivana

Rara

Levantava o vestido

À vista 

Em pleno amor

Prólogo do filme “O Anticristo”.

Uma criança caía da janela no momento em que sua mãe atingia o orgasmo. O menino estava encantado com a neve lá fora. Ele subiu no parapeito e sacudiu as mãozinhas no ar agitando os flocos. Confundia-os com brinquedos.

O menino havia passado pelo quarto dos pais a caminho da janela. Ele olhou a figura emaranhada que se contorcia em cima da cama. O mesmo olhar sereno que olhava para ursinhos de pelúcia que flutuavam pelo quarto. Os pais, que já estavam prestes a gozar, não ouviam nada, nem mesmo crianças vagando pela casa.

O menino deveria estar no berço. Mas a barulheira que os pais ignoravam o acordou e instigou; o som da água do chuveiro, da máquina de lavar roupas, o barulho de garrafas sendo derrubadas e líquidos derramados.

O casal havia colocado o bebê para dormir e a roupa suja na máquina de lavar. Homem e mulher foram tomar banho e acabaram trocando olhares apaixonados.

As gotas de água do chuveiro, todo o líquido derramado e a neve que entrou pela janela não chagaram a constituir o volume de uma só das lágrimas da mulher.