Os milhares de braços dos profissionais de saúde. 

“Psiquiatras são assim, cheios de braços. Fazem tudo que der pra ajudar. Se puder tirar a cabeça de um e botar em outro, faz também. Se não der certo, tá bom também”.

Eu ouvi esta frase de um usuário do serviço de saúde mental que estava participando de uma oficina de jardinagem lá no hospital da Nise da Silveira.
Isso aconteceu há meses. Eu anotei essa frase e fiquei com ela guardada sem saber o que fazer com esse duro choque de realidade, expresso em uma frase tão fantástica.
Muitos profissionais de saúde são assim mesmo, cheios de braços. Chegam em cima dos pacientes sem pedir licença, aferindo, medindo, apertando, abrindo, levantando roupas, mandando tossir.
Os psicólogos também vêm cheios de boas intenções e de boas teorias, fazem de tudo para ajudar. E se o paciente não vai bem, a complexidade dos fatores ambientais, psicológicos, sociais e biológicos era simplesmente complexa demais para que fosse possível uma interferência efetiva, ou o paciente resistiu.
Paciente é outro tipo de gente, se é que é gente. Derrepente ele se vê desautorizado a falar do próprio corpo e da própria mente.
Tem muito profissional por aí, contudo, tentando fazer diferente. A gente tem um forte movimento pelo desinstitucionalização da loucura atualmente no Brasil encabeçando essa luta.
Muita gente boa lutando para tirar suas mãos desautorizadas e suas teorias não solicitadas de cima das outras pessoas, sem lhes tirar também o cuidado e a melhor atenção em saúde disponível a que elas têm direito.

Carta a um amigo.

Estamos todos muito preocupados com você.

Não dê esse susto na gente nunca mais.

Se você nos abandonar, com quem vamos partilhar o sofrimento? Com quem se não com você que sofre mais do que todos nós?

Sem as suas poesias, como vamos nos expressar?

É preciso que você fique.

Sem as tuas musas a nossa arte também não tem sentido.

Se não for você a me lembrar dos decassílabos, quem mais?

Nesse mundo da poesia contemporânea, ninguém as conta mais.

Sem a tua fé tremenda nas certezas matemáticas, o meu mundo se torna incerto e cínico.

Não me fale mais que cortou os pulsos. Pois toda vez os meus sangram junto com os teus.

Não me fale mais de remédios ou do absinto, pois meu estômago se revira e corrói também.

Você quer que morramos todos juntos?

Nós ainda temos muito o que viver, você e eu.

Saiba que é muito cruel o teu grito de socorro.

Mais cruel ainda é saber que você sofre tanto e que nada do que fizemos é capaz e aliviar o teu sofrimento.

Eu sei o que você vai pensar:

– É melhor que eu morra, então, assim eu não causo mais sofrimento a eles.

Eu sei que você sabe lá no fundo que não há nenhum pensamento mais equivocado do que este.

As tuas ameaças são o ferro em brasa que se aproxima e se afasta da nossa pele. A tua morte será a hora em que esse ferro finalmente nos queimará a pele que arderá durante dias e ficará mercada para sempre.  

“Sair da vida para entrar na história”. Logo você, tão inteligente, não aprendeu nada com seu professor de história do ensino médio? O suicídio não é a absorção pelo esquecimento, é muito pelo contrário, a sua marca indelével na vida daqueles ao seu redor.

 

 

Os adultos do presente, do passado e do futuro.


Hoje eu fui almoçar com um amigo. O almoço foi excelente, mas a volta… Nem tanto.

Peguei um Uber (todo mundo está falando que a Uber já não está tão boa assim, mas eu ainda não me cadastrei no novo aplicativo de transporte da moda. Mas realmente tem sido difícil pegar Uber) e, infelizmente, o motorista veio conversando comigo a despeito do fato de eu ficar olhando fixamente para o celular torcendo para que ele parasse de falar. Eu não consigo interromper as pessoas em situações como estas de uma forma direta. E eu fico falando “uhum”, porque fico constrangida de ignorar completamente, aí a pessoa se sente encorajada a falar mais. Enfim.

Ele começou falando do trânsito. Dizendo que o trânsito estava muito bom na Lapa para uma quinta à noite. Estava mesmo. Mas ele continuou:

– Mais tarde isso aqui vai estar lotado. Cheio de jovem bebendo. Não sei de onde tiram tanto dinheiro assim para beber. Porque cerveja nesses bares, drink, isso tudo é caro. Eu estava falando para a minha mulher, eles já têm vinte… Trinta anos. Trabalham, mas ainda moram na casa dos pais. E não colaboram com nada dentro de casa, hein. Aí sobra dinheiro para gastar com farra. A minha mulher fica falando que “ah… você na sua época era a mesma coisa”. Eu sei. Eu sei que na minha época… Há! Ninguém me segurava não! Você me perdoa aí, dona, viu? Mas é porque, a senhora sabe como é, não é, garotão… A senhora é casada?

– Uhum…

– Pois é. Mas hoje em dia as jovens… Vou te contar. Não está fácil não. Outro dia mesmo peguei umas aí que disseram que eram maiores de idade e eu “tá”. Sabe? Não acreditei muito não. Mas a menina estava falando como ela tinha bebido todas. Na minha época a gente saía e tal, mas não era assim não. A juventude era diferente.

– Diferente como? – Disse eu cínica, mas interessada. Essa curiosidade mórbida que eu tenho sobre o que pensam as outras pessoas. Só me desespero.

– Ah, não sei te dizer não. Mas era diferente. Na minha época a gente ia para a farra, mas hoje em dia… Eu não sei… Parece que está tudo muito, sabe? Na minha época dia de farra era sexta, sábado, domingo… Hoje em dia isso aqui [a Lapa] já fica cheio na quinta feira. Na quinta isso aqui já está lotado. É quinta, sexta, sábado. Domingo que a gente nem vê tanto movimento. Mas não é só aqui também. Tem vários lugares, ruas e ruas por aí cheias de bares. Na minha época não tinha isso não.

– Ruas cheias de bares?

– Não, isso até tinha. Mas não era como está hoje. Entende o que eu estou te dizendo? O jovem hoje em dia perdeu o limite. Foi isso. Na minha época a gente bebia, mas tinha limite. Hoje em dia não tem mais esse limite. Os próprios pais não colocam mais esse limite. Minha esposa fala que eu era terrível, mas eu estou aí, não é? Trabalhando. Essa juventude aí até trabalha, mas não quer saber de nada não.

– Uhum…

– E olha que o país está em crise, como eu estava te falando. De onde que eles estão tirando dinheiro? Eu estou tendo para pagar as contas e olhe lá. Se eu tivesse dinheiro eu estava bebendo por aí também. Mas tem que ter responsabilidade. Que nem essas manifestações aí que aconteceram. Eu acho que foi tudo manipulado mesmo, porque você vê que eles não se importam com nada esses jovens. Eles não querem saber de nada. Pelo que eu vejo? Eu não vejo a juventude se importar com nada. Só querem saber é de celular, de rede social, dessas coisas assim. E de beber. De coisa séria mesmo… Esse ano agora é ano de eleição e eu estou só acompanhando pelas redes sociais que estão fazendo uma movimentação para não reeleger nenhum desses que está aí no poder. Tomara que pegue essa onda aí. No meu facebook é só o que tem.

– Pode parar ali atrás daquele carro, ali mesmo, moço. Obrigada.

Ufa! Saí do carro.

O discurso do motorista foi bastante emblemático desse olhar que os adultos em geral têm da juventude. Eles se reconhecem nela de alguma maneira, mas algo parece diferente e eles olham para essa diferença de maneira negativa (no caso desse motorista, especificamente, parecia haver também uma certa inveja tornada em ressentimento).

O maior paradoxo da sucessão das gerações: de uma geração para outra o que era ruim antes, melhora; mas o que era bom, piora. Como assim? O que eu quero dizer com isso?

Os adultos vão te dizer que, na época deles, começava-se a trabalhar mais cedo, os pais eram muito mais rigorosos e não tinha tanta moleza quanto a juventude atual tem. Ou seja, a juventude nunca pode reclamar do que está ruim, porque antigamente era pior. Então, o que era ruim antigamente, melhorou. As mulheres não têm que reclamar, porque antes era pior. As crianças não têm que reclamar porque antes os pais desciam o cacete nos filhos e hoje em dia isso “já não acontece mais” (não vou nem me aprofundar em abuso infantil). Não quero nem debater o fato dessas diferenças existirem ou não (eu até acredito que existem), o fato é que isso não invalida o sofrimento das novas gerações. Que é um sofrimento que, no seu contexto, não pode ser qualificado como “maior ou menor” em relação ao sofrimento de antigamente.

Por outro lado, tudo que era bom antigamente, piorou; e os jovens de hoje em dia devem ser cerceados, corrigidos e censurados, comparados com os jovens do passado. Antigamente os jovens farreavam, mas não era como é hoje. Antigamente não tinha essas coisas de homossexualidade, “mas tinha aquele cara lá na minha cidade que a gente apelidava de frutinha que vivia apanhando”. Antigamente o jovem tinha responsabilidade, hoje em dia, eu não sei dizer porque, mas os jovens não têm mais responsabilidade nenhuma.

Basicamente: “No meu tempo não tinha essa moleza que você tem hoje e vocês, mesmo assim (ou por isso mesmo), só fazem m****”.

Esse discurso se repete geração, depois de geração. Se você se deixar levar por ele, a conclusão óbvia é a de que a humanidade está indo para o buraco. Se está sempre piorando de geração em geração… Este é um trajeto descendente. Esse pensamento é um sinal do pessimismo e do ressentimento (em relação à brevidade da vida humana) entranhados na cultura.

O mais triste é pensar que esse movimento vai se repetir em larga escala na minha geração, e na próxima, e na próxima. Já existem atualmente pessoas de mais ou menos trinta anos lamentando “a vida que as crianças estão levando hoje em dia”. Aí eu pergunto:

– Caral**, sério que você está falando isso? Seus pais não diziam a mesma coisa para você quando você era pequeno? Eles não ficavam lamentando “a vida que você levava”? Agora você está dizendo a mesma coisa das crianças de hoje em dia?

As respostas são irracionais:

– Sim. Meus pais me diziam isso, mas era diferente. Eles não podiam nem imaginar que as coisas iam ficar desse jeito. Se eles soubessem não teriam me enchido tanto a paciência. Os nossos pais eram só exagerados, hoje está sinistro mesmo. Essas crianças não saem do celular! Na minha época meus pais brigavam porque eu ficava o dia inteiro na rua (ou no play) ou então era por causa do telefone. Sempre tinha briga por conta da conta do telefone. Era muito mais saudável do que ficar no celular.

Daqui a pouco vão ser as crianças que hoje em dia não saem do celular reclamando de algum comportamento que vai mobilizar as crianças do futuro.

Diferentes temas, exatamente a mesma estrutura de repressão e pensamento.

 

 

 

 

Os diferentes ritmos de leitura.

Hoje eu estava fazendo um plano de leituras. O objetivo não era nem colocar a leitura em dia, ou ler os clássicos nem nada disso. Eu estava organizando uma lista de leitura com o objetivo de economizar dinheiro. Eu tenho um problema com a compra compulsiva de livros.

Além de gostar de ler propriamente, eu gosto dos livros em si, sabe como é isso? De comprar livros e de ter livros em casa. Eu adorava lista de bibliografia da faculdade, porque eu tinha uma desculpa para sair comprando livros.

O comprometimento com uma lista de leitura é uma maneira de retardar esse processo. Embora eu entenda que a compra dos livros não tem tanto assim a ver com gostar de ler. Eu poderia ter vários e-books, por exemplo, ou livros de domínio público, mas não. Eu até leio livros em formato digital, mas não tenho problemas com a compra excessiva dos mesmos. Eu também leio livros de bibliotecas e isso não tem impacto sobre o meu desejo de comprar livros, a princípio. Eu gosto de colecionar o papel.

De qualquer forma, uma regra no sentido de que eu teria que ler um número X de livros antes do comprar um livro novo, pode ajudar. Assim como usar todas as peças de roupa do seu armário antes de comprar uma peça nova pode ajudar com a compra exagerada de roupas novas, por exemplo.

Então, estava eu pensando na lista de leitura e comecei a me dar conta dos diferentes impactos que os livros têm em nós. Isso é algo muito importante a se considerar na hora de pensar a lista de leitura. Se você resolver ler: Senhor das Moscas, A Guerra não tem Rosto de Mulher, Germinal e 1984, o próximo passo é se matar.

Para evitar tal efeito indesejável, é legal alternar esses livros tensos com temas mais leves.

Cada tipo de livro ou partes de um determinado livro, por sua vez, é lido em um ritmo diferente. Acho que foi isso que eu não tinha parado para pensar antes.

Existem vários ritmos diferentes que empregamos para ler um livro.

Tem as partes envolventes que lemos de uma tacada só. Aquelas cem páginas que a gente avança em uma sentada. (para mim, foram algumas partes d’As Brumas de Avalon. Quando eu me deva conta, tinham-se passado horas e horas de leitura).

Tem as partes chatas, temos que admitir, que demoram… A gente pula frases, parágrafos, tem partes que a gente não entende, mas também não se importa de não ter entendido (sinceramente? Vocês vão me desculpar, mas foi a leitura da primeira parte d’O Silmarillion. Eu li aquilo ali algumas vezes e ainda não consigo absorver completamente a história da formação do mundo e as mudanças que ocorreram nele).

Tem aqueles livros que a gente não entende, mas volta cinquenta vezes de bom grado para tentar entender e relembrar o que estava acontecendo (As Mil e Uma Noites, claro. Eu estava toda hora voltando para entender qual história se ligava ou estava dentro de qual outra história. Nesse caso era uma festa. Eu amava).

Tem os livros que devem ser lidos aos poucos, um pedacinho por dia (na minha opinião, os livros de poesia e, às vezes, de contos. Quando é assim eu gosto de ler uma ou duas poesias por dia, ou um conto por dia).

Tem os livros que a gente nunca acaba. Podem haver diversos motivos para isso: o livro pode ser chato (novamente, me perdoem, mas A Metamorfose é um livro muito chato. Eu sei que pouca gente tem coragem de expressar essa opinião, com medo de ser taxado de ignorante, mas o livro é verdadeiramente chato e eu tenho certeza de que tem um monte de gente cult pensando isso por aí. Quer ler um livro do Kafka? Leia Carta ao Pai); pode dar medo e paralisar a gente (eu senti medo e nunca terminei de ler algumas histórias do Contos Tradicionais do Brasil compilados pelo Câmara Cascudo. Esse foi o livro paradidático da quinta série e algumas histórias são assustadoras. Tenho pesadelos com a que o meu grupo foi obrigada a encenar na peça da escola até hoje); o livro pode ser também imensamente grande, aí temos vontade de ler outros livros durante a leitura do primeiro (eu com a Bíblia que já tem uns três anos que estou lendo e não acaba nunca); e livro pode também revirar as nossas entranhas e nos dar enjoo moral (120 Dias de Sodoma, por exemplo, que eu não consegui terminar de ler até hoje. Esse deve ter sido o primeiro livro que eu deixei inacabado, antes dele eu sempre me obrigava a ler tudo, até quando se tratava de sequencias. Foi o caso do Fronteiras do Universo. Não conhece esse nome? Que tal A Bússola de Ouro? Fronteiras do Universo é o nome da trilogia. O livro é doido e meio chato, mas eu comecei o primeiro, li os três. Terminei amando, fazer o que? Mas depois do Sade, esse ciclo se quebrou e várias leituras desde então ficaram inacabadas); dentro outros motivos que não me ocorrem agora.

Por fim, tem livros como o que estou lendo agora. A leitura leva o seu tempo. Anda num ritmo próprio. A leitura não se encerra no momento em que você está com o livro na sua frente. Você fica tentando antever como a trama vai se desenrolar e o que vai acontecer com os personagens e fica com medo do escritor ser um f**** da p*** e resolver matar todo mundo no final. Você acaba retardando a leitura, com medo do que vai acontecer. Mas, assim como a vida, a leitura atropela a sua resistência e demanda seguir seu curso, você assume os ricos e continua lendo. Se o autor for um ursinho carinhoso, você respira aliviado, ele salva os personagens, não mata ninguém por quem tenhamos nos apegado; se não, ele mata todo mundo no final. Conforme as desgraças vão acontecendo, precisamos levantar a cabeça do papel e passar por um período de luto. Durante esse tempo, e esse é o poder de um bom luto, passamos por uma evolução pessoal, pois a emoção que o autor nos provoca, as questões que ele nos coloca, nos fazem pensar a nossa realidade e olhar para o mundo de outra maneira (foi o que me aconteceu em Senhor das Moscas e que está acontecendo novamente em Germinal. Livros tensos e carregados de verdades a respeito da humanidade. Essas leituras são densas e nos absorvem, demandam tempo e reflexão para serem bem aproveitadas).

Estes são os ritmos que me ocorreram, mas sintam-se à vontade para adicionar novos ritmos de leitura com os quais vocês estão familiarizados nos comentários!

 

10 camisinhas e uma explicação. 

Havia ali uma pessoa que jogava de nove a dez camisinhas por noite pela janela do apartamento, enchendo a calçada de vizinhos revoltados que se acumulavam para contá-las pela manhã.
Começou com sete ou oito, eles diziam, agora já são dez!
É do apartamento de fulana! Não! Vem do apartamento de ciclano, eu tenho certeza!
Os vizinhos tiravam na sorte quem ia ter de recolhê-las.
Algum tempo se passou e começaram a aparecer pedaços de frango assado no meio das camisinhas usadas.
Olha que abusado! Não tem lixo em casa, não, bastardo?
Os xingamentos pioravam. Cada vez palavras de mais baixo calão. E a revolta dos moradores crescia.
Virou assunto de assembleia extraordinária de condomínio, cuja única pauta era a solução do mistério. Apenas um terço dos condôminos estava na reunião. Não houve meio de determinar quem era o perpetrador da indecência.
Ficou acertado que deveriam se revezar para vigiar a frente do prédio durante toda a madrugada.
A vigília começou no dia seguinte. Dez moradores se voluntariaram. Eles se alternavam, faziam turnos na portaria do prédio olhando para cima. Nada de camisinhas ou pedaços de frango na primeira noite. Nem na segunda ou na terceira, muito menos nas noites seguintes.
Logo, os moradores desistiram da empreitada.
Se acovardou o imbecil!
Uma semana depois, lá estavam as camisinhas, os pedaços de frango, alguns cigarros e uma garrafa de bebida quebrada.
Dessa vez, todos ficaram assustados. Parecia agora que aquilo tudo era obra do coisa ruim. Todos ficaram amedrontados. Nenhuma ação ou revolta aconteceu.
Com o tempo, a lixarada desapareceu.
O caso virou lenda no prédio. Assombração pura e simples ou recado do sujismundo para algum pecador que morava no edifício da pacata rua do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Pacata, porque aos domingos as crianças jogavam bola ali na rua e até pula-pula tinha em ocasiões especiais. As mesas do bar ao lado invadiam um terço da pista e, com os carros parados irregularmente na calçada do outro lado, a rua ficava fechada.
Mesmo com toda a pacacidade local, os moradores acharam que o inimigo do homem tinha parte nas atividades ali realizadas. O mérito estava encerrado. Com o diabo não se brinca. Vamos todos orar em silêncio dentro dos nosso corações.
Depois das festas, dos jogos da final, dos churrascos de domingo… Depois desses eventos a rua pacata ficava imunda. Latinhas de cerveja, pratos descartáveis, talheres e guardanapos. Ninguém ligava.
O problema não era lixo na calçada, eu havia compreendido, é o fato desse lixo ser composto de caminhas usadas. O problema era sexo. E tinha alguém ali fazendo sexo para caramba. E era isso que incomodava a todos.
Os moradores negavam essa interpretação que eu fui comentando com um e outro a meia boca pelos corredores.
Todos discordavam e ficavam revoltados. O problema era o lixo! O planeta! O aquecimento global!
Eventualmente, eu fui acusado de ser o pervertido das camisinhas, apesar do meu apartamento ser de fundos e eu fui escorraçado do prédio.

Rir (e muito) de bobagens, simplesmente.

A capacidade de rir de coisas simples e bastante bobas é uma que eu prezo muito.
Há pessoas que afirmam que o riso faz com que a gente se sinta bem. Essa capacidade do riso é tão poderosa, que você nem precisa estar sorrindo de verdade para ter os benefícios. As pesquisas indicam que simular o riso já faz bem para a saúde. Além disso, começamos simulando e, com o tempo, a mágica acontece e começamos a rir de verdade.
É por isso que eu amo rir tanto e de precisar de coisas tão pequenas como estímulo. (Até alivia a minha consciência: se eu não estou indo à academia, pelo menos estou rindo bastante)!
Eu constantemente me escangalho de rir com posts de placas engraçadas.
E eu vi essa placa por esses dias e estou rindo até agora!
Só queria compartilhar como vocês.

Bom deixar as instruções bem claras, não é verdade? E fique atento, pois foi o Sindico! quem falou…
Fiquei impressionada com o fato de que ninguém mais naquele elevador parecia achar a placa hilária! Eu já estava imaginando o Sindico! dando esporro nos moradores que colocavam a camisa para subir, mas a tiravam na hora de descer.
Eu segurando o riso, todo mundo sério. História da minha vida.

Meu presente de Natal.

Você prefere escolher seu presente ou prefere ser surpreendido?
Eu prefiro escolher.
Esse ano, eu pedi material de desenho.
Cheguei a fazer uns seis meses de curso quando era pequena e depois, nunca mais. (impressionante quantas coisas eu comecei e parei…).
Estou há um tempo querendo comprar essas coisas (lápis, esfuminho etc.) e sempre vem aquela dúvida: será que eu compro? Será que devo? Não vai ser desperdício?
Nada do que nos faz feliz é desperdício. O problema é que muitas vezes nos enganamos quanto ao que vai realmente nos fazer felizes.
Enfim, pedi as coisas que precisava para começar a desenhar de presente de Natal.
Eu já recebi hoje os intens que pedi! E já desenhei um bocado!
Aí aparecem outras questões… Porque a gente é meio estragado mesmo…
É muito boa a sensação de que você produziu algo legal. O triste é a dúvida: será que isso está bom mesmo? Bate aquela vergonha e o receio de mostrar para as outras pessoas.
Na tentativa de superar essa paranóia, eu apresento para vocês um desenho que eu fiz hoje.
Agradeço a minha mamãe, pois foi ela que me deu o material de presente de Natal 🙂

Tenho futuro?

Em 21 horas, a foto dos pés da Beyoncé recebeu 900 mil curtidas no Instagram.

Eu não sei se este deveria ser um texto de recomendação do creme que a Beyoncé usa nos pés… Não sei se deveria ser um texto sobre o fato de que o corretor automático do meu celular conhece a palavra “Beyoncé” mesmo que eu só tenha digitado pouquíssimas vezes, se deveria ser sobre o fenômeno da fama ou sobre as características divinas da diva.
Só sei que o número de curtidas que a foto dos pés dela receberam me embasbacaram.
Há poucas semanas comecei a seguir a Beyoncé no Instagram. Gosto dos hits dela (fala sério, são maravilhosos) fora isso não sei muito da história de vida ou da carreira dela, nem nunca tive uma conversa profunda com ela sobre os principais dilemas filosóficos que assolam a humanidade. Mas, quando eu vi a foto dos pés, curti.
Admirei-me logo em seguida.
O fato é: às vezes eu não curto coisas de pessoa eu conheço pessoalmente, com quem eu já tomei café na padaria; isso por pura preguiça ou falta de tempo ou tédio. Mas os pés da Beyoncé…. Aí eu curto no automático.
Então, acho que nem se trata de admirá-la ou não, gostar dela ou não (se eu tivesse que me manifestar nesse sentido, eu até diria que gosto bastante dela, mulher e poderosa o que tem para não gostar?). Esse não é o ponto. O ponto é que eu acho que eu curti por conta da quantidade de curtidas que já haviam sido dadas. Fui tomada pelo comportamento de manada. Vontade de unir a minha curtida à dos outros milhares de fãs que curtiram a foto (que serão milhões provavelmente em mais algumas horas).
Depois que me dei conta da situação, eu voltei e curti todas as fotos de conhecidos. Não sei se vou fazer isso para sempre, curtir tudo que meus amigos postam, mas eu certamente vou ser mais criteriosa na hora de curtir as fotos das celebridades.
Se eu tivesse achado o sapato bonito pelo menos… Claro que a pele dela estava maravilhosa… Mas justifica? Se fosse uma foto criativa dos pés. Mas a foto não tinha nenhuma característica excepcional (além de estar de lado, parecia torta apenas).
A foto não era representativa dos dons artísticos da Beyoncé. A foto era a prova de que ela não precisa se esforçar muito mais para ficar no topo e, aparentemente, ela teria que fazer uma merda muito grande para sair desse lugar.
No caso da Beyoncé, eu nem fico com raiva, pois, como eu disse, acho ela foda. Mas isso me abriu os olhos para o fato de que isso é bastante comum. Um artista se consagra e depois não precisa fazer muito mais para se manter no topo (eu só ouvi uma música do Ed Sheeran até hoje, por exemplo, e o cara está bombando).
O que é, então, que faz um artista atualmente? O que é ser um artista? Gravar um hit? Ter dinheiro para pagar alguém para escrever um hit para você gravar? Ter dinheiro para pagar alguém para escrever um hit para você e alguém para te ajudar no playback e ficar lá no palco sendo bonita? Escrever uma grande obra? Ter muitos seguidores? Muitas curtidas? Muitos likes orgânicos? Continuar produzindo e expulsando o que está dentro de você a qualquer custo mesmo que seja para um público fictício?
Eu não preciso verdadeiramente de uma resposta nesse momento. Mas é estranho ter que fazer essas perguntas.

Incerta. 

Fui dar uma incerta na minha namorada.
Ela vem me dizendo que tem saído com uma amiga para beber.
Quero ver se essa amiga tem buceta mesmo. E se é que tem, ela ainda pode estar colando velcro.
Cheguei na porra do bar, está ela lá no adultério. Peguei ela com um pintoso. Pensei: “É agora que eu vou acabar com a raça dessa mulher”.

Tu tá me tirando de otário? Tá pensando que eu sou o que? Ele sabe que tu largou a tua filha em casa abandonada?! É! Ela tem filha para criar e marido em casa! Otário, né. Tu deve pensar que eu sou otário mesmo. Sua vadia! Cachorra! Não quero nunca mais olhar na tua cara!

Amor, amor, calma. Está tudo bem. Eu estou aqui com você. Você lembra o que aconteceu ontem? Se acalma. Você está no hospital. O médico está aqui para te ver.

Doutor! Hospital? Tu me botou no hospital ainda, mulher! Essa vadia aí estava me traindo! Eu peguei ela ontem. Enfiei a porrada no maluco. É… Cadê teu amante? Se eu tô no hospital ele deve estar no cemitério!

Senhor, se acalme. Se acalme. É comum os pacientes acordarem desnorteados. Não se preocupe, minha senhora. A psicóloga já vem aqui falar com ele.

Que bom, doutor. Vamos aguardar, então.

A psicóloga chegou no fim da tarde para ver o paciente. Clima horrível. Mulher e homem olhando para baixo. Os dois queriam o divórcio. Ninguém tinha coragem de pedir. Mas a situação se tornara insuportável. Amanda vira o estado do pai na noite anterior quando todos chegaram no hospital. Camila ainda o amava, sim, mesmo sabendo há anos que vivia um relacionamento abusivo. Ele estava se tratando… Mas não houve jeito. Ele não melhorou. Sempre faltando a terapia. Ainda bebendo.

Boa tarde, Aurélio. Como você está se senindo? O senhor sabe o que aconteceu ontem?

Se sei! Eu já devo ser a piada do hospital. O corno do hospital! E a esposa chorando pelo amante! Olha a cara dela! Nem disfarça!

Senhor Aurélio, se acalme. Ontem o senhor bebeu muito e veio para o hospital após uma briga de bar. O senhor estava muito alterado e agitado. Mas é importante entender o que houve ontem a noite.

A mulher rompeu em lágrimas e a psicóloga pediu que ela se retirasse.

Aurélio, você chegou ontem a um bar, bêbado, confundiu um casal qualquer com sua mulher e um suposto amante e arrumou uma briga. Bateu na mulher e apanhou do namorado. Eles estão prestando queixa do senhor neste momento na delegacia.

Como é que é?! Vocês querem me deixar maluco!!! Você e essa cachorra da minha mulher!

Se acalme, se não eu vou ser obrigada a chamar o médico.

Eu não vou me acalmar porra nenhuma! Não com vocês querendo me enlouquecer!

Camila passou os anos seguintes lamentando o fato de tudo ter se desenrolado daquela maneira. Seu marido preso pela agressão de outra mulher. Durante tanto tempo era ela quem tinha aturado seus rompantes de raiva. É certo que ele estava pagando de alguma forma, mas e tudo que ela tinha sofrido? Se não deu certo, era ela quem tinha que tê-lo punido.

Pelo menos, dizia sua amiga durante o cafezinho, assim você se separou dele.

Sim. É verdade. Difícil, não é? Essa coisa de relacionamento abusivo.

Sim.

Mas Camila foi naquela semana até a prisão. Aurélio estava acabado. Tinha lágrimas nos olhos.

Me desculpe, meu amor. Quando eu sair daqui, você vai ver, tudo vai ser diferente.

Aurélio, eu acreditei em você por tempo demais. Você abusou demais de mim. Você me fez chegar ao meu limite. Eu não vim aqui para ouvir as suas desculpas. Eu vim para te dizer que você me roubou. Você é um ladrão. Você me roubou anos de vida e, por muitas vezes, a alegria de viver. Mas, como diz o ditado, vão os anéis, ficam os dedos. Eu recuperei tudo que você tirou de mim. Eu vim aqui para te dizer que, naquela época, eu não tinha amante nenhum, mas devia ter tido sim. Eu vim aqui porque eu faço questão que você saiba que você não está aqui apenas por causa de uma briga de bar apenas. Você está aqui por tudo que você me fez sofrer e pelo ser humano desprezível que você é. Eu não quero que você me procure nunca mais. Nunca mais me procure, Aurélio.

Simplício Simplório da Simplicidade Simples. 

O simples também está aí para ser aproveitado, usado e abusado.
Principalmente se você é uma pessoa ansiosa, nada parece simples para você. Você se preocupa com os resultados, imagina tudo que pode dar errado em um situação e justifica a sua preocupação com argumentos irrefutáveis.
É uma das batalhas que estou travando com o Blog e com a vida ultimamente. Eu me esqueço constantemente do simples no trabalho, no relacionamento amoroso, e até nas amizades.

Hoje aproveitei para simplificar a postagem no Blog. 

Conforme o tempo foi passando (e já estou chegando a três meses de postagens diárias. Uhu!), eu produzi algumas coisas mais rebuscadas e profundas.
Mas nem todo dia é dia de mergulhar nas profundezas do ser.
Não precisa ser sempre desta maneira. E está tudo bem.
O simples também existe e é ótimo! Ele tem a sua função de acalmar e de deixar as coisas leves e descomplicadas.
Estou feliz com o simples por hoje.
Não se esqueça, você também, do simples na sua vida.