Improvisação.

Cara, eu não faço a mínima ideia a respeito do que escrever hoje.

Há dias em que tudo falha. Todas as suas estratégias e planos bem pensados e pesquisados e fundamentado… Nada disso funciona e tudo parece desabar.

Chega a hora de improvisar.

Uma voz lá no fundo da minha cabeça fala: “Não está ok improvisar o tempo inteiro”! Concordo.

Mas que fique claro que não me refiro ao improviso como um modo relapso de lidar com as obrigações.

Estou há dois dias pensando no que escrever hoje, no dia 31 de outubro de 2017, e nada me vem à cabeça. Queria escrever alguma coisa sobre Halloween. Mas a história que me veio á cabeça é meio dramática e eu não quero estragar a festa de vocês, portanto o que me resta é escrever sobre a dificuldade de escrever.

Estou surpresa que isso tenha demorado tanto a acontecer. E a minha perspectiva é a de que isso ainda aconteça muitas vezes no futuro.

Então, me resta improvisar usando todas as minhas magníficas habilidades de escrita e as minhas experiências de vida. Vamos ver no que vai dar.

Até porque essa sensação não é nova para mim.

Me lembro como se fosse ontem das incontáveis vezes que eu cheguei na escola com mochila, cadernos e apostilas e encontrei meus amigos apenas com a caneta na mão, pois havíamos adentrado a semana de provas e eu, como de costume, não sabia disso.

Quando eu estava no Colégio GPI, onde estudei todo o meu ensino médio, meus amigos sempre me zoavam quando eu chegava com o material todo na semana de provas. Eles já sabiam que eu estava completamente desinformada. Veja bem, na semana de provas, só tinha a prova mesmo, que fosse uma ou duas, e acabou. Dpois de fazer a prova a gente era liberado. A galera só levava a caneta.

Chegava eu, segunda feira pela manhã no colégio, desavisada. O que eu fazia na prova? Improvisava. Aí, ao longo da semana, eu ia tirando o atraso dos estudos.

Sentava na carteira, olhava para a prova e utilizava todo o meu charme literário e o que tinha ficado das aulas para tentar conquistar uns décimos aqui, um pontinho ali; e, é claro, contava também com um pouco de sorte nas questões de múltipla escolha.

(Até nas provas de matemática, eu descrevia literariamente o meu raciocínio sobre os problemas e as minhas soluções, com medo do professor não entender o primor super elaborado que era o cálculo que eu fazia. As provas de geometria eram as mais loucas, eu já gostava de desenhar, eu criava figuras em cima da figura que vinha na prova e ia intuindo valores para os ângulos, chegando assim, à resposta da questão de um jeito mirabolante que eu tinha que explicar com palavras. Muitas vezes, eu deixava mais de uma alternativa de resposta – uma delas estrategicamente riscada – para tentar confundir o professor. Bons tempos. Nas minhas provas de matemática, uma imagem não era equivalente a mil palavras; pelo contrário, eram necessárias mil palavras para explicar as imagens que eu desenhava).

Minha nossa! Chegava a ser divertido fazer prova. Eu dava asas à minha imaginação.

Minha improvisação, naquela época, não era muito bem fundamentada.

Você já deve ter concluído que, todos os anos, eu ia parar na recuperação.

Eu só virei CDF na universidade. (até hoje eu não tenho certeza do que significa esta sigla, mas… como estamos falando em escola… não pude deixar de lembrar dela).

Minha iluminação foi no terceiro ano do ensino médio. Imagine eu, uma adolescente de dezesseis anos fazendo canto e dança, gostando de ler e escrever. Eu nunca tinha parado par apensar em profissões. Sabe aquelas crianças que falam desde novas: “Quero ser médica!”, “Quero ser veterinária!”. Eu não me lembro de ter tido esse tipo de desejo quando. Eu via muito anime, então, quando alguém perguntava para mim, quando eu tinha dez anos de idade, o que eu queria ser quando eu crescesse eu respondia: “Quero ser andarilha no Japão” (até hoje eu amo Samurai X). E eu levava esse sonho muito a sério. Eu fiz curso de japonês dos dez aos quinze anos e fiz Kung Fu também (embora por bem menos tempo, pois a minha mãe ficava apavorada comigo, pequena e deficiente visual, na aula com todas aquelas outras pessoas enormes que me batiam na hora de lutar em duplas no final).

Eu sempre tive uns sonhos assim meio aleatórios e nunca tinha considerado a sério uma carreira.

Quando eu optei por psicologia, foi muito por influência de pessoas ao meu redor. Eu dizia que queria entender o ser humano e a galera me orientou: “Vai fazer psicologia, então”. Ok.

Nunca me arrependi dessa decisão. Amo a psicologia, mas eu demorei a perceber que ela ia ter que conviver com o amor pela escrita. Não é a pior combinação. Psicologia e escrita andam bem juntas.

De qualquer modo, era necessário passar no vestibular.

No meio do ano, quando eu me decidi pela psicologia, ou seja, quando eu estabeleci um objetivo, eu mergulhei de cabeça. Estava no GPI, tinha aula até domingo do pré-vestibular.

Me lembro de chegar na escola um certo dia e dizer aos meus amigos que eu havia decidido passar na UFRJ. É uma história foda hoje em dia porque deu certo, não é mesmo? Decidi, me dediquei e passei. Ah… que alívio.

Na faculdade eu fui ganha para o mundo intelectual acadêmico e deu no que deu: não consegui sair deste universo até hoje e me faltam ainda mais três anos de doutorado. Vida que segue. Enfim…

Hoje em dia eu ainda improviso. A diferença é que eu me forço a ser muito segura das minhas capacidades intelectuais, coisa que a escola não ajudou a construir (tendo mesmo deixado uma insegurança profunda que se transformou atualmente na Síndrome do Impostor que me aflige. É por isso, e é possível que você tenha estranhado quando eu escrevi, que eu tenho que me forçar a ser segura quanto a minha capacidade intelectual. Autoconfiança intelectual é uma característica que a educação nem de longe estimula e, se bobear, destrói).

Bom, neste novo cenário, improvisar passa a significar adaptar o conhecimento que eu possuo a uma situação inesperada.

Para você ver como isso rende… Um improviso que parte de algum lugar. Gostei dos lugares aos quais eu fui levada por estes devaneios. Acho, inclusive, que podemos ficar por aqui, pois já consegui escrever um bom texto para a postagem de hoje.

geometria.jpg

3 comentários em “Improvisação.

  1. Nossa, que nostalgia desses tempos! Ontem mesmo falei com o Gui dessa fase da vida, e de como você virou tudo que eu já sabia que você era. Muito orgulho de ti, e principalmente das suas artimanhas para tentar confundir o professor de matemática hahahaha

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