Concurseiros.

Éramos um grupo seleto que faria, em poucos dias, a prova para professor substituto de psicologia da UFRJ.

Era exigência da seleção que todos os candidatos estivessem perfeitamente saudáveis. Eu tive que comprar um pacote de adesivos de nicotina para mim.

Quando chegou o dia da prova, descobri que a avaliação consistia em criar uma obra de arte sob o olhar avaliador severo de um psiquiatra.

Comecei a cumprimentar os demais participantes, quando notei um deles sendo levado para uma sala afastada. Era o orientador que o puxava pelo colarinho enquanto ele chorava silenciosamente e bebia de uma garrafa de cachaça.

– O que é que está acontecendo ali? – perguntei. – Para onde o estão levando?

– Então, o problema dele está nos dentes, então vão ter de arrancá-los antes da prova.

No minuto seguinte começaram os gritos. Gritos roucos, que eram rapidamente abafados pelo som de alguma aparelhagem de dentista. Os barulhos dos aparelhos eram altos, barulhos de brocas e sons metálicos, pinças, ganchos e espátulas para raspar as cavidades abertas dos dentes retirados. Em seguida o silêncio. Provavelmente o momento da costura das carnes abertas. O choro virou um leve, mas constante ressonar trêmulo, aflito, resignado, mas enraivecido.

O orientador desponta da câmara de tortura, encharcado de sangue, para resolver alguns problemas burocráticos. Eu achei melhor ir ver como o candidato estava. Quem pensa em competição nessas horas?  

Entrei vagarosamente na sala e lá estava ele com um fio grosso de sangue escorrendo como baba do canto da boca. Não era possível nem mesmo saber o que ele estava vestindo. Naquele momento ele poderia estar nu, que só se veria o sangue cobrindo seu corpo. Estava sentado em uma carteira comum de estudante, ao lado dele, a mesa do professor com os instrumentos de dentista.

Fui chegando perto dele, que fez sinal para que lhe passasse a bebida estendendo a mão na direção da garrafa e grunhindo. Bebeu de um gole o líquido que havia restado e se levantou de maneira estranha, ao mesmo tempo cambaleante, mas passando a impressão de estar seguramente decidido de alguma coisa. Demorei a entender, tentei ajuda-lo a ficar de pé, mas ele se inclinou na direção da mesa da tortura. Tive um insight gelado que percorreu meu corpo como um calafrio.

Saí correndo da sala. Tentei puxar o orientador dele, que ria e batia papo com outros adjuntos, para alertá-lo do que estava para acontecer. Ele se desvencilhou e me censurou por qualquer motivo, eu já não estava mais prestando atenção. Eu olhava em volta e começava a incitar o resto dos candidatos a saírem do prédio. O meu orientador, surpreendentemente, nos acompanhou.

Quando o candidato saiu da sala, ainda cambaleando, carimbando as paredes ao redor de sangue cada vez que se apoiava nelas e se lançava na direção do seu próprio orientador, eu reparei que este me olhou e eu gritei já do lado de fora do prédio:

– Eu ia te avisar que ele estava indo te matar!

O tempo que o orientador levou para me direcionar um olhar de incredulidade foi fatal. Num último impulso o rapaz havia se jogado contra o orientado e enfiado em sua garganta uma broca de dentista.

Todos começaram a gritar e correr para todos os lados, mas uma voz foi ficando cada vez mais clara no meu ouvido.

– Acorda, vamos lá, acorda, amor. Você acabou dormindo, mas está na hora de voltar a estudar. A prova já está chegando. Falta só mais um pouco.

 

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