Eu não preciso e eu não quero.

Em homenagem a uma propaganda que assisti hoje na televisão, que resolveu se pronunciar a respeito do desejo que a população feminina tem de usar maquiagem, resolvi publicar em três partes um trabalho que escrevi para uma disciplina do doutorado no final do ano passado. Simplesmente porque essa farsa de “reconexão” com a própria beleza através do entupimento da pele com maquiagem é apenas uma maneira de refinar o velho mandamento da beleza e submissão femininas. Se vocês não repararam, continuam sem ter voz nem espaço na mídia as mulheres que realmente não usam maquiagem. 

O título do trabalho é:

A abordagem das capacidades e as práticas de beleza feminina. 

 

O que é a abordagem das capacidades de Sen?

A abordagem das capacidades de Sen (2009) é um quadro teórico – framework – que nos proporciona um outro olhar sobre a forma de avaliar a justiça e a injustiça social, bem como as vantagens e desvantagens pessoais dos indivíduos. A abordagem das capacidades foca nas capacidades que as pessoas possuem de realizar a vida que elas têm razões para valorizar.

Qualquer teoria da justiça vai, necessariamente, ter um foco informacional, ou seja, certas informações-chave ou aspectos da sociedade ou das vidas dos indivíduos em questão que servirão de base para que possamos julgar se tal sociedade é justa ou injusta e se os indivíduos estão em vantagem ou desvantagem uns em relação aos outros. Nesse sentido, as diferentes teorias a respeito da justiça social nos apresentam diferentes aspectos que deverão ser levados em consideração neste julgamento.

Poderíamos citar como exemplo as abordagens utilitaristas e as abordagens baseadas em recursos. O utilitarismo se concentra na quantidade de felicidade ou prazer alcançado por uma pessoa para avaliar suas vantagens ou desvantagens em relação às outras pessoas da comunidade. Está em posição de vantagem aquela pessoa que obtém mais prazer quando comparada com as demais; aquelas pessoas que obtêm menos prazer, estão em posição de desvantagem. As abordagens baseadas em recursos, por outro lado, vão se concentrar nos recursos que as pessoas possuem. Recursos frequentemente levados em consideração são renda e riqueza. Quanto mais rico é um país, maiores as suas vantagens em relação aos outros países. É importante deixar claro que estas duas abordagens podem ser utilizadas para avaliar tanto a condição dos indivíduos, como também de comunidades e países.

Na abordagem das capacidades, as vantagens ou desvantagens pessoais são julgadas a partir da capacidade das pessoas de viver a vida que ela tem razões para valorizar. As vantagens de uma pessoa na abordagem das capacidades são maiores do que as de outra se a primeira possui mais oportunidades reais de alcançar as coisas que ela tem razões para valorizar. As capacidades são as possibilidades reais que uma pessoa possui de ser livre para ser ou para fazer aquilo que ela tem razões para desejar ser ou fazer. Este aspecto é relevante para a discussão que pretendemos desenvolver no presente trabalho.

Em inglês, Sen (2009) se refere aos beings and doings que uma pessoa possui oportunidades reais de alcançar. Os beings and doings são chamados por Sen (2009) de funcionamentos.

 

The difference between a functioning and a capability is like the one between an achievement and the freedom to achieve something, and between an outcome and an opportunity. All capabilities together correspond to the overall freedom to lead the life that a person has reason to value. (ROBEYNS, 2002, p. 3).

 

Ao falarmos em funcionamentos nos referimos aos resultados que uma pessoa é capaz de alcançar por meio de suas capacidades, portanto, enquanto as abordagens utilitaristas e as abordagens baseadas em recursos focam nos meios, a abordagem das capacidades foca nos fins. O foco nos fins é importante, pois os meios de uma boa vida não são necessariamente, eles mesmos, os fatores que compõem uma boa vida. Sen (2009) demonstra esse fato importante quando nos chama atenção, por exemplo, para o caso hipotético de uma pessoa que possui muito dinheiro, mas que também possui uma grave deficiência física. Essa pessoa certamente terá dificuldade em transformar os recursos que possui na vida que ela tem razões para valorizar. A sua deficiência física pode torná-la incapaz de experimentar uma série de experiências que ela valoriza, como, por exemplo, dançar ou jogar bola. Por mais rica que essa pessoa seja, ela não vai conseguir transformar seus recursos financeiros nos funcionamentos que ela deseja alcançar (ou, pelo menos, encontrará muitos obstáculos para tanto).

 

Sen argues, we should focus on the real freedoms that people have to lead a valuable life, i.e. on their capabilities to undertake activities, such as reading, working or being politically active, or to enjoy positive states of being, such as being healthy or literate. This line of Sen’s work, known as the capability approach, postulates that when making normative evaluations, the focus should be on what people are able to be and to do, and not on what they can consume or their income. The later are only the means of well-being, whereas evaluations and judgments should focus on those things that mater intrinsically, i.e. a person’s capabilities (ROBEYNS, 2002, p. 2).

 

Sen (2009) chama de “variações nas oportunidades de conversão” (p. 261), os aspectos que podem influenciar a capacidade de uma pessoa de transformar seus recursos em uma boa vida. Esses fatores podem ser pessoais (deficiências físicas ou mentais etc.), sociais (tradição cultural, normas sociais, regras legais, infraestrutura social etc.) ou ambientais (clima, disponibilidade de recursos naturais etc.).

Conforme afirmamos no início deste tópico, a abordagem das capacidades é, na verdade, uma ferramenta de avaliação. Contudo, diferentemente das abordagens utilitaristas e das abordagens baseadas em recursos, Sen (2009) não nos fornece nenhum tipo de informação específica que devemos quantificar e medir na tentativa de determinar se uma sociedade é justa ou não. Ou seja, a abordagem das capacidades não propõe nenhum conjunto de capacidades determinadas que devem ser analisadas ou mensuradas que serviriam de base para tal julgamento. O que ele propõe é um método que nos permite realizar comparações entre as diferentes capacidades e funcionamentos. Não poderia resultar daí uma forma de medida homogênea justamente pelo fato de que funcionamentos e capacidades englobam aspectos bastante variados, que podem ser comparados, mas não redutíveis uns aos outros.

Sen (2009) admite que isso pode causar um pouco de receio naqueles que estão acostumados a medir coisas brutas em números bem específicos – com a renda de uma pessoa ou o PIB de um país. De fato, Sen (2009) afirma que as capacidades não são mensuráveis da mesma maneira o que não quer dizer, contudo, que elas são mais fáceis ou mais difíceis de serem medidas.

Sen (2009) nos dá um exemplo: imagine uma pessoa que deve escolher entre realizar um determinado procedimento cirúrgico ou uma viagem a prazer. Dependendo da condição de saúde desta pessoa, ela não terá dificuldades para decidir[1].

Dizer que a abordagem das capacidades gera uma comparação que não é mensurável, não significa dizer que a decisão se torna mais difícil, quer dizer apenas que não se trata mais de uma decisão trivial como a de avaliar qual é o maior número em uma escala. Portanto, fica claro que a abordagem das capacidades trata de julgamentos comparativos que não são, de modo algum, triviais, mas não por isso são particularmente difíceis de serem realizados.

 

[1] Conferir página 241.

 

Referências bibliográficas

DWORKIN, Andrea. Woman Hating. Nova Iorque: Plume, 1974.

 

JEFFREYS, Sheila. Beauty and Misogyny. Harmful cultural practices in the West. Londres e Nova Iorque: Editora Routledge, 2005.

 

OKIN, Susan, M. Gênero, o Público e o Privado. Revista Estudos Feministas. Florianópolis, 16(2): 440, maio-agosto (2008).

 

ROBEYNS, Ingrid. Sen’s Capability Approach and Gender Inequality. (2002) Disponível em: <file:///C:/Users/melen/Desktop/trabalho%20de%20conclusão%20da%20MARINA%20segundo%20semestre/desigualdade%20de%20genero.pdf>. Acessado em: 31/12/2017.

 

SEM, Amartya. The Idea of Justice. Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2009.

Não pensa, só vai lá e faz.

Há dois meses a minha rotina ficou tão pesada que eu parei de ir nas aulas de pole dance. Passei um mês só estudando e trabalhando. Quase pirei. Eu fiz isso por anos e anos no passado, mas de uns tempos para cá, como eu já falei com vocês, comecei a mudar muitas coisas na minha vida e hoje em dia já não saberia viver só de obrigações. Então, depois de um mês de massacre eu comecei o curso de desenho. E hoje eu fico muito feliz em dizer que voltei para o pole dance!

Sabe o que me fez sair em primeiro lugar? O horário. Com meus novos compromissos, eu só conseguiria ir na dança oito da manhã! E eu tenho aquela dificuldade para dormir.

Hoje o despertador tocou… Eu cochilei mais dez minutos… Ele tocou de novo e eu fiquei pensando… ponderando… ponderando… os prós e contras de fazer aula de dança considerando como estou sobrecarregada… eu assumiria um compromisso oito horas da manhã… e se eu não conseguir dormir direito ainda por cima…

Aí eu resolvi não ir para a aula.

Imediatamente, contudo, eu pulei da cama. Lembrei do meu marido falando: “Não pensa! Só levanta e vai!” E foi isso que eu fiz. Estavam na minha cabeça as imagens de mim zumbizando (semi-morta de sono) no trabalho, do esforço físico que teria que fazer na aula, das obrigações que eu talvez não conseguisse cumprir depois, mas eu fiquei cantando em voz alta como uma estratégias par anão me prender a nenhum desses pensamentos. Eles estavam ali pairando, mas eu não estava pensando ativamente em nenhum deles. É como quando uma pessoa babaca fica te enchendo o saco e você tem que fingir que ela não existe, sabe? Uma hora ela desiste. É assim que temos que tratar nossos pensamentos quando eles querem nos atrapalhar. Quando tem algo que você tem que fazer, que você sabe que é bom para você, seja levantar para fazer exercícios, seja se declarar para aquela pessoa que você está afim, simplesmente não pense! Só vai lá e faz. Você já está preparada, certamente já pensou o suficiente sobre o assunto, o que falta é fazer. E na hora do “vamos ver” os pensamentos, muitas vezes, nos paralisam.

Ainda sobre a ansiedade. 

Falei ontem sobre a crise de ansiedade que eu tive na terça, dia primeiro de maio.
Pois é.
Sabe o que aconteceu ontem quando eu estava terminando de escrever o texto do blog? A pilha do teclado do meu computador começou a falhar, de modo que a letra “e” e a letra “c” Não estavam funcionando. Sabe como eu terminei de escrever? Dando control c/control v nessas letras. Deu um trabalho do cão. E muitas vezes isso acontece mesmo. A gente está se recuperando da crise e já vem uma outra coisa para jogar a gente para baixo. Sabe quando você está pensando: “Caralho! E mais isso agora! Que merda! Eu já não aguento mais”. Aí vem a vida e diz: “Que isso…! Toma mais essa aqui, oh! Tá vendo como você aguenta!” Foi bem isso. E a verdade é que a gente aguenta mesmo, tem que aguentar, então é melhor mesmo não se estressar para começo de conversa. Aquele trabalho que eu tinha que fazer (um artigo que eu vou entregar amanhã)? Não deu para terminar ontem porque não dava para digitar. Hoje eu trabalhei o dia todo (no consultório). De dez da manhã até dez da noite. O que sobra? Mais uma noite sem dormir.
Conversei com alguns amigos hoje nos intervalos que eu tive. Isso sempre ajuda. Compartilhar.
De resto o que a gente pode fazer? Eu tenho lidado muito melhor com os momentos de ansiedade. Ontem eu falei de algumas estratégias, mas ao logo do dia de hoje eu fiquei pensando… Tem uma coisa muito importante que eu não mencionei no texto de. A minha vida e as coisas que eu estou fazendo têm muito sentido para mim. Eu só estou fazendo coisas que eu amo fazer, que me empolgam. Isso é fundamental. Porque se ficar estressada e ansiosa já é ruim, imagina ficar estressada e ansiosa fazendo coisas que você odeia! Nossa! Terrível! Claro que toda atividade tem partes chatas e desagradáveis, mas se isso fizer sentido na sua vida, vai ser mais tranquilo de lidar. Por exemplo, buscando atividades que me trouxessem bem-estar e felicidade, eu comecei a fazer curso de desenho. Sabe qual é a passo inicial dessa nova aprendizagem? Desenhar garrafas, cadeiras, copos, xícaras… Porra, eu quero desenhar dragões!!! Mas para chegar lá, tem treze meses de curso básico antes. Eu não sei se eu vou ficar interessada em desenho para sempre, mas, por enquanto, se eu quero desenhar os tais dragões, eu tenho que aprender a desenhar e, para isso, tenho que começar pelos objetos inanimados desinteressantes. É isso. Essa parte é chata, mas, por enquanto, faz sentido para mim.
Essa questão do sentido é essencial para a vida como um todo, na verdade, mas no caso do enfrentamento das situações difíceis ela é fundamental.

Uma crise de ansiedade.

Nesse feriado eu tive uma crise de ansiedade. Tinha muita coisa para fazer e eu entrei numa bad achando que não ia dar conta.
Momentos como esse me atrapalham de vez em quando. A todos nós, na verdade.
Mas a crise de ansiedade em si não importa muito no fim das contas. O ponto principal é a maneira como você lida com ela, as estratégias que você possui para enfrentar sua ansiedade.
Eu estava no computador trabalhando quando aconteceu, na terça a noite, mas, de fato, eu já estava me sentindo mal desde segunda. Comecei a sacudir a perna fortemente, minha respiração ficou acelerada, parecia que meu sangue estava correndo rápido e com muita força nas veias, eu sentia o corpo todo palpitar e o coração bater forte demais, um leve formigamento nas extremidades. Além disso, minha visão começou a ficar embaçada. Se eu já não estivesse bem familiarizada com os sintomas da ansiedade e não tivesse consciência de que o momento tenso que eu estava vivendo poderia muito bem causar uma crise dessas, eu certamente iria para o hospital.
Ok. Mas eu sei de todas essas coisas. Que sentir ansiedade é normal… Que determinadas situações geram ansiedade… Que ansiedade dá e passa… Claro que sentir essas coisas é muito ruim.
É aqui que a situação complica.
Muitas pessoas, quando têm crises de ansiedade, colocam estratégias disfuncionais em prática para lidar com esse sofrimento.
Algumas pessoas mergulham em preocupações intermináveis. Elas se preocupam acreditando que, desse modo, estão fazendo todo possível para lidar com uma determinada situação da melhor maneira possível. Se eu tenho um trabalho para entregar, eu vou me preocupar com ele dia e noite, enquanto eu estiver lavando louça, jantando com meu namorado, assistindo tv com a minha família, antes de ir dormir… Asssim eu penso, penso e penso na tarefa, penso tanto que vou minimizar as chances de algo dar errado quando eu finalmente sentar para fazer a tarefa. Mas eu não consigo sentar direito para fazer a tarefa. Eu já pensei tanto nele, que já estou com raiva dela, ou construí expectativas muito altas e agora estou com medo de não alcançar meus próprios padrões, ou então eu simplesmente sento para fazer o trabalho, mas subitamente outra preocupação invade a minha cabeça e tira o meu foco.
Na psicologia, isso se chama transtorno de ansiedade generalizada.
No momento da crise aparecem esses sintomas físicos que eu mencionei no início. Então, desde segunda eu estava me preocupando, terça veio a crise.
Eu já perdi as estribeiras duas vezes. Congelei na rua, em plena crise, sem conseguir sair do lugar. Da primeira vez minha mãe foi me buscar, da segunda, meu marido. Acontece.
Depois disso eu precisei parar para pensar em como lidar com essas situações no futuro. Nenhum caminho melhor para começar uma investigação acerca de nós mesmos que não no nosso passado. Comecei a pensar em tudo que eu gostava de fazer, que me acalmava, quando eu era pequena. Eu pergunto isso para os meus paciente e às vezes eles riem pensando que eram só bobagens que eles jamais fariam hoje em dia: brincar de bonecas, por exemplo. Mas, se nós tivemos uma infância relativamente tranquila e saudável, esse foi o momento em que nós precisamos de mais proteção e também o momento em que efetivamente nos sentimos mais protegidos. Por isso as estratégias da infância são, na verdade, muito eficientes. Não precisa ser só dessa época, contudo, pode ser qualquer coisa que te acalmou no passado.
Para mim: da infância, a lembrança que eu resgatei foi uma suposta memória do jardim de infância na qual eu estava fazendo bolinhas de papel crepon colando para formar um desenho. Da adolescência, dançar bem loucamente ao som de música alta. Da idade adulta, conversar.
Então, o que eu fiz na terça à noite? Bolinhas de papel crepom, dancei Nirvana pra caramba e conversei horas com meu marido. Isso foi suficiente para me trazer perspectiva e tranquilidade.
O trabalho? É para sexta e ainda não está pronto, mas eu tenho certeza de que eu vou fazer o melhor possível e que, s algo der errado, não vai ser o fim do mundo. Certamente do jeito que eu estava terça, eu ia fazer tudo cagado e ainda ia sofrer horrores durante o processo.

Vamos falar sobre tristeza e solidão na pós-graduação. 

Hoje eu pude conversar com os alunos da minha pós-graduação sobre tristeza, solidão e depressão nesse meio universitário.
Levei o assunto a uma reunião do corpo discente como proposta de pauta para a próxima reunião. Eu falei meio hesitante, achando que o assunto não ia ser bem recebido, que as pessoas iam se fechar, não iriam querer tocar nessa ferida ou acreditariam que esse não era um assunto assim tão importante.
Qual não foi a minha surpresa quando as pessoas não só se mostraram abertas para discutir o assunto, mas também super dispostas e interessadas em realizar algum tipo de ação para atacar esse problema. Na verdade, muitas pessoas admitiram passar por intenso sofrimento com o trabalho acadêmico. Não estamos sozinhos e todos os estudantes precisam saber disso!
Então, a boa notícia é que eu e os alunos interessados em participar do projeto (que podem ser de qualquer pós-graduação e universidade), iremos começar a trabalhar para promover um espaço aberto e seguro para que os estudantes falem sobre suas angústias! Se você quer participar ou conhece alguém que poderia estar interessado em participar da organização e planejamento desse projeto, peça para entrar em contato comigo!

Como eu coloco em prática o minimalismo. 

Na época em que essa filosofia do minimalismo chegou aos meus ouvidas, a idéia já estava famosinha e mal falada.
Desde o início eu ouvi dizer que o minimalismo é uma filosofia de rico, que pode se dar ao luxo de não fazer nada da vida e ficar dez anos viajando pelo mundo.
Se você for pensar no documentário do Netflix sobre o tema, eu concordo. Mas a idéia em si não é ruim. Temos que admitir.
Cara, eu tenho tanto papel em casa, mas tanto papel. Talvez se eu reciclasse esse papel todo eu teria dinheiro para ficar dez anos viajando (wow! Quem me dera. Se bobear não dá nem o valor de uma resma nova de papel resseciclado :P). Bom, é papel suficiente para bagunçar a minha casa toda semana. Papel de anotações, contas, notinhas de compras, dos meus textos e rascunhos, artigos da faculdade, livros do colégio, cadernos e mais livros. Isso tudo só na categoria dos papéis! Nem me pergunte sobre potes e meias e, pior ainda, tampas de potes perdidas e pés de meia solitários. Enfim, é muito entulho. E, por algum motivo, eu sou pegada a uma boa parte desse entulho. Por que? Nossa! Por que, meu deus?! São coisas que eu nem sei que eu tenho e que eu nunca mais vou usar na minha vida. (Pena de jogar tampa de pote fora é o cúmulo! Quando eu me peguei pensando: e se o pote aparecer? Ah! A que ponto chegamos! O que não falta na casa da gente é pote! E, convenhamos? O pote não vai reaparecer. Nunca!).
Às vezes, eu até penso que eu quero guardar uma determinada coisa como lembrança… E aí fica lá aquela lembrança que eu vejo uma vez a cada dez anos e tenho cinco minutos de felicidade olhando para ela. Sabe o que eu comecei a fazer? Tirar fotos dessas lembranças e jogá-las fora depois. 10.000 fotos em um HD ocupam menos espaço do que 10.000 convites de aniversário de crianças fofas, ou 10.000 ingressos de cinema. Assim, eu guardo uma ou outra coisa verdadeiramente muito especial (um convite do meu casamento, por exemplo) e registro as outras memórias de forma mais produtiva, versátil e acessível. Mais acessível sim, porque se você tem um convite especial, você pode até emoldurá-lo (como eu estou pensando em fazer com o convite do casamento), se você tem vinte…. Eles vão ter que ficar guardados na gaveta mesmo…
Então, não vamos dispensar a filosofia do minimalismo assim logo de cara sem nem tentar pensar em como essas idéias poderiam ser úteis em nossa vida. Sem radicalismos ela pode ser muito viável e interessante.
Eu tenho feito assim: A cada rodada de limpeza e arrumação profunda da casa eu me desfaço de mais coisas do que me desfaria normalmente, mas sem exageros e eu minimizei muito a minha aquisição de novas bugigangas (tudo que compramos sem necessidade), também sem ser a ferro e fogo. De vez em quando me permito…. Bem menos do que antigamente, contudo. Isso é bom para a harmonia da casa e para o bolso… Fica a dica.

Rotina: um mal necessário. 

Rotina é uma coisa engraçada… Ruim com ela, pior sem ela.
A minha “rotina” é muito louca. Com o consultório e as aulas, cada dia estou em um lugar diferente. Nos dias em que acordo com mais sono eu fico desnorteada, do tipo: “que dia é hoje? Para onde eu tenho que ir? Hoje é Tijuca, Vila Isabel, Botafogo, Ipanema, Barra? Consultório ou aula?” maior loucura. Fora o medo de ter esquecido de anotar algum compromisso na agenda e acabar esquecendo de cumprir alguma obrigação.
Às vezes eu fico sonhando com um emprego de escritório, todo dia, de nove às seis… Tradicionalzão… Sabe? Eu sei que seria uma merda. Eu ia começar a me sentir sufocada em menos de um mês. Prefiro a minha bagunça mesmo no fim das contas, o que não quer dizer que essa ausência de rotina seja completamente positiva. Eu ando bastante, estou sempre na rua vendo gente e tomando cafés diferentes. Por outro lado, eu gasto muito tempo me deslocando de um lado para o outro e fica difícil fazer programações de médio e longo prazo.
A gente precisa mesmo na vida de uma certa estrutura e organização. Acho que por isso mesmo eu prezo e busco sempre ter atividades extras em horários fixos, ter metas diárias. Tudo isso ajuda a criar uma rotina mínima que é muito boa para a saúde mental.

Ainda bem que não somos mais crianças. Os psicólogos do desenvolvimento vêm dizendo que a rotina é essencial para o bom desenvolvimento da criança. Dá para entender o porquê. Sua ausência afeta até os adultos, imagina o que não faz com os pequenos!

Meu marido acha que esse é uma fase que estamos vivendo. Essa vida de doutorando que trabalha de maneira autônoma. Quem sabe? O importante é que a gente tem que arranjar um jeito de não sofrer ou de sofrer menos com isso enquanto não dá para mudar. E criar, nas brechas que existem, os pilares dessa vida louca.

Cogumelo do sol e a indústria da saúde. 

Vocês se lembram do cogumelo do sol?
Há alguns anos, estava começando essa onda de usar cápsulas, chás e outros produtos, naturais ou industrializados “do bem” em prol da saúde. Eu me lembro que uma das primeiras dessas ondas foi a do cogumelo do sol. Foi uma febre. Todo mundo estava recorrendo a eles. Hoje em dia é o chá de hibisco etc.
Na época, se você não tomava o cogumelo do sol, você era um desleixado com a sua saúde. Hoje em dia, se você não enche seu dia com snacks saudáveis e chás, é a mesma coisa, “parece que você não quer ser saudável”. Ao longo dos últimos anos, esse mercado foi crescendo e a cada dia temos novidades nos produtos (naturais ou não) que dão um help na saúde.
O meu medo é com a próxima moda.
Num intervalo de aula, uma pessoa estava comendo uma maçã e um rapaz se aproximou falando: “Hm… Você come maçã? Eu não como mais isso não. Tem muito agrotóxico”.
Então o que eu estou imaginando? Começamos a onda dos produtos saudáveis emparelhando seus benefícios com os dos produtos naturais, frutas, legumes e verduras. Mas eu desconfio que esses produtos que são naturais mesmo, que você tira da terra e come, foram apenas uma bengala para a indústria da saúde. Daqui a alguns anos, você vai ser maluco se comer alimentos naturais, por conta dos agrotóxicos da contaminação do solo e da água etc. Saudável mesmo, vai ser ingerir a sua dosagem diária de cápsulas de brócolis concentrado.

Hoje é dia de comemorar!

Sabe aquele dia, no meio da semana, que você chega em casa do trabalho pensando: “Poxa, vou fazer uma comida foda aqui em casa e assistir série até dizer chega! Hoje é dia de comemorar”! E você cozinha ouvindo Beyoncé e todas as músicas que faziam sucesso na sua adolescência. Comemorar o quê, você me pergunta? A vida! Pois é. Esse dia é hoje! Recomendo. Faz muito bem!

Os pães de forma não estragam mais. 

Você reparou que o pão de forma não está mais estragando?
Antigamente acontecia o quê? Eu ia comendo o pão devagarinho, até que derrepente chegava aquele dia que eu ia pegar o pão para comer e tinha dado bolor nele. Por causa do problema de visão (já comi pão com mofo algumas vezes) eu adquiri o hábito de, chegando perto da data de validade, perguntar para o meu marido se tem mofo no pão. Já há algum tempo a resposta dele é sempre não. Aí eu vou ver a data de validade: vencido há duas semanas. Poxa, amor, tem certeza de que não tem bolor? Não.
Teve um dia que eu comprei um pão que eu não gostei muito. Sabe esses pães agora que têm doze grãos, vinte grãos, trinta grãos? Pois então, teve um que eu achei meio estranho, comi um pouco, mas quando ele já estava da metade para o final eu deixei ele lá e comprei outro. Esqueci o tal do pacote de pão lá na fruteira. Fui comendo o pão novo. Chegou um domingo a noite que me deu a maior vontade de obter um pão com ovo, mas… O pão tinha acabado! Que tristeza. Estou eu revirando a cozinha para ver o que eu ia comer, quando acho o tal pão ruim vencido há uns dois meses! Eu pensei que ele certamente estaria estragado. Abri para ver, por curiosidade (eu mesma olhei, certamente a situação ia estar tão ruim que eu ia conseguir ver o mofo sozinha, só que não). Não conseguindo verificar o estado do pão, fui perguntar ao meu marido e ele confirmou que o pão realmente não estava mofado. Cacete! O que está acontecendo?
Eu lembro que na época do ensino médio, um professor falou para fazermos o experimento de deixar uma barata frita do McDonalds e um batata fita caseira fechadas em dois potes diferentes e observar. Perceberíamos que a batata caseira ia ser completamente devorada por fungos e a do fast food ficaria intacta.
Os pães de forma aparentemente não estragam mais mesmo. Eu vou passar a separar uma fatia de cada tipo de pão que eu compro aqui em casa para ver até quando dura. Se eu achar algum pão menos alienígena eu comento com vocês.
Mas, passem a observar… De um modo geral. Depois que eu reparei essa questão do pão, eu comecei a ver que tem muita coisa durnado mais do que durava antes….