“[Ele] me contou”.

Era a este momento que eu gostaria de trazê-lo, leitor. Por isso eu o convidei para que acompanhássemos Ana desde que ela bebeu aquela última dose de cachaça na quarta-feira.

Até agora pudemos ver Ana repetir um velho padrão. Era assim que ela estava há dois anos. Quando apareceram este novo trabalho e esta nova casa as coisas prometiam melhorar. Mas foi precisamente o caminho do novo trabalho para a nova casa que, numa quarta-feira de noite, levou Ana ao encontro da dose que a trouxe aqui, num sábado, três dias depois, a este bar e aos braços deste rapaz. Bonito, é verdade, mas sua beleza não significou nada quando um amigo de Ana se aproximou para cumprimentá-la acompanhado de dois outros homens que ele apresentou a Ana. Foi pelo da esquerda que ela se apaixonou. Será que ele viu que ela estava acompanhada?

Entenda uma coisa leitor, Ana já estava apaixonada pelo homem que chegou a esquerda de seu amigo desde antes deles serem apresentados, mas não havia percebido isso ainda. Não sabia que em breve se sentiria baixa pela primeira vez na vida enquanto se pendurava em seus ombros apenhascados, que poderia recostar a cabeça em seu peito a qualquer hora do dia ou da noite, em pé ou deitada, que ela ouviria o coração dele bater. Quando ela o vira pela primeira vez em um canto, encolhido, um rapaz alto, muito alto, mais alto do que ela própria ela não tinha ainda a mínima ideia de que estaria me contando esta história no nosso primeiro aniversário de namoro e atribuindo àquela abençoada cachaça a nossa união. Mas afirma, hoje em dia, que desde o primeiro momento em que me viu, já estava apaixonada.

Entendi. É só a sua TPM.

  • Ai, amor, não estou afim hoje não.
  • Que que foi, amor? Todo dia isso agor?! Está com dor de cabeça?
  • Da onde você tirou essa ideia? Fica sempre me perguntando isso! Pelo amor de Deus, homem, me escuta para variar! Eu nunca tive uma dor de cabeça na minha vida e você sabe disso!
  • Então qual é a desculpa, amor? Por que você não quer?
  • Parece que é novidade para você. u já falei um milhão de vezes: eu estou insatisfeita com o nosso relacionamento.
  • Como assim?
  • Como assim! Eu já venho falando com você há anos que eu estou infeliz no relacionamento. Agora eu já aturei tudo que tinha para aturar e estou cada vez mais certa de que quero me separar.
  • Lá vem você de novo com isso! Já aturou tanto assim, é? Custa nada então aturar mais um dia.
  • Você está maluco?!
  • Não… Vem cá, amor, vem! Eu estava brincando! Deita aqui. Você não está de TPM não, está? Quando você fica menstruada?
  • Cara, esse é um dos nossos mais graves problemas! Sempre que eu venho dizer algo sério para você, você descarta o meu sentimento. Fica dizendo aí que eu fico assim sempre que estou para ficar menstruada.
  • Ok. Ok. me desculpe. Vem cá deita aqui. Vamos dormir então e amanhã a gente conversa.
  • Nada vai mudar nada amanhã.
  • Eu sei, amor. Ei sei.

***************

  • Ah! Eu não falei! Olha aí! Eu sabia que você estava para ficar menstruada!
  • Uhum. Ok. Tá. Toma aqui.
  • O que é isso?
  • São os papéis do divórcio.
  • Divórcio! Você está maluca?! Desequilibrada?!
  • Querido, eu estou finalmente sã.

Quem não quer gozar?

Vou copiar abaixo um extrato da minha monografia sobre a perspectiva feminista de Shulamith Firestone, considerada a mãe do feminismo radical, que publicou no início da década de 1970, o livro A Dialética do Sexo: 

 

O drama da divisão da sexualidade – em masculina e feminina – tem tristes e pesadas consequências para as mulheres. Em primeiro lugar, a autora afirma que

 

“mesmo as mulheres que parecem sexualmente ajustadas, raramente o são, na verdade. Devemos nos lembrar que uma mulher pode ter relações sexuais sem sentir nada; um homem não pode. Embora poucas mulheres, por causa da pressão exercida sobre elas para que se conformem com a sua situação, realmente repudiem seu papel sexual completamente (…), isso não significa que a maioria das mulheres se satisfaça sexualmente nas relações com os homens” (FIRESTONE, 1972, p. 58).

 

            Shulamith está afirmando que a relação sexual tende a ser menos satisfatória, na sociedade atual, para as mulheres. Além do prazer feminino ainda ser mal visto, em alguma medida, os problemas sexuais femininos, segundo a autora, causam muito menos prejuízo social do que os problemas sexuais masculinos. Isso levou, segundo Firestone (1972), muitos autores a concluir que as mulheres em geral sentem menos desejo sexual do que os homens. Mas é o patriarcalismo que repudia e nem de longe incentiva o prazer sexual feminino, enquanto aprova e incentiva o prazer sexual masculino.

 

Ok. Agora faça o seguinte experimento: tente se lembrar de clínicas ou tratamentos voltados para a melhora da saúde sexual.

Para mim, o resultado desse experimento é o seguinte: eu me lembro das propagandas do Boston Medical Group na televisão, que trata de disfunções sexuais masculinas, lembro do Viagra e lembro das revistas femininas ensinando 1000 maneiros de dar mais prazer sexual para o meu companheiro.

Existem, é claro, artigos em revistas femininas falando também como devo fazer para aumentar o meu prazer. Mas… Se você for querer a referência de uma clínica no Rio de Janeiro que trate especificamente das disfunções sexuais femininas… Aí já vai complicando. Remédio então, nem pensar. Nós somos vítimas de remédios que diminuem a libido – principalmente dos anticoncepcionais -, mas para aumentar a libido, não. Só tem o Viagra mesmo.

Sim. O anticoncepcional é maravilhoso e cumpriu importantíssima tarefa na libertação sexual da mulher, mas já dava para ter desenvolvido o masculino, não é mesmo? Ah, espera! Já existe, não é? E não foi liberado porque mesmo… hm… Putz! Lembrei! Causava efeitos parecidos com o anticoncepcional feminino… (http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/11/anticoncepcional-masculino-e-adiado-por-ter-reacoes-semelhantes-ao-feminino.html).

Isso soa estranho para você também ou só para mim?

Enfim…

Remédio não é bem uma boa solução para muito coisa, especialmente no que diz respeito à vida sexual. Só queria pontuar – retomando a questão do Viagra – que o masculino existe e o feminino ainda não existe.

Quando um homem se queixa de sua sexualidade, a sociedade permite que ele compre um comprimido barato na farmácia e/ou faça um tratamento multidisciplinar em alguma clínica para que ele tenha, supostamente, uma vivência sexual normal e satisfatória.

A mulher com queixas sexuais, quando ela pode expressá-las sem ser reprimida pelo machismo do companheiro, da família ou pela vergonha internalizada, precisa mergulhar em uma longa jornada interna de autoconhecimento e de melhoria da sua relação com o próprio corpo, desbravando o seu caminho em direção a uma vida sexual – relação com o corpo que é problemática também por consequência do machismo.

Beleza. Eu sou psicóloga. Sou a favor das longas jornadas internas, mas queremos gozar também. Relaxar e gozar. Sem esquentar a cabeça e sem maiores preocupações e esforços.

Mas os caminhos sociais para o fim dos problemas sexuais femininos ainda são imprecisos e espinhosos. Quando não rechaçados ostensivamente pela sociedade, que ainda trata o prazer sexual feminino como perigoso.

A miséria sexual feminina é extremamente invisibilizada.

Então chega desse blá blá blá de que sexo é bom para a mulher se terminar em conchinha. Conchinha é sensacional. Adoro. Mas o sexo é bom para a mulher quando termina em um intenso orgasmo.

 

 

Alguém está me batendo.

Quando eu era criança meu pai me batia e eu pensava: meu pai está me batendo.

A errada era eu que não conseguia atender a expectativa paterna. A errada era eu que brincava passada a hora de criança dormir. Errada sempre que mexia onde não devia. Errada sempre que respondia quando os adultos falavam.

Hoje em dia estou crescida e meu pai já não me bate mais com a mão.

Mas quando eu falo: Pai, ele vai tirar a cerca.
Ele pergunta: Você já viu o terreno e a cerca não está mais lá?
E eu respondo: Não, pai. Mas eu estou indo lá agora. Assim que acabarmos de ler o jornal, Marcos vai me pegar e vamos até lá ver.
Ele diz: Então amanhã quando você vir me ler o jornal você fala que a cerca foi retirada. Antes disso, fique calada e me prepara um café com queijo minas.
O médico falou que você não podia comer queijo minas, pai.
Mas toda vez isso agora! Você é médica?! Pois deixe que a respeito do queijo eu me entendo com o médico. Você faz o que eu falo!

Agora a errada sou eu que se preocupa. Errada sou eu que não virei médica, não virei advogada, não virei vidente. Virei mulher casada, mãe, cumpridora de deveres o obrigações. Do jeito que meu pai queria.

Mesmo agora que já estou criada alguém me bate. E a mão é pesada como na infância.
E eu descobri só agora, que meu pai já não aguenta o peso do jornal com o músculo fraco do braço direito que me arrancava couro com a vara, de onde vem a mão.

Eu sei agora que a mão vem carregada de infâncias partidas por Varas;
e carrinhos de arar;
e corações partidos;
e fome;
e sede;
e de sol na nuca o dia inteiro;
e de noites largado sob o sereno do campo em dia que não dava para voltar para casa do trabalho; e de promessas quebradas;
e sermões de padres;
e dores não choradas;
e de conversas desperdiçadas com cumprimentos despretensiosos.

Eu não bati essas dores nos meus filhos.

E, com tudo isso, o meu problema é que eu não sei socar parede. Não sei socar nada. Eu grito, esperneio e choro quando estou sozinha. Fora isso não sei para onde vai a minha raiva. Quando meus filhos desobedecem, quando cuido do meu pai.
Eu sozinha me sinto incapaz de dar um fim a essa corrente de ódio, porém mais incapaz eu fui de dar continuidade a ela.

Jovem sentada de frente para mim no ônibus.

A menina entrou no ônibus com um rosto jovem, mas com o corpo envolvido por pesados trajes corporativos do tipo usado pelas advogadas. Loura só da altura das orelhas até um pouco abaixo do ombro, onde encerrava o comprimento dos cabelos. Óculos bem marcados no rosto e fone de celular no ouvido.

Sentou-se no banco de frente para mim, nestes ônibus que possuem bancos uns virados de frente para os outros.

Ela desembrulhou um doce que come lentamente enquanto encara a tela do celular. De vez em quando eu levanto o olho do meu próprio celular, onde anoto sua descrição em um bloco de notas e pego ela olhando na minha direção. Vira e mexe, enquanto come o doce, chupa as bochechas magras, criando duas grandes covas em seu rosto magro.

De vez em quando ela fica um tempo com a boca aberta.

Depois ela se impacienta com o trânsito engarrafado e se põe a olhar em volta.

Ela coçou o nariz. Lá dentro do nariz, discretamente.

Depois ficou por um tempo cobrindo a boca com a mão antes de abaixá-la de modo impaciente fazendo mais uma varredura ao redor.

Nosso olhos se cruzaram pela segunda vez. Ela lambia os lábios, sorriu de leve, moveu os pés; apoiava-os ora no chão ora na barra de metal que separa nossos bancos, esbarrando no meu pé, sem intenção alguma.

Não faz mais nada a viagem inteira. Toda a ação estava no celular.

Quando eu me levanto para descer, acredito que ela não me surpreenderá mais. Eu juraria de pés juntos que ela repetiria aquelas mesmas sequências de atos (tirando o doce que não se pode comer muito para não engordar, não é mesmo?) até chegar sua hora de descer do ônibus. Uma chatice só. 

Mas me viro para checá-la uma última vez, já da escada do ônibus e a vejo com a cabeça levantada e o olhar perdido com uma expressão profunda no rosto.

Não consigo deixar de me perguntar se era o fato de ter uma pessoa ali de frente olhando para ela que a tinha impedido de meditar até aquele momento.

Alquimia da Palavra 

Hoje, eu e a minha parceira de trabalho, ministramos uma oficina de escrita criativa.

Todo o processo de trabalho foi maravilhoso.

Ela, assim como eu, começou a escrever desde novinha. Acabou deixando o sonho de ser escritora de lado na hora de tomar as “decisões sérias” da vida – especialmente a decisão pela carreira. E “escritora” não era uma opção.

Há alguns anos nós duas já estávamos quase sem conseguir respirar sem a escrita na nossa vida. Começamos, então, o trabalho como escritoras com uma incrível potência, como forma de sobrevivência.

Eu sei. Você deve estar pensando: está meio épica demais essa história.
Sim! Exato! Foi super épico. Eu comecei a virar madrugadas lendo e escrevendo, a investir uma grande quantidade de dindin e de tempo nesse processo e a passar por muitos desgastes e provações emocionais para, não só para reacomodar, mas para tornar a escrita o centro da minha vida.

Hoje nós transformamos uma parte do conhecimento que adquirimos em nossa jornada em uma oficina com o objetivo de compartilhar o que aprendemos e de aprender ainda mais com os participantes maravilhosos que recebemos!

A minha amiga e escritora Natalia Avila chegou para mim com a proposta de tema: Vamos fazer uma oficina com o tema Alquimia da Palavra, Olivia. – ela me propôs há dois meses pelo telefone – Seria legal se nós fizéssemos algo juntas!
Eu topei na hora!
Então, começamos o trabalho. Pesquisa, estudo, experimentação com as técnicas que iríamos levar, preparação do material, aluguel do espaço etc. E o nosso bebê nasceu forte e saudável.

Eis o texto de apresentação/divulgação da atividade:

*** O processo alquímico consistia na tentativa de combinar certos elementos para encontrar a fórmula maravilhosa da pedra filosofal, do elixir da vida eterna e da transmutação de metais inferiores em ouro.
Devido a essas características, a alquimia é uma metáfora perfeita para o processo de escrita no qual o escritor usa o material bruto da experiência e da linguagem para criar a obra literária. A obra literária, como resultado do processo alquímico da escrita, é algo que transcende o próprio escritor e se torna universal e enriquecidor para qualquer pessoa. ***

Falamos, a partir do tema proposto, dos quatro elementos que consideramos básicos para a escrita, apresentando técnicas que auxiliam no desenvolvimento de cada um desses aspectos. Tivemos também duas dinâmicas que nos renderam uma história muito interessante no final do dia!

Agradeço ternamente a todos que participaram dessa primeira empreitada e, para os que não puderam estar presentes eu digo:

Palma, palma, não priemos cânico! (não resistiiiiiiiii!!!!)

Teremos novas edições nos próximos meses e vocês serão informados pelo Facebook 😛

Algumas fotos! 

Como o recorte e a colagem podem ser usados na Blackout Poetry. 

Mais uma experimentação deliciosa com Blackout Poetry!

Desta vez, eu parti de um tema muito difícil para mim, sobre o qual eu queria escrever: a dificuldade de ser assertiva e de dizer não.

Escrever sobre um tema que te toca já é difícil. Encarar a folha em branco e pensar: bora, vamos escrever! Pode ser mortificador. A Blackout Poetry é uma excelente técnica para tirar a pressão dessa escrita tão dolorida.

Com esse tema em mente eu vasculhei as páginas de outros autores atrás das palavras e das frases que conversavam com o meu sintoma.

Desta vez eu não apenas destaquei algumas partes do texto e cobri outras. Eu precisei trabalhar o texto um pouco mais para encontrar a minha poesia.

Esse trabalho foi o de juntar a técnica do Blackout Poetry com recorte e colagem fazendo uma composição com duas páginas de texto de dois diferentes autores.

Assim, eu achei a poesia que expressava o tema que eu tinha em mente.

No final, eu montei um cartaz com uma composição do processo e do resultado. 

6 fotos da minha casa que me definem enquanto pessoa. 

Nossa casa costuma ter a nossa cara. Existem alguns cantinhos, alguns objetos, que dizem muito sobre nós mesmos. 

Se você não conseguir se identificar no ambiente em que vive, tem alguma coisa errada na sua vida. 

Quais são as fotos da sua casa que te definem?

As minhas são:

  1. Amo corujas! E meus amigos sabem disso. Esse são quadros que ganhei de um amigo no meu open house. 
  2. Obviamente eu preciso de um lugar para escrever (e ver Netflix, claro).
  3. E quem escreve tem que ler muito.
  4. Quem fica escrevendo, lendo e vendo Netflix para caralho precisa beber muito café.
  5. E um cigarro para inspiração. 
  6. E tem sempre aquela vergonha básica na casa de todo mundo. (Quando formos mais íntimos, eu te conto as coisas verdadeiramente cabeludas. Vamos começar com coisas leves). Eu estou sempre tentado cultivar uma plantinha, mas todas morrem…  E eu não desisto. Compro mais e mais plantas. As pessoas dizem: é só regar. Não é não! (Mas confesso que, às vezes, eu esqueço de fazer isso). Atualmente, eu as escondo quando tem visita. Meu sonho era cultivar uma pequena horta caseira. Dicas?

A tristeza na internet. 

Atualmente estão todos falando por aí que todo mundo parece feliz (ou quer aparentar estar feliz) nas redes sociais. Eu acho essa opinião muito sintomática. Numa busca rápida na internet você encontra blogs de adolescentes deprimidos, sites que incentivam as pessoas a se matarem, montagens melancólicas no youtube, posts falando sobre pessoas agredidas, desaparecidas ou mortas no Facebook.
O que acontece é que a gente quer ignorar o sofrimento, como sempre fazemos. Cria-se esse mito de que estão todos felizes nas redes sociais.
Quando surgem as baleias azuis e os treze porquês, as gente grita; NÃO! Não vamos falar sobre isso!
A gente adora reclamar que as pessoas estão fingindo felicidade, mas quando a tristeza aparece, a gente corre.