“Eu espio com os meus olhos”. Parte V.

Eu já falei com vocês do Solícito, que me importunou nos primeiros meses de faculdade.

Além dele, havia um outro menino, que me zoava como se ainda estivéssemos na quinta série: “quantos dedos têm aqui”, “que cara eu estou fazendo”, “está vendo que dedo é esse aqui levantado” e todos os outros clássicos. Mas eu só tenho a agradecer pelo sentimento que todos nós tínhamos de que havíamos amadurecido, pois o menino foi logo desencorajado pelas caras de paisagem que as pessoas ao redor faziam para as encheções de saco dele.

A faculdade de psicologia era meio, digamos que, no mínimo estranha, nos primeiros períodos para quem entra achando que vai aprender a desvendar os mistérios da mente humana nas primeiras duas horas de aula.

Logo na segunda feira do primeiro período da faculdade, passávamos o dia inteira no campus do Fundão assistindo aulas no CCS – Centro de Ciências da Saúde. Anatomia, histologia, genética e embriologia. Isso tomava o dia inteiro.

A princípio, na verdade, ir para a faculdade teria sido um grande desafio para mim, mas a minha mãe conseguiu continuar me dando carona de carro nos dias que eu tinha aula de manhã cedo. (Nas primeiras cinco vezes que ela me levou no Fundão nós nos perdemos lá dentro. Uma comédia).

Então, carona para ir para o Fundão, na volta, vinha todo mundo junto. Tranquilo nesse ponto.

Mas, enfim, essas matérias no fundão ainda exigiam bastante da minha visão, só que eu estava com tanto gás e tão empolgada, que eu copiei os cadernos dos colegas, li os textos, fiz pesquisas na internet e dei conta de passar em todas as matérias biológicas; nos períodos seguintes, ainda tivemos fisiologia I e II. Eu até que gostava dessas matérias.

Estatística foi mais complicado, porque era chato e a empolgação inicial já estava passando.

No segundo e no terceiro período fizemos estatística I e II. Ok. A princípio eu até aturei. Eu ficava dentro de sala, li O Morro dos Ventos Uivantes naquelas aulas. No terceiro lá estava eu novamente, em estatística II. Mas… Eu já estava na faculdade! Já havia sacado há muito tempo que era possível ir e vir da sala de aula sempre que desejasse. Pedi dispensa das aulas, não queria ir mais nem para assinar a chamada, o professor disse: “Você faz o que quiser, minha filha, só que tem que ter nota pra passar”. Maravilha. A nota eu consegui.

Depois disso, nunca mais tive nenhum estresse com quadro ou slide ou qualquer coisa do tipo. Às vezes até tinha, mas era algo completamente dispensável.

A maior descoberta que eu fiz nessa época, a coisa mais importante que a faculdade me trouxe, foi a intuição profunda de que eu tinha nascido para aquilo ali mesmo: estudar.

Cara… Ninguém nunca teria suspeitado que esse era um dos meus principais talentos. Gostar de estudar de um tudo. No segundo período decidi que eu ia cursar o mestrado. E ia ser um mestrado em filosofia. Tem um salto aí, certo?

Foi um caminho tortuoso, mas muito bom.

Eu entrei na psicologia para saber o que era o ser humano. Mas a resposta que a psicologia dá para essa pergunta não é das mais satisfatórias. A psicologia comporta diversas visões diferentes a respeito do que é o ser humano, quais são as suas caraterísticas principais. Bom, logo eu esbarrei com duas explicações para este problema: uma metodológica e outra ontológica.

A explicação metodológica fala do método empregado pelas ciências humanas no estudo de seus objetos. Como o ser humano não é um objeto tal qual os das ciências naturais, como os objetos da física, por exemplo, que podem ser estudados por diferentes cientistas e todos vão chegar às mesmas conclusões a respeito dele; dependendo do método que você utiliza para estudar o ser humano, você vai chegar a uma concepção diferente a seu respeito.

A explicação ontológica, contudo, foi a que me encantou. O que precisamos é descobrir a essência do ser humano e construir uma teoria psicológica a partir daí.

Segui firme e forte por esse caminho e dei a cagada de encontrar um professor da filosofia para me orientar já no meu último período de faculdade. Tive que ir para a filosofia, pois a psicologia não é muito chegada a esse tipo de estudo teórico.

Isso é importante porque, ao longo da graduação, eu peguei inúmeras matérias na filosofia, inclusive lógica. E, no início do mestrado, como eu o cursei no Programa de Pós-Graduação em Lógica e Metafísica, eu tive lógica de novo. Essas matérias dependiam do quadro e dos slides. E foi extremamente gratificante perceber que eu já não sentia nenhum enjoo ou frio na barriga ou nervoso com essa situação. Os anos já passados na faculdade e a confiança que eu havia adquirido, meu novo olhar sobre a educação, o reconhecimento de que não era eu a errada e a culpada por todos aqueles miseráveis anos escolares, enfim, depois de tudo isso, não enxergar do quadro deixou de ser um problema.

Ah, não posso deixar de mencionar um recurso tecnológico novo que também mudou a minha vida: smartfones com boas câmeras. O professor mudava o slide eu tum! Tirava foto e ficava ali com o slide na minha mão, ampliando-o o quanto fosse necessário.

Perto do final da faculdade, eu viajei sozinha para a Alemanha. O medo do problema de visão bateu novamente. (Imagina minha mãe como ficou). Eu ia fazer um curso de alemão lá e fiquei com medo de não acompanhar. E eu tinha que acompanhar por ser aluna bolsista. Ia pegar muito mal se eu não fosse bem neste curso. Eu estava nervosa de novo. Mas, por incrível que pareça, uma professora rodeada de vinte alunos do mundo inteiro conseguiu lidar melhor com a situação do que meus professores aqui no Brasil. Inclusive, nessa turma tinha um rapaz que via ainda menos do que eu! O material do curso era todo preparado com antecedência e, apesar da professora usar bastante o quadro, tudo que ela escrevia era dado para nós dois no papel e ela ia nos mostrando  onde estava conforme avançava a aula. Todas as placas de rua, monumentos e tal, eu via com a câmera do celular. O transporte também não era desafiador, pois eu só andava de trem e os ônibus eram pegos em um terminal. Pelo menos nas cidade de Freiburg e Berlin era assim, que foram as cidades que eu visitei.

De volta ao Rio de Janeiro, contudo, pegar ônibus ficou ainda mais difícil depois que os pintaram a todos de cinza.

Como as aulas da faculdade ocorriam em diversos horários, minha mãe nem sempre podia me levar. Eu sofri bastante nesse sentido e isso, infelizmente, até hoje não passou. É o inferno para o deficiente visual pegar ônibus nessa cidade.

Pedir ajuda? 1- Nem sempre tem gente no ponto, 2- às vezes eu tenho que falar com duas ou três pessoas quando o meu ônibus demora mais do que o delas, 3- tenho que ficar ouvindo mais blá, blá, blá: “cadê o óculos, hein?”, “Moça tão bonita, não tem que ficar com vergonha de usar óculos não”, “Vai pegar ônibus a essa hora? Vai para onde?”, “Sabe que faz mal forçar a vista assim, não é?”, “Cadê seu namorado para ajudar? Nessas horas é bom, não é?”, “Se você não consegue pegar ônibus, por que você não aprende a dirigir?”, “Ih… Olha o seu ônibus indo lá. Você quer que faça sinal no próximo, é isso?”. Acredite, não é fácil ser obrigada a depender da boa vontade dos outros.

Além dessas bobagens, certa vez, no ponto em frente a faculdade…

– Moço, com licença. Eu não estou conseguindo ver os números dos ônibus muito bem, o senhor pode me ajudar a pegar o 433?

– Você não enxerga não, é?

– Não eu tenho um problema de visão.

– Está conseguindo ver meu rosto?

– Assim no escuro não muito bem, não.

– Então me passa o dinheiro agora, anda!

Isso mesmo. Fui assaltada numa das vezes em que pedi ajuda. Meio traumático. Hoje em dia eu evito. Faço sinal para todos os ônibus até parar o meu. Inconvenientes: em pontos muito movimentados passam vários ônibus juntos e eu só consigo verificar um ou dois, eu fico correndo de um lado para o outro o que é bastante cansativo e demora.

Por falar em demora, certa vez eu consegui um estágio em um hospital psiquiátrico, na Gamboa. Era praticamente impossível chegar lá sozinha, eu só tinha uma opção de ônibus, que passava pouco em um ponto bastante movimentado. Quando eu não estava com um amigo que estagiava lá junto comigo ou com minha mãe, era um parto pegar aquela merda. O professor, psicanalista, usou isso e os meus questionamentos do pensamento lacaniano para me expulsar do estágio afirmando que não, eu não tinha problema com Lacan e nem com a minha visão, mas sim um problema psicológico que devia ser tratado em análise. Saí chorando de ódio da sala naquele dia, estava triste também, mas estava com mais raiva. Mais um imbecil dizendo que o meu problema era alguma neurose a ser analisada.

Hoje em dia, quando eu não posso me atrasar, eu vou de táxi. Uber eu evito pegar sozinha, porque não consigo enxergar a placa para conferir o carro. Mas na época daquele estágio eu não tinha dinheiro para isso ainda. O estágio, inclusive, não era remunerado.

Nem sempre é fácil transformar dinheiro em qualidade de vida, porque a despesa que eu teria que ter para me locomover com tranquilidade pela cidade é enorme. Se eu investir nisso, vou perder idas ao cinema ou passeios com meu marido e amigos.

Até hoje minha mãe me leva de carro a todos os lugares que é possível para ela. Além disso, eu vim morar em um apartamento que fica de frente para quatro pistas, em todas elas passam ônibus indo para diversos lugares do Rio. Também estou a vinte minutos do metrô. No caso dos ônibus, meu marido vê os números da janela do apartamento e me avisa pelo celular para que eu faça sinal. O ruim é que aqui é muito barulhento, tem bastante poluição e eu tenho medo de ficar no celular falando com ele enquanto estou no ponto. Mas eu não penso em me mudar tão cedo.

 

“De S. a K.”.

Já escrevi alguns textos no blog sobre blackout poetry. Você pode vê-los  aqui e aqui.

Pois é… Hoje eu tive um dia bem tenso e estressante e não estava me sentindo muito bem quando cheguei em casa depois de passar o dia inteiro na rua cumprindo obrigações que eu ainda não sei muito bem a qual propósito vão servir na minha vida. Quando cheguei em casa, pensei no blog e eu ainda não tinha preparado o texto de hoje. O que melhor para se fazer, depois de um dia estressante, do que passar algum tempo fazendo algo que vai te fazer se sentir bem? (Lembra do texto de ontem? Eu realmente uso aquele modelo de tabela para pensar sobre a minha vida. Com o hábito, eu já nem sempre preciso desenhá-la no papel, eu apenas mantenho-a em mente para avaliar os meus dias). Tendo isso em visto, eu pensei que o texto de hoje deveria ser especialmente terapêutico para mim.  Neste momento tive um insight! Vou cutucar a minha dissertação!

Eu sei! Não parece nada terapêutico! Mas isso é porque você ainda não fez blackout poetry na sua dissertação. Foi libertador!

Eu ainda pretendo fazer nela inteira. Hoje foi só o primeiro passo.

E eis como ficou o resumo da minha dissertação… (Orientador, caso o senhor esteja lendo isso, saiba que a blackout poetry não é desrespeitosa com o texto, pelo contrário: é uma forma potente de apropriação da escrita do autor. E deus sabe que os estudantes universitários sofrem com o sentimento de desconexão em relação ao resultado dos seus trabalhos acadêmicos. Eu ainda vou realizar uma oficina com ex-estudantes de pós-graduação só para fazer trabalhos artísticos terapêuticos com as teses e dissertações. Quem tiver interesse… inbox!).

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de s a k

“Eu espio com os meus olhos”. Parte IV.

Até a terceira série, as zoações dos colegas eram inofensivas para mim. Nada do que eu vivi até este período ficou marcado como especialmente negativo. Tinha um pouco da estranheza, eu acho, da parte das outras crianças em relação a mim, pois eu não via a bola nos jogos de queimado, não via onde caiu a pedrinha da amarelinha, não sabia dizer se o paquera da amiga era bonito ou não, não copiava do quadro, não respondia quando acenavam para mim. Mas as crianças não eram especialmente más nessa época, ou eu era mais resiliente.

O problema começou na terceira série.

Além das zoações inespecíficas, que serviam para zoar qualquer pessoa, eu comecei a sofrer com as zoações específicas e elas me magoavam demais.

Uma coisa era aquele garoto que virava para todo mundo e dizia: “Eu não sei se você tem dente ou trave de gol”. Quando todo mundo estava se xingando de “burro” e você era só mais um a ser xingado da mesma coisa a experiência é uma.

Quando você começa a ser alvo de xingamentos específicos, direcionados única e exclusivamente para você, a experiência de singularização fica mais evidente. Como consequência, eu comecei a ser vista como diferente e isso foi fazendo com que eu ficasse isolada socialmente.

“Cara de peixe morto”; “Abre o olho!”; “Quantos dedos têm aqui?” (com o dedo na minha cara); “Cegueta”; “Cega”; “Ceguinha”; e, além das falas, tinham os comportamentos. Eu geralmente fico com os olhos apertados ou olho pela parte de baixo do olho (como quem usa óculos multifocal tem que fazer), pois isso me ajuda a ver um pouco melhor. Esse gesto que eu fazia para ver melhor era imitado pelas outras crianças.

Tudo isso servi apenas para zoar a mim e a mais nenhuma outra criança.

Até eu faço gozação com o meu problema de visão. Meus amigos fazem. Se a gente não rir de si mesmo está condenado ao sofrimento. Mas ser zoado com amor pelos seus amigos é bastante diferente de ser ofendido por pessoas que afirmam te odiar.

Ainda havia aquelas crianças que, assim como alguns professores, pareciam ficar com raiva do meu problema de visão e demandavam que eu me curasse magicamente.

Por exemplo: havia crianças que não me zoavam por causa do problema de visão, mas que me chamavam de metida, porque eu não as cumprimentava quando passavam por mim. Eu explicava que não cumprimentava porque não as enxergava. Era só elas virem até mim e me cumprimentarem, ou me chamarem a atenção de alguma outra forma, que eu falaria com elas sem problema nenhum. Não era de propósito que eu as estava ignorando. Mas elas não aceitavam muito bem esta situação e ficavam irritadas comigo. Continuavam achando que eu era metida e se afastavam de mim.  

Já me perguntei muito o porquê disso. A melhor explicação que eu consegui encontrar, foi o fato da minha deficiência não ser aparente. As pessoas não conseguem entender isso muito bem: uma pessoa que sofre com um prejuízo tão grande, mas que elas não conseguem enxergar… Essas pessoas acham que eu estou de palhaçada ou de má vontade.

O fato é, eu fui um tipo de criança que já teria sofrido bullying de qualquer forma. O problema de visão só fez com que as coisas ficassem um pouco mais difíceis. Até porque, além do bullying, eu passei por uma série de outras dificuldades.

O incrível é que, mesmo no meio de tudo isso eu consegui encontrar as minhas melhores amigas.

Minhas amigas sempre fizeram tudo que podiam para que eu conseguisse acompanhar as aulas. Desde ir me falando e explicando baixinho tudo que o professor falava, até me ajudar a copiar a matéria que havia sido dada para o meu caderno na hora do recreio. Pensamos de tudo ao longo dos anos. O papel carbono foi uma das nossas melhores descobertas, apesar de ele não permitir que a minha amiga escrevesse dos dois lados da página do caderno dela porque borrava a minha cópia. Então, o prejuízo que os pais delas tinham com caderno era minha culpa.

Elas me ajudaram lendo os menus dos restaurantes, me ajudaram falando quais meninos eram meu tipo e quais não, me ajudaram a atravessar ruas, a pegar ônibus, a não morrer atropelada.

As amizades daquela época fizeram com que as tristezas vividas no sofrimento das chacotas, estejam agora, nas minhas lembranças, permeadas por todas os lados das maiores alegrias e aventuras que a infância pode comportar.

Não vou mentir. Tem uma barra que a deficiência impõe que você vai carregar sozinho e ninguém tem como sentir ou saber como é. Essa solidão não é exclusiva, mas é particular. Cada um tem o seu calo que faz com que só essa pessoa saiba como é andar nos próprios sapatos. A deficiência é assim também. Mas você nunca precisa estar solitário, mesmo quando estiver absolutamente sozinho no seu sofrimento. Não é porque as pessoas não entendem ou não sabem como é sentir o que você está sentindo, que elas não querem estar junto de você para te dar apoio.

 

“Eu espio com os meus olhos”. Parte III.

Muito interessante o fato da redação do ENEM ter pedido que os alunos falassem sobre os desafios da educação dos surdos no Brasil justamente quando eu resolvi começar a versar sobre os desafios da educação dos deficientes visuais. Parece que combinamos.

Estas são questões que estão na vigésima ordem do dia, nas quais ninguém presta atenção. Tenho até que agradecer pelo tema da redação do ENEM, pois ela me ajudou a clarear o meu propósito com este relato autobiográfico, que é fazer com que vocês conheçam pelo menos um pouquinho mais desse universo dos desafios da educação de deficientes físicos no Brasil.

Dando prosseguimento ao relato…

 

Depois da quinta série, eu virei uma aluna rebelde.

Muito complicado acompanhar as aulas do jeito que as coisas andavam. Vivi mais do mesmo por muitos anos.

No ensino médio, um professor substituo entrou em sala, mandou todo mundo calar a boca e escreveu algumas questões no quadro. Depois que ele terminou de escrever no quadro ele olhou bem para a minha cara e perguntou: “Você não vai copiar não”? Eu disse: “Não”. Rebelde, claro. Podia ter começado logo a me desculpar e a explicar em voz alta, na frente da turma inteira, o meu problema de visão pela milésima vez. Mas não. Fiquei calada e fui expulsa de sala. Foi um escândalo depois. Porque o professor ficou sabendo que eu era deficiente e tal. Passou a me tratar como um bibelô (ele foi efetivado pouco tempo depois).

O fato é que eu desisti. Mesmo. No início do ano sempre achava que tudo seria diferente, me esforçava. Logo eu perdia o fio da meada e só ia me esforçar de novo lá no final do ano para não acabar sendo reprovada.

Eu nunca fui reprovada. Esse foi um fato que sempre me chamou a atenção. Não sei até hoje se era o conselho de classe que acabava optando por me dar os pontinhos necessários na prova final para que eu passasse de ano. Por outro lado, eu realmente usava todas as minhas forças para correr atrás no fim do ano.

Certa vez, um rapaz que não gostava de mim, porque estava a fim de pegar uma amiga minha, me prometeu aulas de física. No dia em que eu fui à casa dele ter a tal aula, ele não atendia o portão de jeito nenhum. Eu toquei e toquei a campainha, gritei e gritei o nome dele e nada. Daí eu liguei para um amigo dele que era a fim de me pegar e pedi para ele ir me encontrar na casa desse garoto que me daria aulas. Quando o menino que gostava de mim chegou, eu pedi que ele chamasse pelo sujeito que me daria aulas e, adivinha só! O sujeito apareceu (eu havia ficado o tempo todo na frente da casa do cara. Sem chance de ele ter chegado enquanto eu esperava meu admirador para me socorrer). Eu engoli qualquer orgulho que eu pudesse ter, se é que um dia me foi possível desenvolver orgulho no que diz respeito a pedir esse tipo de ajuda, mesmo com o cara obviamente não estando com vontade de cumprir o que havíamos combinado, e fiquei lá umas cinco horas estudando na casa do dito-cujo.

Falo desse tipo de determinação. Eu pedia a quem quer que fosse que me ensinasse a matéria no fim do ano. Ali, no ambiente questionável da casa de um garoto que não gostava de mim, mas que, surpreendentemente, era mais propício para a minha aprendizagem do que a escola.

Devo reconhecer o mérito de alguns professores, contudo.

O professor Hermes, que meu deu aulas no GPI da Rua Ibituruna, na Tijuca é um deles.

Hermes sempre fazia desenhos lindos de células no quadro que eu dava uma olhadinha de perto quando a aula acabava. Os desenhos eram tão caprichados que até me deixavam curiosa e eu prestava mais atenção nas aulas. Certo dia, Hermes parou para conversar comigo, ainda no início do ano, para entender a minha situação. A partir deste dia, ele passou a trazer de casa, desenhado em uma folha de papel, o que ele ia desenhar no quadro. Então eu já tinha o “caderno”, com os comentários e legendas do professor durante a explicação. Foi perfeito. Lembro até hoje do fato de que as mitocôndrias são responsáveis pela respiração celular. Pude aprender biologia até este professor ter sido transferido da nossa unidade.

Outra professora que merece destaque, era a professora Ângela de química. Também do mesmo GPI.

Ao saber do meu problema de visão ela fez um interrogatório comigo perguntando como havia sido a minha carreira escolar e eu contei a ela tudo que contei a vocês nos últimos textos. Sabe onde ela encontrou esperança? Na técnica de colocar a minha carteira mais próxima do quadro. Mas ela deu uma reeditada legal nesta técnica. No lugar de colocar só a minha carteira para frente, ela puxou toda a primeira fileira junto comigo. Juro para vocês que alguns alunos nem notaram que estavam se sentando mais próximos do quadro. Além disso, tinha o problema do meu deslocamento que ela resolveu escrevendo apenas na parte do quadro que ficava imediatamente na minha frente. Ela escrevia, explicava, apagava, explicava de novo. Teve ainda uma outra novidade. Ela levou giz de todas as cores e fez testes comigo para ver se havia alguma cor que me ajudava a ver melhor. E tinha. A professora Ângela passou o ano inteiro escrevendo a matéria com giz rosa na parte do quadro que ficava imediatamente diante da minha carteira e eu copiei do quadro o ano inteiro.

Isso encerra os highlights da minha vida escolar, até o segundo ano do ensino médio, no que diz respeito ao relacionamento com os professores e com o conteúdo das matérias. No próximo texto, quero finalmente tentar falar sobre os aspectos sociais que ocorriam em paralelo ao longo desse tempo.

“Eu espio com os meus olhos”. Parte II.

Meu problema de visão começou a causar transtornos na minha vida escolar no CA.

Na Classe de Alfabetização, começamos a ter que copiar coisas no quadro e foi aí que as coisas começaram a ficar difíceis para mim.

O que fazer com uma criança que não enxerga o quadro se a sua metodologia de ensino é quase inteiramente voltada para esse tipo de exposição do conteúdo? A solução da professora foi colar a minha carteira no quadro para que eu pudesse ver e copiar o que estava escrito. Essa solução falhava em dois pontos: em primeiro lugar, mesmo com a carteira colada no quadro eu só consegui enxergar o que estava escrito da metade do quadro para baixo. Lá no alto eu continuava sem conseguir enxergar. Pois bem, a professora escrevia apenas da metade do quadro para baixo. Em segundo lugar, eu só conseguia ver o que estava imediatamente na minha frente. Os quadros das escolas costumam ser grandinhos. Os professores dividem os quadros em duas ou três partes normalmente. Pois então, eu só conseguia ver a parte que estava imediatamente na minha frente. Esse problema tinha uma solução bastante tragicômica. Quando eu acabava de copiar uma parte do quadro, a professora arrastava a minha carteira e me colocava de frente para a próxima parte que eu deveria copiar.

Essa solução não foi viável por muito tempo. Na verdade, tinha um terceiro problema com ela: a segregação que eu comecei a experimentar por ficar tão exposta na frente das outras crianças.

Então, na primeira série, essa técnica foi abandonada (haja braço também da professora, ela nem me esperava levantar para arrastar a carteira).

Idas e vindas ao oftalmologista, certo dia um deles me receitou um monóculo. Uma espécie de binóculo, mas para um olho só. A ideia era que eu o usasse para copiar do quadro. Dois problemas surgiram novamente.

O primeiro problema foi o fato do monóculo ter feito o maior sucesso! Quando eu o tirava da bolsa todas as crianças queriam usá-lo. Eu, envaidecida e cega pela fama e a atenção, emprestava-o sempre. O negócio rodava a sala inteira e, quando voltava para mim, o quadro já tinha sido apagado. Mesmo quando a novidade passou, contudo, o monóculo causava alguns transtornos. O tempo que eu demorava para copiar com ele era muito maior do que o tempo que se leva normalmente para copiar do quadro. Era muito cansativo e pouco prático usar aquele negócio. Eu acabava perdendo a explicação porque ainda estava terminando de copiar; a professora mandava eu parar e copiar depois e não dava tempo, enfim. Ajudava, mas não era perfeito.

Na época do monóculo eu estava na segunda série. Nesse tempo, o problema de visão me causava ainda apenas transtornos sociais. As notas mesmo eram altas nessa época.

Foi na mudança da quinta série que o bicho começou a pegar.

Muitos professores, para começar. Cada um tinha uma postura diferente quando a minha deficiência visual.

Alguns cagavam, outros pegavam alguma criança e a obrigavam a sentar comigo e me ajudar a copiar a matéria, outros acreditavam que eu simplesmente não queria nada com a vida e não era deficiente porra nenhuma, era fresca mesmo.

Veja bem, isso é um problema bizarro que vem com o fato de você ter uma deficiência que não é aparente. Eu sou só um pouco estranha, eu aperto o olho quando estou olhando para alguma coisa. Só isso. Aminha deficiência é meio invisível. Então, muitas pessoas com quem cruzei ao longo da vida simplesmente não acreditavam que eu era deficiente.

Abandonando a cronologia por um momento, eu gostaria de dar alguns exemplos disso que acabei de dizer.

Certa vez uma professora, depois que eu saí da sala para o intervalo, fez o seguinte comentário: “Essa aí, eu aposto que se conversasse menos enxergava mais”. É o tipo de comentário que você faz quando acha que a outra pessoa está de palhaçada. Eu já estava no ensino médio quando isso aconteceu. Meus amigos me contaram o que a professora tinha dito e eu fui falar com a psicopedagoga sobre a situação. Foi ridículo o que aconteceu depois que eu reclamei.

A psicopedagoga foi na sala de aula fazer um discurso horroroso de que nós temos que ajudar os desfavorecidos, necessitados, sei lá. Que eu precisava da ajuda e da compreensão de todos.

Ok. O problema não é pedir ajuda. Ajuda é o que eu pedi a vida inteira. O problema é a posição de inferioridade e incapacidade na qual as pessoas colocam frequentemente os deficientes. Você sente que os outros estão com pena de você. E nem eu nem ninguém precisa desse tipo de sentimento. Qual foi o resultado? Por um dia eu fui tratada que nem uma rainha. Teve gente que fez duas cópias do quadro e entregou uma para mim e me explicaram a matéria timtim por timtim; todo mundo me chamando para sentar junto. No dia seguinte, tudo voltou ao normal e ninguém mais tinha disposição para me ajudar e eu continuava deficiente.

Teve uma outra ocasião que ficou bem marcante para mim. Aconteceu já na faculdade de psicologia. Um menino da minha turma veio falar comigo algumas vezes sobre o problema de visão, vamos chamá-lo de Solícito. Não sei se Solícito falava sério ou se estava zoando mesmo, mas Solícito me perguntava se eu fazia análise, pois o meu problema de visão poderia ser um sintoma histérico. Problemas psicológicos são reais e podem ser extremamente debilitantes, levando até mesmo à morte, mas eu dizia a Solícito que este não era o caso. Exames físicos demonstravam o problema e tal, expliquei tudinho a ele. Mas Solícito parecia querer insistir em dizer que eu não estava curada porque eu não tinha corrido atrás. Não havia feito o trabalho psicológico necessário. Numa outra ocasião, Solícito veio me falar para meditar. “Muitas pessoas encontram a cura na meditação”. Meditar com a intensão de aliviar o estresse, dormir melhor, ajuda mesmo. Pouco. Mas ajuda sim. A visão fica mais embaçada quando estamos estressados e cansados. Solícito não sabe que, às vezes, quando você quer ajudar uma pessoa, você tem que pedir licença e perguntar se a sua ajuda é bem-vinda. Ou melhor, você deve perguntar o que você pode fazer para ajudar o outro e fazer o que foi pedido se for algo possível para você no momento. Eu não tenho que ficar aturando alguém vir me dizer um milhão de coisas que eu tenho que fazer para me curar. Tinham outras coisas, algumas bastante estapafúrdias, que Solícito achava que eu deveria fazer. Como a vez em que ele ficou sabendo de um filósofo do século XVII chamado Hume que havia escrito um texto sobre a visão. Solícito veio me sugerir ler este texto, pois poderia ter alguma coisa de útil para mim ali, se eu não o lesse, poderia estar perdendo a oportunidade da cura.

Solícito e o da professora incomodam, pois são pessoas que tornam levianas as dificuldades que eu enfrento: é só falar menos, é só meditar. Não! Não é só nada. É foda. E já tem um milhão de coisas que eu faço para lidar com isso. Eu me cuido. Não preciso das pessoas ao redor assumindo coisas a respeito da minha condição e me dizendo o que devo fazer. Sou eu que estou “andando nesses sapatos” há anos.

Bom, como eu ia dizendo, lá atrás, na quinta série, já existiam essas figuras que achavam que eu estava mentindo. Esses professores brigavam comigo para que eu copiasse do quadro.

Eu com a caneta e o papel na mão, o quadro a dois metros de distância e, ainda assim, um abismo intransponível entre os meus olhos e as letrinhas embebidas em conhecimento que o professor escrevera no quadro. Ainda assim, uma voz alucinante dizia: pula! Vai! Está esperando o que? Quem você quer ser na vida desse jeito?

Esses eram os professores que chegaram a reabilitar aquela metodologia antiga do CA, lembra? Na quinta série eu voltei a ficar destaca do resto da turma, uma fileira à frente de onde as outras carteiras estavam posicionadas, tendo que me arrastar ao longo do quadro. No CA, eu ficava nessa posição do início ao fim do dia escolar. Na quinta série começou uma confusão só.

Quando o professor descrente saía de sala, entrava algum outro professor que me agrupava com alguma criança para que esta pudesse me ajudar. Na época, isso significava ver o caderno da criança depois que ela terminava de copiar. Sim, depois, porque, enquanto uma pessoa está copiando eu também não consigo ver. Para enxergar de livros ou cadernos, eu tenho que ficar com o rosto a uma distância de mais ou menos dez centímetros do papel. Ninguém conseguia copiar com a minha cabeça no meio do caminho.

Aí vinha o terceiro professor. Esse já não tolerava conversas. E eu conversava com a pessoa que estava me ajudando. Conversávamos sobre a matéria: “Olha, foi esse X aqui que o professor apontou. Agora ele está falando desse Y aqui. Ele trouxe aquele X para cá”. A criança que me ajudava também narrando a aula para mim e ia apontando no caderno para que eu acompanhasse.

Ninguém está dizendo que é santo aqui. Claro que eu conversava sobre a vida também, mas assim faziam todas as outras crianças. Bom, mas o professor que acabou de entrar em sala não gostava. Então, eu era separada novamente da amiga. E fico eu olhando para o teto pelos próximos cinquenta minutos.

Esse clima insano da quinta série me tirou dos eixos. Some a isso tudo que eu já descrevi o fato das matérias terem se complexificado, o que me levou à recuperação de umas três matérias, no mínimo, eu já não me lembro mais quantas exatamente.  

Eu comecei a considerar a escola um ambiente extremamente hostil. Olha que estamos ainda na quinta série e eu ainda não falei das consequências do problema de visão para a socialização com as outras crianças.

“Eu espio com os meus olhos”. Parte I.

“A capacidade que as pessoas possuem de transformar dinheiro em qualidade de vida é bastante variável.”
Me surpreendi quando li essa afirmação, outro dia, no texto do economista, vencedor do prêmio Nobel em 1988, Amartya Sen.
Parei para refletir sobre a minha própria condição. Não foi surpreendente quando, algumas páginas depois, Amartya Sen afirmou que os deficientes estão entre as pessoas que possuem maior dificuldade em realizar esta conversão.
Quando você não tem dinheiro, não tem como converter dinheiro em qualidade de vida. Óbvio. E isso é uma merda, todos concordamos.
A questão é que quando você tem dinheiro, mas possui algum tipo de deficiência, pode não ser tão fácil assim converter qualquer quantia que seja em qualidade de vida. Lembra d’Os Intocáveis? Mais ou menos isso: cara podre de rico, mas miserável. O dinheiro dele não garantia uma vida boa.
Digo eu, com argumento de autoridade, enquanto deficiente visual, habitando o Rio de Janeiro.
Tem muitas coisas que eu gostaria de compartilhar a respeito das minhas experiências com o meu problema de visão que eu vou desmembrar em alguns textos.
Começarei hoje pelas apresentações: minha deficiência visual nem é das piores. Eu tenho uma má formação no nervo ótico. Mais especificamente, uma desmielinização do nervo ótico. Isso quer dizer que eu tenho falhas na bainha de mielina que reveste este nervo. Isso faz com que o impulso elétrico se dissipe ao longo do percurso até o cérebro, o que torna a minha visão deficiente. Esta má formação é bilateral, quer dizer que afeta os dois olhos. Esse é um problema congênito e estável – eu nasci com ele e não vai piorar nem melhorar. Além disso, estou com um pouquinho mais de sete graus de miopia em cada vista e tem um astigmatismozinho aí também. Então, eu uso óculos, por causa da miopia, mas eu não consigo me adaptar porque o óculos briga com o problema no nervo ótico.
Pensa assim: imagina que você tem um canudo cheio de furinhos. Dá até para beber, mas vem muito pouco líquido. Aí você começa a chupar com força. Beleza, vem mais líquido. Mas em dois minutos você está exausto. Eu uso óculos e melhora um pouco. Não o suficiente para aturar a dor de cabeça que sinto ao usá-lo por muito tempo.
Tenho 20% da visão com a correção máxima, isto é, com o óculos. No dia a dia, não faz muita diferença a qualidade de visão que ele me proporciona.
O nome é visão sud-normal, você pode falar baixa visão que dá no mesmo.
Perspectiva de cura? Cirurgia com célula tronco com o objetivo de reconstruir a bainha de mielina. Ainda não existe previsão para que este tipo de cirurgia esteja disponível como tratamento viável e acessível.
Adaptação? Estou eu aqui, não estou?
Mas… quando eu digo para vocês que eu brincava de inventar figuras em provas de matemática (veja aqui), não era simplesmente porque eu era uma aluna “relaxada” (o que também não seria mal algum, vamos problematizar esse ideia aí depois. Mas o caso é que se uma criança gosta de estudar isso é um mero acaso, não é a escola que incentiva essa postura). O fato é que eu nunca consegui enxergar o quadro. Isso tornava matemática uma matéria especialmente complicada. Matérias exatas de um modo geral, na verdade, e biologia também, pois os professores usavam demais o quadro.
Cara, se a escola já é insuportável quando você consegue, estando a fim, aprender alguma coisa, acompanhar a aula, imagina ficar horas e horas morrendo de sono, sem poder falar com seu amigo, que está do seu lado, olhando o professor apontar coisas no quadro, sendo que você não consegue nem ver que tem alguma coisa escrita no quadro. Imaginou? Agora imagine-se fazendo isso durante doze anos. Foi foda. Tirando os inúmeros babados que rolavam…

Síndrome do Impostor.

Vem cá e pensa comigo: críticas dos professores, comentários familiares destrutivos, os foras que levávamos dos amigos. O que sobra da nossa autoconfiança depois desse massacre?

Algumas pessoas aprendem bem demais essa lição de que são erradas de alguma maneira, de que deveriam ser melhores do que são, de que não são merecedoras. Essas pessoas podem vir a sofrer da Síndrome do Impostor.

Trata-se de uma síndrome psicológica que os especialistas dizem atingir pessoas que obtiveram sucesso na vida. É muito comum em pós-graduandos e em mulheres que ocupam altos postos em seus locais de trabalho.

A síndrome é caracterizada pela crença de que as vitórias alcançadas foram fruto da sorte ou do mero acaso e de que, em algum momento, a pessoa será desmascarada e todos verão que ela era uma farsa desde o início e jamais deveria ter chegado no lugar em que chegou.

Ficamos sempre preocupados antes de uma avaliação antecipando fracasso, nas apresentações que fazemos pedimos cinco mil desculpas por esquecermos algo ou estarmos falando mal, mas é que… hm… é… Estamos muito nervosos. Quando nossos amigos nos elogiam afirmamos que tivemos sorte, se for nosso companheiro a nos elogiar ficamos com vergonha e abaixamos a cabeça, se for o chefe/orientador… Bom, seu chefe/orientador nem vai te elogiar, não é? Você não merece. Não estudou o suficiente, não cumpriu com todas as obrigações do modo que deveria.

Se você fracassar… aí é outra história. Afinal, o seu fracasso já estava há muito anunciado, não é verdade? Espantoso o fato de ter demorado tanto tempo para que você fosse desmascarada!

“Sinto que vou fracassar a todo momento. Se escapei de fracassar algumas vezes foi por mero acaso. Se me dei efetivamente bem em outras ocasiões, tive sorte. Se fracassei, tive o que mereci”.

Para tentar lidar com essa insegurança o medo constante de ser descoberto; a culpa por estar fazendo uma “autopropaganda enganosa”; iludindo as pessoas, fingindo que é inteligente quando, na verdade, você é burro; recorre-se às mais diversas estratégias.

Durante algum tempo é possível nos esforçamos tanto, tanto! Até não aguentarmos mais, para ter uma chance mínima de não passar vergonha em uma avaliação qualquer de nossas capacidades intelectuais. Em outro momento, procrastinamos. Empurramos tudo com a barriga até não dar mais. Pelo menos assim, se fracassarmos, sabemos que não demos o nosso melhor. Autossabotagem: melhor amiga. Melhor forma de nos protegermos de ir atrás do que desejamos já confiantes de que vai dar tudo errado. Uma oportunidade para uma autodepreciaçãozinha leve também não deixamos passar.

Mas em uma coisa temos que nos obrigar a ter confiança: é possível vencer esta síndrome. E quando eu descobrir como eu te conto!

Brincadeira.

Eu estou lutando com a síndrome e vou compartilhando com vocês as minhas experiências!

 

“Quem limpa a casa espera visita”.

Este texto contém linguagem inapropriada para menores de 18 anos.

 

Ok. Terça-feira. Dia normal, certo?

Não!

Lembra aquele sábio menino que falou que se ter sucesso na academia significa se tornar um especialista em ideias das quais você discorda é melhor fracassar mesmo? (Se não, você pode ler o texto aqui). Pois então, estou amando este menino!

Portanto já sabemos quem: o tal do menino.

Chego eu na faculdade, então, o é a sala do Programa de Pós-Graduação em Lógica e Metafísica da UFRJ.

A situação: alunos e professora reunidos para dar início ao Seminário sobre o Conceito de Igualdade.

O que aconteceu? O menino entrou na sala, cumprimentou os colegas e se direcionou para a cadeira que costumava ocupar. Puxou-a para trás, mas se deteve antes de se sentar e disse: “Olha isso aqui. Vocês estão vendo? Eu não vou sentar aqui não! Vai saber se é merda!”

A reação de todos ao redor: “Como assim? Merda tipo cocô? Porque teria uma mancha de cocô na cadeira?”

“Sei lá! Quase só tem homem aqui. Vocês não estão sabendo não? Tem homem que não limpa a bunda. Eles dizem que quem é homem mesmo o que, na cabeça deles, quer dizer machão, babaca, heterossexual, não enfia nada no meio das nádegas! Nem papel higiênica depois de cagar, nem água ou sabão na hora de tomar banho. Eles não passam a mão no próprio cú. Vocês não viram isso na internet não? Estão dizendo que ‘quem limpa a casa vai receber visita’. Aí fica andando por aí com o cú todo cagado, cheio de merda, dando carimbada nos bancos.”

 

Cara, eu tenho que confessar para você que eu tive dificuldade de acreditar nele. Me escangalhei de rir, mas quase não acreditei. Pensei com meus botões: “não é possível. Claro que todo mundo se limpa depois de ir ao banheiro”.

De qualquer modo, fiquei com um certo enjoo moral depois que parei para pensar melhor no que é um cú que nunca vê um papel, água ou sabão.

Vocês já leram o livro 120 Dias de Sodoma, do Marquês de Sade? Tem um personagem neste livro que não lava a bunda.

 

O Presidente de Curval era o decano da sociedade. Com quase sessenta anos e singularmente gasto pela devassidão, mais parecia um esqueleto. Era alto, seco e magro, com olhos fundos e baços, uma boca lívida e malsã, o queixo elevado, o nariz comprido. Coberto de pelos como um sátiro, suas costas, mais lembravam uma tábua e suas nádegas moles e caídas, cuja pele murcha por tantas chicotadas podia ser torcida com os dedos sem que ele nada sentisse, pareciam dois esfregões sujos flutuando no alto de suas coxas. No meio dessas, sem que fosse preciso apertá-las, oferecia-se um imenso orifício cujo diâmetro enorme, cheiro e cor, lembrava mais uma coacla do que um olho do cú; e, para coroar tais atrativos, constava dos hábitos pessoais desse porco de Sodoma deixar sempre essa parte num tal estado de imundice, que se podia ver a todo instante uma crosta de duas polegadas de espessura em volta.

 

Muito difícil ler este livro até o final. É, de fato, uma experiência pavorosa. Eu frequentemente ficava fisicamente transtornada quando o lia.

Chegando em casa, fui pesquisar para saber se o menino não estava ficando maluco. Mas maluco é o ser humano e, de fato, existe por aí esse papo sim de que “homem que é home” não limpa a bunda. Não vamos nos alarmar! Eu achei muita coisa em inglês falando sobre esse modo de vida, mas pouca em português.

O que me surpreendeu mais foi que, na minha busca pelos cús cagados do mundo eu encontrei foram pintos sujos.

Acabei descobrindo que o Ministério da Saúde em que gastar um bocado de dinheiro para fazer campanhas e programas de educação direcionadas para homens ensinando-os a lavarem os próprios paus. Aparentemente eles não apenas dão uma sacudida depois de fazer xixi, tem homem que acha que dar essa sacudidinha equivale a uma boa lavagem das partes. Por conta disso, muitos homens acabam tendo de problemas de saúde por conta da insalubridade de sua região íntima.

Voltamos ao infame Marquês que continua assim a descrição de seu personagem.

 

O Presidente era circuncidado, de modo que a cabeça de seu pau nunca estava coberta, disposição que facilita muito o gozo e à qual todas as pessoas voluptuosas deviriam submeter-se. Mas se tal procedimento sói manter esta parte mais limpa, não era o caso de Curval, uma vez que, tão sujo nessa parte como na outra, essa cabeça descoberta, já naturalmente muito grosso, ganhava, pelo menos uma polegada de circunferência.

 

(Referência das citações em negrito – Sade, Marquês. Os 120 Dias de Sodoma: ou a escola da libertinagem. Tradução de Alain François. São Paulo: Editora Iluminuras, 2008. Conferir página 26 e seguintes.)

Terapia boa pra cachorro.

Todo mundo sabe que os animais são ótimos terapeutas. Eu só não imaginava que eles eram tão bons assim. Mas vê só isso que uma amiga me contou de uma conversa que ela teve com uma mulher aleatória. 
Minha amiga perguntou – Mas e aí, o que aconteceu?
E a mulher respondeu – Menina, ela falou assim para mim: vai lá na quarta gaveta e olha lá, na quarta gaveta de cima para baixo, que você vai ver a prova do que eu estou te falando.
– E o que tinha lá na gaveta?
– Não, não tinha nada na gaveta, mas esse não é o ponto!
– Como assim esse não é o ponto? Não tinha nada na gaveta?
– Não. Mas o que aconteceu foi que eu olhei na gaveta e aquilo me fez um mal que eu tava pensando em me jogar da janela.
– Que isso!
– Pois é! Mas, graças a Deus, o cachorro me impediu. Não me deixou me jogar, não.
– O cachorro?
– É! O cachorro da vizinha! Você precisa de ver! Um amor de bicho. Sabe quando o bicho é mais humano do que muita gente por aí? Então, é o cachorro da minha vizinha.
– Aí foi ele que te salvou?
– Uhum!
– Você tem que ver! Agora toda vez que eu estou chegando no meu apartamento ele fica assim atrás da porta, oh!, abanando o rabo e latindo. Pena que eu não posso ver ele não porque essa vizinha é uma velha chata e não abre a porta, mas eu sei que ele está lá porque eu sinto como ele fica, tadinho. Eu sinto muito essas coisas, sabia? Que nem naquele dia da festa, se lembra? Que o Maurício estava e eu vi na cara dele naquele dia que ele ia ser demitido. Eu não falei com ele antes, né, porque eu não gosto de brincar de Deus, mas eu já sabia.

Depois desse relato louco eu cheguei em casa pensando que eu só queria ter perguntado como o cachorro da vizinha impediu a tal mulher de se jogar da janela. Eu quero esse cachorro para ser meu terapeuta.

Conversas universitárias. Ou: sobre o sucesso na academia.

As palavras de hoje são roubadas das conversas fenomenais que nós temos na vida cotidiana.

Eis como o diálogo transcorreu:

– Você viu aquele cartaz que tem ali?

– Não.

– Um absurdo isso. Você já ouviu falar em X (não me lembro nenhum dos nomes que ele mencionou).

– Fala o que é só para eu ter certeza de que não sei.

– Hm… sabe Y?

– Definitivamente não.

– E Z?

– Nunca ouvi falar.

– Enfim, é uma ideologia babaca, bizarra de direita! Eu não sei como tem um cartaz disso aqui.

– É… Estamos vivendo um momento estranho… Deixa eu te perguntar, você já fez a apresentação do seu texto?

– Não. Eu tive que faltar. Tive que resolver umas questões no banco que requeriam o CPF do meu pai, só que ele andou morrendo ultimamente.

– Oi? Quê?! Seu pai morreu recentemente?

– Sim. Há dois meses.

– Sinto muito…

– Ok. A vida é assim, a gente não sabe se vai estar vivo amanhã. Tem que relaxar mesmo. O meu pai se preocupou demais a vida inteira e não cuidou do que realmente importava. Ele só pensava em dinheiro. Por isso que quando eu já estava muito velho para ficar em casa sendo sustentado e a minha família começou a reclamar eu vim fazer filosofia.

– Para ficar rico, não é?

– Exatamente. Eu só quero ter dinheiro suficiente para poder largar isso tudo aqui e montar um movimento de luta com os índios da região Centro-Oeste. E mais nada.

– Muito bom esse seu propósito.

– Só quero isso mesmo e mais nada.

– Entendi. Legal. Pois é. Eu te perguntei se você tinha feito a sua apresentação porque a minha é hoje e eu estou tensa para caralho, apesar de eu ter entrado nessa também ultimamente de pegar mais leve com as coisas e entender que o que quer aconteça, vai ficar tudo bem.

– Que isso! Não fica tensa não. Vai entrar nessa por qual motivo? O máximo que a gente pode esperar da vida é mediocridade e insignificância mesmo. Então você vai se estressar? Para quê?! O sucesso, dentro da academia, é se tornar um super especialista em ideias das quais você discorda! É até melhor fracassar mesmo. E ainda tem sabe o quê? A academia gosta disso aí que você está falando. A academia goza em manter os alunos ociosos e ansiosos. Eles não querem que você trabalhe porque, se não, o seu estudo não vai ser de qualidade, e eles exigem tanto de você, porra, você acaba quebrando! Tudo para quê? Para supostamente alcançar o sucesso, que, não se engane, vai ser sempre insuficiente e tendencioso.

– Poxa, valeu. Fiquei de boas agora. Estou tranquila. Vamos lá.

– Claro.