Trimesversário do blog!

Chegamos.

3 meses de postagens diárias!

 

Então vamos tomar um vinho, a gente junta a turma e compartilha nossos insights a respeito da jornada. Eis o que eu quero compartilhar com vocês do que eu vivi e aprendi ao longo do caminho:

 

1-      Você não precisa esperar data nenhuma para colocar seus planos em prática. Eu comecei no dia 13 de setembro de 2017. Não era ano novo, nem o meu aniversário, nem segunda-feira. Agora é a data do aniversário do meu blog. A hora de começar é a hora que você decide começar. (Falei sobre isso no primeiro post dessa jornada).

2-      Tentativas anteriores fracassadas não condenam você ao fracasso eterno. Eu já havia tentado outras vezes manter uma rotina de publicação. Minha meta original era postar uma vez por semana. Aparentemente mais fácil, só que não (falei sobre isso também). Além disso, criar este blog não foi nem a minha primeira tentativa de tornar a minha escrita pública.

3-      Atrelada ao ponto anterior, tem uma questão inquietante. Por que tornar a escrita pública? Afinal, escrever no blog todo dia é um meio ou um fim? Eu deixei de tentar responder a esta pergunta. Resolvi simplificar as coisas: escrever é bom. Eu queria que fosse um ato público. Ponto final. Não estou preocupada em justificar meus desejos nem para mim mesma no momento. Se alguma coisa mudar, eu aviso.

4-      Em termos práticos: ter metas claras ajuda muito. A primeira coisa que eu fiz quando tomei a decisão de que começaria a escrever no blog, foi fazer um planejamento que resumia as “regras” da brincadeira (que você pode ver aqui).

5-      Conseguir medir meu avanço também é muito legal. Ver a cada dia um post novo me ajuda a ver que eu estou efetivamente fazendo alguma coisa. Então eu sugiro que, se você se colocar alguma meta, arranje uma maneira de medir o seu progresso. Tome cuidado apenas se a sua meta for emagrecimento. A maneira de medir provavelmente não vai ser a balança. Se este for o seu caso, seja criativo. Uma ideia: tire fotos das suas refeições, ou registre o que você come em um caderno. Assim a sua nova forma de alimentação vai ser mais palpável e visível para você de alguma forma.

6-      Comemorar o avanço é indispensável. Eu comemorei os menores textos deste blog (veja só que minúsculo!). Todo dia fiquei feliz por ter conseguido escrever e postar. E, nas datas comemorativas – primeira semana, primeiro mês e agora, o terceiro mês –, eu faço uma comemoração respeitável: comer fora, sair para beber, ir ao cinema, comprar um livro novo de presente para mim mesma…Nenhuma vitória é pequena demais para ser comemorada. Muitas vezes acreditamos que se não movemos uma montanha ou matamos um leão, não fizemos nada de extraordinário. Pare de pensar assim! Se parabenize por levantar da cama todo dia com vontade de viver! (Se você não está sentindo muita vontade de viver ultimamente, se parabenize por estar lendo isso; quer dizer que você está lutando de alguma forma e isso é extraordinário. O próximo passo é conversar com alguém e pedir ajuda! Você acha que eu estou cumprindo a meta de escrever todo dia nesse blog sozinha? Há! Você não ouve meu marido aqui em casa gritando: Já postou o texto? Já é quase meia noite! Quer que eu revise? A gente não faz nada sozinho nesta vida. Tem gente que costuma dizer que nós estamos essencialmente sozinhos, porque todos morremos sozinhos. Eu não acho que isso é verdade. A gente morre com todas as pessoas que amamos no coração. Isso não é estar sozinho).

7-      Eu também percebi que as áreas da nossa vida são muito mais conectadas do que imaginamos. Escrever no blog fez de mim uma pessoa mais confiante (o que me conseguiu recentemente um novo emprego – veja só!) e mais condescendente comigo mesma. Condescendência aqui é uma coisa boa. Eu me martirizava muito quando achava que não… movia uma montanha ou matava um leão, como falei anteriormente. Mas aceitar nossas limitações e imperfeições e olhar para elas de modo acolhedor e não recriminador nos ajuda a crescer. A gente tende a acreditar que só vamos melhorar se formos rigorosos e não aceitarmos fracassos ou imperfeições. Sabe o “tough love”? Pois é. Como estratégia de longo prazo ele destrói nossa autoestima e a nossa capacidade de acreditarmos em nós mesmos. Com esse novo olhar eu comecei a olhar meus erros e imperfeições (inclusive os do passado) com um novo olhar. Claro, eu me senti, ao mesmo tempo, mais capaz de realizar as coisas que eu quero e mais pé no chão para aceitar o meu tempo e reconhecer meus limites. Não reconhecer os próprios limites é como tentar avançar e acabar preso em uma rede invisível. Todos nós temos limites, quando nós os ignoramos, eles nos prendem e nós não somos capazes de entender o que estar acontecendo. É apenas quando reconhecemos estes limites, quando enxergamos as redes e os nós que estão nos prendendo, que podemos ir desfazendo-os aos poucos.

8-      Ter tempo é uma questão de escolha. O problema que enfrentamos quando sentimos que não temos tempo é o de estarmos perdidos no meio de um monte de atividades que não nos satisfazem e fazem com que nos sintamos incompletos e infelizes. Desista do que te faz mal e comece a insistir no que te faz bem. Preste muita atenção, contudo! Não comece a se auto-sabotar. Se tudo que você ama é caro, ou longe, ou fora do seu alcance de alguma forma, você está se auto-sabotando.  Te aconselho a se esforçar mais para sair deste ciclo de crenças negativas a respeito da sua felicidade. A psicologia tem mostrado para nós que a felicidade pode ser encontrada na apreciação e na gratidão pelas pequenas coisas presentes no nosso dia a dia. Comece daí e vá buscando a sua paixão.

9-      Confie no que você sente. Se tem alguma coisa te parece estranha é porque, provavelmente, está estranha mesmo. Do que eu estou falando? Das coisas que você resolve fazer com o seu tempo. Quando você encontra alguma coisa que te faz bem você fica feliz sempre que você tem oportunidade de fazer essa coisa. Assim é escrever para mim, por exemplo. Não importa o dia ou a hora, escrever sempre é bom. Tendo ou não algo para dizer. Com a leitura é a mesma coisa. Eu ainda tenho a dança também. São atividade que sempre, sempre, sempre me fazem me sentir bem. Pintar, por exemplo, não é a mesma coisa. É uma atividade que eu gosto de realizar, mas às vezes me faz me sentir bem, ás vezes me deixa frustrada. Se eu resolvesse insistir nisso seriamente, seria um pouquinho estranho e sofrido para mim. Eu sentiria constantemente que estou produzindo insatisfatoriamente. Não quero dizer com isso que meus textos sempre são fodões, só que eu sempre me sinto bem com a atividade de escrita. Qual é a questão aqui? Tem muita gente que insiste e vive uma vida baseada naquilo que não lhe cai tão bem assim, sem ter a atividade que lhe revigora e dá prazer e energia. Procure aquilo que faz você se sentir do jeito que eu me sinto quando escrevo.

10-    Faça, antes de não fazer. É simples, na verdade. A gente costuma ficar na dúvida: faço ou não faço? Se te faz bem: faça. Não se esqueça de tudo que eu falei acima: condescendência, pé no chão. Então, não faça escalada free solo sem preparo, comece pelas aulas de escalada, mas comece.

11-    Não se importe com o que os outros vão pensar de você. Eu ainda tenho medo do blog afetar minha vida negativamente de alguma maneira. É muita exposição. É isso que vivemos ouvindo, pelo menos. Que não devemos nos expor na internet, que se expor na internet é perigoso. Essas coisas entram na nossa cabeça e colam como chiclete no cabelo. Um saco. Estamos sempre cercados de medos e restrições. Todos temos que romper essas barreiras para sair de casa todo dia e fazer alguma coisa das nossas vidas. Todos os dias, quando escrevo, tenho que vencer essa voz que fica repetindo na minha cabeça que, de algum modo, o que eu escrevo pode acabar sendo usado contra mim algum dia. Não vou mentir dizendo que eu não tenho um filtro aqui na minha cabeça bem poderoso que mede os temas e as palavras que são escritas em todos os textos públicos. Não quero dizer com isso que não existem temas absolutamente particulares. Essas coisas não precisam nem ser filtradas, pois elas não fazem pressão para sair. Eu digo das coisas que eu sinto vontade de dizer, mas seguro. Virar um “artista maldito” ainda é um medo que assombra minha carreira literária. Isso tem um pouco a ver com a nossa cultura da felicidade. Demonstrar as partes obscuras da natureza humana é sempre um pecado e um escândalo.

12-    Entenda-me, não se importar com o que os outros vão pensar de você é uma afirmação que se refere aos babacas que vão te jogar para baixo. Porque é importante procurar a validação e o apoio daqueles que te amam. Se, por algum motivo, esta validade não vier, tenha paciência e não desista. Sabe aquele ditado: sempre tem um chinelo velho para um pé cansado? Esse ditado é muito verdadeiro. No mundo literário tem uma adaptação: para cada livro tem um leitor. Se você insistir por tempo suficiente, vai achar a sua turma.

13-    Faça até se sentir satisfeito. Ou seja, abuse do que te faz bem. Felicidade não tem contraindicação.

14-    Mire alto. A gente chega a ter medo de sonhar alto! Gente, sonhar é de graça e é tudo liberado. O limite é a sua capacidade imaginativa. O sonho é o primeiro passo da meta.

15-    Nem todo mundo vai gostar de tudo que você faz. Essa é do tipo: aceita que dói menos. Só vou acrescentar uma coisa… Normalmente aconselham a gente a largar para lá essas pessoas que não gostam de nós. Ignorá-las. Eu penso um pouco diferente. Eu acho que a gente tem potencial para amar a todas as pessoas na face da terra e ser amado de volta por todos. (Eu sei, eu sei, sou idealista até o meu último fio de cabelo, é verdade). Mas isso não vai acontecer na nossa geração. Então, eu não te sugiro dar uma de Jesus Cristo e amar o inimigo ou a oferecer a outra face, eu te aconselho a tentar entender o porquê do ódio que o amiguinho tem de você como um exercício de humanidade e uma lição contra o ódio e o preconceito. Simplesmente ignorar o coleguinha não te ajuda em nada a evoluir como pessoa, nem mesmo evita que você sinta raiva na maioria das vezes. O exercício empático faz você mergulhar na emoção e tentar desvendar os seus mistérios. Mas também, se você quiser, manda aquela indireta no face mesmo, deus sabe quantas vezes eu já quis fazer isso!

16-    Em muitos dias eu não tinha ideia a respeito do quê ia escrever. Devem ter uns 100 textos esboçados espalhados em todos os tipos de papéis por todos os cantos da minha casa e no bloco de notas do celular. Ou seja, olhando pelo lado positivo, eu que estava escrevendo pouco e estava sem uma rotina de escrita, escrevi muito mais do que estipulei na meta. Eu a superei em alguns sentidos. Não me importa que sejam textos inacabados, textos que eu vou jogar fora ou que eu nunca vou achar de novo aqui no meio dessa bagunça. São textos escritos e todo texto escrito é melhor do que um texto não escrito.

17-    Saiba quando parar um pouco. Não se deixe arrastar pelo trator do desenvolvimento pessoal. Isso não quer dizer que você não deve mirar alto ou sempre tentar melhorar. Mas, não importa quanto esforço você faça, você vai morrer imperfeito. Tenha certeza disso. Então, não fique esperando um estágio futuro de desenvolvimento pessoal ou profissional ou qualquer outra forma de desenvolvimento que estiver na moda para aproveitar a vida. Se refestele em cada degrau do caminho.

 

Eu não sei se foi só isso mesmo que eu aprendi ou se tem mais coisa. Eu não sei se eu verdadeiramente aprendi todas essas coisas. Eu só sei que, por hoje, eu estou feliz.

Rumo a um ano de postagens diárias!

Você prefere morrer de frio ou de calor?

As sensações térmicas corporais são coisas muito estranhas.
Parece que, pelo menos o meu corpo, não tem memória térmica nenhuma.
Quando eu estou com frio eu fico pensando: “ah, meu deus! Que coisa horrível deve ser morrer congelada. Suas extremidades ficam roxas e dormentes e, se bobear, quebram que nem copo que escorrega da mão enquanto a gente lava louça”!
Nesses momentos, me bate aquele desejo do sol forte de quarenta e cinco graus do Rio de Janeiro na minha testa.
Então, eu saio de algum lugar gelado (recentemente eu passei isso no cinema. Fiquei lá congelando durante o filme e não via a hora de ir para a rua) e vem aquele bafo quente na minha cara, mas, nos primeiros instantes, eu ainda estou tipo: “ah! Que delícia! Eu não sei como eu cheguei a pensar que eu odiava o calor”!
Ok. Só que aí eu ando dois minutos no sol e já estou suada, fedendo, morrendo de sede e me lamentando: “como deve ser algo tenebroso morrer de calor! Você morre fedido, suado, com a garganta seca de sede (infecção urinária no meu caso, porque quando eu fico sem beber água, ela ataca). Que horror! Mil vezes morrer de frio. Dizem que vai só dando sono e você morre em paz”.
Ou seja, minha vida no Rio de Janeiro é uma montanha russa de sentimentos em relação à temperatura.
Seria maravilhoso se o corpo não tivesse problema de memória: “poxa… Eu acabei de passar o maior sufoco… Duas horas nesse frio do caralho. Vou aproveitar aqui agora duas horinhas no sol tranquilo…. De boa… Sem começar a exalar fluidos e odores desagradáveis”.

Professora!

Hoje eu me senti realizada gravando esse vídeo :

Isso mesmo, gravei um vídeo. Ok. A novidade maior é a de que eu vou ser professora. O vídeo foi apenas um plus

(Mas, vocês sabiam que antes de pensar em ter um blog, eu queria ser youtuber! Pois é! Sem dúvida, eu sou escritora, mas o Blog costuma ser tão mal falado pelo “escritores de verdade”, que eu não tinha pensado em fazer um. Tinha medo de me queimar. E quando os youtubers começaram a fazer sucesso, me deu uma vontade imensa de gravar vídeos. Eu ia amar. Acho ótimo ficar falando besteira na internet. Ma isso é assunto para outro texto. O importante é que esse vídeo que eu gravei hoje mexeu comigo e foi muito gratificante).

No ano passado, eu iniciei uma pós-graduação em TCC (Terapia Cognitivo-Comportamenal), que estou em vias de finalizar.
Para minha grande surpresa – e felicidade – surgiu a oportunidade de dar aula na instituição Cpaf/Psi+, que eu recebi de braços abertos.
Comecei a participar, então, do programa de formação de professores da instituição.
Minha primeira aula será no sábado que vem, dia 16/12/2017, na formação em TCC.
Mesmo que esse treinamento já esteja rolando há um tempo, só hoje, com este vídeo (que vai ser publicado na rede social da instituição) e a proximidade da primeira aula, as coisas estão parecendo mais concretas para mim.
Estou muito feliz e esperançosa em relação ao futuro (e com muitas idéias fervilhando na cabeça)!
Já está na hora de elaborar minhas metas e meu planejamento para 2018! 

Agora sim eu estou sentindo que coisas novas e boas se aproximam!

Como tornar o estudo mais suportável. 

Por mais que eu não goste, tem dias que não dá para escapar. Eu ainda não cheguei ao ponto de conseguir ter todas as minhas tarefas prontas com antecedência.
Eu já sou bem menos procrastinadora. Vou cumprindo as obrigações aos pouquinhos, mas, geralmente um dia antes da entrega, eu ainda tenho que fazer aquele estirão de trabalho.
Nessas horas eu sempre lanço mão de dois recursos muito úteis para tornar o momento mais agradável: estudar fora de casa e a companhia dos amigos.
Estudar em casa é maravilhoso quando eu estou com um tempo mais folgado. Posso passar dias em casa no seguinte ritmo: estudo uma hora, assisto um episódio de série, estudo mais uma hora, outro episódio. Rendo muito assim. Geralmente são oito ou dez horas de estudo tranquilo. Com intervalos para relaxar. São dias bastante agradáveis estes. Quando o prazo está mais apertado, não rola ficar nessa molezinha. Aí eu prefiro sair de casa. Vou para uma biblioteca (não é minha primeira opção, mas é legal), um café ou para a faculdade.
Minha opção preferida é o café. Se for um café em uma livraria, melhor ainda. Num lugar como esses, dá para segurar a onda de mais horas de estudos sem intervalo.
Chamar os amigos que estão precisando estudar também é uma boa pedida. É mais tranquilo se foder quando o outro do seu lado tá se fudendo também. Brincadeira. Então, falando sério, é muito mais gostoso estudar com um amigo estudando ali do seu lado. A companhia faz muita diferença. Torna o clima mais leve. Vocês não precisam nem estar estudando a mesma coisa. O que vale é estar perto um do outro. A empatia e o consolo da companhia é que importa. (Fora que dá pra trocar dois dedinhos de prosa nos intervalinhos, não é).
Ah! E claro, tem o café!
Ficar trancado um dia inteiro num quarto sozinho estudando é algo enlouquecedor. Eu sei que muitas vezes é isso que a academia diz que você tem que fazer. Não acredite nisso nem por um segundo.

Adeus.

Não tem um jeito fácil, nem bom de falar sobre isso. O próprio motivo desse texto existir vem de uma profunda incapacidade de processar os sentimentos dessa situação.
Eu lembro que antes da gente se mudar, eu estava tão triste durante boa parte dos dias e teve um específico que eu tava em casa… E eu digo casa porque é isso que esse lugar vai sempre ser pra mim: minha primeira casa, meu primeiro lar, por vontade própria pelo menos. Só hoje eu entendo a importância que isso teve pra mim. Enfim, teve esse dia que eu tava nessa minha primeira casa e ela chegou. Eu não lembro direito o estado de espírito em que eu estava antes, mas assim que eu a vi eu soube que eu precisava abraçá-la. E quando eu a abracei eu comecei a chorar, e chorar muito, muito mesmo, de não conseguir falar direito, quase como choro agora escrevendo essas palavras, como talvez chore também quando ler em voz alta e talvez também algumas vezes antes e depois disso.
Chorando eu comecei a lembrar e a falar do tanto que a gente viveu em quase cinco anos morando juntos, dividindo esses menos que 40 metros quadrados. Lembrei, como lembro agora também, desde antes da gente começar a morar aqui, de quando vim aqui com alguns amigos encher cano de pvc com argamassa pra se proteger nos atos. Antes disso ainda, eu lembro do clima ruim que ficou com a mãe dela quando a gente foi comprar piso novo, ou alguma outra coisa na Leroy Merlin do lado do Norte shopping e na hora de colocar no porta mala, esquecemos a tampa da mala que fica atrás do banco no estacionamento. Lembrei do clima ruim que ficou com a minha mãe quando a gente se mudou daqui. Lembrei de quando a gente botou internet aqui, de quando botou o ar condicionado que só ficou aqui um ano e foi embora junto com a gente, da parede de dry Wall com o qual a gente conviveu pouco tempo também e que só pagamos metade até hoje. Lembro de comprar os pufes, também antes de vir pra cá na Praça Dois. A gente tinha visto eles juntos antes e ela tinha dito que tinha gostado. Eu os comprei pra fazer uma surpresa. Uma das poucas e primeiras coisas que eu comprei sozinho para a nossa casa. Lembro de como a casa foi enxendo de coisas, de livros, de roupas, de mais livros, de tralhas de todo o tipo, de uma estante maior pra botar mais livros.
Lembro de quando a gente prendeu o suporte na TV na parede com a ajuda dos amigos e ela ficou meio tortinha, como ficou também na nossa nova casa. Lembro da feijoada que a gente fez e do 7 a 1 que vimos juntos, com muitos amigos.
Lembro muito também das vezes que alguém dormiu aqui, um amigo mais vezes que todo mundo.
Das conversas, das noites viradas de estudo, fazendo relatório ou tentando fazer 100 questões de termodinâmica. De tomar cerveja no bar, inclusive no dia que a gente foi atacado no ato e depois foi no hospital tirar raio X. Lembro das reuniões políticas, das vezes que os amigos passavam aqui pra estudar e acabavam só tirando um cochilo antes de ir pra casa, da vez que um casal de amigos passou aqui antes de ir num show na Lapa, conheceram um outro amigo que ja estava aqui e ainda me apresentaram o estranho desenho do Steven Universo.
Lembro do senhor pigarro e do seu gosto musical impecável, lembro da senhora do churrasquinho e das noites que ela garantiu nossa janta, lembro de ter conhecido um dos melhores self-services do mundo, lembro do stress com uma tal pizzaria e de tantas vezes que o chuveiro queimou, até a vez que o apartamento quase pegou fogo.
Lembro das nossas brigas, dos nossos choros, desse choro de agora que eu vou lembrar pra sempre. Das nossas declarações de amor, das nossas risadas, das vezes que a gente fez sexo pela casa, inclusive no banheiro quando tinha gente dormindo aqui.
Lembro da gente planejando o casamento, fazendo todo aquele brigadeiro… Lembro da gente escrevendo os nossos votos no dia anterior. Lembro de mim, me arrumando no dia do casamento. Das palavras de amigos tão queridos que ajudaram esse dia a ser tão especial.
Lembro da gente comendo coração de frango com banana à milanesa e vendo TV. Meu Deus… quanta TV a gente assistiu, quantos filmes e séries, todos os cigarros que fumamos, todos os livros que lemos e de eu ter terminado de ler em voz alta para ela o livro do Harry Potter e as Insígnias da Morte um dia antes da gente se mudar, da primeira e única vez que tivemos uma certa experiência psicodélica juntos.
Lembro de quando começamos a jogar Pokemon Go e do primeiro Dragonite que pegamos juntos numa rua bem aqui do lado. De ir na Biblioteca Parque aos sábados.
Tanta coisa. E eu me pergunto agora “pra onde vai tudo isso?”, da mesma forma que eu me perguntei nesse dia antes da mudança. Pensando nisso tudo que a gente viveu, nas pessoas que passaram por aqui, que fazem parte das nossas vidas, que é só um lugar, eu não consigo pensar numa resposta que consiga fechar esse buraco dentro do peito.
A gente aprende que o tempo não volta para trás e que os bens materiais não importam tanto, mas eu não entendo porque nada disso parece consolar nessa hora. Talvez porque cada tijolo dessa casa, da Pantera, ajudou a gente a fazer desse pequeno apartamento um lar perfeito, tão cheio de amor, amizade, risos, choros. E foi tudo tão real, com tanta força e tanta intensidade. Eu não sei pra onde vai tudo isso agora, mas eu espero que cada um siga carregando as lembranças que tem desse lugar e que isso sirva para alegrar os dias tristes que possam vir e fazer lembrar que mesmo os tijolos sendo diferentes, sempre teremos um lugar pra se encontrar e reviver nossos amores e amizades dentro dos nossos corações.
Eu agradeço a todos pelas lembrança maravilhosas e a você, meu amor, eu agradeço mais ainda por todo o apoio e presença na minha vida. Por ter tornado possível essa experiência de conhecer e ter vivido nesse lugar. De todas as pessoas do mundo, nenhuma teria sido a melhor pra ter compartilhado esses anos e essas experiências na minha vida. Houve muito amor nessa casa e você é a maior razão disso.
A você, apê, se eu acreditasse que você pudesse me entender ou sequer me ouvir, eu diria que eu nunca vou me esquecer de tudo que eu vivi aqui com as pessoas que eu mais amo nesse mundo, vou me lembrar sempre de você ter sido um teto tão confortável e aconchegante. Quem sabe um dia a gente se encontre novamente, mas até lá eu só tenho mais uma palavra pra dizer: “Obrigado”.

Simplício Simplório da Simplicidade Simples. 

O simples também está aí para ser aproveitado, usado e abusado.
Principalmente se você é uma pessoa ansiosa, nada parece simples para você. Você se preocupa com os resultados, imagina tudo que pode dar errado em um situação e justifica a sua preocupação com argumentos irrefutáveis.
É uma das batalhas que estou travando com o Blog e com a vida ultimamente. Eu me esqueço constantemente do simples no trabalho, no relacionamento amoroso, e até nas amizades.

Hoje aproveitei para simplificar a postagem no Blog. 

Conforme o tempo foi passando (e já estou chegando a três meses de postagens diárias. Uhu!), eu produzi algumas coisas mais rebuscadas e profundas.
Mas nem todo dia é dia de mergulhar nas profundezas do ser.
Não precisa ser sempre desta maneira. E está tudo bem.
O simples também existe e é ótimo! Ele tem a sua função de acalmar e de deixar as coisas leves e descomplicadas.
Estou feliz com o simples por hoje.
Não se esqueça, você também, do simples na sua vida.

Concurseiros.

Éramos um grupo seleto que faria, em poucos dias, a prova para professor substituto de psicologia da UFRJ.

Era exigência da seleção que todos os candidatos estivessem perfeitamente saudáveis. Eu tive que comprar um pacote de adesivos de nicotina para mim.

Quando chegou o dia da prova, descobri que a avaliação consistia em criar uma obra de arte sob o olhar avaliador severo de um psiquiatra.

Comecei a cumprimentar os demais participantes, quando notei um deles sendo levado para uma sala afastada. Era o orientador que o puxava pelo colarinho enquanto ele chorava silenciosamente e bebia de uma garrafa de cachaça.

– O que é que está acontecendo ali? – perguntei. – Para onde o estão levando?

– Então, o problema dele está nos dentes, então vão ter de arrancá-los antes da prova.

No minuto seguinte começaram os gritos. Gritos roucos, que eram rapidamente abafados pelo som de alguma aparelhagem de dentista. Os barulhos dos aparelhos eram altos, barulhos de brocas e sons metálicos, pinças, ganchos e espátulas para raspar as cavidades abertas dos dentes retirados. Em seguida o silêncio. Provavelmente o momento da costura das carnes abertas. O choro virou um leve, mas constante ressonar trêmulo, aflito, resignado, mas enraivecido.

O orientador desponta da câmara de tortura, encharcado de sangue, para resolver alguns problemas burocráticos. Eu achei melhor ir ver como o candidato estava. Quem pensa em competição nessas horas?  

Entrei vagarosamente na sala e lá estava ele com um fio grosso de sangue escorrendo como baba do canto da boca. Não era possível nem mesmo saber o que ele estava vestindo. Naquele momento ele poderia estar nu, que só se veria o sangue cobrindo seu corpo. Estava sentado em uma carteira comum de estudante, ao lado dele, a mesa do professor com os instrumentos de dentista.

Fui chegando perto dele, que fez sinal para que lhe passasse a bebida estendendo a mão na direção da garrafa e grunhindo. Bebeu de um gole o líquido que havia restado e se levantou de maneira estranha, ao mesmo tempo cambaleante, mas passando a impressão de estar seguramente decidido de alguma coisa. Demorei a entender, tentei ajuda-lo a ficar de pé, mas ele se inclinou na direção da mesa da tortura. Tive um insight gelado que percorreu meu corpo como um calafrio.

Saí correndo da sala. Tentei puxar o orientador dele, que ria e batia papo com outros adjuntos, para alertá-lo do que estava para acontecer. Ele se desvencilhou e me censurou por qualquer motivo, eu já não estava mais prestando atenção. Eu olhava em volta e começava a incitar o resto dos candidatos a saírem do prédio. O meu orientador, surpreendentemente, nos acompanhou.

Quando o candidato saiu da sala, ainda cambaleando, carimbando as paredes ao redor de sangue cada vez que se apoiava nelas e se lançava na direção do seu próprio orientador, eu reparei que este me olhou e eu gritei já do lado de fora do prédio:

– Eu ia te avisar que ele estava indo te matar!

O tempo que o orientador levou para me direcionar um olhar de incredulidade foi fatal. Num último impulso o rapaz havia se jogado contra o orientado e enfiado em sua garganta uma broca de dentista.

Todos começaram a gritar e correr para todos os lados, mas uma voz foi ficando cada vez mais clara no meu ouvido.

– Acorda, vamos lá, acorda, amor. Você acabou dormindo, mas está na hora de voltar a estudar. A prova já está chegando. Falta só mais um pouco.

 

Pequeno manifesto pela arte independente.

Hoje foi dia de aquarela, escrita criativa, teatro, comida boa e bonita e muita literatura.

Ser um artista independente não é fácil. Ser um artista independente e um empreendedor é mais complicado ainda. Dominar a arte criativa e a arte burocrática da administração de uma empresa de sucesso é para poucos. Certamente é o caso da idealizadora da Sonhos de Bolso, Natalia Ávila

Eu estou feliz por ser uma modesta parte deste projeto e posso dizer que tudo é feito com muito amor e muita garra. Meter as caras e fazer o projeto acontecer exige esforço e dedicação.

Eu participo do projeto ministrando, junto com a Natalia, a oficina “Alquimia da Palavra”.

Nesta oficina, debatemos os elementos fundamentais da escrita e técnicas de criação de narrativas e personagens. Tudo num mix de teoria e prática.

Este texto não é só de propaganda, não. Se acalme. Eu sei que propaganda costuma deixar a gente irritado. Apesar de vivermos num sistema capitalista; sim, quem dera o artista se alimentasse da sua arte não só emocional e espiritualmente, mas também fisicamente. Por enquanto, não tem jeito. Se você se enfurece com isso, lute pelo fim do sistema no qual vivemos e não contra o cara que quer te vender o que produz de coração.

Nossa, meu pensamento foi longe.

Sabe aquele rapaz que vende poesia na porta do CCBB? Falo assim, com essa intimidade, porque ele sempre está lá. Antes eu também não comprava os textos dele, não. Hoje em dia, eu entendo e vejo o valor nesse tipo de iniciativa.

A gente pode até reclamar dos preços dos livros que estão lá nas estantes das grandes livrarias, mas acabam sendo eles que a gente compra. A gente tem muita dificuldade em valorizar o que está próximo de nós. Preferimos os autores que não conhecemos, os artistas inacessíveis que acenam para nós da varanda do Copacabana Palace.

Isso não quer dizer que você tem que engolir tudo que a arte independente produz. Você aprecia o que fizer sentido para você. Se o cara não for bom para você, esquece. O problema é que a gente tem um certo preconceito em validar a arte de alguém desconhecido, que não tem já uma fama consolidada. A gente precisa da validação do capital – traduzido na fama ou na chancela de alguém que tem poder – para poder dizer que gosta também daquele produto.

Eu gosto da tal “inclusão digital” enquanto muitos a odeiam.

Aí a galera reclama que tem muita besteira na internet porque todo mundo faz o que quer. Faz mesmo! E que bom. Sem a internet, antes da internet, se você parar para pensar, você vai perceber, tinha muita coisa ruim também e as pessoas também faziam o que queriam. Mas… O grupo de pessoas que faziam coisas ruins e produziam o que queriam era muito seleto, porque até para isso, era necessário status e dinheiro. Hoje em dia, mesmo que você não tenha status ou dinheiro, você pode fazer o que você quer.

Pense comigo: Na Idade Média, tinha muita gente ruim fazendo um monte de merda, estas pessoas eram os homens da nobreza ou do clero. Na Antiguidade tinha um monte de gente ruim fazendo merda, eram os cidadãos romanos (homens, nascidos em Roma, que eram pais de família). Atualmente essas pessoas que possuem status, dinheiro ou fama, ainda estão por aí fazendo merda: atores famosos, deputados, presidentes, senadores. A diferença é que agora eles são obrigados a dividir o palco comigo, com o seu vizinho e por aí vai.

A produção da merda é generalizada. Não importa que seja merda, tudo que se torna mais democrático é positivo (vou arriscar essa frase agora e vou pensar mais sobre isso depois).

Ah, seria bom se não fizessem tanta merda por aí; conteúdo merda, comentário merda. Concordo plenamente. Mas é melhor que todos possam falar do que a existência de um monopólio dos locais de fala.

A discussão da Terra plana, por exemplo. Que merda! Mas, de boa, como que você foi convencido de que a Terra não é plana? Você já circulou ao redor do globo? Foi ao espaço? A gente é educado para acreditar nas “fontes confiáveis”. E é bom que isso exista. As fontes confiáveis conferem estabilidade à nossa vida. Mas se você procurar no google formas de provar que a Terra é plana, pode ser que você se surpreenda. Eu me surpreendi muito quando eu percebi que eu nunca tinha me perguntado isso antes. Foi ouvir na escola: “A Terra é redonda”, que eu anotei e nunca mais pensei nisso. Essa história toda é ainda mais absurda se você considerar que, alguns anos depois, eu ouvi, na mesma escola, que a Terra não era redonda! Ela é meio oval, sei lá. Mano, que viagem. Eu precisei da galera da Terra plana para perceber a bizarrice dessa situação. A própria escola te oferece duas versões diferentes da mesma história, mas, como a escola monopoliza a nossa educação, a gente aceita e vai embora. Aí vem a internet, com a galera falando merda por aí, e você questiona verdades elementares da sua existência. Então, eu não acredito que a Terra seja plana, eu acredito que ela seja elíptica, mas eu acredito nisso com muito mais propriedade do que antes e um senso crítico muito maior.  

Se você tem contato com um mar de opiniões diferentes, ainda que elas sejam de baixa qualidade, você, pelo menos, está sendo confrontado com a diferença e isso move as pessoas, os sentimentos, põe a cabeça para funcionar. Quando você tem uma voz consistente e poderosa te dizendo alguma coisa, é mais difícil discordar. Imagina se por um mero acaso histórico, a do Bolsonaro fosse a única voz? Todo movimento revolucionário e progressivo dependeu de uma emergência de diferentes vozes.

Na internet essa pluralidade se faz cada vez mais presente.

O que me ajuda a não ficar irritada quando eu vejo uma besteira na internet é precisamente essa perspectiva que adotei para pensar sobre o fenômeno. Se tem tanta gente fazendo bobagem por aí, cabe a nós refletir e tentar entender o que isso significa, rever e fortalecer a nossa voz singular, tentar encontrar o que nos agrada mais, o que tem mais afinidade com os nossos valores e percepções, no lugar de tentar, tiranicamente, fazer as pessoas se calarem e continuarem ouvindo as mesmas vozes chanceladas por um poder que escapa completamente das nossas mãos.

E se você ficar irritado além da conta com alguma bobagem da internet, ainda tem duas ferramentas maravilhosa que são “compartilhar + escrever publicação”. Ou seja, vocêzinho também pode falar merda na internet! Porque, pasme você, mas, enquanto você acha que tudo que você fala é pérola, tem gente que acha que você só fala merda. Acredita nisso?!

Retomo então a história do cara que ficava na frente do CCBB. Quando eu comecei a me dar conta de que as pessoas compram e, às vezes, leem um best seller caro de livraria só porque algum funcionário colocou o tal livro numa prateleira com uma placa que dizia que aquele era um best seller mundial – sem que você conheça o autor ou do que trata o livro – mas apenas pelo puro e simples poder daquela plaquinha, e nem cogitam gastar dois reais para conhecer a literatura do cara do CCBB, eu me dei conta de que tinha alguma coisa muito triste e equivocada. E eu fazia a mesma coisa, confiando na chancela da notoriedade. É coisa de você se pegar pensando: “Lá vem esse cara encher o saco, vou ali dentro na livraria para escapar dele, aproveito e compro a Trilogia Tebana”. Esse é um pensamento estúpido e sem sentido. Não estou falando contra os best sellers, sou vítima de alguns, nem contra os clássicos, estou apenas tentando falar a favor de quem não se enquadra nem em uma nem em outra categoria.

Novamente: se não tem qualidade para você, não absorva essa arte. Não vai te fazer bem. Mas abra sua mente para sofrer desgosto dos artistas independentes e não só dos famosos, você pode acabar se maravilhando com esse universo. A arte independente está em todos os mercados e nichos, você vai achar algo para encher os olhos e se refestelar. Exemplos de nichos onde você encontra produção independente: cerveja, comida doce e salgada, roupa, literatura, pintura, decoração, fotografia e muito mais. É um universo infinito.

E não se engane, tem muita gente foda por aí que vai morrer pobre e sem casa própria.

 

“Eu espio com os meus olhos”. Parte VI.

Me formei. Hora de atacar o mercado de trabalho. Bom, eu fui trabalhar com clínica particular e com docência.

Na clínica, meu problema de visão nunca foi um grande problema. Eu fico a pouca distância do paciente, portanto, consigo enxergá-lo suficientemente bem.

Eu já percebi que ver o rosto do outro com clareza faz diferença em algumas situações sim. Por exemplo, eu não tenho nenhum problema de audição, mas quando pergunto para o motorista do ônibus, por exemplo, se aquele ônibus passa em tal lugar, eu nunca entendo a resposta, mas o meu marido sim. A minha hipótese é que as pessoas normalmente fazem meio que uma leitura labial inconsciente que colabora para que se entenda o que o outro está falando em locais barulhentos ou quando estão falando baixo. Como eu não enxergo o movimento da boca, acabo tendo dificuldade para ouvir o que as outras pessoas falam em certas situações.

Esse, ainda bem, não é o caso no consultório, pois é um lugar silencioso. Além disso, eu já estou adaptada ao meu problema de visão. Eu não consigo ver o branco dos olhos do cliente, mas a minha percepção de alterações no rosto dele me fazem perceber que ele mudou o direcionamento do olhar. Pequenas habilidades adaptativas que são desenvolvidas para lidar com o dia a dia. Esta é mais uma das razões pelas quais os médicos não indicam a cirurgia para a miopia no meu caso. Eu já estou há 27 anos nesse processo adaptativo. A cirurgia não me daria uma melhora tão significativa, mas seria o suficiente para invalidar todas as estratégias que eu desenvolvi até hoje para lidar com a deficiência visual!

No meu trabalho em consultório, acredito que o único momento em que meus clientes percebem que eu tenho algum problema de visão é quando eu tenho que preencher e assinar recibos na frente deles. Como isso ocorre com pouca frequência, eu não me dou ao trabalho de ficar explicando o problema.

Dando aula o buraco é mais embaixo. Não faço grandes cerimônias para explicar o problema, mas sempre tem aquele aluno que começa a falar do nada, sem levantar a mão. Nesses casos, eu tenho duas alternativas: quando eu não estou a fim de falar sobre a minha visão, eu faço uma cara de concentrada e fico olhando para baixo, quando eu estou disposta, eu brinco. “Quem está falando aí? Levanta a mão porque – mais alto! -; isso… agora sim estou te vendo”. Os alunos, às vezes, comentam que eu estou precisando trocar os óculos e eu respondo: “Menina, quem tem tempo para isso? É mais prático e mais barato se vocês levantarem a mão!”

Recentemente eu comecei um treinamento para dar aulas em um lugar novo (ano que vem vai ter post sobre isso!) e, nesses casos, sempre bate a dúvida: faço o discurso da lamentação – ah… eu tenho um problema de visão assim e sei lá mais como… – ou deixo rolar e se der merda eu explico? É uma grande dúvida.

Mesmo que eu não fique me fazendo de coitada quando apresento o problema, as pessoas ficam ou com pena ou com receio. Com receio principalmente se se tratar da sua chefe no trabalho. Então, eu tenho um pouco de medo desse preconceito e acabo deixando rolar no início. Depois eu explico o que eu tenho de maneira que pareça menos uma solenidade.

De um modo geral tenho que jogar as mãos para o céu, pois além do episódio no estágio durante a faculdade que eu já mencionei ao longo do me relato, nunca tive problemas no trabalho por conta da deficiência.

Não sei como seria se eu tivesse tentado entrar no mercado de trabalho empresarial. Tenho a impressão de que não ia chegar muito longe não. Mas isso não me frustra. Eu ia ficar louca se trabalhasse dentro de um escritório. Passei tempo demais ouvindo minha mãe falar: “Filha, procure um trabalho no qual você não fique presa dentro de um escritório. Entrar de manhã cedo, sair já depois de escurecer”. Uuuu… Me dá arrepios só de pensar. Por isso eu odeio o horário de verão, porque tem sol até mais tarde e o calor é exorbitante, e minha mãe ama, porque ela ainda via a luz do sol depois de sair do trabalho.

Temos também os concursos públicos. O povo acha que é moleza fazer a prova com a concorrência bastante reduzida. Isso é verdade mesmo. Mas talvez isso não compense o fato de que as opções de concursos com vagas para deficientes é muito pequena e é quase impossível achar um concurso com vagas para deficientes que pague bem. Então, não se chateiem por não ter a vantagem de competir para as vagas de deficiente.

Bom, de qualquer forma, o meu maior problema para trabalhar não é o trabalho e si, mas é como chegar ao trabalho.

A questão do transporte novamente. Esse, pelo que estou percebendo, vai ser o problema da minha vida.

E eu faço muita coisa, então…

Trabalho com a docência em duas instituições diferentes, em dois consultórios… Os horários também não são fixos, o que torna difícil fazer sempre arranjos de carona. Então eu estou constantemente rodando as ruas do Rio de Janeiro. Ando até os pontos finais para pegar os ônibus, vou até ruas onde só passa aquela linha que serve para mim, caminho meia hora até os metrôs, gasto uma grana com transporte individual, peço milhões de caronas para minha mãe, peço ajuda aos amigos para me colocarem nos ônibus.  

Eu me viro e muita gente me ajuda, mas não vou abrir mão de dizer que é chato, inconveniente e, algumas vezes, triste ter que lidar com qualquer tipo de deficiência.

Por outro lado, não dá para negar, a vida é boa para caralho.  

Isso é gordofobia?

Eu sempre me achei gorda. Mesmo quando eu era magrinha durante a adolescência. Hoje em dia, realmente estou com sobrepeso.
Felizmente, os diversos tipos de preconceito então ganhando cada vez mais espaço nos debates atuais. De machismo eu já entendo um pouquinho, pelo menos. Agora estou precisando entender um pouco mais sobre a gordofobia, pois acho que tenho sofrido com isso também.
Hoje entrei no ônibus às 20h voltando do trabalho. Ainda estava cheio.
Eu fiquei encostada na roleta até uma senhora me chamar e falar em alto e bom tom: “Senta aqui! Você está grávida!” Ok. Pensei: eu digo que não estou grávida e dou um golpe na minha autoestima (infelizmente seria isso que aconteceria) ou eu acaricio meu abdômen cheio de estrogonofe e tomo o lugar desta pessoa bem-intencionada?
Minha escolha foi sentar. Esfreguei a barriga, dei o nome de Alfredo ao estrogonofe semi-digerido e falei que Alfredo estava para nascer já daí a dois dias! A mulher ficou espantada! Se já estava de nove meses eu estava era magrinha. Pois é, moça. Alfredo vai nascer com todas as regalias a que tem direito. Parto de cócoras e dentro d’agua. Isso que eu chamo de parto humanizado.