Pole dance e vida acadêmica.

Eu lia livros da Disney quando era bem novinha. Li muito A Bíblia Para Crianças também. Isso é o que eu me lembro de ler antes dos dez anos de idade.

 

Eu me lembro de já ser, desde cedo, fascinada por livros grossos. Eu cheguei a surrupiar E O Vento Levou da estante da minha mãe e leva-lo para a escola quando eu estava na terceira série (já dá para ter noção de que eu sofri muito bullying quando eu era criança, não é?).

 

Mas, naquela ocasião, eu não cheguei, de fato, a ler o livro, eu só o carregava para cima e para baixo.

 

Comecei a ler livros de mais de vinte páginas ou com mais de quatro linhas em cada página, com dez para onze anos. Foi quando saiu o primeiro livro do Harry Potter. Minha mãe começou lendo para mim de noite, mas ela acabava dormindo rápido algumas vezes e eu ficava morrendo de curiosidade. Comecei a ler sozinha. Não que eu dispensasse as histórias da minha mãe, mas eu até preferia as inventadas do que as lidas de algum livro.

 

Ela inventava histórias do tipo: a formiguinha estava andando pela estrada – aí ela começava a dormir e eu a cutucava, mas não com tanta força para que ela não acordasse completamente e ela continuava – aí o chefe dela chamou ela na sala dele…

 

Eu morria de rir.

 

Enfim, fui do Harry Potter para os livros do Tolkien, daí para as Brumas de Avalon e assim por diante.

 

Não parei de ler até a faculdade. Mas isso eu acho que já contei para vocês.

 

O que ficou de fora é que tinha outra atividade que me acompanhava desde sempre: a dança. Ou o que eu considerava dança.

 

Minha mãe queria que eu fizesse balé e eu não quis de jeito nenhum, até hoje não é o que mais me encanta na dança.

 

Mas eu aceitei fazer jazz e não parei nunca mais de fazer coisas com o corpo até… Adivinha quando… Isso mesmo! Até entrar para a faculdade.

 

Do jazz eu fui para a GRD (ginástica rítmica desportiva), depois para a dança do ventre e a dança cigana, estas últimas eu fiz ao mesmo tempo dos treze aos dezessete anos.

 

Então, quando eu passei para a faculdade de psicologia, não deixei apenas a paixão pela literatura de lado, mas também o meu amor pela dança.

 

Não foi uma morte rápida. Foi uma morte lenta e eu fui insensível a ela. Eu fui sentindo como se a minha antiga vida estivesse se tornando obsoleta, eu fui abraçando um novo estilo de ser e de me comportar como se alguma mudança positiva estivesse acontecendo.

 

Eu me lembro de ter lido O Morro dos Ventos Uivantes durante as aulas de Estatística no terceiro período da faculdade e esse foi um dos últimos livros que eu tinha lido até recentemente, quando este quadro mudou. Eu não me lembro quando foram as minhas últimas apresentações de dança, mas devem ter ocorrido mais ou menos nessa época.

 

Quando eu comecei a me dedicar à escrita e à leitura novamente, a necessidade da dança veio junto.

 

Atualmente eu estou lutando contra a culpa para poder dar conta do meu trabalho, da literatura, da dança e do doutorado em filosofia sem achar que eu estou fazendo pouco em cada uma dessas áreas.

 

É uma loucura isso. Eu ainda tenho que lidar com a mesma armadilha que me prendeu na graduação. “Se a sua vida não se resume única e exclusivamente à academia você não deveria estar no meio acadêmico”.

 

Esta, além de ser uma exigência que nunca vai ser satisfeita (mesmo as pessoas que mais se dedicam aos estudos que eu já conheci estão insatisfeitas e acham que deveriam estudar mais), é uma exigência falsa.

 

Não é verdade que você não pode ter uma vida fora da academia para ser alguém intelectualmente. Para fazer algum tipo de trabalho que importe.

 

O livro da Carolina de Jesus vale muito, muito, muito mais do que muita tese que está por aí mofando nos porões das bibliotecas acadêmicas.

 

Atualmente eu estou fazendo dança do ventre e pole dance (que é muito difícil e maravilhoso!) e isso me faz mais bem do que qualquer livro do Kant que eu já tenha lido. E olha que ele foi um dos dois principais autores que eu estudei no mestrado. Eu sinto que ele deveria ser mais importante na minha vida, mas ele, infelizmente, não é.

 

A vida acadêmica tem um alto potência para ser massacrante, com chances de se tornar um relacionamento abusivo.

 

Mas eu estou desviando novamente do que eu consigo falar hoje, que é a minha história com a dança.

 

Eu ainda estou cozinhando mentalmente um post sobre a academia além dos dois que eu já postei de que você pode acessar aqui e aqui.

 

Mas agora eu estou um pouco deprê por ter entrado neste assunto.

 

Texto louco esse, não é mesmo? Às vezes é ruim escrever desse modo: imaginando que eu estou em diálogo com alguma pessoa sem programar o texto (eu vou escrevendo e imaginando um interlocutor que responde e comenta o cada tópico). Isso acontece porque eu estou escrevendo todo dia e às vezes não tenho tempo para preparar os textos como eu gostaria. Uma das desvantagens de ter como meta a publicação de um post por dia.

 

Acho, então, que vou simplesmente encerrar por aqui deixando vocês com o vídeo da minha primeira apresentação no pole dance.

 

Dança! E valores. 

Minha primeira apresentação de dança do ventre depois de muito tempo aconteceu hoje de noite.

Eu cheguei no teatro atrasada.

Pois é. Tinha um monte de coisas para fazer durante o dia e eu não queria (nem podia muuuuito também) abrir mão de nenhuma delas… Aí fui me enrolando… Senti que estava fazendo tudo meio que pela metade.

O ponto é que eu estava pegando o ônibus na hora em que deveria estar chegando no local da apresentação. Dinheiro para uber não tinha, então, fazer o que? Tinha que esperar o trânsito colaborar (porque o motorista a gente sabe que mete o pé).

Tô no ônibus, um calor da porra, brigando com o meu marido.

Trágico.

A gente cai nessas armadilhas, não é mesmo? De se estressar com coisas que não têm solução.

Eu sei que esse tipo de sensação é infrutífera e prejudicial. Mas fala comigo isso na hora que eu estou estressada! Sério. Fala memso.

Eu tenho feito o esforço super consciente de, quando alguém me fala que eu estou estressada, tentar me acalmar. Ou quando eu mesma percebo que estou repetindo o mesmo padrão, tento segurar a onda. E tenho conseguido bons resultados. Então, quando eu estiver estressada, me fala, que eu vou tentar me controlar.

Como fazer isso? A parte difícil não é ter consciência de que se estressar não faz bem e que devemos tentar nos manter calmos mesmo na adversidade. Isso todo muito sabe. O difícil é saber como fazer isso. E digo mais! É difícil encontrar motivação para colocar em prática aquela respiraçãozinha anti-estresse que a galera aprende por aí.

Qual é o segredo então? O que funciona para mim é pensar nos meus valores.

Quando você sabe o que é importante para você, tudo que cruza seu caminho aparece através da perspectiva dos seus valores.

O que são valores? Valores são características das pessoas que fundamentam o modo como elas interagem consigo mesmas, com os outros e com o mundo.

Quando a sua vida ou as suas atitudes não estão aliadas com os seus valores você sofre e sente que alguma coisa está errada com a sua vida.

Se uma pessoa tem como valor central a liberdade, é possível que ela fique muito mal em um emprego que exige que ela fique dez horas do seu dia dentro de um escritório sem ver a luz do sol.

Há pessoas que se submetem às maiores atrocidades para evitar o divórcio por terem o valor família como central.

Nem sempre é óbvio para nós quais são os nossos valores. Por isso, segue uma dica:

Se imagine no alto de um prédio bem bem bem alto que há dez metro de distância de outro tão alto quanto. Você está no telhado de um desses prédios e há uma ponte de madeira que leva ao telhado do prédio ao lado. Está vetando muito. O que faria com que você atravessasse a ponte?

Esse exercício pode te dar uma dica de quais são os seus valores.

Bom, dois dos meus principais valores são: amor e prazer.

Tendo isso em vista, tem cabimento brigar com meu marido e me estressar a caminho de uma apresentação de dança (que me dá muito prazer)?

Não!

Ao me dar conta disso eu comecei a tentar ficar clama. Hoje foi fácil. Mas sobre esse processo de como eu faço para ficar mais calma em situações estressantes eu falo em outro momento.

O mais importante é que eu cheguei a atrasada, mas deu tudo certo no fim das contas. Quando eu parei de me estressar pude recalcular o tempo que eu teria e me programar para fazer o que precisava nesse tempo.

E quer saber? Se não tivesse dado certo estaria tudo bem também. Eu apenas  teria que me desculpar com as minhas colegas e dançar em outra oportunidade!

Libere sua imaginação com a gente!

Hoje eu e Natalia fizemos mais uma contação de histórias interativa no evento La Féria Princesas e Super-heróis, que aconteceu no Clube Militar, sede Lagoa.

Como são as contações interativas?

Essa contação funciona como uma espécie de teatro do improviso.
Eu e Natalia, as facilitadoras da capacidade imaginativa das crianças, recrutamos agentes da imaginação que irão nos ajudar a contar a história (todas as crianças ganham um distintivo de agente da imaginação). Nós levamos uma bolsa cheia de objetos encantados que vão sendo retirados pelas crianças durante a contação da história. O objeto retirado mais a interpretação que a criança dá ao objeto ditam o rumo da história.
As crianças também decidem quem são os personagens e onde se passa a história.

A história de hoje:

Era uma vez um parque de diversões que ficava dentro de uma floresta encantada. É essencial dizer que, neste parque, havia um piscina de bolinhas.
Quem estava neste parque era a Chapéuzinho Vermelho. E ela estava acompanhada da baleia Maracujazinha.
Chapéuzinho Vermelho e Maracujazinha começaram a cavar o chão da floresta e encontraram um esqueleto de dinossauro. Enquanto cavavam para desenterrar o esqueleto, elas acabaram encontrando a toca de uma bruxa.
Curiosas que só elas, Chapéuzinho e Maracujazinha entraram na toca da bruxa e encontraram lá dentro o chifre de um unicórnio. Nessa hora, percebemos que a bruxa não era má, se tratava de uma feiticeira boa que era amiga dos unicórnios.
Chapéuzinho e Maracujazinha resolveram então ir atrás do unicórnio. Mas por onde começar a procurar?
Elas começaram a andar pelo arco-íris procurando por ele. Foram andando, andando e acabaram indo parar no meio das estrelas. Foi aí que descobrimos que se tratava de um unicórnio alado, primo do cavalo Pégasus.
Mas, ao chegar lá nas estrelas, o que elas encontraram foi um sapo que pulou tão alto que ficou preso em uma nuvem.
Chapéuzinho e Maracujazinha logo tiveram uma idéia: ora, já temos um sapo, uma baleia e uma menina… Vamos fazer uma festa no céu!!!
E a festa começou com muita alegria e animação.
Mas, de repente, apareceu o dinossauro-esqueleto que elas haviam desenterrado para atacar a festa!
Foi bem nessa hora que a feiticeira apareceu e com a ajuda de todas as crianças foi possível concentrar muita energia no chifre do unicórnio e disparar um raio que derrotou o dinossauro.
Depois que o perigo passou a festa pode continuar para sempre.

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As crianças sempre ficam bastante entusiasmadas com a possibilidade de decidir os rumos da história.
Elas se voluntariam para tirar objetos da sacola e pensam em um milhão de locais para a história se passar.
O meu trabalho e o da Natalia é o de tentar conciliar a visão das crianças, condensando-as em uma única história.
Na história de hoje, essa questão apareceu logo no início. Três crianças queriam decidir onde a história se passava: uma floresta, um parque de diversões e uma piscina de bolinha. A nossa tarefa é mostrar que a imaginação é ilimitada, incentivando-os abertamente a pensar fora da caixinha, não limitadas pela lógica que o mundo começa a nos empurrar desde cedo.
Portanto, todos os lugares podem coexistir em harmonia na nossa história.
As histórias que contamos comportam o poder e a potência da imaginação de todas as crianças.
E elas vão se soltando e se libertando das amarras conforme a história vai se desenrolando.
As histórias também ajudam as crianças a dialogar e buscar a resolução saudável de conflitos, pois elas precisam aprender a aceitar que a história do amigo vai se cruzar e conviver pacificamente com a dela.
A colaboração que nasce entre os pequenos também é emocionante e pode ser observada hoje. Uma criança trouxe o perigo do ataque do dinossauro e todas se juntaram imediatamente para derrotá-lo.

É sempre um grande e prazeroso desafio, para nós, participar da história delas!

Confissão (primeira versão).

Ontem eu publiquei o texto “Confissão” em sua versão mais recente.

Esse texto, contudo, já havia saído em um pequeno livro de contos que eu publiquei independentemente no ano passado.

Acontece que entre o texto publicado e a versão que eu postei ontem no blog existem algumas diferenças. Eu fiz um trabalho de voltar ao texto e trabalha-lo um pouco mais. Um texto nunca está pronto e acabado. Chega um momento em que o autor decide parar de mexer nele, mas é isso. Não quer dizer que o texto chegou à perfeição. Isso existe? Enfim…

Hoje o que vou fazer é postar a primeira versão desse mesmo texto, para que vocês possam avaliar: se melhorou… se piorou… Além de poderem acompanhar um pouquinho do meu processo de escrita.

Como foi para mim este processo? É um ato de coragem mexer em um texto “pronto” e publicado. E, acima de tudo, um ótimo exercício. Mas eu confesso que tenho sentimentos ambivalentes ainda em relação a esta prática ainda que a considere boa do ponto de vista racional. Algumas vezes eu acho que mexo e o texto piora. (Tipo mexer na merda e fazer ela feder mais do que antes). A minha autoestima vai para o fundo do poço quando isso acontece. Outras vezes, eu mexo no texto e acho que ele melhora muito. Aí o meu ego infla e eu assumo empreendimentos loucos como postar um texto por dia no blog (mas depois eu desabafo sobre isso).

Não mexo em todos os textos, mas naqueles que eu ainda não decidi declarar como encerrados e, como já disse, acho que o processo vale a pena sim, apesar dos pesares! Mesmo que, em algumas vezes, a gente precise meter vários ctrl Z e desfazer todas as alterações.

Acho que isso vale para tudo na vida. A gente tem que tentar mexer para melhorar mesmo. Se não der certo, esquece e parte para outra!

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Confissão (primeira versão).

Apesar de nascida e criada no Rio de Janeiro eu, assim como muitos outros cariocas, não conheço alguns dos pontos turísticos mais importantes da cidade.

Fui recentemente ao Pão de Açúcar e ao Cristo Redentor. Na verdade, ao Cristo eu cheguei a ir duas vezes no último mês. Na primeira ocorreu um imprevisto; o dia estava extremamente nublado. Não se podia ver nem a cabeça do Senhor, nem a cidade abaixo. Estávamos, aparentemente, entre duas camadas de nuvens. O pico do morro estava acima das nuvens, de modo que tínhamos a impressão de que se nós nos jogássemos lá de cima nada terrível aconteceria. Apenas cairíamos nas nuvens macias logo abaixo. Na minha opinião a textura das nuvens parecia densa e consistente, apesar de macia, como a de um elástico. Por outro lado, as nuvens acima de nós pareciam mais frágeis e delicadas. Esfumaçantes.

Quando fomos ao Cristo pela segunda vez o dia estava totalmente claro. Não havia uma nuvem do céu. Eu, sinceramente, preferi a primeira visita. Mas nada disso vem ao caso.

A visita sobre a qual lhe escrevo é a visita que fiz à Catedral no centro da cidade. Resolvi ter a experiência completa. Iria no domingo pela manhã, doaria dinheiro na hora do ofertório, apertaria a mão das pessoas ao meu redor na hora da Paz de Cristo, comungaria etc.

Pois bem, cheguei à igreja atrasada. Cheguei tarde mesmo e ainda fiquei por algum tempo observando os turistas do lado de fora. Os turistas reais. Vindos de outros países. Tiravam fotos e sorriam e falavam alto. Achei aquilo tudo um pouco desrespeitoso e acredito que tenha entrado na igreja mais católica do que cheguei ao local.

A catedral não me pareceu tão bonita assim por dentro. Aquela estrutura não combina com a de uma igreja. Sempre imaginei igrejas turísticas como grandes catedrais góticas de estilo europeu. Para quem espera esse tipo de coisa, a Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro é uma grande decepção. Pouco patriótico, eu sei, mas, ainda assim, o sentimento foi inevitável. Para ser justa, devo dizer que a catedral tem seus méritos. Para começar ela tem um formato coneidal, isso era novidade. Em seu interior vemos quatro grandes vitrais que se estendem quase desde o chão da catedral até o teto, lá eles se encontram formando uma cruz. Já ouvi dizer, não lembro quando nem quem disse, que cada um dos vitrais representa uma das características da igreja. O vitral que se encontra bem à frente de quem entra pela porta principal simboliza a unidade da igreja. Das figuras que parecem no vitral, eu consegui distinguir a Bíblia e o Cálice da Salvação. O vitral que fica às nossas costas representa as pessoas que são chamadas a compor o rebanho do Senhor. Simboliza a catolicidade da igreja. Há alguns homens pintados nela, apesar desse vitral supostamente indicar a universalidade da igreja. À esquerda de quem entra, estende-se o vitral que representa a santissidade da igreja e os dons do Espírito Santo. Nele fui capaz de distinguir as figuras de maria e José. Por fim, a direita, o vitral que simboliza o fato da igreja ser apostólica. A imagem de São Pedro aparece nesse vitral.

Se me permite uma análise que está certamente fora de minhas capacidades, eu digo que o simbolismo mais interessante de todos era não o dos vitrais em si, mas o que surge da união dos vitrais trabalhados e as paredes de concreto bruto da catedral. A junção do humano, imperfeito, ranhoso com o divino cristalino e colorido.

Os bancos, por sua vez, eram arrumados para formar um semicírculo ao redor do altar, postados um ao lado do outro e em fileiras até o fundo. Sentei-me no último banco da última fila. Passado pouco tempo comecei a reparar que havia uma criança inquieta perambulando ao meu redor. Logo veio a mãe e o repreendeu, arrastando-o de volta a um banco mais adiante. Ri sozinha. Crianças são estranhas demais. Logo me preocupei, contudo. Será que era alguma coisa comigo que a fazia rir? Ajeitei o cabelo, passei a mão pelas roupas. Nada de errado. Comecei a olhar em volta procurando o motivo da diversão. Reparei quase com o sobressalto que havia uma figura encolhida em cima do banco logo ao lado do meu. Ao vê-la, senti seu cheiro. Como eu não havia reparado antes? Embaçado, encardido e esfarrapado, estava lá adormecido, um mendigo. Me refiz do susto virei-me para o altar e voltei a cantar.

Logo fui interrompida novamente. Novo susto. Um barulho surdo ao meu lado virou violentamente minha cabeça para o lado, o banco com o mendigo havia sido arrastado por três homens. Todos os barulhos a minha volta se tornaram ensurdecedores.

 

Um coração para amar, pra

Perdoar e sentir

 

            Soa a voz dos homens pela primeira vez.

– Levanta, cara. Você tem que sair.

 

Um coração pra sonhar, inquieto e

            sempre a bater

 

            – Vamos, cara!

E cochicharam entre si.

 

Ansioso por entender as coisas

            que tu disseste

 

            Puxaram o braço do homem pobre.

E eu não entendia o que estava acontecendo. Não sei se eu cantava ainda.

 

            Eis o que eu venho te dar – continuava a música –

Eis o que eu ponho no altar – e que não vale de nada, pensei – Toma, Senhor que ele é teu

            Meu coração não é meu

 

O mandigo puxou o braço de volta e grunhiu.

 

Quero que o meu coração seja tão

            cheio de paz

 

Ergueram o mendigo que agora não reagiu.

 

Que não se sinta capaz de sentir

ódio ou rancor

 

            Olhei enquanto carregavam o homem pelos fundos da igreja até uma das portas laterais, acima dela se estendia o vitral com a imagem de São Pedro.

Eles voltaram cantando.

 

Quero que a minha oração possa me

            amadurecer

 

E eu também voltei a cantar.

 

Leve-me a compreender as

            consequência do amor

 

Me levantei num salto e cruzei com os três no meu caminho em direção à porta lateral.

Saí por ela sentindo medo. Imaginando que haviam lançado o mendigo escada abaixo. Mas ele estava logo ao lado da porta, braços e pernas abertos. Eu não vi os homens colocando-o lá, mas tenho a impressão de que, na posição que foi colocado, ele ficou. Além do mendigo do lado de fora da igreja haviam algumas crianças correndo, alguns adultos falando ao celular e vendedores ambulantes. Sentei-me na escada e senti uma raiva incandescente emanando da indignação que senti. Não só havia expulsado um mendigo que para estar morto só faltava esfriar de tão quieto que estava, como eu também não havia sido capaz de mover um dedo para ajudá-lo! Pensei em ir lá pedir ao mendigo que entrasse comigo de novo na igreja e se deitasse novamente no banco onde estava.

Me aproximei dele e o cumprimentei. Ele não me respondeu. Expliquei o meu plano com animação e o grande significado que aquela atitude teria. Seria um símbolo de resistência e de luta contra a opressão! Falei que poderíamos gritar se aqueles homens viessem novamente e que eu não o abandonaria. Acrescentei que se isso acontecesse, o padre provavelmente seria obrigado a interromper a missa e que nós apareceríamos até nos jornais da TV. Ele não emitiu nenhum som. Nem se moveu. Uma mulher se aproximou enquanto eu pensava como reformular meu discurso a ponto de motivá-lo. Ela colocou um terço na testa dele, uma nota de cinco reais em sua mão aberta e um pacote de biscoito aberto do lado de sua boca. E ele não se moveu.

Me afastei e fiquei sem ação até depois do fim da missa. Até que a certa altura bateu um vento um pouco mais forte, provavelmente de dentro da igreja que agora já não tinha mais tantas pessoas que o opunham resistência, e a nota de cindo reais voou das mãos do mendigo. Como estava, ele ficou. Parado, displicente, um indigente perfeitamente indiferente às condições da existência, ou assim eu presumi.

Levantei-me para ir embora ainda indignada com os falsos ideais. Entrei novamente na igreja, precisava ir ao banheiro antes de ir embora. Vi uma mulher num canto mais adiante assim que voltei para dentro da igreja. Ela colocava dinheiro em uma caixa de oferenda. O banheiro era na mesma direção. Quando passei perto da caixinha reparei que a ponta de uma nota de dez reais estava para o lado de fora. Me aproximei decidida, apesar de apavorada.

A indignação pulsava em ondas dentro de mim agora misturada com adrenalina. Puxei a nota de dez reais e enfie-a no bolso. Me virei e saí com passos largos pela porta da frente. Parei num bar ali perto, comprei uma cerveja e um maço de cigarros e voltei para casa satisfeita.

 

CONFISSÃO

Toda sexta-feira de madrugada, depois de uma noite de bebedeira aos pés dos Arcos da Lapa, eu tinha pesadelos com a Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro. Ela descia sobre mim como um imenso disco voador. Eu sonhei com isso tantas vezes que acabei ficando curiosa, achei que era um sinal, e resolvi visitar o monumento.

Tendo sido criada em família católica devota e atuante eu sabia como aproveitar uma visita dessas. Resolvi ter a experiência completa. Iria no domingo pela manhã, doaria dinheiro na hora do ofertório, apertaria a mão das pessoas ao meu redor na hora da Paz de Cristo, comungaria etc. Conheço bem a missa, os fiéis, o funcionamento da igreja, apesar de não ser lá tão católica. Batismo e primeira comunhão, sim, mas fé verdadeira, não.

Fiquei um pouco receosa no dia programado para a visita, pois os pesadelos eram sempre apavorantes. Relutei em sair de casa e acabei chegando atrasada à igreja. A missa já havia começado.

A Catedral não é bonita por dentro. Aquela estrutura não combina com a de uma igreja. Disco voador sim, com certeza; mas casa de Deus nem tanto. Eu sempre imagino igrejas em geral e, em especial, igrejas turísticas como grandes catedrais góticas de estilo europeu. Para quem espera esse tipo de coisa, a Catedral do Rio de Janeiro é uma grande decepção. Pouco patriótico, eu sei, mas, ainda assim, o sentimento foi inevitável. A decepção me causou uma secura na boca – perda de tempo ir ali – e uma careta de desagrado.

Para ser justa, devo dizer que a catedral tem seus méritos. Para começar, o óbvio, ela tem o formato de um cone, justamente a qualidade que me atraiu desde o início. Além disso, em seu interior existem quatro grandes vitrais que se estendem quase desde o chão até o teto. A Catedral é muita alta. E o teto, no local onde os vitrais se encontram formando o desenho de uma cruz, é vazado, de modo que a claridade do céu penetra por ali. A luz do dia mais ensolarado não seria suficiente para iluminar a igreja. Nenhuma luz é suficiente para iluminá-la. A catedral está sempre parcialmente na penumbra. Os vitrais são magníficos, gigantescos, multicoloridos, cheios de figuras feitas para inspirar admiração e os mais altos sentimentos. Mas se deslizarmos os olhos um pouquinho para o lado ficamos cara a cara com uma parede de concreto bruto, frio, repetitivo, um acinzentado que não tem mais fim. A junção do humano, imperfeito, ranhoso com o divino cristalino e colorido.

Já havia pessoas estranhando o tempo que fiquei parada na entrada da igreja tentando entender seu interior.

Os bancos eram arrumados de modo a formar um semicírculo ao redor do altar, postados um ao lado do outro e em fileiras até o fundo. A missa estava cheia, mas ainda havia alguns bancos vazios. Sentei-me na última fileira, perto de uma das saídas laterais. Ouvi o padre proferir algumas palavras antes que todos os fiéis começassem a cantar. O canto de tanta gente junto dava arrepios. Se alguém me perguntasse como é ter fé, eu diria que era sentir a reverberação de tantas vozes na pele. Eu sentia uma mistura de assombro com euforia.

Me balançando de um lado para o outro junto com a canção esbarrei em algo e reparei com sobressalto que havia uma pessoa encolhida em cima do banco logo ao meu lado. Senti seu cheiro. Eu não havia reparado antes. Embaçado, encardido e esfarrapado, estava lá adormecido, um mendigo. Para me refazer do susto virei para o altar e voltei a cantar.

Fui interrompida novamente. Novo susto. Um barulho surdo. Virei subitamente a cabeça para o lado. O mendigo havia sido puxado para fora do banco com violência. Três homens ergueram o corpo magro que resistia. Eu não entendia o que estava acontecendo. Meu corpo começou a latejar e todos os sons a minha volta se tornaram ensurdecedores.

 

Um coração para amar, pra

Perdoar e sentir

 

            Soa a voz dos homens pela primeira vez.

– Vamos, cara. Você tem que sair.

 

Um coração pra sonhar, inquieto e

            sempre a bater

 

            – Vamos, cara!

E cochicharam entre si.

 

Ansioso por entender as coisas

            que tu disseste

 

            Começaram a arrastar o homem.

Minha boca se mexia, mas eu não cantava.

 

            Eis o que eu venho te dar – continuava a música –

Eis o que eu ponho no altar – e que não vale de nada, pensei – Toma, Senhor que ele é teu

            Meu coração não é meu

 

O mandigo fincou os pés no chão e ainda resistiu.

 

Quero que o meu coração seja tão

            cheio de paz

 

Ergueram-no e ele agora não reagiu.

 

Que não se sinta capaz de sentir

ódio ou rancor

 

            Olhei enquanto ele era carregado pelos fundos da igreja até a saída, acima dela, um dos imensos vitrais coloridos, abaixo, o frio e desumano concreto.

Os três homens voltaram cantando.

 

Quero que a minha oração possa me

            amadurecer

 

O horror me fechou os lábios.

 

Leve-me a compreender as

            consequência do amor

 

Nos meus pesadelos a nave abduzia, mas esta nave espacial, enviada por Deus expulsa.

Levantei-me num salto e cruzei com os três no meu caminho em direção à saída para onde levaram o mendigo. Ele estava de pé logo ao lado da porta, braços e pernas abertos, a cabeça pendia para um lado, seminu, indecentes costelas aparecendo.

Além do mendigo havia crianças correndo, alguns adultos falando ao celular, vendedores ambulantes. Senti uma raiva incandescente emanando da minha indignação. Meus braços e pernas começaram a tremer. Não só haviam expulsado um mendigo que para estar morto só faltava esfriar de tão quieto que estava, como eu também não fui capaz de mover um dedo para ajudá-lo. Queria ir lá pedir ao mendigo que entrasse comigo de novo na igreja e se deitasse novamente no banco onde estava.

Me aproximei dele com passos firmes. Ele não me olhou. Expliquei o meu plano com animação e o grande significado que aquela atitude teria. Seria um símbolo de resistência e de luta contra a opressão. Falei que poderíamos gritar se aqueles homens viessem novamente e que eu não o abandonaria. Acrescentei que se isso acontecesse, o padre provavelmente seria obrigado a interromper a missa e que nós apareceríamos até nos jornais da televisão. Ele não emitiu nenhum som. Nem se moveu. Minha cabeça começou a rodar. Enquanto eu pensava uma série de absurdos para arrancar uma reação potente daquele homem, uma mulher chegou. Ela aproximou um terço da testa dele como quem dá a bênção. Em uma de suas mãos abertas ela colocou uma moeda e na outra o resto de um pacote de biscoito. Como estava ele ficou. Catatônico.

Ele parado, eu imobilizada.

A missa acabou. Os fiéis começaram a sair. Eu me distraí com o movimento por um instante e o mendigo desapareceu. Meu Deus! Esqueci a bolsa dentro da igreja! Voltei correndo até o lugar onde eu estava sentada. Nada. Comecei a andar em círculos procurando e nada da bolsa. Chorei de raiva. Muita raiva.

Desisti de procurar pela bolsa e comecei a caminhar em direção à saída. Passei perto da caixinha de oferendas. Reparei que a ponta de uma nota de dez reais estava para o lado de fora. Me aproximei.

A indignação pulsava em ondas dentro de mim agora misturada com adrenalina. Puxei a nota e coloquei no bolso. Fugi correndo pelas escadas que davam para a rua. Parei num bar ali perto, comprei uma cerveja e um maço de cigarros. Sentei na calçada, fumei, bebi, olhei a cidade e as pessoas que passavam.

 

 

Calçada

Eu estava descendo a rua Gonzaga Bastos em direção à 28 de Setembro, em Vila Isabel, nos últimos cinco minutos do meu horário de almoço. Eu ia me atrasar, era certo. Estava estressada, eu falava sozinha pensando desculpas para o atraso, quando fui obrigada a parar e arrancada de meus pensamentos, por uma dor intensa no dedão do pé. Eu tinha tropecei em um vaso feito de cimento que estava bem no meio da calçada.

Tentando me refazer da dor, vi a padaria nova, bem decorada, com uma vitrine atrativa, exalando cheiro de pão fresco, contrastando com o resto da paisagem. O dono se apoderou de uma parte da calçada. Criou um canteiro particular esquecendo a existência dos transeuntes. Fez uma espécie de cercadinho com vários vasos de plantas, muito vistosas e bem cuidadas, no qual os clientes podiam sentar confortavelmente. Um espaço de aconchego para quem não se importava com os barulhos da rua agitada e a fumaça dos carros.

Quando a padaria fechava, as mesas e cadeiras eram retiradas, mas os vasos, pesadíssimos, continuavam lá atravancando a passagem.

Não me informei se o dono teve autorização para usurpar parte da calçada, tomando para si o que estava ali para servir a todos. Me juntei a um grupo indignado que se recusava a comer no local.  Virou um hábito para mim passar pelo lugar reclamando alto para que todos ouvissem minha insatisfação.

Fiz cálculos dos prejuízos causados que afetavam a mobilidade das pessoas, num exemplo típico do uso das coisas públicas para atender aos interesses privados.  Os pedestres faziam acrobacias perigosas para conseguir se deslocar pela calçada invadida.

Foi neste tempo de reflexão exaltada e indignada que, notei um banco do outro lado da rua. Ali estava um menino pobre. Sua aparência contava uma história de negligência. Roupas sujas e rasgadas, cabelos desgrenhados e um olhar de tristeza sem tamanho. Tanta precariedade, olhos tão vazios, sem futuro. Me parecia um mendigo, embora não pedisse nada naquele momento. O menino roía as unhas nervosamente e tinha o olhar vidrado e direcionado para a padaria, de onde se via a exposição de frangos assados. Suculentos, com gordura caindo, provocação para alguns cachorros que rondavam a calçada. Conhecida como TV de cachorro, aquele conjunto de grelhas provocava um desejo de comer para qualquer um que passasse. Naquele momento fiquei inquieta ao ver o menino na mesma condição dos cachorros, olhando a TV com seus olhos de fome.

Me perguntei quem teria sido o primeiro a ignorar que mais além do cachorro que olha o frango de padaria tem um menino também passando fome. Lembrei-me de todas as vezes em que vi pessoas jogando porções de comida para os cães em restaurantes de beira de rua e recusando esmolas a pedintes. Corre-se da fome do pobre com medo de assalto.

Eu estava tão preocupada com o lado da calçada onde eu estava que não vi o menino sentado lá longe no banco. O cercadinho afastava também o menino. Uma espécie de mecanismo anti-mendigo disfarçado de ornamentação. O menino tinha medo da cegueira da cidade. A cegueira que faz você tropeçar em vasos de plantas privatizadores de calçadas públicas e olhar apenas para o próprio pé.

 

Teoria Jurassic Park.

Todo mundo tem um carinho todo especial pelas memórias da infância.

São filmes, desenhos, músicas que nós curtíamos quando éramos pequenos e que, na nossa concepção, são maravilhosos. Clássicos eternos.
Até que….
Encontramos alguém que não compartilhou das mesmas experiências que nós e, para nossa surpresa e indignação, o tal alienígena 👽 fala mal daquilo que toca nossos corações.
Exemplos das minhas paixões de infância no que diz respeito aos filmes (provavelmente todos passavam na Sessão da Tarde ou no Cinema em Casa).

1- Matilda: a menina que eu queria ser, fala sério. A garota era foda. Poderes mágicos e vingança!!! Não tinha como ser melhor.

2- A Princesinha: cara, o que é aquela cena dela atravessando de um telhado para o outro?! Eu torço mais por aquela menina do que pelo o Brasil em final de copa do mundo.

3- Jardim Secreto: duas crianças descobrindo um passado encantado através da exploração de um jardim secreto com direito a rituais impactantes. Final emocionante.

4- A Lagoa Azul: lógico. Precisa dizer alguma coisa? Eu até hoje não sei qual é o um o dois ou o três. Ou quantos filmes tem. Eu sei que são todos maravilhosos. Um é com o velho outro com a mãe… Tem mais algum, gente? Estou em dúvida. Enfim. Amo.

5- Jurassic Park: não podia faltar. Dá nome a minha teoria. Dinossauros maneiríssimos perseguindo pessoas estúpidas (e mulheres de salto, né).

O caso é que meu marido, que tem mais ou menos a minha idade, não viu Jurassic Park quando era criança. Quando eu soube dessa aberração, baixamos o filme imediatamente.
Nós falamos sobre esse assunto por ocasião do lançamento, no cinema, de mais um filme da série. Não podíamos assisti-lo sem ver pelo menos o primeiro filme.
Então eu estava assistindo pela milésima vez o Jurassic Park I super emocionadae torcendo contraditoriamente tanto para os personagens humanos quanto para os dinossauros bonzinhos (porque tem isso no filme, né, dinossauro bom e dinossauro mal). Depois que terminamos de assistir, eu olhei para o meu marido com os olhos brilhantes só para ter minha felicidade destruída: que filme horroso! – Ele falou. Mandei-o a merda. Como você se atreve a falar mal desse filme?!
Desde então, começamos a trocar experiências sobre nossas paixões infantis e ele criou a teoria Jurassic Park.
Segundo essa teoria, existem coisas às quais nos apegamos na infância e que achamos maravilhosas, mas que são, na verdade, muito ruins. De modo que, quando não há esse apego infantil, não vamos, depois de velhos, passar a gostar de certos conteúdos.
Ele conseguiu me convencer. Quando comecei a rever minhas paixões infantis, muita coisa ruim, ruim mesmo, se tornou evidente. Desde falas e personagens extremamente machistas e misóginos até músicas preconceituosas da Disney (vocês já pararam para escutar com calma a música de abertura do Aladin? Dá uma olhadinha – https://www.google.com.br/amp/s/m.vagalume.com.br/disney/aladdin-a-noite-da-arabia.html.amp).

Então, a teoria passou a fazer muito sentido para mim é foi até terapêutico esse processo. Eu realmente passei a caçar e rever certas coisas da minha infância e reavaliá-las.
É um processo de auto-conhecimento que vale muito a pena. Tem coisas que vão te surpreender.
Só por curiosidade…
Uma coisa que meu marido gostava quando era pequeno e que eu achei estúpida é o desenho do Marsupilami. Conhecem? Amam?

Casamento 

“O casamento é uma prisão. É uma instituição de merda. E, quando duas pessoas sabendo disso resolvem ainda assim se casar, o casamento é a coisa mais romântica do mundo”.

Foi esse o espírito do meu casamento.

Eu cresci assistindo Disney e não consegui fugir totalmente da fantasia do casamento com o príncipe encantado.

Então, quando percebi que amava meu namorado perdidamente; quando eu me dei conta do quão foda ele era; de que eu me sentia uma pessoa melhor quando nós estávamos juntos; e de que eu não precisava guardar nenhum segredo dele (isso é importante para mim), eu o pedi em casamento.

Mas não foi tão simples assim. Eu não acreditava no casamento (o que me deixava confusa) e ele também não. Mas, como eu falei: Disney.

Quando eu o pedi em casamento, portanto, foi como um desabafo. No meio de uma briga ele exclamou: Então fala o que é que você quer!
– Eu quero me casar com com você!
– Nossa, sério?
– Sim. Você falou para eu dizer que eu quero. É isso que eu quero!
-Tá bom, então.

Foi assim que começou nossa história de sucesso com o casamento. Algumas pessoas que torceram a cara dizendo que não é a mulher que tem que pedir ou que o pedido não foi nada romântico já se divorciaram.
Nós estamos aqui, quase dois anos de casados, seis de relacionamento, ainda em plena lua de mel!

“[Ela] me contou”.

Quando eu vi o meu amigo chagando acompanhado de dois amigos dele eu pensei? Meu Deus! É o menino alto! Eu comecei a ficar com medo de que ele tivesse me visto com o cara que eu estava ficando, mas ele nunca comentou nada a respeito disso.

Eu o tinha visto em um canto e ele devia estar lá justamente porque ele era muito alto. Muito, muito alto. Ele nem era tão bonito, eu acho, porque ele não estava chamando a atenção das meninas, mas chamou a minha porque eu mesma sempre fui alta e nunca tinha ficado com um rapaz mais alto do que eu, coisa que ele certamente era.

Mas eu havia tentado trocar uns olhares e ele nem me deu bola, então, quando ele chegou acompanhado do meu amigo eu pensei que aquela era a minha chance.

Nós começamos a dançar e eu me pendurava no pescoço dele e achava aquilo o máximo.

Aí a gente trocou telefone e começou a sair. Foi quando eu comecei a me dar conta de que uma das coisas mais bonitas que existe que é a batida do coração das pessoas. Com ele eu percebi como é maravilhoso simplesmente encostar a cabeça no peito do outro e ouvir o coração batendo. Antes eu era sempre obrigada a estar deitada com a pessoa ou a me curvar toda para ouvir o coração dela batendo. Com ele não é preciso nada disso. É cotidiano por causa da altura. Agora eu estou até fazendo uma pesquisa pessoal sobre o assunto. Eu tenho pedido para ouvir o coração das pessoas e eu percebi que cada pessoa tem uma batida própria. É muito lindo isso.

Semana que vem é o nosso primeiro aniversário de namoro e foi isso que eu pensei em dar para ele de presente, uma gravação com as batidas do coração dele, para que ele possa ouvir como é. Talvez isso com uma carta, falando da história do nosso relacionamento e explicando como isso é significativo para mim. 

“[Ele] me contou”.

Era a este momento que eu gostaria de trazê-lo, leitor. Por isso eu o convidei para que acompanhássemos Ana desde que ela bebeu aquela última dose de cachaça na quarta-feira.

Até agora pudemos ver Ana repetir um velho padrão. Era assim que ela estava há dois anos. Quando apareceram este novo trabalho e esta nova casa as coisas prometiam melhorar. Mas foi precisamente o caminho do novo trabalho para a nova casa que, numa quarta-feira de noite, levou Ana ao encontro da dose que a trouxe aqui, num sábado, três dias depois, a este bar e aos braços deste rapaz. Bonito, é verdade, mas sua beleza não significou nada quando um amigo de Ana se aproximou para cumprimentá-la acompanhado de dois outros homens que ele apresentou a Ana. Foi pelo da esquerda que ela se apaixonou. Será que ele viu que ela estava acompanhada?

Entenda uma coisa leitor, Ana já estava apaixonada pelo homem que chegou a esquerda de seu amigo desde antes deles serem apresentados, mas não havia percebido isso ainda. Não sabia que em breve se sentiria baixa pela primeira vez na vida enquanto se pendurava em seus ombros apenhascados, que poderia recostar a cabeça em seu peito a qualquer hora do dia ou da noite, em pé ou deitada, que ela ouviria o coração dele bater. Quando ela o vira pela primeira vez em um canto, encolhido, um rapaz alto, muito alto, mais alto do que ela própria ela não tinha ainda a mínima ideia de que estaria me contando esta história no nosso primeiro aniversário de namoro e atribuindo àquela abençoada cachaça a nossa união. Mas afirma, hoje em dia, que desde o primeiro momento em que me viu, já estava apaixonada.