“Por onde andam meus pés”? Dia 2.

Hoje meus pés passaram o dia em casa e a maior parte dele na posição da foto.

Isso pode parecer desconfortável, mas, na verdade, não é. E eu pude ficar descalça o dia inteirinho, o que é perfeito.

Passei o dia estudando. Infelizmente meu fim de ano está tomado por obrigações acadêmicas. Não foi um mal dia, contudo. A temperatura estava boa, a comida já foi de feriado e o tema de estudo era interessante.

Tirando a foto de hoje, eu percebi como a parede e o chão estavam sujos. Depois de tirar uma primeira foto, eu varri o chão e tirei outra depois para postar. A parede eu deixei por ser meio que uma marca do tempo que eu passei aqui sentada, estudando e esfregando o pé nela.

Meus pés tiveram de pacientemente esperar enquanto eu prestava atenção em outras coisas. Essa é uma realidade constante na vida dos pés. Por exemplo, agora mesmo, estou escrevendo sobre eles, mas estou pensando nessas caixas coloridas aqui do meu lado que acabaram aparecendo na foto. Elas estão cheias de papel.

Eu me mudei no início deste ano. Antes da mudança, eu e meu marido fizemos uma limpeza. Jogamos coisas fora, doamos roupas… Foi um detox ambiental. E, ainda assim, minha casa nova está cheia de papéis.

Eu até sei te dizer mais ou menos de onde eles vêm: as empresas mandam sempre mais papel do que o necessário nas minhas contas a pagar, mandam papéis mesmo quando eu peço fatura online; a faculdade me obrigou a ter muitos papeis também, o mestrado e o doutorado, a mesma coisa; agora ainda tem a escrita, vira e mexe eu imprimo os textos nos quais estou trabalhando (venho resistindo à tentação de imprimir todos os textos do blog); tem os papéis dos recados, das anotações pessoais, do trabalho, as receitas dos médicos e os exames. Falo só de papéis soltos, avulsos, isso exclui os livros e cadernos.

É quase como se viver fosse produzir lixo e acumular papel. São as duas coisas que mais se multiplicam aqui em casa.

Eu olho para o lado agora e vejo os papéis que eu produzi com os estudos de hoje…

Meus pés acumularam pouquíssimos papéis.

Foram raras as vezes em que fui ao salão fazer as unhas dos pés, portanto eles me renderam apenas alguns poucos recibos. Pensando bem, meus pés sabem fazer todo tipo de economias.

Meus pés me poupam de ficar à toa na internet, eles me levam para passear constantemente. E eles também já me fizeram economizar um dinheiro de telefone me levando para passar as tardes na casa dos amigos. Me farão economizar com remédios no futuro, eu tenho certeza, já que eles têm me exercitado bastante. Raramente reclamam de dor, portanto eu gastei muito pouco com tratamentos para os pés.

Eles tiveram alguns acidentes, mas isso é assunto para outro momento.

De um modo geral, meus pés vivem uma vida muito simples, feliz e de poucas despesas e eu tenho que ficar atenta para aprender mais com eles.

 pes dia 2.JPG

“Por onde andam meus pés”? Dia 1.

Hoje meus pés tiveram um ótimo dia.

Trabalharam muito pela manhã. Eu saí de casa cedo e fui andando até o local do encontro que havia marcado numa padaria com uma amiga. Voltei andando também. Meus pés às vezes pagam caro pela economia da passagem de ônibus.

Pelo menos, o fato de ter sido um compromisso informal me permitiu sair de chinelo.

Depois de chegar em casa, passei o resto do dia descalça.

Na hierarquia de desconforto que os sapatos me trazem, os chinelos são os mais toleráveis. Mas ainda assim, prefiro os pés descalços.

Nunca gostei de sapatos.

Lembro que mesmo no quintal da casa da minha avó, ou no quintal dos meus tios em Cabo-Frio, eu andava descalça. Independentemente das formigas ou das pedrinhas. E quer saber? Era até meio que como uma massagenzinha masoquista de vez em quando.

Essa paixão por andar descalça não foi abalada nem mesmo quando, lá em Cabo-Frio, eu pisei em um marimbondo e o ferrão entrou no meu pé. Doeu horrores para retirá-lo. Eu me lembro até hoje dos adultos ao meu redor. A sola do meu pé sendo espremida e eu chorando.

De noite, antes de dormir, eu certamente terei de lavar os pés para não sujar a cama. É que a casa anda precisando de ser varrida…

Hoje foi um dia de liberdade pediosa.

Pedioso significa “referente aos pés” .

E, assim como para os meus pés, hoje foi, para mim, um dia agradável de liberdade, ainda que um pouquinho cansativo.

 pes dia 1.JPG

 

Por que não queremos dar dinheiro aos pobres?

“Era preciso ser caridoso; diziam mesmo que sua casa era a casa de Nosso Senhor. Deleitava-se em dizer que praticavam a caridade com inteligência; na verdade, viviam possuídos do pavor de serem enganados e de encorajarem os vícios. Por isso nunca davam dinheiro, nunca! nem dez soldos, nem mesmo dois; então não era sabido que assim que um pobre se via com dois soldos ia logo bebê-los? Suas esmolas, portanto, eram quase sempre em gêneros, principalmente em roupas quentes, distribuídas no inverno às crianças indigentes” (ZOLA, 1979, p. 98 e 99).

 

Há anos eu quero escrever o texto de hoje. E foi esta passagem do livro Germinal, que eu li recentemente, que fez com que a vez dele finalmente chegasse.

Eu já havia me debatido com esta questão muitas vezes antes na vida, mas nunca encontrei muito coro nas vozes das outras pessoas. “Quem sabe é só um problema meu”? Mas, ao esbarrar com esta passagem, percebi que meu incômodo fazia sentido.

A primeira vez que atentei para o fato foi no primeiro período, na primeiríssima semana da faculdade. Estávamos todos na rua pedindo dinheiro para a chopada como parte do nosso trote. Até que em certo momento, eu fui para o ponto de ônibus. Eu sairia de botafogo e iria para o centro da cidade e pediria mais dinheiro por lá. Quando cheguei ao ponto, não perdi a oportunidade de pedir dinheiro às pessoas que estavam ali. Não me lembro se todas deram dinheiros ou quantas pessoas tinham no ponto nesse momento. Só me lembro que eu recebi dinheiro de pessoas que estavam naquele ponto e, minutos depois, veio um menino pobre, pedindo dinheiro àquelas mesmas pessoas e eu não vi ninguém dar dinheiro para ele.

Aí comecei a me tocar de que as pessoas geralmente não gostam de dar dinheiro para meninos e meninas de rua, mas que, aparentemente, não se importam em dar dois, cinco ou dez reais para calouros universitários.

As pessoas costumam dizer que dar dinheiro para pessoas pobres que pedem na rua significa encorajar o vício ou a criminalidade. Eu fico me perguntando o que essas pessoas acham que um bando de adolescentes de classe média alta vai fazer com o dinheiro que arrecada…? Vocês têm alguma ideia? Vão beber esse dinheiro todo! Fumar, usar drogas etc.

O caso é que a gente não gosta que a pobreza se aproxime da gente enquanto estamos na rua, invada nosso ambiente, polua nosso ar com seu cheiro. O fato é que nos indignamos com o fato de haverem pessoas pobres “que não fazem nada para acabar com a própria pobreza”. Achamos que as pessoas que nos pedem dinheiro na rua estão se aproveitando de nós! Da nossa boa vontade e do nosso árduo trabalho. Para sermos espertos e nos garantirmos de que não seremos enganados, danos roupas ou comida ou qualquer outro bem que NÓS julgamos que aquele pobre precisa ou que julgamos que ele deveria querer. Aquele pobre, de fato, deve aceitar e se resignar ou que o nosso julgamento superior afirma ser a necessidade DELE e o que trará efetivamente maior benefício para ele e para a sociedade. E nós não conseguimos enxergar como isso tudo é absolutamente arrogante e prepotente. Relutamos em admitir que não sabemos o que é melhor para o pobre. Não sabemos lidar com a pobreza.

Pensando numa alegoria, as coisas seriam mais ou menos assim segundo a mentalidade de quem tem poder aquisitivo:

 

Uma pessoa de bem se vê, da noite para o dia, privada de todos os seus bens, morador de rua, desempregado e sem família. Essa pessoa de bem, usando seu julgamento superior e seu acurado senso de dever e de justiça, faria escolhas inteligentes, se esforçaria muito e em dois tempos, conseguiria reorganizar sua vida.

 

É isso que imaginamos: se aquele pobre tomasse jeito e no lugar de ficar largado na rua pedindo dinheiro fosse para um abrigo, procurasse estudar e trabalhar, ele teria uma vida boa e descente.

Eu tenho uma novidade para você: as chances de uma coisa dessa acontecer numa sociedade como a nossa são pequenas. Bastante pequenas.

E o nosso cidadão de bem fosse parar no meio da rua, ele iria possivelmente sofrer algum tipo de violência, sofreria com o preconceito e passaria fome, contrairia doenças e, possivelmente, morreria em dois ou três anos.

Ainda tem o fato de nós inocentemente acreditarmos que é a bebedeira ou o uso de drogas do morador de rua a principal ou uma das principais causas da violência da cidade.

O próprio fato da pessoa estar ali te PEDINDO dinheiro já mostra que ela está com um pé atrás em relação a cometer um crime. Ela poderia, de fato, estar matando ou roubando e ela escolheu não estar.

Nos últimos anos começamos a nos apavorar com o fenômeno das cracolândias, afinal, não é mesmo? A cracolândia é um fenômeno diverso daquele dos moradores de rua. A cracolândia existe porque as pessoas são empurradas para o entorpecimento frente à realidade. Empurradas pela negligência do Estado que não ampara e não cuida dos grupos mais oprimidos, da população pobre que acaba sendo a consumidora necessária do produto do tráfico de drogas, que o governo não combate até as últimas consequências, pois o funcionamento do estado é atrelado ao crime e a corrupção.

Não somos eu ou você individualmente que vamos fazer a diferença positiva ou negativamente nessa questão.

Foi essa reflexão de quase dez anos atrás que Émile Zola descreveu na passagem citada de seu livro Germinal. Parece que esta preocupação de ser enganado e prejudicado pela pobreza ganha força com o surgimento da burguesia. As classes parecem mesmo estar em guerra uma com a outra e não se dá armas ou vantagens ao inimigo.

 

Zola, Émile. GERMINAL. Tradução de Francisco Bittencourt. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

A filha do mineiro e a filha do burguês no Germinal de Émile Zola.

Mais ou menos às quatro da madrugada, durante seis dias na semana, acordavam os mineiros e suas filhas, também mineiras, para um dia extenuante de trabalho, em semi-jejum:

“(…) Catherine fez um esforço desesperado. Espreguiçava-se, crispava as mãos nos cabelos ruivos que se emaranhavam na testa e na nuca. Franzina para seus quinze anos, não mostrava dos membros senão uns pés azulados, como tatuados com carvão, que saiam para fora da bainha da camisola estreita, e os braços delicados, alvos como leite, contrastando com a cor macilenta do rosto, já estragado pelas contínuas lavagens com sabão preto. Um único bocejo abriu-lhe a boca um pouco grande, com dentes magníficos incrustados na palidez clorótica das gengivas, enquanto seus olhos cinzentos choravam de tanto combater o sono. Era uma expressão dolorosa e abatida que parecia encher de cansaço toda a sua nudez” (p. 21).

 

Seis horas mais tarde, acordavam as poucas filhas dos burgueses e os burgueses, para uma mesa posta de pães e bolos e um dia de ócio produtivo.

“(…) forrado de seda azul, com mobiliário laqueado de branco e filetes azuis, um capricho de criança mimada satisfeito pelos pais. No alvor informe do leito, à meia luz filtrada pela abertura de um cortinado, a mocinha dormia, cabeça apoiada no braço nu. Não era bonita, mas muito sadia, muito vigorosa, madura mesmo nos seus dezoito anos, com uma carnação soberba, uma frescura de leite, cabelos castanhos, rosto redondo, narizinho voluntarioso afundado entre as faces. As cobertas tinham escorregado e podia-se vê-la respirando, mas tão levemente que a respiração nem sequer movimentava seu colo já desenvolvido” (p. 83).

 

Zola, Émile. GERMINAL. Tradução de Francisco Bittencourt. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

Meu presente de Natal para você.

 

Tem um presente de Natal que você pode dar a todas as pessoas ao seu redor: ajuda-las a ver a vida de um modo diferente. A resolução de muitos problemas por aí passa por simplesmente encarar a situação de outra forma, olhar as coisas por um outro ângulo.

E o melhor é que este presente tão significativo não custa caro. Você vai precisar de um pote ou de uma sacolinha e de aproximadamente 100 pedaços de papel.

De hoje até o fim do ano, dia 31, anote cinco coisas pelas quase você é grato, todo dia, em pequenos pedaços de papel e vá colocando-os em um pote ou um saquinho para ir guardando os papeizinhos.

Não se preocupe em anotar apenas as coisas que te parecem extraordinárias. Preste atenção às pequenas coisas do seu dia a dia que tornam a sua vida especial.

No dia primeiro de janeiro, leia todos as coisas que você anotou.

Este exercício pode ser feito em duplas (para casais, pais e filhos), ou em grupo (para famílias, por exemplo). Cada um vai anotar nos seus cinco papeizinhos as coisas pelas quais se sente diariamente grato e vai colocá-los em seu pote ou em um pote coletivo. Então, todos devem se reunir o quanto antes em janeiro para ler todos os papéis. Cada um pode ler o que anotou ou pode-se optar por juntar todos os papéis para que eles sejam lidos sem identificar quem escreveu o quê.

Essas são todas as coisas pelas quais você deve ser grato e às quais você deve prestar mais atenção no próximo ano.

Faça isso, e você vai perceber quanta coisa boa tem na sua vida.

Veganismo, gatos e bibliotecas.

Hoje eu não estou sozinha.

Uma amiga veio dormir aqui em casa. Durante o dia eu fiquei pensando: “Cacete, vou ter que escrever o texto do blog antes dela chegar. Ah, meu deus! Não vai dar tempo! Ela vai chegar e eu não vou ter escrito o texto”.

Quando ela chegou eu ainda não havia escrito o texto. Comecei a me desculpar e explicar que eu teria que fazer o texto mesmo com ela ali.

Sentamos na frente do computador e eu falei: “Ok. Vamos tentar escrever juntas. Sobre o que você acha que devemos falar”?

– Bom, por que você não fala sobre como as pessoas complicam coisas que não verdade são muito simples?

– Ótimo tema! Fui eu o dia inteiro preocupada com ter que escrever antes de você chegar, quando, na verdade, pode ser simples, divertido e construtivo ter o olhar de outra pessoa sobre o texto.

 

O texto de hoje será uma entrevista improvisada com esta minha amiga, a Ju – bibliotecária, vegana, mãe e protetora de mais de 30 gatos –, que vai conversar com a gente sobre o tema “COMPLICANDO O SIMPLES”.

 

Entrevistadora: Hoje estamos aqui com a Ju, bibliotecária, que vai conversar com a gente sobre como as pessoas complicam coisas que, na verdade, são muito simples. Ju, você acha que as pessoas têm a tendência de complicar coisas simples?

 

Ju: Acho que sim. O que me vem à cabeça imediatamente quando eu penso nisso é no desespero das pessoas quando eu digo que sou vegana. Não sabem o que me oferecer para comer, o que eu comeria numa festa. Tipo, na verdade, uma forma bem simples de fazer é substituir a carne das receitas por legumes, por exemplo. As pessoas adoram oferecer lasanha para a visita. Você pode fazer uma lasanha de legumes usando molho de tomates e qualquer legume que você tenha a disposição. No mercado tem massa de ovo e de sêmola, estas não possuem nada de origem animal e têm o mesmo gosto e valor.

 

E: Ok. Mas as pessoas geralmente desconhecem os princípios do veganismo. Talvez isso dificulte a escolha do cardápio para elas.

 

Ju: Aí é simples também! É só me perguntar que eu explico! Eu não irei comer nada que venha de um animal. Então, nada com carne, nada com ovo e nada com leite ou mel. Todo o resto está liberado.

 

E: Você acha que as pessoas fazem uma tempestade em um copo d’água quando se deparam com algo diferente?

 

Ju: Sim. Antes mesmo de conhecer, já julgam que se trata de algo difícil e caro.

 

E: Você tem outros exemplos desse tipo de complicação desnecessária?

 

Ju: O que acontece muito com pessoas mais velhas é que elas têm uma mania de julgar que não sabem fazer algo que nunca fizeram sem nunca realmente tentar. Às vezes é uma ferramenta muito simples. Basta que você siga instruções simples para realizar a tarefa. Eu vi isso este ano com um amigo oculto on-line. É uma ferramenta simples. É só clicar em um link que a pessoa recebe por WhatsApp, e vale notar que se tratava de pessoas que sabiam usar o aplicativo, assim ela é direcionada para uma página na qual ela escolhia se queria se cadastrar ou fazer login. Como era a primeira vez, elas deveriam clicar em cadastrar-se e fornecer dados simples como nome, e-mail etc. E pronto. Aí é só aguardar o sorteio.

 

E: Que tipo de problemas as pessoas criaram nesta situação do amigo oculto?

 

Ju: Elas simplesmente disseram não conseguir e eu tive que fazer o cadastro por elas.

 

E: Você não acha que isso tem a ver com a questão da idade que você mencionou? O fato delas não terem nascido na Era Digital? Quantos anos essas pessoas tinham?

 

Ju: elas tinham em torno de sessenta anos. E sabiam usar bem o facebook e o WhatsApp, que são até mais complicados de usar.

 

E: Você está dizendo que acha importante que mantenhamos a mente aberta para a inovação e tentemos encarar as coisas com um olhar mais positivo. Tentar antes de achar que não sabemos ou que não vai dar certo?

 

Ju: Exatamente. Por exemplo, as pessoas têm a mania de sempre procurar o mesmo atendente na biblioteca onde trabalho. Se eles fizeram o empréstimo com a assistente da tarde, na hora da devolução, eles procuram a mesma pessoa para devolver, quando eles poderiam devolver para qualquer servidor da biblioteca.

 

E: Você não acha que este hábito fala da necessidade das pessoas de criarem vínculos umas com as outras? Mesmo que sejam corriqueiros e superficiais?

 

Ju: Não. Elas não procuram a pessoas para conversar. Elas simplesmente não sabem que podem devolver para outras pessoas.

 

E: Mas essa informação é divulgada?

 

Ju: Nós já nem tentamos mais divulgar nada! Pois enchemos a biblioteca de cartazes e ninguém lê nada. Se lessem, saberiam de informações como esta.

 

E: Qual é a idade média das pessoas que frequentam a biblioteca?

 

Ju: Jovens adultos, de dezesseis até cerca de trinta anos.

 

E: Vocês não colocam mais cartazes, então?

 

Ju: Colocamos, mas sabemos que ninguém vai ler. Assim como não leem os anúncios na página do facebook.

 

E: Como isso prejudica essas pessoas na hora de devolver o livro?

 

Ju: Às vezes, não achando a pessoa a pessoa com quem pegaram o livro, eles deixam para devolver outro dia. Podem acabar levando uma suspensão por atraso por conta disso. Tem mais uma coisa que eu gostaria de acrescentar. E o assunto é grave. Várias pessoas não sabem o que fazer com seus gatos quando engravidam. Como se fosse necessário fazer algo a respeito dos gatos nesta circunstância. A única maneira de se contrair toxoplasmose de um gato, por exemplo, que é uma das maiores preocupações dos futuros papais e mamães, é pela ingestão de fezes de animais contaminados. Não coma as fezes do seu gato e você estará segura! Por precaução, você pode pedir a um terceiro que limpe as caixas de areia para você, mas certamente lavar bem as mãos depois de realizar esta tarefa já será suficiente. Além disso, você pode lavar bem as verduras antes de comê-las, evitar carnes malpassadas (ou evitar carnes em geral), só beber água filtrada e lavar bem as mãos antes de comer qualquer coisa. Inclusive, mesmo que você não tenha gatos, eu recomendo que você faça todas essas coisas.

 

E: Como essa complicação no caso dos gatos e da gravidez traz consequências negativas?

 

Ju: Muitos gatos acabam sendo abandonados por seus donos quando estes engravidam. Estes gatos podem acabar mortos, doentes ou vão acabar procriando indiscriminadamente pelas ruas da cidade, gerando um problema de saúde pública. Isso é muito mais grave para as futuras mamães do que manter seus gatos em casa, sadios, vacinados, limpos e castrados.

 

E: Ok, Ju. Muito obrigada pela sua participação. Eu tenho certeza de que nossos leitores vão apreciar as informações e vão procurar descomplicar os aspectos de suas vidas que podem ser simplificados.

 

Ju: Obrigada por lerem até aqui e pela oportunidade. No fim tudo se resume mesmo a ler e buscar informações, não se esquecendo de que perguntar e pedir ajuda são excelentes formas de se obter informações úteis e práticas para o dia a dia.   

 

 

Trimesversário do blog!

Chegamos.

3 meses de postagens diárias!

 

Então vamos tomar um vinho, a gente junta a turma e compartilha nossos insights a respeito da jornada. Eis o que eu quero compartilhar com vocês do que eu vivi e aprendi ao longo do caminho:

 

1-      Você não precisa esperar data nenhuma para colocar seus planos em prática. Eu comecei no dia 13 de setembro de 2017. Não era ano novo, nem o meu aniversário, nem segunda-feira. Agora é a data do aniversário do meu blog. A hora de começar é a hora que você decide começar. (Falei sobre isso no primeiro post dessa jornada).

2-      Tentativas anteriores fracassadas não condenam você ao fracasso eterno. Eu já havia tentado outras vezes manter uma rotina de publicação. Minha meta original era postar uma vez por semana. Aparentemente mais fácil, só que não (falei sobre isso também). Além disso, criar este blog não foi nem a minha primeira tentativa de tornar a minha escrita pública.

3-      Atrelada ao ponto anterior, tem uma questão inquietante. Por que tornar a escrita pública? Afinal, escrever no blog todo dia é um meio ou um fim? Eu deixei de tentar responder a esta pergunta. Resolvi simplificar as coisas: escrever é bom. Eu queria que fosse um ato público. Ponto final. Não estou preocupada em justificar meus desejos nem para mim mesma no momento. Se alguma coisa mudar, eu aviso.

4-      Em termos práticos: ter metas claras ajuda muito. A primeira coisa que eu fiz quando tomei a decisão de que começaria a escrever no blog, foi fazer um planejamento que resumia as “regras” da brincadeira (que você pode ver aqui).

5-      Conseguir medir meu avanço também é muito legal. Ver a cada dia um post novo me ajuda a ver que eu estou efetivamente fazendo alguma coisa. Então eu sugiro que, se você se colocar alguma meta, arranje uma maneira de medir o seu progresso. Tome cuidado apenas se a sua meta for emagrecimento. A maneira de medir provavelmente não vai ser a balança. Se este for o seu caso, seja criativo. Uma ideia: tire fotos das suas refeições, ou registre o que você come em um caderno. Assim a sua nova forma de alimentação vai ser mais palpável e visível para você de alguma forma.

6-      Comemorar o avanço é indispensável. Eu comemorei os menores textos deste blog (veja só que minúsculo!). Todo dia fiquei feliz por ter conseguido escrever e postar. E, nas datas comemorativas – primeira semana, primeiro mês e agora, o terceiro mês –, eu faço uma comemoração respeitável: comer fora, sair para beber, ir ao cinema, comprar um livro novo de presente para mim mesma…Nenhuma vitória é pequena demais para ser comemorada. Muitas vezes acreditamos que se não movemos uma montanha ou matamos um leão, não fizemos nada de extraordinário. Pare de pensar assim! Se parabenize por levantar da cama todo dia com vontade de viver! (Se você não está sentindo muita vontade de viver ultimamente, se parabenize por estar lendo isso; quer dizer que você está lutando de alguma forma e isso é extraordinário. O próximo passo é conversar com alguém e pedir ajuda! Você acha que eu estou cumprindo a meta de escrever todo dia nesse blog sozinha? Há! Você não ouve meu marido aqui em casa gritando: Já postou o texto? Já é quase meia noite! Quer que eu revise? A gente não faz nada sozinho nesta vida. Tem gente que costuma dizer que nós estamos essencialmente sozinhos, porque todos morremos sozinhos. Eu não acho que isso é verdade. A gente morre com todas as pessoas que amamos no coração. Isso não é estar sozinho).

7-      Eu também percebi que as áreas da nossa vida são muito mais conectadas do que imaginamos. Escrever no blog fez de mim uma pessoa mais confiante (o que me conseguiu recentemente um novo emprego – veja só!) e mais condescendente comigo mesma. Condescendência aqui é uma coisa boa. Eu me martirizava muito quando achava que não… movia uma montanha ou matava um leão, como falei anteriormente. Mas aceitar nossas limitações e imperfeições e olhar para elas de modo acolhedor e não recriminador nos ajuda a crescer. A gente tende a acreditar que só vamos melhorar se formos rigorosos e não aceitarmos fracassos ou imperfeições. Sabe o “tough love”? Pois é. Como estratégia de longo prazo ele destrói nossa autoestima e a nossa capacidade de acreditarmos em nós mesmos. Com esse novo olhar eu comecei a olhar meus erros e imperfeições (inclusive os do passado) com um novo olhar. Claro, eu me senti, ao mesmo tempo, mais capaz de realizar as coisas que eu quero e mais pé no chão para aceitar o meu tempo e reconhecer meus limites. Não reconhecer os próprios limites é como tentar avançar e acabar preso em uma rede invisível. Todos nós temos limites, quando nós os ignoramos, eles nos prendem e nós não somos capazes de entender o que estar acontecendo. É apenas quando reconhecemos estes limites, quando enxergamos as redes e os nós que estão nos prendendo, que podemos ir desfazendo-os aos poucos.

8-      Ter tempo é uma questão de escolha. O problema que enfrentamos quando sentimos que não temos tempo é o de estarmos perdidos no meio de um monte de atividades que não nos satisfazem e fazem com que nos sintamos incompletos e infelizes. Desista do que te faz mal e comece a insistir no que te faz bem. Preste muita atenção, contudo! Não comece a se auto-sabotar. Se tudo que você ama é caro, ou longe, ou fora do seu alcance de alguma forma, você está se auto-sabotando.  Te aconselho a se esforçar mais para sair deste ciclo de crenças negativas a respeito da sua felicidade. A psicologia tem mostrado para nós que a felicidade pode ser encontrada na apreciação e na gratidão pelas pequenas coisas presentes no nosso dia a dia. Comece daí e vá buscando a sua paixão.

9-      Confie no que você sente. Se tem alguma coisa te parece estranha é porque, provavelmente, está estranha mesmo. Do que eu estou falando? Das coisas que você resolve fazer com o seu tempo. Quando você encontra alguma coisa que te faz bem você fica feliz sempre que você tem oportunidade de fazer essa coisa. Assim é escrever para mim, por exemplo. Não importa o dia ou a hora, escrever sempre é bom. Tendo ou não algo para dizer. Com a leitura é a mesma coisa. Eu ainda tenho a dança também. São atividade que sempre, sempre, sempre me fazem me sentir bem. Pintar, por exemplo, não é a mesma coisa. É uma atividade que eu gosto de realizar, mas às vezes me faz me sentir bem, ás vezes me deixa frustrada. Se eu resolvesse insistir nisso seriamente, seria um pouquinho estranho e sofrido para mim. Eu sentiria constantemente que estou produzindo insatisfatoriamente. Não quero dizer com isso que meus textos sempre são fodões, só que eu sempre me sinto bem com a atividade de escrita. Qual é a questão aqui? Tem muita gente que insiste e vive uma vida baseada naquilo que não lhe cai tão bem assim, sem ter a atividade que lhe revigora e dá prazer e energia. Procure aquilo que faz você se sentir do jeito que eu me sinto quando escrevo.

10-    Faça, antes de não fazer. É simples, na verdade. A gente costuma ficar na dúvida: faço ou não faço? Se te faz bem: faça. Não se esqueça de tudo que eu falei acima: condescendência, pé no chão. Então, não faça escalada free solo sem preparo, comece pelas aulas de escalada, mas comece.

11-    Não se importe com o que os outros vão pensar de você. Eu ainda tenho medo do blog afetar minha vida negativamente de alguma maneira. É muita exposição. É isso que vivemos ouvindo, pelo menos. Que não devemos nos expor na internet, que se expor na internet é perigoso. Essas coisas entram na nossa cabeça e colam como chiclete no cabelo. Um saco. Estamos sempre cercados de medos e restrições. Todos temos que romper essas barreiras para sair de casa todo dia e fazer alguma coisa das nossas vidas. Todos os dias, quando escrevo, tenho que vencer essa voz que fica repetindo na minha cabeça que, de algum modo, o que eu escrevo pode acabar sendo usado contra mim algum dia. Não vou mentir dizendo que eu não tenho um filtro aqui na minha cabeça bem poderoso que mede os temas e as palavras que são escritas em todos os textos públicos. Não quero dizer com isso que não existem temas absolutamente particulares. Essas coisas não precisam nem ser filtradas, pois elas não fazem pressão para sair. Eu digo das coisas que eu sinto vontade de dizer, mas seguro. Virar um “artista maldito” ainda é um medo que assombra minha carreira literária. Isso tem um pouco a ver com a nossa cultura da felicidade. Demonstrar as partes obscuras da natureza humana é sempre um pecado e um escândalo.

12-    Entenda-me, não se importar com o que os outros vão pensar de você é uma afirmação que se refere aos babacas que vão te jogar para baixo. Porque é importante procurar a validação e o apoio daqueles que te amam. Se, por algum motivo, esta validade não vier, tenha paciência e não desista. Sabe aquele ditado: sempre tem um chinelo velho para um pé cansado? Esse ditado é muito verdadeiro. No mundo literário tem uma adaptação: para cada livro tem um leitor. Se você insistir por tempo suficiente, vai achar a sua turma.

13-    Faça até se sentir satisfeito. Ou seja, abuse do que te faz bem. Felicidade não tem contraindicação.

14-    Mire alto. A gente chega a ter medo de sonhar alto! Gente, sonhar é de graça e é tudo liberado. O limite é a sua capacidade imaginativa. O sonho é o primeiro passo da meta.

15-    Nem todo mundo vai gostar de tudo que você faz. Essa é do tipo: aceita que dói menos. Só vou acrescentar uma coisa… Normalmente aconselham a gente a largar para lá essas pessoas que não gostam de nós. Ignorá-las. Eu penso um pouco diferente. Eu acho que a gente tem potencial para amar a todas as pessoas na face da terra e ser amado de volta por todos. (Eu sei, eu sei, sou idealista até o meu último fio de cabelo, é verdade). Mas isso não vai acontecer na nossa geração. Então, eu não te sugiro dar uma de Jesus Cristo e amar o inimigo ou a oferecer a outra face, eu te aconselho a tentar entender o porquê do ódio que o amiguinho tem de você como um exercício de humanidade e uma lição contra o ódio e o preconceito. Simplesmente ignorar o coleguinha não te ajuda em nada a evoluir como pessoa, nem mesmo evita que você sinta raiva na maioria das vezes. O exercício empático faz você mergulhar na emoção e tentar desvendar os seus mistérios. Mas também, se você quiser, manda aquela indireta no face mesmo, deus sabe quantas vezes eu já quis fazer isso!

16-    Em muitos dias eu não tinha ideia a respeito do quê ia escrever. Devem ter uns 100 textos esboçados espalhados em todos os tipos de papéis por todos os cantos da minha casa e no bloco de notas do celular. Ou seja, olhando pelo lado positivo, eu que estava escrevendo pouco e estava sem uma rotina de escrita, escrevi muito mais do que estipulei na meta. Eu a superei em alguns sentidos. Não me importa que sejam textos inacabados, textos que eu vou jogar fora ou que eu nunca vou achar de novo aqui no meio dessa bagunça. São textos escritos e todo texto escrito é melhor do que um texto não escrito.

17-    Saiba quando parar um pouco. Não se deixe arrastar pelo trator do desenvolvimento pessoal. Isso não quer dizer que você não deve mirar alto ou sempre tentar melhorar. Mas, não importa quanto esforço você faça, você vai morrer imperfeito. Tenha certeza disso. Então, não fique esperando um estágio futuro de desenvolvimento pessoal ou profissional ou qualquer outra forma de desenvolvimento que estiver na moda para aproveitar a vida. Se refestele em cada degrau do caminho.

 

Eu não sei se foi só isso mesmo que eu aprendi ou se tem mais coisa. Eu não sei se eu verdadeiramente aprendi todas essas coisas. Eu só sei que, por hoje, eu estou feliz.

Rumo a um ano de postagens diárias!

Conheça o Núcleo de Doenças da Beleza.

Estava de bobeira hoje navegando pela internet, quando descobri algo que vale a pena indicar.

O que eu estava fazendo de bobeira na internet? Lendo reportagens com potencial sensacionalista. A reportagem era do blog da revista Super Interessante (vale a pena ler aqui); afirmava-se no texto que os cientistas descobriram que a batata frita é mais saudável do que a batata cozida! Ora, ora… Enfim… Tudo bem que tinham algumas condições lá… Leia a reportagem para ver os pormenores. Recomendo.

Não quero nem me aprofundar neste momento na questão da loucura que está a nossa cultura alimentar… O caso é que, depois de ler esta reportagem (com sangue nos olhos) eu fiquei vendo aquelas chamadas para outros textos que a internet sempre acha que podem me interessar que eu vi outro texto intitulado “Por que achamos que ser magro é bonito?” (veja aqui). Pois é, cutuca que você acha, não é? Dê tempo à internet que você sempre vai achar algo que vai prender a sua atenção. Neste segundo texto foi citado o Núcleo de Doenças da Beleza, coordenado pela psicóloga Joana de Vilhena Novaes. Então, no fim das contas, essa peregrinação pela internet rendeu hoje frutos positivos.

O que eu quero indicar é justamente o canal do Núcleo de Doenças da Beleza no youtube.

 

“O sujeito que não investe tempo e dinheiro nesse projeto corporal é malvisto pelos seus pares”.

 

A ditadura da beleza levou o Brasil a ser o segundo país do mundo em número de cirurgias plásticas e o consumidor de metade dos medicamentos para o emagrecimento produzido no mundo. Como se explica isso?

Vale muito a pena dar uma olhada no canal (link) e se tornar mais consciente e crítico a respeito das questões contemporâneas sobre o corpo e a beleza.  

 

“Não cuidar do corpo é entendido como uma falha de caráter”.

 

Link do vídeo de onde foram retiradas as citações da psicóloga Joana de Vilhena Novaes: https://www.youtube.com/watch?v=PDS_MkvKih4&t=272s.

Orgasmo emocional.

Você já ouviu falar no Relatório Hite? Isso mesmo: Hite.

Pode ser que você ache que eu estou um pouco confusa e quero, na verdade, me referir ao Relatório Kinsey, mas não. É do Relatório Hite mesmo que eu quero falar.

O Relatório Kinsey foi, sem dúvida, muito famoso (você pode assistir ao filme Kinsey – Vamos Falar de Sexo para se divertir e saber mais sobre a vida e o trabalho do autor). Mas, depois dele, veio um trabalho eu acho ainda mais interessante; me refiro à pesquisa de Shere Hite, também realizada nos Estados Unidos. A autora entrevistou mais de três mil mulheres ao longo da década de 1970, a partir da aplicação de questionários abertos (nos quais é feita uma pergunta a qual a mulher responde livremente com suas próprias palavras), que investigavam os principais temas da sexualidade feminina: masturbação, orgasmo, penetração, lesbianismo etc.

Este foi o primeiro grande estudo da sexualidade feminina, feito por uma mulher, que deu voz a milhares de mulheres, permitindo que elas falassem abertamente sobre suas experiências sexuais.

Um dos achados mais interessantes da pesquisa foi denominado por Hite de ORGASMO EMOCIONAL.

A descoberta do orgasmo emocional lançou luz sobre uma ampla gama de sentimento e sensações físicas sentidas pelas mulheres durante o ato da penetração sexual que geravam muita confusão para elas. São sentimentos e sensações prazerosas, mas que são, de algum modo, diferentes daquelas que as mulheres sentem com a estimulação do clitóris.

Frequentemente, durante a relação sexual, a mulher sente um ápice físico e emocional prazeroso, mas que é, de alguma forma, diferente do orgasmo que ela tem quando se masturba ou mesmo no sexo oral com o parceiro. Sabe quando você termina de transar e o boy pergunta: “E aí, gozou?”, e você fica na dúvida? Pois é. Teve alguma coisa ali que você sentiu… mas que você não tem certeza de ter sido um orgasmo? As mulheres muitas vezes interpretam essas sensações como orgasmos mais fracos e difusos.

O orgasmo emocional põe fim a esta dúvida. Quando você fica na dúvida, você teve um orgasmo emocional, mas não um orgasmo biológico.

É possível sim que os orgasmos biológicos variem de intensidade. Mas tem sido fortemente apontado pelas pesquisas o fato de que, quando você tem um orgasmo, você sabe que teve um orgasmo. O orgasmo gera uma descarga de tensão acumulada no sexo que, independentemente da intensidade, tende a ser inconfundível.

O orgasmo biológico seria alcançado pelas mulheres durante a estimulação direta ou indireta do clitóris. A estimulação direta acontece com a masturbação ou no sexo oral, por exemplo. A estimulação indireta pode acontecer durante a penetração. O clitóris pode ser pouco protuberante em sua parte externa (aquela que fica visível na vagina), mas ele é bem grandinho em sua parte interna. O clitóris, dentro do corpo da mulher, se estende ao redor da vagina, por isso, pode ser estimulado indiretamente na penetração. Essa estimulação indireta é o que torna possível o orgasmo vaginal.

Por outro lado, aquela sensação difusa que você sente durante uma relação sexual, que é boa, maravilhosa, que faz você até achar que gozou, mas que te deixa na dúvida, porque é, de alguma forma, diferente do que você sente quando se masturba e chega ao orgasmo; então, esse é o orgasmo emocional. Isso acontece por que não houve estimulação suficiente do clitóris para fazer você gozar, mas, ainda sim, trata-se de uma relação sexual e isso tem impactos no corpo e na mente da mulher que geram pico de prazer físico e emocional.

Shere Hite descreveu o orgasmo feminino como

 

“um sentimento de amor e comunhão com outro ser humano que atinge um máximo, é um grande aprofundamento da intensidade do sentimento, que pode ser sentido fisicamente no coração, ou como um nó na garganta, ou como uma sensação geral de abertura, uma sensação de desejo de ser penetrada cada vez mais, um desejo de se fundir e de se tornar um só com o outro. Isso poderia ser descrito como uma completa liberação de emoções, o que uma mulher chamou de “um penetrante sentimento de amor”, ou como um orgasmo do coração” ∗.

 

Então, agora você já não precisa ficar mais na dúvida ao responder: “Gozou?”. É sim ou não!

Não diga que sim para agradar seu parceiro.

É ótimo que você saiba com certeza quando não gozou! Porque, assim, você pode buscar outras formas de estimulação que te levem, de fato, ao orgasmo.

A relação sexual não precisa acabar enquanto você não estiver satisfeita.

 

 

 

∗HITE, Shere. O Relatório Hite: um profundo estudo sobre a sexualidade feminina. Tradução de Ana Cristina Cesar. São Paulo: Difusão editorial, 1982. Conferir página 123.

A corrupção estrutural e a corrupção cotidiana, ou o jeitinho brasileiro.

Estão dizendo por aí que é o “jeitinho brasileiro” a origem da corrupção que vemos nos nossos governantes.

Se você realiza uma pequena ação errada no seu dia a dia, você não é diferente do político que rouba do hospital, causando indiretamente a morte de milhares de pessoas, ou daquele que rouba o dinheiro da merenda das escolas e deixa criancinhas passarem fome.

Outro dia eu estava revendo uns episódios antigo de The Big Bang Theory. Até que um episódio ilustrou perfeitamente o absurdo que é ancorar a corrupção estrutural na “corrupção cotidiana”.

Existe um salto qualitativo entre colar em uma prova e deixar crianças passarem fome, entre sentar no assento preferencial e roubar o dinheiro do pagamento dos médicos. 

No episódio da série que eu mencionei, Leonard chega dois dias mais cedo de uma viagem de trabalho que durou três meses. No lugar de voltar direto para seu apartamento e encontrar seu amigo Sheldon, ele vai para a casa da namorada, Penny, escondido. Se Sheldon o descobrisse lá, Leonard passaria maus bocados. Contudo, Sheldon, após uma rápida interação com Penny, enquanto ela tenta se desvencilhar do amigo que a convida para jantar, desconfia. Ele acredita que Penny estava acompanhada, mas, sem saber da volta do amigo, ele acredita que ela está traindo Leonard.

Sheldon retorna para seu apartamento e, mais tarde, encontra sua namorada, Amy. Sheldon começa a levantar alguns argumentos para justificar sua crença da infidelidade de Penny. Amy, a princípio cética, descarta os argumentos de Sheldon. É um desses argumentos que Amy descarta que chama atenção e é relevante para a presente discussão.

A certa altura, Sheldon afirma que, certa vez, ele e Penny estavam em um “concurso de encarar” (uma brincadeira infantil: duas pessoas se encaram fixamente, quem piscar primeiro perde) e Penny teria batido palmas muito alto e feito Sheldon piscar. Ou seja, ela teria trapaceado no jogo. O personagem então afirma que era uma questão de dar um pequeno passo entre trapacear em um jogo e a infidelidade sexual. (Esse foi um dos argumentos rejeitados por Amy). 

O fato de Penny ter trapaceado na brincadeira não fala absolutamente nada da sua postura ética em relacionamentos amorosos.

Ao tomar decisões éticas em sua vida, uma pessoa normalmente considera uma série de fatores. O resultado de suas ações é um destes fatores. Se uma pessoa avalia que suas ações não trarão consequências negativas em aspectos importantes, ela pode acabar realizando esta ação a despeito de considera-la errada.

Nada disso tem o objetivo de justificar as coisas erradas que fazemos em nosso dia a dia, o importante é esclarecer que essas atitudes nada têm a ver com a corrupção política.

A corrupção política, como dito anteriormente, é estrutural. Sabe quando a gente diz “que a política corrompe as pessoas”, “os honestos não sobrevivem lá dentro”? Isso sim é verdade. Quem é honesto quando entra na política ou é corrompido, desiste, ou nunca vai conseguir hegemonia no comando do Estado. Os jogos de poder do governo são sustentados nas alianças, interesses do capital e batalhas ideológicas. É esse frágil equilíbrio de forças que tem como um de seus componentes essenciais a corrupção.  

Figurativamente falando, a bancada do governo é como um balcão de atendimento para os negócios dos ricos. Os grandes banqueiros e empresários chegando até o governo com interesses que nada têm a ver com as demandas do povo brasileiro e recebem favores em troca de grandes quantidades de dinheiro.

Toda essa sujeira tem que escoar para algum lugar para que a nossa revolta não seja direcionada para o lugar certo. E é aí que entra o “argumento da legalidade”: dividir para conquistar. O argumento da legalidade é caracterizado pela culpabilização individual daqueles que escapam da norma de alguma maneira. Os problemas do país são vistos dessa forma como a soma dos resultados de cada ação individual fora da lei, por menor que ela seja. O problema e que o todo é sempre maior do que a soma das partes. Todas as pequenas ações ilegais somadas não justificam ou explicam o problema da corrupção.

Se nenhum brasileiro saísse do escopo da legalidade a corrupção dos corruptos governantes do nosso país apenas iria brilhar intacta e inalterada.

Se não entendermos isso seremos os motoristas de ônibus que expulsam aqueles que não têm dinheiro para voltar para casa depois de um dia de trabalho e que acabam dormindo na rua, acreditaremos que a passagem de ônibus está cara por causa da gratuidade, seremos os vizinhos que acreditam que a luz está cara por causa daqueles que têm gato, seremos aqueles que acreditam que as taxas do cartão de crédito estão altas por causa da inadimplência.

O problema é: um Estado cujos membros vivem completamente dentro da lei é mais utópico do que o comunismo. Isso quer dizer que, enquanto não aprendermos a driblar o argumento da legalidade e entendermos que a culpabilização individual serve apenas para desviar a nossa atenção dos verdadeiros culpados dos nossos problemas, vamos atacar uns aos outros fazendo o trabalho sujo dos governantes.

Para finalizar, uma reflexão. Existem as pequenas ações ilegais que são verdadeiros atos de resistência. Não vamos esquecer dos “pulões” de 2013, quando os manifestantes seguravam as portas traseiras dos ônibus abertas para que as pessoas conseguissem entrar de graça. Essa ação é ilegal e altamente recomendada. O objetivo dessas ações é sempre o de criar uma pequena rachadura no sistema favorecendo o povo no lugar dos empresários.