Cinco palavras sem sentido.

Eu já fiz um exercício numa oficina de escrita criativa que com sistema no seguinte: cinco pessoas da turma falavam cada um uma palavra e todos os participantes tinham que escrever uma narrativa que contivesse todas as cinco palavras sem variações. Por exemplo, se a palavra era sangue, tinha que usar sangue mesmo, não poderia ser sanguinolento.
Há um tempo eu vi uma cena no trem sobre a qual eu queria escrever, mas até hoje eu não sei como fazer esse texto.
Seguindo o procedimento proposto na oficina, trata-se de um texto que tem que conter as cinco palavras a seguir:

Hidrocefalia.
Cego.
Chokito.
Prestígio.
Latão.

 

Eu peguei o trem no meio da tarde para ir até o Engenho de Dentro visitar uma amiga. O vagão não estava lotado, mas não tinha lugar para sentar. Fiquei em pé perto da passagem de um vagão para o outro. Eram vagões assim como aqueles mais novos do metrô, que permitem que você passe de um vagão para outro através de uma estrutura de ligação sanfonada.

Logo assim que eu abri um livro para ler, um homem com uma menina em uma cadeira de rodas pararam bem na minha frente. O homem começou a falar com os passageiros:

– Senhoras e senhores, muito boa tarde! Desculpem interromper a viagem de vocês, mas eu venho aqui, com toda humildade, apelar para o coração de vocês. Se for possível, senhoras e senhores, fazer uma caridade… Esta é minha filha, senhoras e senhores. Ela nasceu com microcefalia, ela não anda, ela não consegue se alimentar ou ir ao banheiro sozinha. A mãe dela nos abandonou alguns anos atrás e eu, infelizmente, não posso trabalhar, senhoras e senhores, pois tenho que cuidar da minha filha, senhoras e senhores. A cabecinha dela, senhoras e senhores, acumula líquido e este líquido tem que ser drenado de duas a três vezes por dia, se não ela pode vir a falecer, senhoras e senhores. E só tem eu para fazer isso com ela. Ela não estuda, ela não fala, ela não tem como viver sem o meu auxílio, senhoras e senhores, e para poder ajuda-la, eu preciso da colaboração de vocês.

A essa altura, o homem já começou a ir andando vagarosamente pelo vagão recolhendo dinheiro. E outra voz começou a ganhar destaque.

– Muito obrigada pela compreensão e colaboração, senhoras e senhores. Que Deus abençoe o coração de vocês.

Era um homem cego idoso que vinha se aproximando da passagem que dava acesso ao meu vagão. Este home cego parou na minha frente e começou a falar.

– Muito boa tarde, senhoras e senhores. O cego vem pedir uma ajuda, pois eu não consigo arrumar emprego e tenho família para sustentar.

Mas nessa hora veio se aproximando novamente o homem com a filha na cadeira de rodas. Ele passou pelo homem cego e ficou a um metro dele, de costas, virado para os passageiros do vagão de onde o homem cego tinha vindo e ele reiniciou o seu discurso.

– Senhoras e senhores, muito boa tarde! Desculpem interromper a viagem de vocês, mas eu venho aqui, com toda humildade, apelar para o coração de vocês. Se for possível, senhoras e senhores, fazer uma caridade… Esta é minha filha, senhoras e senhores. Ela nasceu com microcefalia – a voz do cego se misturava com a dele – e foi assim que eu perdi a visão, senhoras e senhores. E se Deus me tirou a visão eu sei que foi na sabedoria dele e eu só peço que vocês me ajudem com qualquer moedinha – A cabecinha dela, senhoras e senhores, acumula líquido e este líquido tem que ser drenado de duas a três vezes por dia, se não ela pode vir a falecer – E eu entrei sim para as drogas. Eu não tenho vergonha de admitir. Por isso eu sei que Deus, em sua infinita sabedoria, tirou a minha visão. Então, eu já fui punido, senhoras e senhores. – Ela não estuda, ela não fala – Eu não enxergo e conto com a compaixão de vocês.

– Latão! Olha o latão! – Mais um sujeito passa por mim gritando. – Latão cinco reais! Latão para refrescar a sua viagem e começar a sua sexta feira!

– Então, quem puder colaborar, senhoras e senhoras, para evitar que essa criança maravilhosa venha acabe por aí morta, senhoras e senhores, qualquer ajuda eu agradeço.

– Pode colocar o dinheiro aqui no chapéu do cego.

– Ééééééééé… ochokitoprestígiobalahalls a um real… Ééééééééé… ochokitoprestígiobalahalls a um real…

– Ééééééééé… o chapéu do cego para evitar que essa criança maravilhosa a um real para refrescar a sua viagem.

Eu não pude ajudar ninguém. Eu tinha apenas cinquenta reais inteiros, virei as costas na minha estação e saí do trem.

FIM.

 

Ruim, não é? A história? Eu demorei a escrever por esse motivo. Essa história não tem moral, não tem fechamento, não tem epifania. Ela consiste em um monte de palavras aleatórias, absurdas, que jamais apareceriam juntas em uma história se não fosse a vida humana uma loucura.

Saudades. 

Se fosse hoje meu primeiro dia a falhar no Blog eu não ligaria.
Seria, inclusive, perfeitamente compreensível.
Mas uma noite dessas. Atormentada, com você longe.
Quantas dessas mais virão?
Todas as noites que teremos nessa vida já serão poucas. Me desculpe pela melancolia, mas você sabe que eu penso assim.
Você sabe que eu queria que nós fôssemos grudados. Blá-blá-blá, não me vem reclamar de falta de autonomia e dependência. Eu sei que na hora de dizer: “Tchau. Eu te amo. A gente logo se vê de novo”, o seu coração aperta tanto quanto o meu.
Eu fico aqui vegetando…
O problema é que seja um evento grande o suficiente para ter que se despedir, sabe? Não gosto de me despedir de você.
Alguma coisa é sempre muito esquisita para mim quando a gente se despede.
Quando a gente está perto tudo se encaixa. Se a gente está bem ou se a gente está brigando, não importa; eu sempre sinto que está tudo bem e que a minha vida está seguindo no caminho certo: compartilhar experiências com você.
Você sabe que eu comecei a sentir saudades dois dias antes de você ir. Então, se diverte, mas volta logo. Eu estou esperando você.

“De que modo são as bruxas transportadas de um lugar a outro “.

Por que lembrar de eventos há tanto transcorridos?
Por que mergulhar no passado uma vez e outra ainda e mais outra?

“Eis, enfim, o seu método de transporte pelo ar. De posse da pomada voadora, que, como dissemos, tem sua fórmula definida pelas instruções do diabo e é feita dos membros das crianças, sobretudo daquelas mortas antes do batismo, ungem com ela uma cadeira ou um cabo de vassoura; depois do que são imediatamente elevadas aos ares, de dia ou de noite, na visibilidade ou, se desejarem, na invisibilidade (…); noutras ocasiões, mesmo sem qualquer auxílio exterior, elas são visivelmente transportadas exclusivamente pela força dos demônios” (p. 228).
“Contamos aqui o caso de um vôo invisível, feito à luz do dia. Na cidade de Waldshut, às margens do Reno, na diocese de Costance, havia uma certa bruxa tão detestada pelos habitantes da cidade que não a convidaram para a celebração de um casamento, ao qual, no entanto, esperava-se o comparecimento de todos os moradores da região. Indignada e desejosa de vingança, chamou a sua presença um demônio. Tendo lhe explicado o motivo de seu aborrecimento, pediu-lhe que desencadeasse uma tempestade de granizo para dispersar todos os convidados da festa; o demônio concordou e, elevando-a no ar, levou-a até uma colina, nas proximidades da cidade, à vista de alguns pastores. Pôis-se então a cavar um pequeno foço que deveria encher de água para poder desencadear a tempestade (pois que é esse o método que usam para provocar chuvas de pedra). Como ali não dispusesse de água, encheu o foço com a própria urina e começou a revouvê-la com o dedo – conforme manda o ritual –, com o demônio a pastos a observá-la. Então, repentinamente, o demônio fez todo o líquido subir pelos ares, desabando uma violenta chuva de pedras apenas sobre os convidados e os dançarinos da festa. Depois de terem se dispersado e ficarem a se perguntar qual teria sido a causa do temporal, viram que chegava a bruxa na cidade, o que levantou forte suspeita sobre ela. No entanto, depois que os pastores contaram o que viram, a sua suspeita transformou-se em certeza, pelo que a mulher foi presa. E confessou que assim procedera porque não fora convidada para o casamento. E, por esse motivo, e pelas muitas outras bruxarias que já perpetrara, acabou queimada na fogueira”.
“E como a história do vôo das bruxas é fato cada vez mais comentado e público, mesmo entre as pessoas comuns, é desnecessário aqui aditar outras provas. Esperamos que esses exemplos sejam suficientes para esclarecer os que ainda negam a existência desse fenômeno, ou os que tentam sustentar que são fenômenos meramente imaginários ou fantásticos” (p. 229).
“De fato, teria pouca importância deixar esses homens incorrerem nesse erro, não fosse a sua crença tão danosa à Fé. Pois que, não contentes em sustentar o erro, ainda persistem em sustentar e publicar muitos outros que contribuem para o aumento do número de bruxas e para o detrimento da Fé. Porque afirmam que toda a bruxaria só pode ser atribuída à imaginação e à ilusão de alguns homens, como se se tratasse de algo inócuo, tão inócuo quanto o seu vôo, mera fantasia” (grifo meu, p. 229).

Sabem tudo aquilo que te falaram para que você não julgasse os fatos do passado com os olhos atuais? Devemos perdoar os homens do passado, pois eles não sabiam o que estavam fazendo? Eu já havia falado sobre essa ideia em um texto bastante antigo do blog. Repito. Não temos que perdoar os homens do passado. Temos que repudiar suas ações e nunca mais repetir seus erros. Encontrei no próprio Martelo das Feiticeiras, livro publicado em 1484, o argumento que me permite condená-los por seus atos sem desculpá-los por motivo algum. Na passagem destacada acima fica absolutamente evidente o fato de que, já naquela época, havia pessoas apontando para o absurdo que era acreditar em bruxaria. O que aconteceu foi que, infelizmente, aqueles que estavam certos perderam na disputa pelo poder e tiveram seu discurso suplantado pelo fanatismo.
Já naquela época havia trabalhos sendo publicados que falavam sobre o absurdo que era creditar em bruxaria, que afirmavam que tudo não passava de uma fantasia. Então, os elementos necessários para combater o obscurantismo da fé e acabar com toda a abominação que foi a Inquisição estavam dados.
Você me pergunta qual é o sentido de ficar revirando o passado? Porque estamos sempre a um movimento social em falso de uma nova barbárie. Além das muitas das quais ainda somos vítimas.
Por acaso vamos querer que o futuro nos perdoe por massacrar nossos jovens negros nas favelas? Por culpar as mulheres vítimas de violência pela violência que sofrem? Qual é a nossa desculpa?
O nosso erro é pensar que o passado foi completamente superado. A gente assiste séries e filmes sobre a forma como o tempo é circular e não linear (A Chegada e Dark, por exemplo), e não se dá conta de que esse fenômeno é verídico; mais uma vez, a ficção conta verdades falando mentiras.
O passado se repete, e repete, e repete. E se essas citações não te assombram como a mim, é sinal de que temos de lembrar estas histórias horrendas mais e mais.

KRAMER e SPRENGER, O Martelo das Feiticeiras. Tradução de Paulo Fróes. 13a edição. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 1998.

Carta a um amigo.

Estamos todos muito preocupados com você.

Não dê esse susto na gente nunca mais.

Se você nos abandonar, com quem vamos partilhar o sofrimento? Com quem se não com você que sofre mais do que todos nós?

Sem as suas poesias, como vamos nos expressar?

É preciso que você fique.

Sem as tuas musas a nossa arte também não tem sentido.

Se não for você a me lembrar dos decassílabos, quem mais?

Nesse mundo da poesia contemporânea, ninguém as conta mais.

Sem a tua fé tremenda nas certezas matemáticas, o meu mundo se torna incerto e cínico.

Não me fale mais que cortou os pulsos. Pois toda vez os meus sangram junto com os teus.

Não me fale mais de remédios ou do absinto, pois meu estômago se revira e corrói também.

Você quer que morramos todos juntos?

Nós ainda temos muito o que viver, você e eu.

Saiba que é muito cruel o teu grito de socorro.

Mais cruel ainda é saber que você sofre tanto e que nada do que fizemos é capaz e aliviar o teu sofrimento.

Eu sei o que você vai pensar:

– É melhor que eu morra, então, assim eu não causo mais sofrimento a eles.

Eu sei que você sabe lá no fundo que não há nenhum pensamento mais equivocado do que este.

As tuas ameaças são o ferro em brasa que se aproxima e se afasta da nossa pele. A tua morte será a hora em que esse ferro finalmente nos queimará a pele que arderá durante dias e ficará mercada para sempre.  

“Sair da vida para entrar na história”. Logo você, tão inteligente, não aprendeu nada com seu professor de história do ensino médio? O suicídio não é a absorção pelo esquecimento, é muito pelo contrário, a sua marca indelével na vida daqueles ao seu redor.

 

 

Guerra contra a felicidade.

Eu estou longe de poder ser parabenizada pelo meu amor aos clássicos da literatura (ou por ter lido uma boa quantidade destes), mas eu já passei tempo suficiente conversando com gente cult para saber que escritores clássicos e as tais pessoas cult não gostam muito de felicidade ou de gente feliz.

Portanto, a felicidade se tornou, já há muito tempo, coisa de gente simples e ignorante.

É um suposto fato cientificamente sustentado que as pessoas humildes, pouco educadas, geralmente pobres, sofrem menos, pois elas processam emoções de maneira menos complexa do que as pessoas que possuem mais recursos intelectuais.

O resultado histórico da mistura de todas essas opiniões é a de que a felicidade e as histórias de amor com finais felizes são malvistas, clichês, e feitas para o povão, para a massa, que “procura entretenimento rasteiro para se distrair”.

Eu até concordo que não abundam os filmes e as histórias românticas de boa qualidade, mas isso pode ser explicado pelo fato de os bons escritores, cineastas, poetas, dramaturgos etc., serem todos cult e nós já estabelecemos que gente cult odeia felicidade.

Essa guerra contra a felicidade e as pessoas felizes tem um viés acadêmico que se soma ao viés artístico.

Acadêmicos e intelectuais tendem a olhar com maus olhos esse papo de metas e de vida equilibrada, dos hábitos das pessoas altamente eficazes e da busca pela felicidade sustentável. Eles nos dizem que essas pessoas querem varrer as emoções negativas para debaixo do tapete. Afirmam que os estudos que comprovariam os benefícios e a eficácia deste novo estilo de vida e dos métodos que devemos empregar para alcançá-lo, não passam de pseudociência, de um discurso vazio e pouco profundo, que geraria, na verdade, um ideal de felicidade inatingível.

Isso tudo é realmente muito melancólico, pois é possível perceber, a partir desse discurso, o quanto as pessoas realmente se sentem tristes ou, não exatamente tristes, mas também não muito felizes de um modo geral; isso tudo a ponto do discurso da busca da felicidade parecer uma ameaça ou uma imposição insustentável, inatingível e dolorosa.

Na verdade, a gente já gastou grande parte dos recursos artísticos, intelectuais e culturais da humanidade relatando e estudando as trilhões de maneiras de sermos miseráveis. Os tratados e obras sobre a felicidade é que rareiam.

Mas o interessante é que elas sempre existiram. Desde a Antiguidade, passando pelo renascimento e chegando aos tempos atuais – nos quais elas se multiplicam – algumas mentes se arriscaram a proferir algumas palavras e a dar algumas pinceladas em homenagem à vida feliz.

Claro que existem os exagerados, aqueles que dizem que devemos ser felizes a qualquer custo e que têm horror das tais emoções negativas, mas generalizar essa postura é um grande preconceito.

O que algumas pessoas começam a buscar não é uma maneira de decepar o lado negativo, bastante rico e construtivo sim, da nossa vida emocional, mas apenas entortar a balança para o outro lado e falar mais de amor e esperança para variar.

O que queremos é, mesmo tendo consciência das mazelas da humanidade e sentindo dor e sofrimento em alguns momentos, reivindicar o direito de vivenciar o que há de verdadeiramente bom na vida e lutar para multiplicar os momentos de felicidade, aprendendo a valorizá-los.

A busca da felicidade é absolutamente legítima. E ela não é um desrespeito ao sofrimento.

A gente conhece muito mais meios de tortura, do que meios de fazer uma pessoa sorrir. E já é hora de mudar isso.

A vaca mandou o boi pastar.

Havia na terra do meu avô, lá para os lados do rio Tatuamunha, em Alagoas, um boi e uma vaca que eram casados.

Viviam os dois muito bem, até que o boi fez amizade com um outro boi que se mudou para a região.

Desde que essa amizade começou, a vaca não via mais o boi em casa. Ele estava sempre de papo por cima da cerca com o vizinho. Foi aí que a vaca percebeu que seu marido, que antes ela acreditava ser mudo, uma vez que nunca havia pronunciado palavra sequer, sabia falar e muito bem. Pôs-se a vaca a escutar a conversa dos dois e se encantou com os assuntos de seu cônjuge bovino.

Certa vez, ela se arrumou e esperou o companheiro com um belo prato de feno e uma noite inteira de delícias e conversas planejadas.

Quando o marido chegou em casa e sentou à mesa para comer, ela puxou assunto. Havia pesquisado intensamente sobre os temas de interesse do marido: sabia o nome de todos os touros vencedores dos últimos campeonatos de BFC – bovino’s fighting club –, os últimos modelos de carro de boi e tantos outros que interessavam os bovídeos machos daqueles dias. Mas o boi foi monossilábico em suas repostas. Só voltou a tagarelar no dia seguinte com seu amigo.

A esposa fez outras tentativas frustradas de iniciar conversas com o companheiro.

Certo dia, estando muito triste com o que ela sentia ser uma intensa indiferença do marido em relação a ela, foi até a beira do rio e começou a chorar amargamente. Sentia-se desprezada, desinteressante. Se ele falava tanto com o amigo, porque não conversava com ela?

A certa altura, ouviu uma voz rouca e grave saindo do rio a sua frente:

– Boa tarde, senhora. Por que choras? Qual o motivo de tanta tristeza?

– Ah! É meu marido que não gosta de conversar comigo – disse a vaca levantando os olhos e vendo um belo peixe-boi com sua pele cinza cintilando à luz do sol dentro da água fresca.

– Não fique assim. Pare de chorar. De hoje em diante prometo que venho conversar com você todos os dias.

E assim foi. Todos os dias, enquanto o boi ia conversar com seus amigos, a vaca ia até a beira do rio conversar com o peixe-boi.

Certo dia, a vaca e o peixe-boi estavam tão engajados na conversa que ela não voltou para casa a tempo de fazer o jantar antes do boi chegar. Naquele dia, ele ficou com a pulga atrás da orelha incomodando-o a noite inteira. A pulga, que já habitava atrás da orelha do bovino há muitos anos e, muito sábia e perspicaz, já entendia perfeitamente o que estava acontecendo, falou para o boi:

– Você tem que dar mais atenção à vaca. Não percebe que ela vem tentando se aproximar e você a ignorou todas as vezes que ela quis conversar?

– Deixa disso, pulga! Você não sabe o que fala! Ela gosta de conversar sobre assuntos de vaca: que cor tem a grana mais macia, qual é o melhor momento para pastar, o cuidado dos bezerros etc. Eu não sei nem me interesso por nada disso.

– Veja bem, boi, ela está se afastando.

– Calado! A única coisa que me importa é que ela tem atrasado com o jantar! Eu vou dar um pito nela!

– Pois faz muito mal!

O boi foi tolerante com os descuidos da vaca nos afazeres da casa por mais alguns dias, durantes os quais foi acumulando uma raiva crescente. Até que ele estourou e começou a gritar com a vaca, dizendo que esposa dele não ia ficar saracoteando por aí enquanto o marido passava fome. Ela não via que aquilo era um absurdo? Que ele não toleraria tal comportamento e que os outros animais já começavam a falar?

A vaca escutou tudo sem esboçar reação. Quando o boi parou de tagarelar ela levantou-se e disse:

– É uma pena que quando você finalmente resolveu conversar comigo, tenha sido para falar um monte de besteiras. Pois saiba que esta foi a nossa primeira e última conversa.

Naquela noite, ela juntou todas as suas coisas e foi embora. Quando ela estava saindo pela porta, o boi esbravejou:

– Você não pode ir! Quem vai fazer a janta?

– Não me interessa! Vá pastar com seus amigos.

– Volte! – o boi continuou gritando desesperadamente, sem acreditar que sua esposa partiria realmente.

Depois disso, ninguém nunca mais viu a vaca.

Algumas aves, que sobrevoavam a fazendo do meu avô em suas migrações de verão, dizem tê-la visto, alguns quilômetros rio acima, morando numa bela cabana junto d’água e conversando com um galante peixe-boi.   

 

 

***Texto escrito em coautoria com Juliana Santos.

 

Errata

No dia 11 de janeiro de 2018 eu acidentalmente republiquei o texto do dia anterior. Fui alertada pelos meus leitores e peço desculpas pelo ocorrido. O título dos textos não coincide, pois eu cheguei a escrever o texto do dia 11 e o título publicado está correto, mas na hora de passar o corpo do texto do Word para o Blog (como eu trabalho com muitas abas abertas), eu acabei copiando o texto errado sem perceber. Corrigirei este equívoco o quanto antes.

Os adultos do presente, do passado e do futuro.


Hoje eu fui almoçar com um amigo. O almoço foi excelente, mas a volta… Nem tanto.

Peguei um Uber (todo mundo está falando que a Uber já não está tão boa assim, mas eu ainda não me cadastrei no novo aplicativo de transporte da moda. Mas realmente tem sido difícil pegar Uber) e, infelizmente, o motorista veio conversando comigo a despeito do fato de eu ficar olhando fixamente para o celular torcendo para que ele parasse de falar. Eu não consigo interromper as pessoas em situações como estas de uma forma direta. E eu fico falando “uhum”, porque fico constrangida de ignorar completamente, aí a pessoa se sente encorajada a falar mais. Enfim.

Ele começou falando do trânsito. Dizendo que o trânsito estava muito bom na Lapa para uma quinta à noite. Estava mesmo. Mas ele continuou:

– Mais tarde isso aqui vai estar lotado. Cheio de jovem bebendo. Não sei de onde tiram tanto dinheiro assim para beber. Porque cerveja nesses bares, drink, isso tudo é caro. Eu estava falando para a minha mulher, eles já têm vinte… Trinta anos. Trabalham, mas ainda moram na casa dos pais. E não colaboram com nada dentro de casa, hein. Aí sobra dinheiro para gastar com farra. A minha mulher fica falando que “ah… você na sua época era a mesma coisa”. Eu sei. Eu sei que na minha época… Há! Ninguém me segurava não! Você me perdoa aí, dona, viu? Mas é porque, a senhora sabe como é, não é, garotão… A senhora é casada?

– Uhum…

– Pois é. Mas hoje em dia as jovens… Vou te contar. Não está fácil não. Outro dia mesmo peguei umas aí que disseram que eram maiores de idade e eu “tá”. Sabe? Não acreditei muito não. Mas a menina estava falando como ela tinha bebido todas. Na minha época a gente saía e tal, mas não era assim não. A juventude era diferente.

– Diferente como? – Disse eu cínica, mas interessada. Essa curiosidade mórbida que eu tenho sobre o que pensam as outras pessoas. Só me desespero.

– Ah, não sei te dizer não. Mas era diferente. Na minha época a gente ia para a farra, mas hoje em dia… Eu não sei… Parece que está tudo muito, sabe? Na minha época dia de farra era sexta, sábado, domingo… Hoje em dia isso aqui [a Lapa] já fica cheio na quinta feira. Na quinta isso aqui já está lotado. É quinta, sexta, sábado. Domingo que a gente nem vê tanto movimento. Mas não é só aqui também. Tem vários lugares, ruas e ruas por aí cheias de bares. Na minha época não tinha isso não.

– Ruas cheias de bares?

– Não, isso até tinha. Mas não era como está hoje. Entende o que eu estou te dizendo? O jovem hoje em dia perdeu o limite. Foi isso. Na minha época a gente bebia, mas tinha limite. Hoje em dia não tem mais esse limite. Os próprios pais não colocam mais esse limite. Minha esposa fala que eu era terrível, mas eu estou aí, não é? Trabalhando. Essa juventude aí até trabalha, mas não quer saber de nada não.

– Uhum…

– E olha que o país está em crise, como eu estava te falando. De onde que eles estão tirando dinheiro? Eu estou tendo para pagar as contas e olhe lá. Se eu tivesse dinheiro eu estava bebendo por aí também. Mas tem que ter responsabilidade. Que nem essas manifestações aí que aconteceram. Eu acho que foi tudo manipulado mesmo, porque você vê que eles não se importam com nada esses jovens. Eles não querem saber de nada. Pelo que eu vejo? Eu não vejo a juventude se importar com nada. Só querem saber é de celular, de rede social, dessas coisas assim. E de beber. De coisa séria mesmo… Esse ano agora é ano de eleição e eu estou só acompanhando pelas redes sociais que estão fazendo uma movimentação para não reeleger nenhum desses que está aí no poder. Tomara que pegue essa onda aí. No meu facebook é só o que tem.

– Pode parar ali atrás daquele carro, ali mesmo, moço. Obrigada.

Ufa! Saí do carro.

O discurso do motorista foi bastante emblemático desse olhar que os adultos em geral têm da juventude. Eles se reconhecem nela de alguma maneira, mas algo parece diferente e eles olham para essa diferença de maneira negativa (no caso desse motorista, especificamente, parecia haver também uma certa inveja tornada em ressentimento).

O maior paradoxo da sucessão das gerações: de uma geração para outra o que era ruim antes, melhora; mas o que era bom, piora. Como assim? O que eu quero dizer com isso?

Os adultos vão te dizer que, na época deles, começava-se a trabalhar mais cedo, os pais eram muito mais rigorosos e não tinha tanta moleza quanto a juventude atual tem. Ou seja, a juventude nunca pode reclamar do que está ruim, porque antigamente era pior. Então, o que era ruim antigamente, melhorou. As mulheres não têm que reclamar, porque antes era pior. As crianças não têm que reclamar porque antes os pais desciam o cacete nos filhos e hoje em dia isso “já não acontece mais” (não vou nem me aprofundar em abuso infantil). Não quero nem debater o fato dessas diferenças existirem ou não (eu até acredito que existem), o fato é que isso não invalida o sofrimento das novas gerações. Que é um sofrimento que, no seu contexto, não pode ser qualificado como “maior ou menor” em relação ao sofrimento de antigamente.

Por outro lado, tudo que era bom antigamente, piorou; e os jovens de hoje em dia devem ser cerceados, corrigidos e censurados, comparados com os jovens do passado. Antigamente os jovens farreavam, mas não era como é hoje. Antigamente não tinha essas coisas de homossexualidade, “mas tinha aquele cara lá na minha cidade que a gente apelidava de frutinha que vivia apanhando”. Antigamente o jovem tinha responsabilidade, hoje em dia, eu não sei dizer porque, mas os jovens não têm mais responsabilidade nenhuma.

Basicamente: “No meu tempo não tinha essa moleza que você tem hoje e vocês, mesmo assim (ou por isso mesmo), só fazem m****”.

Esse discurso se repete geração, depois de geração. Se você se deixar levar por ele, a conclusão óbvia é a de que a humanidade está indo para o buraco. Se está sempre piorando de geração em geração… Este é um trajeto descendente. Esse pensamento é um sinal do pessimismo e do ressentimento (em relação à brevidade da vida humana) entranhados na cultura.

O mais triste é pensar que esse movimento vai se repetir em larga escala na minha geração, e na próxima, e na próxima. Já existem atualmente pessoas de mais ou menos trinta anos lamentando “a vida que as crianças estão levando hoje em dia”. Aí eu pergunto:

– Caral**, sério que você está falando isso? Seus pais não diziam a mesma coisa para você quando você era pequeno? Eles não ficavam lamentando “a vida que você levava”? Agora você está dizendo a mesma coisa das crianças de hoje em dia?

As respostas são irracionais:

– Sim. Meus pais me diziam isso, mas era diferente. Eles não podiam nem imaginar que as coisas iam ficar desse jeito. Se eles soubessem não teriam me enchido tanto a paciência. Os nossos pais eram só exagerados, hoje está sinistro mesmo. Essas crianças não saem do celular! Na minha época meus pais brigavam porque eu ficava o dia inteiro na rua (ou no play) ou então era por causa do telefone. Sempre tinha briga por conta da conta do telefone. Era muito mais saudável do que ficar no celular.

Daqui a pouco vão ser as crianças que hoje em dia não saem do celular reclamando de algum comportamento que vai mobilizar as crianças do futuro.

Diferentes temas, exatamente a mesma estrutura de repressão e pensamento.

 

 

 

 

Os diferentes ritmos de leitura.

Hoje eu estava fazendo um plano de leituras. O objetivo não era nem colocar a leitura em dia, ou ler os clássicos nem nada disso. Eu estava organizando uma lista de leitura com o objetivo de economizar dinheiro. Eu tenho um problema com a compra compulsiva de livros.

Além de gostar de ler propriamente, eu gosto dos livros em si, sabe como é isso? De comprar livros e de ter livros em casa. Eu adorava lista de bibliografia da faculdade, porque eu tinha uma desculpa para sair comprando livros.

O comprometimento com uma lista de leitura é uma maneira de retardar esse processo. Embora eu entenda que a compra dos livros não tem tanto assim a ver com gostar de ler. Eu poderia ter vários e-books, por exemplo, ou livros de domínio público, mas não. Eu até leio livros em formato digital, mas não tenho problemas com a compra excessiva dos mesmos. Eu também leio livros de bibliotecas e isso não tem impacto sobre o meu desejo de comprar livros, a princípio. Eu gosto de colecionar o papel.

De qualquer forma, uma regra no sentido de que eu teria que ler um número X de livros antes do comprar um livro novo, pode ajudar. Assim como usar todas as peças de roupa do seu armário antes de comprar uma peça nova pode ajudar com a compra exagerada de roupas novas, por exemplo.

Então, estava eu pensando na lista de leitura e comecei a me dar conta dos diferentes impactos que os livros têm em nós. Isso é algo muito importante a se considerar na hora de pensar a lista de leitura. Se você resolver ler: Senhor das Moscas, A Guerra não tem Rosto de Mulher, Germinal e 1984, o próximo passo é se matar.

Para evitar tal efeito indesejável, é legal alternar esses livros tensos com temas mais leves.

Cada tipo de livro ou partes de um determinado livro, por sua vez, é lido em um ritmo diferente. Acho que foi isso que eu não tinha parado para pensar antes.

Existem vários ritmos diferentes que empregamos para ler um livro.

Tem as partes envolventes que lemos de uma tacada só. Aquelas cem páginas que a gente avança em uma sentada. (para mim, foram algumas partes d’As Brumas de Avalon. Quando eu me deva conta, tinham-se passado horas e horas de leitura).

Tem as partes chatas, temos que admitir, que demoram… A gente pula frases, parágrafos, tem partes que a gente não entende, mas também não se importa de não ter entendido (sinceramente? Vocês vão me desculpar, mas foi a leitura da primeira parte d’O Silmarillion. Eu li aquilo ali algumas vezes e ainda não consigo absorver completamente a história da formação do mundo e as mudanças que ocorreram nele).

Tem aqueles livros que a gente não entende, mas volta cinquenta vezes de bom grado para tentar entender e relembrar o que estava acontecendo (As Mil e Uma Noites, claro. Eu estava toda hora voltando para entender qual história se ligava ou estava dentro de qual outra história. Nesse caso era uma festa. Eu amava).

Tem os livros que devem ser lidos aos poucos, um pedacinho por dia (na minha opinião, os livros de poesia e, às vezes, de contos. Quando é assim eu gosto de ler uma ou duas poesias por dia, ou um conto por dia).

Tem os livros que a gente nunca acaba. Podem haver diversos motivos para isso: o livro pode ser chato (novamente, me perdoem, mas A Metamorfose é um livro muito chato. Eu sei que pouca gente tem coragem de expressar essa opinião, com medo de ser taxado de ignorante, mas o livro é verdadeiramente chato e eu tenho certeza de que tem um monte de gente cult pensando isso por aí. Quer ler um livro do Kafka? Leia Carta ao Pai); pode dar medo e paralisar a gente (eu senti medo e nunca terminei de ler algumas histórias do Contos Tradicionais do Brasil compilados pelo Câmara Cascudo. Esse foi o livro paradidático da quinta série e algumas histórias são assustadoras. Tenho pesadelos com a que o meu grupo foi obrigada a encenar na peça da escola até hoje); o livro pode ser também imensamente grande, aí temos vontade de ler outros livros durante a leitura do primeiro (eu com a Bíblia que já tem uns três anos que estou lendo e não acaba nunca); e livro pode também revirar as nossas entranhas e nos dar enjoo moral (120 Dias de Sodoma, por exemplo, que eu não consegui terminar de ler até hoje. Esse deve ter sido o primeiro livro que eu deixei inacabado, antes dele eu sempre me obrigava a ler tudo, até quando se tratava de sequencias. Foi o caso do Fronteiras do Universo. Não conhece esse nome? Que tal A Bússola de Ouro? Fronteiras do Universo é o nome da trilogia. O livro é doido e meio chato, mas eu comecei o primeiro, li os três. Terminei amando, fazer o que? Mas depois do Sade, esse ciclo se quebrou e várias leituras desde então ficaram inacabadas); dentro outros motivos que não me ocorrem agora.

Por fim, tem livros como o que estou lendo agora. A leitura leva o seu tempo. Anda num ritmo próprio. A leitura não se encerra no momento em que você está com o livro na sua frente. Você fica tentando antever como a trama vai se desenrolar e o que vai acontecer com os personagens e fica com medo do escritor ser um f**** da p*** e resolver matar todo mundo no final. Você acaba retardando a leitura, com medo do que vai acontecer. Mas, assim como a vida, a leitura atropela a sua resistência e demanda seguir seu curso, você assume os ricos e continua lendo. Se o autor for um ursinho carinhoso, você respira aliviado, ele salva os personagens, não mata ninguém por quem tenhamos nos apegado; se não, ele mata todo mundo no final. Conforme as desgraças vão acontecendo, precisamos levantar a cabeça do papel e passar por um período de luto. Durante esse tempo, e esse é o poder de um bom luto, passamos por uma evolução pessoal, pois a emoção que o autor nos provoca, as questões que ele nos coloca, nos fazem pensar a nossa realidade e olhar para o mundo de outra maneira (foi o que me aconteceu em Senhor das Moscas e que está acontecendo novamente em Germinal. Livros tensos e carregados de verdades a respeito da humanidade. Essas leituras são densas e nos absorvem, demandam tempo e reflexão para serem bem aproveitadas).

Estes são os ritmos que me ocorreram, mas sintam-se à vontade para adicionar novos ritmos de leitura com os quais vocês estão familiarizados nos comentários!