Orgasmo emocional.

Você já ouviu falar no Relatório Hite? Isso mesmo: Hite.

Pode ser que você ache que eu estou um pouco confusa e quero, na verdade, me referir ao Relatório Kinsey, mas não. É do Relatório Hite mesmo que eu quero falar.

O Relatório Kinsey foi, sem dúvida, muito famoso (você pode assistir ao filme Kinsey – Vamos Falar de Sexo para se divertir e saber mais sobre a vida e o trabalho do autor). Mas, depois dele, veio um trabalho eu acho ainda mais interessante; me refiro à pesquisa de Shere Hite, também realizada nos Estados Unidos. A autora entrevistou mais de três mil mulheres ao longo da década de 1970, a partir da aplicação de questionários abertos (nos quais é feita uma pergunta a qual a mulher responde livremente com suas próprias palavras), que investigavam os principais temas da sexualidade feminina: masturbação, orgasmo, penetração, lesbianismo etc.

Este foi o primeiro grande estudo da sexualidade feminina, feito por uma mulher, que deu voz a milhares de mulheres, permitindo que elas falassem abertamente sobre suas experiências sexuais.

Um dos achados mais interessantes da pesquisa foi denominado por Hite de ORGASMO EMOCIONAL.

A descoberta do orgasmo emocional lançou luz sobre uma ampla gama de sentimento e sensações físicas sentidas pelas mulheres durante o ato da penetração sexual que geravam muita confusão para elas. São sentimentos e sensações prazerosas, mas que são, de algum modo, diferentes daquelas que as mulheres sentem com a estimulação do clitóris.

Frequentemente, durante a relação sexual, a mulher sente um ápice físico e emocional prazeroso, mas que é, de alguma forma, diferente do orgasmo que ela tem quando se masturba ou mesmo no sexo oral com o parceiro. Sabe quando você termina de transar e o boy pergunta: “E aí, gozou?”, e você fica na dúvida? Pois é. Teve alguma coisa ali que você sentiu… mas que você não tem certeza de ter sido um orgasmo? As mulheres muitas vezes interpretam essas sensações como orgasmos mais fracos e difusos.

O orgasmo emocional põe fim a esta dúvida. Quando você fica na dúvida, você teve um orgasmo emocional, mas não um orgasmo biológico.

É possível sim que os orgasmos biológicos variem de intensidade. Mas tem sido fortemente apontado pelas pesquisas o fato de que, quando você tem um orgasmo, você sabe que teve um orgasmo. O orgasmo gera uma descarga de tensão acumulada no sexo que, independentemente da intensidade, tende a ser inconfundível.

O orgasmo biológico seria alcançado pelas mulheres durante a estimulação direta ou indireta do clitóris. A estimulação direta acontece com a masturbação ou no sexo oral, por exemplo. A estimulação indireta pode acontecer durante a penetração. O clitóris pode ser pouco protuberante em sua parte externa (aquela que fica visível na vagina), mas ele é bem grandinho em sua parte interna. O clitóris, dentro do corpo da mulher, se estende ao redor da vagina, por isso, pode ser estimulado indiretamente na penetração. Essa estimulação indireta é o que torna possível o orgasmo vaginal.

Por outro lado, aquela sensação difusa que você sente durante uma relação sexual, que é boa, maravilhosa, que faz você até achar que gozou, mas que te deixa na dúvida, porque é, de alguma forma, diferente do que você sente quando se masturba e chega ao orgasmo; então, esse é o orgasmo emocional. Isso acontece por que não houve estimulação suficiente do clitóris para fazer você gozar, mas, ainda sim, trata-se de uma relação sexual e isso tem impactos no corpo e na mente da mulher que geram pico de prazer físico e emocional.

Shere Hite descreveu o orgasmo feminino como

 

“um sentimento de amor e comunhão com outro ser humano que atinge um máximo, é um grande aprofundamento da intensidade do sentimento, que pode ser sentido fisicamente no coração, ou como um nó na garganta, ou como uma sensação geral de abertura, uma sensação de desejo de ser penetrada cada vez mais, um desejo de se fundir e de se tornar um só com o outro. Isso poderia ser descrito como uma completa liberação de emoções, o que uma mulher chamou de “um penetrante sentimento de amor”, ou como um orgasmo do coração” ∗.

 

Então, agora você já não precisa ficar mais na dúvida ao responder: “Gozou?”. É sim ou não!

Não diga que sim para agradar seu parceiro.

É ótimo que você saiba com certeza quando não gozou! Porque, assim, você pode buscar outras formas de estimulação que te levem, de fato, ao orgasmo.

A relação sexual não precisa acabar enquanto você não estiver satisfeita.

 

 

 

∗HITE, Shere. O Relatório Hite: um profundo estudo sobre a sexualidade feminina. Tradução de Ana Cristina Cesar. São Paulo: Difusão editorial, 1982. Conferir página 123.

A corrupção estrutural e a corrupção cotidiana, ou o jeitinho brasileiro.

Estão dizendo por aí que é o “jeitinho brasileiro” a origem da corrupção que vemos nos nossos governantes.

Se você realiza uma pequena ação errada no seu dia a dia, você não é diferente do político que rouba do hospital, causando indiretamente a morte de milhares de pessoas, ou daquele que rouba o dinheiro da merenda das escolas e deixa criancinhas passarem fome.

Outro dia eu estava revendo uns episódios antigo de The Big Bang Theory. Até que um episódio ilustrou perfeitamente o absurdo que é ancorar a corrupção estrutural na “corrupção cotidiana”.

Existe um salto qualitativo entre colar em uma prova e deixar crianças passarem fome, entre sentar no assento preferencial e roubar o dinheiro do pagamento dos médicos. 

No episódio da série que eu mencionei, Leonard chega dois dias mais cedo de uma viagem de trabalho que durou três meses. No lugar de voltar direto para seu apartamento e encontrar seu amigo Sheldon, ele vai para a casa da namorada, Penny, escondido. Se Sheldon o descobrisse lá, Leonard passaria maus bocados. Contudo, Sheldon, após uma rápida interação com Penny, enquanto ela tenta se desvencilhar do amigo que a convida para jantar, desconfia. Ele acredita que Penny estava acompanhada, mas, sem saber da volta do amigo, ele acredita que ela está traindo Leonard.

Sheldon retorna para seu apartamento e, mais tarde, encontra sua namorada, Amy. Sheldon começa a levantar alguns argumentos para justificar sua crença da infidelidade de Penny. Amy, a princípio cética, descarta os argumentos de Sheldon. É um desses argumentos que Amy descarta que chama atenção e é relevante para a presente discussão.

A certa altura, Sheldon afirma que, certa vez, ele e Penny estavam em um “concurso de encarar” (uma brincadeira infantil: duas pessoas se encaram fixamente, quem piscar primeiro perde) e Penny teria batido palmas muito alto e feito Sheldon piscar. Ou seja, ela teria trapaceado no jogo. O personagem então afirma que era uma questão de dar um pequeno passo entre trapacear em um jogo e a infidelidade sexual. (Esse foi um dos argumentos rejeitados por Amy). 

O fato de Penny ter trapaceado na brincadeira não fala absolutamente nada da sua postura ética em relacionamentos amorosos.

Ao tomar decisões éticas em sua vida, uma pessoa normalmente considera uma série de fatores. O resultado de suas ações é um destes fatores. Se uma pessoa avalia que suas ações não trarão consequências negativas em aspectos importantes, ela pode acabar realizando esta ação a despeito de considera-la errada.

Nada disso tem o objetivo de justificar as coisas erradas que fazemos em nosso dia a dia, o importante é esclarecer que essas atitudes nada têm a ver com a corrupção política.

A corrupção política, como dito anteriormente, é estrutural. Sabe quando a gente diz “que a política corrompe as pessoas”, “os honestos não sobrevivem lá dentro”? Isso sim é verdade. Quem é honesto quando entra na política ou é corrompido, desiste, ou nunca vai conseguir hegemonia no comando do Estado. Os jogos de poder do governo são sustentados nas alianças, interesses do capital e batalhas ideológicas. É esse frágil equilíbrio de forças que tem como um de seus componentes essenciais a corrupção.  

Figurativamente falando, a bancada do governo é como um balcão de atendimento para os negócios dos ricos. Os grandes banqueiros e empresários chegando até o governo com interesses que nada têm a ver com as demandas do povo brasileiro e recebem favores em troca de grandes quantidades de dinheiro.

Toda essa sujeira tem que escoar para algum lugar para que a nossa revolta não seja direcionada para o lugar certo. E é aí que entra o “argumento da legalidade”: dividir para conquistar. O argumento da legalidade é caracterizado pela culpabilização individual daqueles que escapam da norma de alguma maneira. Os problemas do país são vistos dessa forma como a soma dos resultados de cada ação individual fora da lei, por menor que ela seja. O problema e que o todo é sempre maior do que a soma das partes. Todas as pequenas ações ilegais somadas não justificam ou explicam o problema da corrupção.

Se nenhum brasileiro saísse do escopo da legalidade a corrupção dos corruptos governantes do nosso país apenas iria brilhar intacta e inalterada.

Se não entendermos isso seremos os motoristas de ônibus que expulsam aqueles que não têm dinheiro para voltar para casa depois de um dia de trabalho e que acabam dormindo na rua, acreditaremos que a passagem de ônibus está cara por causa da gratuidade, seremos os vizinhos que acreditam que a luz está cara por causa daqueles que têm gato, seremos aqueles que acreditam que as taxas do cartão de crédito estão altas por causa da inadimplência.

O problema é: um Estado cujos membros vivem completamente dentro da lei é mais utópico do que o comunismo. Isso quer dizer que, enquanto não aprendermos a driblar o argumento da legalidade e entendermos que a culpabilização individual serve apenas para desviar a nossa atenção dos verdadeiros culpados dos nossos problemas, vamos atacar uns aos outros fazendo o trabalho sujo dos governantes.

Para finalizar, uma reflexão. Existem as pequenas ações ilegais que são verdadeiros atos de resistência. Não vamos esquecer dos “pulões” de 2013, quando os manifestantes seguravam as portas traseiras dos ônibus abertas para que as pessoas conseguissem entrar de graça. Essa ação é ilegal e altamente recomendada. O objetivo dessas ações é sempre o de criar uma pequena rachadura no sistema favorecendo o povo no lugar dos empresários.

 

Alquimia da Palavra. 2° Edição. 

Hoje aconteceu a segunda edição da oficina Alquimia da Palavra que ministro com a minha parceira na escrita, Natalia.
A oficina aconteceu na Casa D’Esquina, no Grajaú. A casa é super aconchegante e, quando saímos da nossa oficina, estava rolando uma feira maravilhosa com várias coisas lindas e deliciosas. Já fui para casa almoçada!
Eu me surpreendi com a diferença entre esta segunda edição e a primeira. A idéia era trazer o mesmo conteúdo, mas apesar de termos conseguido passar o que havíamos programada, a oficina foi totalmente particularizada, atendendo ao interesse dos participantes. Na verdade, o evento foi uma grande troca de conhecimentos e experiências.
O equilíbrio entre a prática e a teoria foi mantido.
Hoje fizemos exercícios com Blackout Poetry. Ficou show de bola! Confira!

“13 Reasons Why”

A série “13 Reasons Why” foi muito comentada há pouco tempo e dividiu opiniões. Há os que defendem a importância de existir uma série que tenha se arriscado a abordar o tema tabu do suicídio, há os que afirmam que a série romantiza o ato e corre o risco de, por esta e outras razões, acabar se tornando uma forma de incentivo para aqueles que pensam em pôr fim à própria vida.

Eu me insiro dentro do primeiro grupo. Acho que é muito positivo que uma série se proponha a falar do tema do suicídio. Não é correto afirmar que falar sobre o tema é um incentivo ao ato. Pelo contrário, quando pensamos em prevenção, a primeira coisa que ouvimos falar (após uma pesquisa minimamente séria) é: precisamos falar mais sobre o suicídio. Se você procurar, por exemplo, o manual de prevenção do suicídio do Ministério da Saúde (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_editoracao.pdf), será possível observar que filmes, séries, livros e músicas não são fatores de risco para o suicídio. O que é essencial para a prevenção do ato é conversar sobre o tema (incluindo perguntar diretamente a uma pessoa se ela está pensando em se matar).

Falando sobre a série especificamente. Assistir 13 Reasons Why foi, para mim, uma experiência muito gratificante. Já tendo pensado em pôr fim a minha própria vida mais vezes do que tive um amigo ao meu lado para conversar sobre o assunto, a série foi muito significativa para que eu sentisse uma parte importante da minha vida emocional acolhida e não invisibilizada. O desejo de se matar e o ato do suicídio em si, não é nem um pouco tão incomum quanto imaginamos, mas é quase impossível conversar sobre ele com uma outra pessoa. A série abriu inúmeros diálogos mundo afora sobre o tema e fez com que houvesse uma sobrecarga dos aparatos sociais que oferecem apoio para a legião de pessoas insatisfeitas com a própria vida, mergulhadas em intenso sofrimento. Tive contato, inclusive, com pessoas que já forma assombradas pelo fantasma do suicídio no passado e que, após assistir à séria, procuraram serviços voluntários (como o CVV – http://www.cvv.org.br/) não só para pedir ajuda para si próprio, mas também com a intenção de se tornarem voluntários e começarem a trabalhar do outro lado da linha de quem procura apoio neste momento tão delicado. Já tendo participado do treinamento para me tornar voluntária em grupos de prevenção ao suicídio, posso afirmar que uma boa parte dos voluntários são pessoas que já estiveram, literalmente, com a faca no pescoço. É terapêutico para esses voluntários poder ajudar pessoas que estão passando pelo que eles já passaram, segundo relatos.

Eu mesma fiquei particularmente surpresa com isso, a princípio. Eu achava que eu seria a única pessoa que já havia pensado em se matar e ia resolver trabalhar com pacientes suicidas. Pensando no efeito Werther, tão comentado ultimamente, ver e ter contato com pessoas estão valorizando o suicídio como saída para uma vida que desprezam e cometendo efetivamente o ato deveria levar os voluntários, principalmente com histórico de tentativas ou desejo suicida a cometerem o ato. Não é o que frequentemente se verifica. Vemos pessoas enfrentando os próprios fantasmas e tirando força do fato de estarem ajudando os outros.

Algumas pessoas tomaram a decisão final de se matar e executaram o ato após assistir a série? É possível que sim. Meu ponto não é afirmar que isso é impossível. A série pode ter sido a gota d’água para algumas pessoas. O que não quer dizer que elas necessariamente não cometeriam o ato caso não tivessem assistidos a série. O fato é que a série não constitui essencialmente um catalizador para o suicídio.

Você deve estar se perguntando a respeito do “Efeito Werther” que mencionei acima. Certo? Este efeito não goza de plena aceitação no mundo científico. Existem autores (MINOIS, Georges. História do suicídio: a sociedade ocidental perante a morte voluntária. Tradução: Serafim Ferreira. Lisboa: Editorial Teorema, 1998.) que afiram que o tal efeito é o resultado da atenção midiática dada à certas mortes e que os suicídios literários ou cinematográficos são mais a expressão de um clima social do que uma apologia ao ato. Quando aceitamos uma ideia como a do “Efeito Werther” fica difícil explicar o porquê d’Os Sofrimentos do jovem Werther causar tal comoção e não o suicídio de Madame Bovary, por exemplo. Existiram suicídios ilustres e romantizados ao longo da história que não teriam desencadeada o suposto efeito.

Por fim, vale comentar que a série, a despeito da questão do suicídio em si, é uma bela metáfora para os problemas que assolam a adolescência. Cada lado de cada fita representando um tipo de problema específico – com a amiga, o primeiro paquera, o assediador do colégio… Por pelo menos um destes problemas TODOS nós já passamos e a série captura bem o modo caótico como essas questões se desenrolam na vida dos adolescentes e os impactos emocionais que eles exercem sobre nós.

 

Para os interessados em saber mais sobre a história do suicídio, sugiro conferir meu e-book sobre o tema que será lançado em breve.  

Agora sim, o que é SoulCollage®?

Eu tentei fazer o meu primeiro cartão SoulCollage® antes do primeiro dia do curso introdutório. Fiquei bastante desapontada, pois não ficou nada bom. Comecei a me imaginar chateada no curso, porque os cartões de todos ficariam maravilhosos como os que eu via nos vídeos da internet e os meus, horrorosos.

Tive uma surpresa maravilhosa, contudo. Amei todos os cartões que produzi no primeiro dia.

A facilitadora foi a Mônica Valéria Iaromila e ela organizou o dia de uma forma muito interessante.

As primeiras atividades foram todas práticas. Passamos a manhã e o início da tarde produzindo cartões. Lá pelas três horas, tivemos um pouco de teoria.

Ficamos sabendo que SoulCollage® sempre deve ser escrito desta forma: tudo juntinho e com o R, pois se trata de uma marca registrada e a palavra não deve ser traduzida para o português. Além disso, Soul se fala em inglês e Collage em francês. Assim quis a criadora da técnica Senna Frost, com o objetivo de representar a diversidade.

Muito interessante e eu não tinha a mínima ideia: a prática do SoulCollage® objetiva a construção de um oráculo pessoal composto por cartões significativos (como um Tarô, mas completamente personalizado) ao qual você recorre para fazer leituras pessoais. Apenas a dona do baralho pode fazer leituras nele, de fato, são assim todas as leituras: eu leio para mim, no meu baralho. O que não significa que as leituras devem ser sempre individuais. O facilitador pode te ajudar na sua leitura, por exemplo, ou um grupo de pessoas pode se juntar para fazer leituras em grupo.

Existem também regras para a composição dos cartões. Além de eles terem um tamanho específico (que pode variar um pouco de país para país, mas gira em torno de 14 por 20), existem regras sobre a disposição das imagens. Cada cartão possui uma imagem central, chamada Neter (lê-se néter), é ela que fala com você sobre o significado do cartão. O fundo do cartão jamais deve aparecer, de modo que você pode compor o Neter com até mais duas ou três imagens (idealmente), para ocupar o cartão inteiro. Todas as outras imagens que você utilizar no seu cartão falam do Neter.

Depois de compor o cartão, você vai deixar o Neter falar o que ele tem a dizer sobre ele mesmo, para isso, papel e caneta para escrever. No final você acaba com o seu oráculo e um caderno com o significado dos cartões. Você pode voltar ao significado do cartão sempre que sentir necessidade, mas o significado não é estritamente rigoroso. Cada vez que você faz uma leitura, dependendo do seu momento, o cartão trará algo possivelmente novo, diferente.

Gostei muito da experiência. Fazer os cartões mobiliza muita coisa dentro de você. Ter que escolher as imagens e organizá-las no espaço limitado do cartão. O próprio trabalho manual é bastante relaxante. Escrever sobre o cartão é mergulhar nas sensações que você teve durante o processo e descobrir algo novo, que nem você percebeu que estava lá. Ainda tem as leituras. Mesmo com as poucas cartas que fizemos, já pudemos fazer uma primeira leitura. Nesse primeiro dia foi como acessar uma sábia entidade interna que me deu bons conselhos.

 

Adeus ao adeus.

Como fazemos para nos despedir?
Dizemos tchau, adeus, até mais ver.
Não.
Jamais vou conseguir me despedir.
Já disse tchau, adeus, até mais ver.
As lágrimas vão caindo e caindo.
O soluço vai aumentando, aumentando.
A sensação é de morte. Eu tô morrendo um pouquinho, você está morrendo.
Do que morre não dá para se despedir.
Essa despedida derradeira vai sempre ficar engasgada na garganta de toda a humanidade.
A gente não engole a morte.
Nem diz tchau, adeus, até mais ver.
As palavras são roubadas pelo susto.
A morte é sempre um susto.
O maior de todos os sustos.
Mesmo quando ela é anunciada, quando sabemos que ela está dobrando a esquina; ela bate na porta de casa, nós pulamos de susto.
Daquele susto que nos deixa brancos, com os cabelos em pé, a alma tremendo, encolhida atrás da carcaça inútil da qual se retira.
Sem poder dizer tchau, adeus, até mais ver, a gente absorve.
Frente à totalidade da morte a gente absorve.
Absorve a essência do que se iria, mas não vai. Nunca. Vai ficar aqui. Para sempre. Dentro de mim.
Não vou largar, nem abrir mão.
Sua moradia não é mais a tua carne, mas eu te ofereço o meu coração e a minha alma inteira.
Fica aqui que está quentinho. Eu vou pegar um vinho para a gente. Senta que eu já trago uns queijos e um docinho.
Você pode ficar aqui para sempre.

Concurseiros.

Éramos um grupo seleto que faria, em poucos dias, a prova para professor substituto de psicologia da UFRJ.

Era exigência da seleção que todos os candidatos estivessem perfeitamente saudáveis. Eu tive que comprar um pacote de adesivos de nicotina para mim.

Quando chegou o dia da prova, descobri que a avaliação consistia em criar uma obra de arte sob o olhar avaliador severo de um psiquiatra.

Comecei a cumprimentar os demais participantes, quando notei um deles sendo levado para uma sala afastada. Era o orientador que o puxava pelo colarinho enquanto ele chorava silenciosamente e bebia de uma garrafa de cachaça.

– O que é que está acontecendo ali? – perguntei. – Para onde o estão levando?

– Então, o problema dele está nos dentes, então vão ter de arrancá-los antes da prova.

No minuto seguinte começaram os gritos. Gritos roucos, que eram rapidamente abafados pelo som de alguma aparelhagem de dentista. Os barulhos dos aparelhos eram altos, barulhos de brocas e sons metálicos, pinças, ganchos e espátulas para raspar as cavidades abertas dos dentes retirados. Em seguida o silêncio. Provavelmente o momento da costura das carnes abertas. O choro virou um leve, mas constante ressonar trêmulo, aflito, resignado, mas enraivecido.

O orientador desponta da câmara de tortura, encharcado de sangue, para resolver alguns problemas burocráticos. Eu achei melhor ir ver como o candidato estava. Quem pensa em competição nessas horas?  

Entrei vagarosamente na sala e lá estava ele com um fio grosso de sangue escorrendo como baba do canto da boca. Não era possível nem mesmo saber o que ele estava vestindo. Naquele momento ele poderia estar nu, que só se veria o sangue cobrindo seu corpo. Estava sentado em uma carteira comum de estudante, ao lado dele, a mesa do professor com os instrumentos de dentista.

Fui chegando perto dele, que fez sinal para que lhe passasse a bebida estendendo a mão na direção da garrafa e grunhindo. Bebeu de um gole o líquido que havia restado e se levantou de maneira estranha, ao mesmo tempo cambaleante, mas passando a impressão de estar seguramente decidido de alguma coisa. Demorei a entender, tentei ajuda-lo a ficar de pé, mas ele se inclinou na direção da mesa da tortura. Tive um insight gelado que percorreu meu corpo como um calafrio.

Saí correndo da sala. Tentei puxar o orientador dele, que ria e batia papo com outros adjuntos, para alertá-lo do que estava para acontecer. Ele se desvencilhou e me censurou por qualquer motivo, eu já não estava mais prestando atenção. Eu olhava em volta e começava a incitar o resto dos candidatos a saírem do prédio. O meu orientador, surpreendentemente, nos acompanhou.

Quando o candidato saiu da sala, ainda cambaleando, carimbando as paredes ao redor de sangue cada vez que se apoiava nelas e se lançava na direção do seu próprio orientador, eu reparei que este me olhou e eu gritei já do lado de fora do prédio:

– Eu ia te avisar que ele estava indo te matar!

O tempo que o orientador levou para me direcionar um olhar de incredulidade foi fatal. Num último impulso o rapaz havia se jogado contra o orientado e enfiado em sua garganta uma broca de dentista.

Todos começaram a gritar e correr para todos os lados, mas uma voz foi ficando cada vez mais clara no meu ouvido.

– Acorda, vamos lá, acorda, amor. Você acabou dormindo, mas está na hora de voltar a estudar. A prova já está chegando. Falta só mais um pouco.

 

O que é Soul Collage?

Este fim de semana vou fazer um curso de Soul Collage.

A vivência da “colagem da alma” (em tradução livre para o português) consiste em fazer alguns cards – ou cartas – que representam partes da sua alma, certas pessoas que marcaram a sua vida e arquétipos que se apresentam para a pessoa que está fazendo a colagem.

Os três pilares dessa ferramenta são: imagens, imaginação e intuição. Esses três caminhos são alguns dos muitos que podemos seguir na tentativa de responder às perguntas: quem sou eu e o que eu estou fazendo aqui?

Soul Collage é mais uma das vertentes que encontramos dentro do grande guarda-chuva da Arte-terapia. Como uma terapia complementar, ela não é considerada uma linha dentro na psicologia, o que não anula o seu valor terapêutico. Eu mesma me interessei por este curso por conta do meu atual investimento na arte, mas estou esperando que os resultados terapêuticos sejam também gratificantes. As principais influências de dentro da psicologia parecem vir da psicologia junguiana.

A técnica consiste em coletar imagens, principalmente de revistas, que mexam com você de alguma maneira não muito racional. O procedimento é o de folhear as revistas sem parar para avaliar as imagens, tentando analisa-la racionalmente, ou ler os artigos (as letras devem ser ignoradas) e recortar aquelas imagens que te chamam atenção (positiva ou negativamente), mesmo que você não saiba o que está te atraindo. Assim, você vai compondo um estoque de imagens significativas para você.

O próximo passo é separar os materiais necessários para a colagem. Você vai precisar de uma base sobre a qual montar as suas imagens (eu vou usar um papel bem grosso e consistente), cola e tesoura. Como você pode ver é tudo bastante simples e barato. As revistas podem ser de todo tipo, principalmente as recicladas, que você pode pedir aos seus amigos e familiares.

Como todo o seu material reunido, você vai recorrer ao seu estoque de imagens e vai selecionar aquelas que você gostaria de usar naquele momento para que você possa, em seguida, dispô-las na posição que elas vão ocupar na sua base. Agora você só precisa colar as imagens e sua carta estará pronta!

Como eu disse anteriormente, cada carta que você fizer vai ter um significado. E não há um número limite de cartas que você pode fazer. Com o tempo, você vai criando decks de cartas (por exemplo, decks de cartas relacionadas com a sua criança interior), que são como páginas de um diário ou pequenas fotos da sua vida interior.

Taedium Vitae

É possível que uma pessoa venha a cometer suicídio por puro desprezo à vida?

A alternativa seria: uma pessoa, na impossibilidade de mudar o mundo ao seu redor ou a si mesma na tentativa de se ajustar a ele, comete suicídio.

A expressão taedium vitae e a maneira como ela foi compreendida pelos teóricos que estudaram o suicídio, sugere a primeira opção.

Esse conceito é usado para caracterizar um estado de profundo tédio, mórbido e ansioso, em relação à vida. O suicídio por taedium vitae já foi apelidado de “saída racional”. Ele ocorreria no seio da “elite intelectual” em períodos de crises e transições, ou seja, momentos de instabilidade social, moral e/ou científica.

Uma pessoa sensível, refletindo sobre a vida e a condição de sua existência, poderia chegar á conclusão de que a vida não vale a pena ser vivida e resolver, racionalmente, tirar a própria vida.

Parece simples, talvez, expondo a situação desta maneira, mas, na verdade, é algo extremamente difícil de se considerar como verdadeiro.

Uma pessoa que simplesmente, pesando os prós e os contras da existência, decide que a condição humana é indigna e insatisfatória, resolve, portanto, colocar um ponto final em todas as coisas.

Será que isso existe?

Até hoje eu acredito que a resposta seja não.

Todas as pessoas que se matam, recorrem à essa “saída” radical por estarem extremamente insatisfeitas com algum ou alguns pontos de sua vida e acreditarem que a mudança é impossível.

O suicídio nunca se torna uma opção quando não existe um nó na vida de uma pessoa.

Quando estudamos o tema do suicídio ou atendemos pacientes com tendências suicidas aprendemos que falar sobre o assunto e quebrar o tabu de falar sobre a morte e as tendências autodestrutivas são necessidades urgentes.

Infelizmente não temos mais cinco anos de idade e não podemos mais acreditar que o fato de não falarmos sobre as coisas ou fechar os nossos olhos para elas faz com que elas desapareçam.

É errado imaginar que falar sobre o suicídio é um dos fatores que levam as pessoas a se matarem, o oposto é mais verdadeiro: não falar sobre suicídio faz com que mais e mais pessoas fiquem sozinhas com suas dores e fora da possibilidade de receber ajuda ou intervenção de amigos e familiares.

Para resumir: MITOS SOBRE O SUICÍDIO

1-      Perguntar para uma pessoa se ela já pensou em se matar pode fazer com que ela passe a considerar o suicídio como uma opção. (Não! Se uma pessoa não pensa em se matar e você pergunta para ela: “Você já pensou em se matar?”; ela responde: “Deus me livre! Eu não!”. Você jamais vai ouvir dessa pessoa: “Nossa, boa ideia! Sabe que eu não tinha pensado nisso?”. Perguntar para uma pessoa se ela está pensando em se matar pode, na verdade, salvar a vida dela).

2-      Quem quer se matar não avisa, vai lá e faz. (Que bom que tem gente que avisa! Isso é sempre um pedido de ajuda. É a brecha para que haja intervenção adequada. Se esta pessoa não for cuidada mesmo depois deste pedido de ajudar ela corre sim um sério risco de se matar).

3-      Uma pessoa que avisa que vai se matar está tentando manipular os outros ao seu redor. (Se o anúncio ou a tentativa de suicídio estiver servindo como forma de manipulação das pessoas ao redor, isso apenas significa que aquela pessoa que está tendo um comportamento de risco para suicídio está precisando tanto de ajuda, mas ela não possui meios mais eficientes do que os que está empregando para obtê-la. Ela não está fazendo isso porque é má, mas porque está em tanto sofrimento psicológico que já não vê outra solução para os seus problemas).

4-      Quem se automutila quer morre. (Também não é verdade. A automutilação tem para muitas pessoas a função de aliviar o sofrimento psíquico e não necessariamente estas pessoas pensam em se matar).

5-      Falar sobre suicídio, principalmente nos grandes meios de comunicação, leva as pessoas a se matarem. (Já disse: quem não está pensando em se matar, não vai ser convencido a se matar por ninguém na face dessa Terra. Se a pessoa já tem uma vulnerabilidade nesse sentido, ela pode acabar vendo sim um gatilho em assuntos relacionados ao suicídio. O ponto é, um milhão de outras coisas também funcionarão como gatilho para essas pessoas).

 

Acredito que este último ponto requeira uma pequena reflexão especial por conta dos escândalos recentes do jogo Baleia Azul e da série 13 Reasons Why.

O escândalo girou em torno do Efeito Werther.

Alguns pesquisadores afirmam que o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther gerou uma onda de suicídios por imitação – suicídios copiados. Os relatos de época a respeito dos suicídios “causados” pela obra de Goethe, afirmam que os jovens que se matavam estavam com o livro próximo de si quando eram encontrados, ou vestindo as roupas do personagem principal do livro (alerta de spoiler: não é verdade que esses jovens se matavam do mesmo modo que o livro narra. No livro, personagem dá um tiro na cabeça. Não é tão fácil assim para um adolescente deprimido comum arranjar uma arma).

Contudo, não é assim tão unânime a conclusão de que o Efeito Werther existe e é tão devastador quanto se alardeia por aí. Muitos pesquisadores ainda duvidam de sua existência, afirmando que a coleta de dados tem sido seletiva e enganosa.

No meu consultório, chegaram duas pessoas por causa da série. As duas resolveram procurar ajuda psicológica pois estavam pensando em se matar e viram na série um sinal de alerta; uma delas “não queria acabar como aquela menina naquela banheira”.

Alguns sites afirmam que o número de ligações diárias para o Centro de Valorização da Vida (CVV) teve um aumento de quase 500% no auge da divulgação da série.

Afirmar que os suicídios que ocorreram naquela época ocorreram por causa de uma série ou um jogo é banalizar e invisibilizar grosseiramente o sofrimento das pessoas que cometeram suicídio.

Porque com o suicídio é sempre assim: está tudo bem até essa coisa absurda e inexplicável acontecer, aí todo mundo tenta encontrar um bode expiatório, sem ter coragem de encarar da dura realidade do sofrimento alheio e o fato de que todos ao redor foram incapazes de perceber ou de fazer algo a respeito.

Isso não quer dizer que os que sobrevivem devem viver martirizados pela culpa, significa apenas que a morte aponta friamente para os nossos limites, a fragilidade e a brevidade da nossa vida. E isso é difícil demais de encarar. É mais fácil tirar a profundidade do sofrimento do outro e dizer que, se não fosse aquela série ou aquele jogo, isso não teria acontecido.