Quem não quer gozar?

Vou copiar abaixo um extrato da minha monografia sobre a perspectiva feminista de Shulamith Firestone, considerada a mãe do feminismo radical, que publicou no início da década de 1970, o livro A Dialética do Sexo: 

 

O drama da divisão da sexualidade – em masculina e feminina – tem tristes e pesadas consequências para as mulheres. Em primeiro lugar, a autora afirma que

 

“mesmo as mulheres que parecem sexualmente ajustadas, raramente o são, na verdade. Devemos nos lembrar que uma mulher pode ter relações sexuais sem sentir nada; um homem não pode. Embora poucas mulheres, por causa da pressão exercida sobre elas para que se conformem com a sua situação, realmente repudiem seu papel sexual completamente (…), isso não significa que a maioria das mulheres se satisfaça sexualmente nas relações com os homens” (FIRESTONE, 1972, p. 58).

 

            Shulamith está afirmando que a relação sexual tende a ser menos satisfatória, na sociedade atual, para as mulheres. Além do prazer feminino ainda ser mal visto, em alguma medida, os problemas sexuais femininos, segundo a autora, causam muito menos prejuízo social do que os problemas sexuais masculinos. Isso levou, segundo Firestone (1972), muitos autores a concluir que as mulheres em geral sentem menos desejo sexual do que os homens. Mas é o patriarcalismo que repudia e nem de longe incentiva o prazer sexual feminino, enquanto aprova e incentiva o prazer sexual masculino.

 

Ok. Agora faça o seguinte experimento: tente se lembrar de clínicas ou tratamentos voltados para a melhora da saúde sexual.

Para mim, o resultado desse experimento é o seguinte: eu me lembro das propagandas do Boston Medical Group na televisão, que trata de disfunções sexuais masculinas, lembro do Viagra e lembro das revistas femininas ensinando 1000 maneiros de dar mais prazer sexual para o meu companheiro.

Existem, é claro, artigos em revistas femininas falando também como devo fazer para aumentar o meu prazer. Mas… Se você for querer a referência de uma clínica no Rio de Janeiro que trate especificamente das disfunções sexuais femininas… Aí já vai complicando. Remédio então, nem pensar. Nós somos vítimas de remédios que diminuem a libido – principalmente dos anticoncepcionais -, mas para aumentar a libido, não. Só tem o Viagra mesmo.

Sim. O anticoncepcional é maravilhoso e cumpriu importantíssima tarefa na libertação sexual da mulher, mas já dava para ter desenvolvido o masculino, não é mesmo? Ah, espera! Já existe, não é? E não foi liberado porque mesmo… hm… Putz! Lembrei! Causava efeitos parecidos com o anticoncepcional feminino… (http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/11/anticoncepcional-masculino-e-adiado-por-ter-reacoes-semelhantes-ao-feminino.html).

Isso soa estranho para você também ou só para mim?

Enfim…

Remédio não é bem uma boa solução para muito coisa, especialmente no que diz respeito à vida sexual. Só queria pontuar – retomando a questão do Viagra – que o masculino existe e o feminino ainda não existe.

Quando um homem se queixa de sua sexualidade, a sociedade permite que ele compre um comprimido barato na farmácia e/ou faça um tratamento multidisciplinar em alguma clínica para que ele tenha, supostamente, uma vivência sexual normal e satisfatória.

A mulher com queixas sexuais, quando ela pode expressá-las sem ser reprimida pelo machismo do companheiro, da família ou pela vergonha internalizada, precisa mergulhar em uma longa jornada interna de autoconhecimento e de melhoria da sua relação com o próprio corpo, desbravando o seu caminho em direção a uma vida sexual – relação com o corpo que é problemática também por consequência do machismo.

Beleza. Eu sou psicóloga. Sou a favor das longas jornadas internas, mas queremos gozar também. Relaxar e gozar. Sem esquentar a cabeça e sem maiores preocupações e esforços.

Mas os caminhos sociais para o fim dos problemas sexuais femininos ainda são imprecisos e espinhosos. Quando não rechaçados ostensivamente pela sociedade, que ainda trata o prazer sexual feminino como perigoso.

A miséria sexual feminina é extremamente invisibilizada.

Então chega desse blá blá blá de que sexo é bom para a mulher se terminar em conchinha. Conchinha é sensacional. Adoro. Mas o sexo é bom para a mulher quando termina em um intenso orgasmo.

 

 

Alguém está me batendo.

Quando eu era criança meu pai me batia e eu pensava: meu pai está me batendo.

A errada era eu que não conseguia atender a expectativa paterna. A errada era eu que brincava passada a hora de criança dormir. Errada sempre que mexia onde não devia. Errada sempre que respondia quando os adultos falavam.

Hoje em dia estou crescida e meu pai já não me bate mais com a mão.

Mas quando eu falo: Pai, ele vai tirar a cerca.
Ele pergunta: Você já viu o terreno e a cerca não está mais lá?
E eu respondo: Não, pai. Mas eu estou indo lá agora. Assim que acabarmos de ler o jornal, Marcos vai me pegar e vamos até lá ver.
Ele diz: Então amanhã quando você vir me ler o jornal você fala que a cerca foi retirada. Antes disso, fique calada e me prepara um café com queijo minas.
O médico falou que você não podia comer queijo minas, pai.
Mas toda vez isso agora! Você é médica?! Pois deixe que a respeito do queijo eu me entendo com o médico. Você faz o que eu falo!

Agora a errada sou eu que se preocupa. Errada sou eu que não virei médica, não virei advogada, não virei vidente. Virei mulher casada, mãe, cumpridora de deveres o obrigações. Do jeito que meu pai queria.

Mesmo agora que já estou criada alguém me bate. E a mão é pesada como na infância.
E eu descobri só agora, que meu pai já não aguenta o peso do jornal com o músculo fraco do braço direito que me arrancava couro com a vara, de onde vem a mão.

Eu sei agora que a mão vem carregada de infâncias partidas por Varas;
e carrinhos de arar;
e corações partidos;
e fome;
e sede;
e de sol na nuca o dia inteiro;
e de noites largado sob o sereno do campo em dia que não dava para voltar para casa do trabalho; e de promessas quebradas;
e sermões de padres;
e dores não choradas;
e de conversas desperdiçadas com cumprimentos despretensiosos.

Eu não bati essas dores nos meus filhos.

E, com tudo isso, o meu problema é que eu não sei socar parede. Não sei socar nada. Eu grito, esperneio e choro quando estou sozinha. Fora isso não sei para onde vai a minha raiva. Quando meus filhos desobedecem, quando cuido do meu pai.
Eu sozinha me sinto incapaz de dar um fim a essa corrente de ódio, porém mais incapaz eu fui de dar continuidade a ela.

Jovem sentada de frente para mim no ônibus.

A menina entrou no ônibus com um rosto jovem, mas com o corpo envolvido por pesados trajes corporativos do tipo usado pelas advogadas. Loura só da altura das orelhas até um pouco abaixo do ombro, onde encerrava o comprimento dos cabelos. Óculos bem marcados no rosto e fone de celular no ouvido.

Sentou-se no banco de frente para mim, nestes ônibus que possuem bancos uns virados de frente para os outros.

Ela desembrulhou um doce que come lentamente enquanto encara a tela do celular. De vez em quando eu levanto o olho do meu próprio celular, onde anoto sua descrição em um bloco de notas e pego ela olhando na minha direção. Vira e mexe, enquanto come o doce, chupa as bochechas magras, criando duas grandes covas em seu rosto magro.

De vez em quando ela fica um tempo com a boca aberta.

Depois ela se impacienta com o trânsito engarrafado e se põe a olhar em volta.

Ela coçou o nariz. Lá dentro do nariz, discretamente.

Depois ficou por um tempo cobrindo a boca com a mão antes de abaixá-la de modo impaciente fazendo mais uma varredura ao redor.

Nosso olhos se cruzaram pela segunda vez. Ela lambia os lábios, sorriu de leve, moveu os pés; apoiava-os ora no chão ora na barra de metal que separa nossos bancos, esbarrando no meu pé, sem intenção alguma.

Não faz mais nada a viagem inteira. Toda a ação estava no celular.

Quando eu me levanto para descer, acredito que ela não me surpreenderá mais. Eu juraria de pés juntos que ela repetiria aquelas mesmas sequências de atos (tirando o doce que não se pode comer muito para não engordar, não é mesmo?) até chegar sua hora de descer do ônibus. Uma chatice só. 

Mas me viro para checá-la uma última vez, já da escada do ônibus e a vejo com a cabeça levantada e o olhar perdido com uma expressão profunda no rosto.

Não consigo deixar de me perguntar se era o fato de ter uma pessoa ali de frente olhando para ela que a tinha impedido de meditar até aquele momento.

Como o recorte e a colagem podem ser usados na Blackout Poetry. 

Mais uma experimentação deliciosa com Blackout Poetry!

Desta vez, eu parti de um tema muito difícil para mim, sobre o qual eu queria escrever: a dificuldade de ser assertiva e de dizer não.

Escrever sobre um tema que te toca já é difícil. Encarar a folha em branco e pensar: bora, vamos escrever! Pode ser mortificador. A Blackout Poetry é uma excelente técnica para tirar a pressão dessa escrita tão dolorida.

Com esse tema em mente eu vasculhei as páginas de outros autores atrás das palavras e das frases que conversavam com o meu sintoma.

Desta vez eu não apenas destaquei algumas partes do texto e cobri outras. Eu precisei trabalhar o texto um pouco mais para encontrar a minha poesia.

Esse trabalho foi o de juntar a técnica do Blackout Poetry com recorte e colagem fazendo uma composição com duas páginas de texto de dois diferentes autores.

Assim, eu achei a poesia que expressava o tema que eu tinha em mente.

No final, eu montei um cartaz com uma composição do processo e do resultado. 

6 fotos da minha casa que me definem enquanto pessoa. 

Nossa casa costuma ter a nossa cara. Existem alguns cantinhos, alguns objetos, que dizem muito sobre nós mesmos. 

Se você não conseguir se identificar no ambiente em que vive, tem alguma coisa errada na sua vida. 

Quais são as fotos da sua casa que te definem?

As minhas são:

  1. Amo corujas! E meus amigos sabem disso. Esse são quadros que ganhei de um amigo no meu open house. 
  2. Obviamente eu preciso de um lugar para escrever (e ver Netflix, claro).
  3. E quem escreve tem que ler muito.
  4. Quem fica escrevendo, lendo e vendo Netflix para caralho precisa beber muito café.
  5. E um cigarro para inspiração. 
  6. E tem sempre aquela vergonha básica na casa de todo mundo. (Quando formos mais íntimos, eu te conto as coisas verdadeiramente cabeludas. Vamos começar com coisas leves). Eu estou sempre tentado cultivar uma plantinha, mas todas morrem…  E eu não desisto. Compro mais e mais plantas. As pessoas dizem: é só regar. Não é não! (Mas confesso que, às vezes, eu esqueço de fazer isso). Atualmente, eu as escondo quando tem visita. Meu sonho era cultivar uma pequena horta caseira. Dicas?

A tristeza na internet. 

Atualmente estão todos falando por aí que todo mundo parece feliz (ou quer aparentar estar feliz) nas redes sociais. Eu acho essa opinião muito sintomática. Numa busca rápida na internet você encontra blogs de adolescentes deprimidos, sites que incentivam as pessoas a se matarem, montagens melancólicas no youtube, posts falando sobre pessoas agredidas, desaparecidas ou mortas no Facebook.
O que acontece é que a gente quer ignorar o sofrimento, como sempre fazemos. Cria-se esse mito de que estão todos felizes nas redes sociais.
Quando surgem as baleias azuis e os treze porquês, as gente grita; NÃO! Não vamos falar sobre isso!
A gente adora reclamar que as pessoas estão fingindo felicidade, mas quando a tristeza aparece, a gente corre.

Sete coisas que aprendi em sete dias.

Hoje eu atingi a primeira parte da minha meta: escrevi sete posts para o Blog em sete dias.
Comemorei fazendo compras em uma papelaria!
Essa experiência não tem sido fácil, mas eis o que eu aprendi até agora:

1- A ação vem antes da motivação.

Quando eu comecei a escrever, eu não estava super motivada. Eu tomei a decisão de investir no que eu queria e coloquei a mão na massa. A motivação veio vindo com o tempo e o resultado do trabalho.

2- É essencial batalhar pelo tempo para fazer o que amamos.

Muitas vezes ficamos massacrados pelas obrigações e começamos a acreditar que não há tempo para hobbies ou atividades prazerosas. Mas o que acontece é que quando fazemos apenas coisas que sugam a nossa energia nós passamos a render menos nas obrigações. Ficamos cansados, estressados e com pressa para fazer logo tudo que tem para se fazer. Nesse ritmo, nós acabamos não fazendo nada direito. Recarregar as baterias com coisas boas nos torna mais eficientes e produtivos.

3- Temos que desromantizar nossos sonhos de futuro.

O que eu disse no ponto 2 é algo extremamente difícil de se colocar em prática. Não é a minha intenção que este seja mais um post motivacional que dá dicas impossíveis de serem colocadas em prática. Eu levei dez anos para atingir metade do que eu sonhava que fosse ser a minha vida e o meu eu ideais (faltando ainda especialmente o dinheiro!). Sigo em direção a um longo período de melhorias pela frente e eu vou morrer sem chegar ao 100%. Mas isso não importa! A gente precisa superar o sonho Disney e entender que as coisas nunca vão ser como essa fantasia louca que a gente tem na cabeça. O que não quer dizer, de maneira nenhuma, que a vida vai ser ruim ou incompleta. Quer dizer que nós somos educados para creditar no pote de ouro no final do arco-íris e que, se nós não o encontrarmos (e ficarmos com ele inteiro para nós, sem dividir) jamais seremos felizes. Compramos o que temos com o pote de ouro inexistente e ficamos infelizes.
A moral da história é que sempre tem espaço para melhorias na nossa vida, mas a vida nunca vai ser como sonhamos porque o nosso sonho é uma mentira. E é ok que as coisas sejam assim.

4- Até aqui concluímos que a perseverança é a alma do negócio!

A nossa conclusão parcial é: persevere sempre. É a única forma de conseguir o que desejamos.

5- Dê pequenos passos em direção a sua meta antes de começar a correr.

Eu errei nesse ponto. Tem sido difícil para caralho escrever todo dia no Blog e eu estou com muito medo de falhar. Eu decidi no impulso começar e eu fiz o meu planejamento depois do primeiro post. Isso foi um erro. Eu devia ter ido com calma e me programado com mais antecedência para este empreendimento. Agora estou me sentindo pressionada, achando que dei um passo maior do que a perna. Não cometa esse mesmo erro. Mas, se cometer confie em si mesmo. E se você falhar, respire fundo e tente novamente!

6- Procure apoio.

Qualquer empreendimento tem mais chances de ser bem sucedido se você tiver com quem contar. Seja o seu marido para ler seus post antes de você postá-los (te amo, amor!); seja um amigo que vai acolher o seu desespero no dia que você não tiver o que escrever; seja a sua mãe para compartilhar tudo que você escreve para te dar uma força (também te amo, mãe!).

7- E, finalmente, confie em você mesmo.

Dando certo ou fudendo a porra toda, confie em si mesmo e seja feliz!

Fotograma do Prólogo do filme “O Anticristo”

Uma mulher olha para um homem que a deseja.

DSC_0820

Eles fazem amor.

DSC_0824

O casal não se preocupa com nada ao seu redor.

DSC_0825

Um ursinho flutua carregado por um balão.

DSC_0826

As páginas de um livro voam com o vento, os bonecos ficam parados.

DSC_0828

O ursinho olha pela janela.

DSC_0829

O casal ignora a tudo e a todos.

DSC_0830

A criança se encanta com os flocos de neve.

DSC_0831

A criança não tem noção do que faz.

DSC_0832

O sexo acaba com o orgasmo da mulher e, no mesmo instante, a criança cai da janela.

DSC_0833.JPG

Mergulhe de cabeça no que você ama. 

Existem alguns momentos na vida que te enchem de gás.
Mas, depois de alguns desses momentos, você percebe que era tudo apenas fogo de palha.
Ficamos com a pergunta: é melhor agir sempre com cautela e não nos precipitarmos, pensar duas vezes antes de agir e observar bem a situação para tentar ver melhor no que vai dar, assim, se tudo der errado não vamos nos decepcionar no final; ou devemos sempre mergulhar de cabeça?
Li um texto recentemente (link no fim do post) que nos diz que se nos enxergarmos sempre como “aspirantes”, nunca chegaremos a ser o que aspiramos ser. Temos que simplesmente ser aquilo que queremos ser.
Então, está bem. O que isso quer dizer?
Para mim, quer dizer que devemos mergulhar de cabeça. Acho que o problema dessa conclusão é que a sociedade está programada para nos colocar para baixo. Temos essa idéia de que mergulhar de cabeça em algo que desejamos fazer ou ser é algo errado e imprudente. Mas eu afirmo para você que não é. Mergulhar de cabeça significa se empenhar ao máximo em correr atrás dos seus sonhos sem se colocar em risco (o que, muito provavelmente atrapalharia a realização de qualquer sonho que você possa ter).
Veja o meu caso, por exemplo. Vou mergulhar de cabeça na escrita. Vou seguir o conselho do autor do texto e, como o que eu quero é ser escritora, vou me autoproclamar escritora a partir deste exato momento e vou me propor a escrever todos os dias para o Blog. Mesmo que ninguém leia, mesmo que eu falhe (como eu tenho certeza de que vai acontecer), eu não me importo e isso não fará de mim menos escritora.

“121 Unusual Tips to Being a Better Writer” @girard_yann https://medium.com/@girard_yann/121-unusual-tips-to-being-a-better-writer-cb35eb2f54a3

Problemas Secundários Incapacitantes.

Estou no último período da faculdade e, a esta altura da vida, venho frequentando instituições de ensino há dezenove anos. Me pergunto em quantos dos dias que transcorreram ao longo destes dezenove anos eu acordei às 07h da manhã com vontade de estudar. Em muitos destes dias, muitos mesmo, eu acabei ficando em casa e não indo à escola ou à faculdade. Nunca repeti de ano, contudo. Nunca repeti uma matéria obrigatória na faculdade. Bendita culpa mortificadora que fazia com que eu me desesperasse ao final de cada ano ou semestre e tentasse recuperar o tempo perdido. Digamos que eu recuperava sempre cinquenta por cento do tempo perdido e passava no fim das contas. Já na faculdade, repeti algumas eletivas por abandono por conta da greve das universidades de 2012. Sinto dizer que minha vida seguiu normalmente depois desse tão temido fracasso. Conheci inúmeras pessoas, me envolvi romanticamente – ou nem tão romanticamente assim – com algumas muitas delas, fiz poucos amigos. E na soma de tudo parece que todas essas experiências vêm dar aqui neste momento nulificante quando sou obrigada a ouvir uma professora afirmar que “o insensato não deve ficar entregue a si mesmo, pois será imprudente”. Eu tenho novidades para você, mocinha. “O insensato” somos nós. Até aqui, em pleno último período da faculdade de psicologia, as pessoas estão me dizendo que a loucura está lá fora. Ainda bem que eu já sei que isso não é verdade. Eu fiz poucos amigos ao longo da vida e tive péssimos namoros provavelmente porque haviam me convencido de que a loucura estava, na verdade, lá fora. Pedi muitas desculpas, me culpei e me achei muito estranha por muito tempo. Sempre que eu batia a cabeça na parede em um momento de desespero eu pensava: “Puta que pariu!!! Eu tenho que ir pedir desculpes para ele AGORA!!! Louca desse jeito ninguém mais vai me querer mesmo…”.

E a voz da professora ressoa novamente proferindo mais uma pérola: “Na solidão, a própria pessoa pode se trair”. E eu pensei: “Para essa merda! Ela está lendo meus pensamentos!”. Sim, professora. Eu também cheguei a acreditar que a solidão era minha pior inimiga. E, graças a minha inacreditável capacidade intelectual, alguns livros sobre feminismo e outros tantos péssimos relacionamentos, hoje em dia eu sei que a loucura não está lá fora e que a solidão não é a minha pior inimiga. A despeito da sabedoria da doutora, eu afirmo que a solidão foi o primeiro estado de absoluta sinceridade do qual desfrutei. Foi o passo necessário para que eu pudesse depois me reaproximar de corpo e alma do mundo de um modo geral e das pessoas de um modo muito mais específico e particular do que eu jamais havia sido capaz antes de ser confrontada com a solidão da minha própria companhia.

Estas novas sabedorias, que ousei ao longo da vida, me são muito caras, pois as pequenas e inocentes sabedorias ultrapassadas de todos aqueles que nos ensinam o que é bom e correto, paralisaram minha vida por muito tempo. Estou feliz por finalmente ter chegado a hora da libertação. Eu acho que todo mundo sabe, na faculdade você pode sair da sala sem pedir permissão para ir ao banheiro ou beber água. Assim que eu terminar de escrever a última palavra deste texto vou me levantar da minha carteira sem fazer questão de ser discreta e vou sair da sala, passando pela frente da professora. Não vou passar olhando para o chão. Na verdade, acho que vou passar olhando para o teto. Quem sabe ela não se toca de que a insana solitária sou eu e do quão libertador será meu comportamento rebelde.