Voyeur

Hoje é dia de um post muito especial. Post escrito pelo meu amado marido. Delicie-se! 

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Estava lá mais uma vez, o suor escorrendo pelo pescoço; mais um dia quente. Mesmo depois de tantos anos, não conseguia abandonar aquela sensação de primeira vez. O coração batendo mais forte, a boca seca, as mãos inquietas… a euforia. O sentimento estranho de querer ir embora e querer continuar ali ao mesmo tempo, como que se não se sentisse assim, nem valia a pena fazer.
Antes achava aquilo íntimo demais, perigoso demais; mas já se sentia atraído pela coisa e depois que começou, simplesmente não parou mais. Não era como se estivesse fazendo algo errado. Se as pessoas não o quisessem ali observando, escutando, simplesmente não apareceriam para continuar fazendo aquilo, não é verdade?
Passou um tempo, a pessoa que ali estava terminou o que tinha ido fazer e saiu. Estava ansioso pela próxima. Era sempre a mesma coisa. Chegavam com vergonha, meio acanhados, mas era só esperar um pouco e já se soltavam.
O próximo indivíduo entrou, murmurou alguma coisa e ele respondeu:

– Diga, meu filho, quais são os seus pecados?

Glúten e o pessimismo.

O ser humano é uma merda de uma máquina mesmo. Eu durmo melhor e, como consequência, eu penso melhor. Percebo que melhoro minha alimentação e começo a me sentir mais feliz e menos mal-humorada. Quando faço exercícios físicos chego até a pensar em para de fumar! Me vejo reduzida a intrincados e cruéis mecanismos. De mim foi roubada toda esperança de vida eterna. Quando durmo, me sinto morta. Só não digo que o sono é a própria morte porque sei que o sono tem um pouco mais de vida do que a morte. No sono há ainda atividade cerebral considerável. Espero do meu futuro o destino que teve minha geladeira no verão passado, quando percebi que ela já não estava mais gelando. Alguém a retirou para desmonte. Mas na verdade sou menos do que a geladeira também. Pois ela pode ser desmontada e participar da composição de uma peça irmã. Dizem que toda energia se preserva e se transforma depois da morte. Mas eu não vou virar outro ser humano; vou virar capim. Capim de cemitério. Que coisa besta. A vida é toda besta. Quando eu como mais eu amo mais e eu me sinto mais amada. Quando eu não durmo fico puta e afasto todos ao meu redor. Só falta descobrir que é algo do que eu estou comendo que causa tanto pessimismo… Vou cortar o glúten e ver o que acontece.

Por que mudei o nome do meu blog.

“Afinal, a vida parece ser um teatro… Ensaiamos scripts em nossa mente, nos aborrecemos se algo não sai de acordo com o planejado. Há espaço para improvisações, mas é necessária experiência para que elas se adequem à cena. Há sempre uma multidão assistindo, mas no palco nos sentimos sempre sozinhos. Torcemos para que todos os atores tenham decorado suas falas. Depois de tudo, voltamos para casa, mas o cheiro do palco e do ar exalado pelos expectadores não saiu do nosso corpo ainda. Nem depois do banho ele vai embora. Sentimos que a atuação ainda não acabou. E nos damos conta de que foi só mais um dia qualquer da nossa vida. Não deixamos o palco nem subimos nele, mas a sensação continua. Será?”

A descrição acima era a antiga descrição do blog – de quando ele se chamava TeatroOnline. Ela descreve o sentimento com o qual inaugurei o blog. E, desde então, não apostei muito no meu sonho de virar escritora. Acho que estava um pouco mais desiludida com o rumo academicista que a minha vida havia tomado e acreditava que não podia fazer nada além de ler Kant e comentar (oficialmente: por meio de artigos, dissertação de mestrado, tese de doutorado etc.) as coisas (muitas vezes absurdas) que ele escreveu.

Fui tomada por uma recente onda de otimismo (que, não se iludam, veio com muito trabalho de autocoaching), que me levou a decidir investir no blog verdadeiramente.

Meu objetivo, repaginando o blog, é torná-lo mais alinhado com os meus objetivos com a escrita. E quais são esses objetivos? Escrever experiências, resenhas, contos e algumas bobagens ocasionais para leitores ocasionais, fiéis, amigos, inimigos… Por isso a mudança do nome e a minha promessa de postar pelo menos com um pouquinho mais de frequência. Além, é claro, de superar a autocrítica e aprender a “largar o verbo”.

Vanessa não se cala e não quer mais saber de porra nenhuma.

Vanessa não vai. Não vai ser o que quer ser. Não vai fazer nada do que queria fazer. Senta-se na frente do computador, mas queria uma máquina de escrever para sentir a porrada das letras no papel. Em vez disso dá porradas nas teclas do computador. E elas quebram-se cada vez mais. Foda-se. O que queria mesmo era que a folha pudesse dar um soco na cara do leitor. Não é isso que se espera da literatura? Da próxima vez que eu for doar sangue no Hemorio, vou roubar a minha bolsa de sangue e mandar com uma cópia especial da primeira edição para minha mãe. Ainda assim não vai ser suficiente. Vontade de parar de escrever não falta. E ela mente. Não tem vontade nenhuma de parar de escrever. Se morde por dentro apenas, porque ninguém lê. E essa história de escrever para si mesmo é merda. Eu escrevo para ficar rica e ser idolatrada. Apesar de ser arrogante e chata. Só estou com raiva. Uma puta de uma raiva, que, quando passa, deixa um vazio no peito e uma enorme saudade. Agora eu quero ver. Esse conto não tem resolução, não narra porra nenhuma. Quero mesmo é que todo mundo se foda. Vão todos tomar no cú e passar bem.

Vocês conhecem Anna Pappenheimer?

Anna Pappenheimer morava na Baviera e tinha 59 anos em 1600, quando foi condenada por bruxaria. Ela era casada, teve sete filhos, quatro deles morreram. Três meninos ficaram vivos. Sua família pertencia às classes mais inferiores que existiam na época; ela era filha de um coveiro e seu marido limpava valas.

Acontece que, no ano de 1.600, um criminoso condenado acusou Anna e sua família de praticarem bruxaria. Nós todos já sabemos como essa história termina, não é? Anna e sua família foram levados a julgamento. Negaram todas as acusações. Após sofrerem inúmeras torturas – todos sabem nomear de cabeça uma ou outra tortura famosa daquele tempo, não é verdade? – a família confessou ter cometido assassinatos de mulheres e crianças, roubos, incêndios e toda sorte de atrocidades. A pena? Anna teve seus seios arrancados e enfiados em sua boca e na de seus dois filhos mais velhos, seu marido teve os braços quebrados e foi empalado pelo ânus, por fim, foram levados por um cortejo formado por pessoas comuns como eu e você, membros da igreja católica e outras autoridades até o local no qual seriam queimados vivos. Ao final do cortejo e antes da fogueira, contudo, tiveram que se ajoelhar perante uma cruz e confessar todos os seus crimes. No caso de Anna alguns deles eram: ter voado em um pedaço de pau ao encontro do satanás, ter tido relações sexuais com ele, ter cometido assassinatos e roubos por meio de bruxarias, ter se utilizados dos cadáveres de bebês não batizados para a fabricação de unguentos e por aí vai. Alguns relatos dizem que Anna ainda estava viva quando começou a ser envolvida pelas chamas e contam que seu filho menor assistiu a todo o espetáculo da ira divina. Ele tinha 10 anos na época e foi morto três meses depois acusado de ter cometido, ele mesmo – com a ajuda de satã é claro – mais 18 assassinatos.

Primeiro eu me pergunto qual é a importância de tomar conhecimento desse tipo de história? Claro. Esse conhecimento pode funcionar como um memorial do holocausto, esfregando na nossa cara as atrocidades que a humanidade põe em prática. De um ponto de vista mais romântico penso que isso é tudo que eu posso fazer por essas pessoas. Não falo pelas que sofrem atualmente e pelas quais eu tento de fato fazer alguma coisa, estou falando de quem já morreu mesmo. E quem já morreu há muito tempo atrás… A única coisa que dá para fazer é saber alguns nomes, conhecer o que a história nos permite saber sobre suas vidas, tomá-las como inspiração para algum dos meus textos. Essas pessoas morreram e ponto. E sim, sou muito sensível quando o assunto é a morte. Quando o assunto é um jovem assassinado na favela ou uma mulher queimada na inquisição. E não. Eu não desculpo a época. Não respeito o período histórico no qual eles viveram. Era um bando de filho da puta de merda que nem sei se acreditava na asneira que pregava. Não importa a época, a crença, não importam os costumes.

Mas não se precipitem na hora de me condenar por essa postura. Tampouco eu respeito a nossa época. Por que, os pós-modernos que me perdoem, mas a tortura e o assassinato apenas mudaram de roupa. A essência é a mesma. Nós temos os nossos julgamentos teatrais, os nossos, carrascos, as cruzes diante das quais devemos confessar nossos pecados – sem falar que a igreja católica ainda está aí.

A única coisa que havia de real em todo esse teatro – que existe ainda – era o sofrimento das vítimas.

A empatia e os comunistas.

A ação moral já foi muito estudada (na psicologia e na filosofia, por exemplo). O presente texto não é um estudo deste tipo. Apenas um comentário pessoal sobre o assunto.

Podemos pensar a causa da ação moral como sendo a empatia que sentimos pelo sofrimento alheio. A ação moralmente correta, baseada no sentimento de empatia, seria sinônimo de altruísmo. Vemos alguém sofrer e direcionamos a nossa ação para diminuir tal sofrimento. E quando observamos milhões de pessoas sofrendo todos os dias? Quando nos identificamos com seu sofrimento? Que tipo de atitude podemos tomar? Claro que podemos dar esmolas para os pedintes que nos abordam nas ruas, dar as roupas que não nos servem mais. Mas a esquerda não consegue e jamais conseguiria se satisfazer com isso. Vai às ruas, constrói greves e acumula frustrações. É a única maneira possível de dar uma resposta à angústia compartilhada com outros estudantes, trabalhadores, negros, mulheres, homossexuais, bissexuais, travestis, transgêneros e todas as outras pessoas que sofrem algum ou vários tipos de opressão.

A empatia justifica também as atitudes dos homens que lutam pelos direitos das mulheres, brancos que lutam contra o racismo, heterossexuais lutando contra a opressão das “minorias” de gênero.

Enquanto isso, o que a direita está fazendo? A direita está empaticamente lutando pela manutenção dos privilégios dos ricos? Realizando assim um ato de altruísmo? Não podemos dizer que sim. As “lutas” da direita são baseadas no medo da perda dos bens e privilégios que possui. Ou na vontade de acumular mais bens ou privilégios. Falamos aqui de egoísmo e ganância. Essa é a “moral da sociopatia”. Muitas funções sociais exigem esse tipo de falta de empatia: donos de empresa que precisam despedir seus funcionários para manter seus lucros elevados, sem se importar com o sustento desses funcionários e suas famílias; o torturador que precisa obter informações e que se tornou apático diante do sofrimento da vítima; o policial que persegue o “criminoso” sem se importar se ele é culpado ou não, nem com a segurança daqueles que estão ao seu redor; o estuprador de crianças que, incapaz de entender como a criança se sente na hora do abuso sexual, projeta nela seus próprios sentimentos de desejo; o espancador de mulheres, que não consegue enxergar além da sua própria carência e frágil masculinidade.

Começar é mais difícil?

Se o primeiro passo é sempre o mais difícil, deveria estar tudo mais fácil agora. Não é muito por aí que as coisas funcionam, não é mesmo? Cada passo é dolorido. De todas as coisas que fazemos todos os dias, qual delas se tornou mais fácil? Tentar manter uma conversa com alguém que você acabou de conhecer? Decidir o que fazer para comer quando você está sozinho em casa? Almoçar com a sua família no domingo? DR com namorado? Manter contato com seus mais amados amigos?

Acredito que o mesmo acontecerá com estes escritos. Eu posso até me acostumar com a dificuldade que é escrever e publicar algo, o que não quer dizer que escrever deixará de ser tão difícil. Mas, afinal, eu converso com estranhos na rua e nos ônibus, eu almoço com minha família todos os domingos, eu brigo com meu namorado e eu estou sempre ligando para os meus amigos e chamando eles para beber uma cerveja.