Voyeur

Hoje é dia de um post muito especial. Post escrito pelo meu amado marido. Delicie-se! 

***

Estava lá mais uma vez, o suor escorrendo pelo pescoço; mais um dia quente. Mesmo depois de tantos anos, não conseguia abandonar aquela sensação de primeira vez. O coração batendo mais forte, a boca seca, as mãos inquietas… a euforia. O sentimento estranho de querer ir embora e querer continuar ali ao mesmo tempo, como que se não se sentisse assim, nem valia a pena fazer.
Antes achava aquilo íntimo demais, perigoso demais; mas já se sentia atraído pela coisa e depois que começou, simplesmente não parou mais. Não era como se estivesse fazendo algo errado. Se as pessoas não o quisessem ali observando, escutando, simplesmente não apareceriam para continuar fazendo aquilo, não é verdade?
Passou um tempo, a pessoa que ali estava terminou o que tinha ido fazer e saiu. Estava ansioso pela próxima. Era sempre a mesma coisa. Chegavam com vergonha, meio acanhados, mas era só esperar um pouco e já se soltavam.
O próximo indivíduo entrou, murmurou alguma coisa e ele respondeu:

– Diga, meu filho, quais são os seus pecados?

4 comentários em “Voyeur

  1. Muito bom o texto! A religiosidade escancarada na suprema síntese do último parágrafo. Justaposto a isso a ideia de que o voyeur comete seus pecados nos leva a crer que o próprio personagem é um voyeur, ou seja, um pecador, embora esteja implícita a ideia de que quem o é de fato é um homem cristão, um padre muito provavelmente. E, como disse, a síntese a que se chega no final do texto e a sua suposta conclusão é exatamente a de que quem não deveria pecar, o padre, também se contém para não tornar o seu trabalho religioso, ele mesmo, um próprio pecado (de voyeur): o de observar o íntimo das pessoas… E a angústia que o aflige não deixa dúvidas de que é imensa a dificuldade em fazer isso. POIS PADRES (OU FREIRAS) TAMBÉM SÃO HOMENS E MULHERES!

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  2. Olivia, não é questão de escrever melhor ou pior. São estilos diferentes. Pelo pouco que vi do Luiz, ele gosta de tratar temas religiosos apontando as suas contradições inerentes de forma sarcástica. Você, pelo contrário, embora também goste de tratar temas religiosos, os vê por um prisma mais tenso, mais denso, sem a sátira, com um tom mais sombrio naquilo que eles causam nas pessoas, ou melhor, naquilo que sua imposição – principalmente nos adolescentes – causa. A angústia, a aflição, o conflito moral densamente construído. O Luiz, como disse, pelo pouco que li dele, trata de maneira jocosa, o que fica muito bom, você trata de maneira mais profunda, adentra mais o universo moral da questão e o faz muito bem, diria inovador, ou seja, muito bom também! Creio que ambos se complementem, no do Luiz a questão moral vem através da sátira. No seu vem através da tensão causada nos personagens. Não dá para comparar, ensinar um peixe a subir em árvores, vocês dois são pessoas que escrevem em estilos diferentes, e isto por si só já impede qualquer comparação. Mas eu acho os dois muito bons, respeitados os seus estilos! 🙂

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