“Eu espio com os meus olhos”. Parte III.

Muito interessante o fato da redação do ENEM ter pedido que os alunos falassem sobre os desafios da educação dos surdos no Brasil justamente quando eu resolvi começar a versar sobre os desafios da educação dos deficientes visuais. Parece que combinamos.

Estas são questões que estão na vigésima ordem do dia, nas quais ninguém presta atenção. Tenho até que agradecer pelo tema da redação do ENEM, pois ela me ajudou a clarear o meu propósito com este relato autobiográfico, que é fazer com que vocês conheçam pelo menos um pouquinho mais desse universo dos desafios da educação de deficientes físicos no Brasil.

Dando prosseguimento ao relato…

 

Depois da quinta série, eu virei uma aluna rebelde.

Muito complicado acompanhar as aulas do jeito que as coisas andavam. Vivi mais do mesmo por muitos anos.

No ensino médio, um professor substituo entrou em sala, mandou todo mundo calar a boca e escreveu algumas questões no quadro. Depois que ele terminou de escrever no quadro ele olhou bem para a minha cara e perguntou: “Você não vai copiar não”? Eu disse: “Não”. Rebelde, claro. Podia ter começado logo a me desculpar e a explicar em voz alta, na frente da turma inteira, o meu problema de visão pela milésima vez. Mas não. Fiquei calada e fui expulsa de sala. Foi um escândalo depois. Porque o professor ficou sabendo que eu era deficiente e tal. Passou a me tratar como um bibelô (ele foi efetivado pouco tempo depois).

O fato é que eu desisti. Mesmo. No início do ano sempre achava que tudo seria diferente, me esforçava. Logo eu perdia o fio da meada e só ia me esforçar de novo lá no final do ano para não acabar sendo reprovada.

Eu nunca fui reprovada. Esse foi um fato que sempre me chamou a atenção. Não sei até hoje se era o conselho de classe que acabava optando por me dar os pontinhos necessários na prova final para que eu passasse de ano. Por outro lado, eu realmente usava todas as minhas forças para correr atrás no fim do ano.

Certa vez, um rapaz que não gostava de mim, porque estava a fim de pegar uma amiga minha, me prometeu aulas de física. No dia em que eu fui à casa dele ter a tal aula, ele não atendia o portão de jeito nenhum. Eu toquei e toquei a campainha, gritei e gritei o nome dele e nada. Daí eu liguei para um amigo dele que era a fim de me pegar e pedi para ele ir me encontrar na casa desse garoto que me daria aulas. Quando o menino que gostava de mim chegou, eu pedi que ele chamasse pelo sujeito que me daria aulas e, adivinha só! O sujeito apareceu (eu havia ficado o tempo todo na frente da casa do cara. Sem chance de ele ter chegado enquanto eu esperava meu admirador para me socorrer). Eu engoli qualquer orgulho que eu pudesse ter, se é que um dia me foi possível desenvolver orgulho no que diz respeito a pedir esse tipo de ajuda, mesmo com o cara obviamente não estando com vontade de cumprir o que havíamos combinado, e fiquei lá umas cinco horas estudando na casa do dito-cujo.

Falo desse tipo de determinação. Eu pedia a quem quer que fosse que me ensinasse a matéria no fim do ano. Ali, no ambiente questionável da casa de um garoto que não gostava de mim, mas que, surpreendentemente, era mais propício para a minha aprendizagem do que a escola.

Devo reconhecer o mérito de alguns professores, contudo.

O professor Hermes, que meu deu aulas no GPI da Rua Ibituruna, na Tijuca é um deles.

Hermes sempre fazia desenhos lindos de células no quadro que eu dava uma olhadinha de perto quando a aula acabava. Os desenhos eram tão caprichados que até me deixavam curiosa e eu prestava mais atenção nas aulas. Certo dia, Hermes parou para conversar comigo, ainda no início do ano, para entender a minha situação. A partir deste dia, ele passou a trazer de casa, desenhado em uma folha de papel, o que ele ia desenhar no quadro. Então eu já tinha o “caderno”, com os comentários e legendas do professor durante a explicação. Foi perfeito. Lembro até hoje do fato de que as mitocôndrias são responsáveis pela respiração celular. Pude aprender biologia até este professor ter sido transferido da nossa unidade.

Outra professora que merece destaque, era a professora Ângela de química. Também do mesmo GPI.

Ao saber do meu problema de visão ela fez um interrogatório comigo perguntando como havia sido a minha carreira escolar e eu contei a ela tudo que contei a vocês nos últimos textos. Sabe onde ela encontrou esperança? Na técnica de colocar a minha carteira mais próxima do quadro. Mas ela deu uma reeditada legal nesta técnica. No lugar de colocar só a minha carteira para frente, ela puxou toda a primeira fileira junto comigo. Juro para vocês que alguns alunos nem notaram que estavam se sentando mais próximos do quadro. Além disso, tinha o problema do meu deslocamento que ela resolveu escrevendo apenas na parte do quadro que ficava imediatamente na minha frente. Ela escrevia, explicava, apagava, explicava de novo. Teve ainda uma outra novidade. Ela levou giz de todas as cores e fez testes comigo para ver se havia alguma cor que me ajudava a ver melhor. E tinha. A professora Ângela passou o ano inteiro escrevendo a matéria com giz rosa na parte do quadro que ficava imediatamente diante da minha carteira e eu copiei do quadro o ano inteiro.

Isso encerra os highlights da minha vida escolar, até o segundo ano do ensino médio, no que diz respeito ao relacionamento com os professores e com o conteúdo das matérias. No próximo texto, quero finalmente tentar falar sobre os aspectos sociais que ocorriam em paralelo ao longo desse tempo.

“Eu espio com os meus olhos”. Parte II.

Meu problema de visão começou a causar transtornos na minha vida escolar no CA.

Na Classe de Alfabetização, começamos a ter que copiar coisas no quadro e foi aí que as coisas começaram a ficar difíceis para mim.

O que fazer com uma criança que não enxerga o quadro se a sua metodologia de ensino é quase inteiramente voltada para esse tipo de exposição do conteúdo? A solução da professora foi colar a minha carteira no quadro para que eu pudesse ver e copiar o que estava escrito. Essa solução falhava em dois pontos: em primeiro lugar, mesmo com a carteira colada no quadro eu só consegui enxergar o que estava escrito da metade do quadro para baixo. Lá no alto eu continuava sem conseguir enxergar. Pois bem, a professora escrevia apenas da metade do quadro para baixo. Em segundo lugar, eu só conseguia ver o que estava imediatamente na minha frente. Os quadros das escolas costumam ser grandinhos. Os professores dividem os quadros em duas ou três partes normalmente. Pois então, eu só conseguia ver a parte que estava imediatamente na minha frente. Esse problema tinha uma solução bastante tragicômica. Quando eu acabava de copiar uma parte do quadro, a professora arrastava a minha carteira e me colocava de frente para a próxima parte que eu deveria copiar.

Essa solução não foi viável por muito tempo. Na verdade, tinha um terceiro problema com ela: a segregação que eu comecei a experimentar por ficar tão exposta na frente das outras crianças.

Então, na primeira série, essa técnica foi abandonada (haja braço também da professora, ela nem me esperava levantar para arrastar a carteira).

Idas e vindas ao oftalmologista, certo dia um deles me receitou um monóculo. Uma espécie de binóculo, mas para um olho só. A ideia era que eu o usasse para copiar do quadro. Dois problemas surgiram novamente.

O primeiro problema foi o fato do monóculo ter feito o maior sucesso! Quando eu o tirava da bolsa todas as crianças queriam usá-lo. Eu, envaidecida e cega pela fama e a atenção, emprestava-o sempre. O negócio rodava a sala inteira e, quando voltava para mim, o quadro já tinha sido apagado. Mesmo quando a novidade passou, contudo, o monóculo causava alguns transtornos. O tempo que eu demorava para copiar com ele era muito maior do que o tempo que se leva normalmente para copiar do quadro. Era muito cansativo e pouco prático usar aquele negócio. Eu acabava perdendo a explicação porque ainda estava terminando de copiar; a professora mandava eu parar e copiar depois e não dava tempo, enfim. Ajudava, mas não era perfeito.

Na época do monóculo eu estava na segunda série. Nesse tempo, o problema de visão me causava ainda apenas transtornos sociais. As notas mesmo eram altas nessa época.

Foi na mudança da quinta série que o bicho começou a pegar.

Muitos professores, para começar. Cada um tinha uma postura diferente quando a minha deficiência visual.

Alguns cagavam, outros pegavam alguma criança e a obrigavam a sentar comigo e me ajudar a copiar a matéria, outros acreditavam que eu simplesmente não queria nada com a vida e não era deficiente porra nenhuma, era fresca mesmo.

Veja bem, isso é um problema bizarro que vem com o fato de você ter uma deficiência que não é aparente. Eu sou só um pouco estranha, eu aperto o olho quando estou olhando para alguma coisa. Só isso. Aminha deficiência é meio invisível. Então, muitas pessoas com quem cruzei ao longo da vida simplesmente não acreditavam que eu era deficiente.

Abandonando a cronologia por um momento, eu gostaria de dar alguns exemplos disso que acabei de dizer.

Certa vez uma professora, depois que eu saí da sala para o intervalo, fez o seguinte comentário: “Essa aí, eu aposto que se conversasse menos enxergava mais”. É o tipo de comentário que você faz quando acha que a outra pessoa está de palhaçada. Eu já estava no ensino médio quando isso aconteceu. Meus amigos me contaram o que a professora tinha dito e eu fui falar com a psicopedagoga sobre a situação. Foi ridículo o que aconteceu depois que eu reclamei.

A psicopedagoga foi na sala de aula fazer um discurso horroroso de que nós temos que ajudar os desfavorecidos, necessitados, sei lá. Que eu precisava da ajuda e da compreensão de todos.

Ok. O problema não é pedir ajuda. Ajuda é o que eu pedi a vida inteira. O problema é a posição de inferioridade e incapacidade na qual as pessoas colocam frequentemente os deficientes. Você sente que os outros estão com pena de você. E nem eu nem ninguém precisa desse tipo de sentimento. Qual foi o resultado? Por um dia eu fui tratada que nem uma rainha. Teve gente que fez duas cópias do quadro e entregou uma para mim e me explicaram a matéria timtim por timtim; todo mundo me chamando para sentar junto. No dia seguinte, tudo voltou ao normal e ninguém mais tinha disposição para me ajudar e eu continuava deficiente.

Teve uma outra ocasião que ficou bem marcante para mim. Aconteceu já na faculdade de psicologia. Um menino da minha turma veio falar comigo algumas vezes sobre o problema de visão, vamos chamá-lo de Solícito. Não sei se Solícito falava sério ou se estava zoando mesmo, mas Solícito me perguntava se eu fazia análise, pois o meu problema de visão poderia ser um sintoma histérico. Problemas psicológicos são reais e podem ser extremamente debilitantes, levando até mesmo à morte, mas eu dizia a Solícito que este não era o caso. Exames físicos demonstravam o problema e tal, expliquei tudinho a ele. Mas Solícito parecia querer insistir em dizer que eu não estava curada porque eu não tinha corrido atrás. Não havia feito o trabalho psicológico necessário. Numa outra ocasião, Solícito veio me falar para meditar. “Muitas pessoas encontram a cura na meditação”. Meditar com a intensão de aliviar o estresse, dormir melhor, ajuda mesmo. Pouco. Mas ajuda sim. A visão fica mais embaçada quando estamos estressados e cansados. Solícito não sabe que, às vezes, quando você quer ajudar uma pessoa, você tem que pedir licença e perguntar se a sua ajuda é bem-vinda. Ou melhor, você deve perguntar o que você pode fazer para ajudar o outro e fazer o que foi pedido se for algo possível para você no momento. Eu não tenho que ficar aturando alguém vir me dizer um milhão de coisas que eu tenho que fazer para me curar. Tinham outras coisas, algumas bastante estapafúrdias, que Solícito achava que eu deveria fazer. Como a vez em que ele ficou sabendo de um filósofo do século XVII chamado Hume que havia escrito um texto sobre a visão. Solícito veio me sugerir ler este texto, pois poderia ter alguma coisa de útil para mim ali, se eu não o lesse, poderia estar perdendo a oportunidade da cura.

Solícito e o da professora incomodam, pois são pessoas que tornam levianas as dificuldades que eu enfrento: é só falar menos, é só meditar. Não! Não é só nada. É foda. E já tem um milhão de coisas que eu faço para lidar com isso. Eu me cuido. Não preciso das pessoas ao redor assumindo coisas a respeito da minha condição e me dizendo o que devo fazer. Sou eu que estou “andando nesses sapatos” há anos.

Bom, como eu ia dizendo, lá atrás, na quinta série, já existiam essas figuras que achavam que eu estava mentindo. Esses professores brigavam comigo para que eu copiasse do quadro.

Eu com a caneta e o papel na mão, o quadro a dois metros de distância e, ainda assim, um abismo intransponível entre os meus olhos e as letrinhas embebidas em conhecimento que o professor escrevera no quadro. Ainda assim, uma voz alucinante dizia: pula! Vai! Está esperando o que? Quem você quer ser na vida desse jeito?

Esses eram os professores que chegaram a reabilitar aquela metodologia antiga do CA, lembra? Na quinta série eu voltei a ficar destaca do resto da turma, uma fileira à frente de onde as outras carteiras estavam posicionadas, tendo que me arrastar ao longo do quadro. No CA, eu ficava nessa posição do início ao fim do dia escolar. Na quinta série começou uma confusão só.

Quando o professor descrente saía de sala, entrava algum outro professor que me agrupava com alguma criança para que esta pudesse me ajudar. Na época, isso significava ver o caderno da criança depois que ela terminava de copiar. Sim, depois, porque, enquanto uma pessoa está copiando eu também não consigo ver. Para enxergar de livros ou cadernos, eu tenho que ficar com o rosto a uma distância de mais ou menos dez centímetros do papel. Ninguém conseguia copiar com a minha cabeça no meio do caminho.

Aí vinha o terceiro professor. Esse já não tolerava conversas. E eu conversava com a pessoa que estava me ajudando. Conversávamos sobre a matéria: “Olha, foi esse X aqui que o professor apontou. Agora ele está falando desse Y aqui. Ele trouxe aquele X para cá”. A criança que me ajudava também narrando a aula para mim e ia apontando no caderno para que eu acompanhasse.

Ninguém está dizendo que é santo aqui. Claro que eu conversava sobre a vida também, mas assim faziam todas as outras crianças. Bom, mas o professor que acabou de entrar em sala não gostava. Então, eu era separada novamente da amiga. E fico eu olhando para o teto pelos próximos cinquenta minutos.

Esse clima insano da quinta série me tirou dos eixos. Some a isso tudo que eu já descrevi o fato das matérias terem se complexificado, o que me levou à recuperação de umas três matérias, no mínimo, eu já não me lembro mais quantas exatamente.  

Eu comecei a considerar a escola um ambiente extremamente hostil. Olha que estamos ainda na quinta série e eu ainda não falei das consequências do problema de visão para a socialização com as outras crianças.

Mutirão do Sintoma.

Qual é a dificuldade que seus amigos estão vivenciando? E você? O que tem te incomodado ultimamente? Será que vocês podem se ajudar de alguma maneira?

Outro dia, na casa de um amigo, surgiu a brilhante ideia do Mutirão do Sintoma.

A ideia é reunir um grupo de amigos que vão se apoiar mutuamente na resolução imediata de algum problema.

Todo mundo tem aquele e-mail que está evitando mandar, ou precisa enviar currículos e fazer cadastros em sites de procura de emprego. Talvez você esteja precisando fazer alguma ligação que vem adiando. Pode ser uma pequena mágoa que você guardou de um amigo que você precisa desabafar, mas está sem coragem para fazer isso.

Estes são pequenos problemas do dia a dia, a princípio de fácil resolução, que colaboram para tirar a nossa paz. São “pequenas poeirinhas” que podem ser varridas para fora da sua vida, te dando mais tranquilidade e uma visão mais clara dos problemas mais complicados com os quais você está lidando.

O chato desses problemas-poeira é que eles embaçam a visão, tornam a nossa vida mais confusa e bagunçada, de modo que ficamos sem saber por onde começar a resolver nossos problemas mais complexos.

Reúna os amigos em um dia tranquilo, prepare comida e bebida. Quando estiverem reunidos, façam um brainstorm dos problemas simples do dia a dia que vocês estão tendo dificuldade para resolver sozinhos (cada um isolado na sua própria casa) e se apoiem para que vocês possam resolver esses problemas ali mesmo, conjuntamente. Redijam o e-mail pendente juntos, façam as ligações pendentes na presença dos amigos para que eles possam te abraçar assim que você desligar o telefone. Enfim, o que der para vocês resolverem juntos resolvam!

Tire as coisas simples do caminho. E conte com os amigos para isso.

Síndrome do Impostor.

Vem cá e pensa comigo: críticas dos professores, comentários familiares destrutivos, os foras que levávamos dos amigos. O que sobra da nossa autoconfiança depois desse massacre?

Algumas pessoas aprendem bem demais essa lição de que são erradas de alguma maneira, de que deveriam ser melhores do que são, de que não são merecedoras. Essas pessoas podem vir a sofrer da Síndrome do Impostor.

Trata-se de uma síndrome psicológica que os especialistas dizem atingir pessoas que obtiveram sucesso na vida. É muito comum em pós-graduandos e em mulheres que ocupam altos postos em seus locais de trabalho.

A síndrome é caracterizada pela crença de que as vitórias alcançadas foram fruto da sorte ou do mero acaso e de que, em algum momento, a pessoa será desmascarada e todos verão que ela era uma farsa desde o início e jamais deveria ter chegado no lugar em que chegou.

Ficamos sempre preocupados antes de uma avaliação antecipando fracasso, nas apresentações que fazemos pedimos cinco mil desculpas por esquecermos algo ou estarmos falando mal, mas é que… hm… é… Estamos muito nervosos. Quando nossos amigos nos elogiam afirmamos que tivemos sorte, se for nosso companheiro a nos elogiar ficamos com vergonha e abaixamos a cabeça, se for o chefe/orientador… Bom, seu chefe/orientador nem vai te elogiar, não é? Você não merece. Não estudou o suficiente, não cumpriu com todas as obrigações do modo que deveria.

Se você fracassar… aí é outra história. Afinal, o seu fracasso já estava há muito anunciado, não é verdade? Espantoso o fato de ter demorado tanto tempo para que você fosse desmascarada!

“Sinto que vou fracassar a todo momento. Se escapei de fracassar algumas vezes foi por mero acaso. Se me dei efetivamente bem em outras ocasiões, tive sorte. Se fracassei, tive o que mereci”.

Para tentar lidar com essa insegurança o medo constante de ser descoberto; a culpa por estar fazendo uma “autopropaganda enganosa”; iludindo as pessoas, fingindo que é inteligente quando, na verdade, você é burro; recorre-se às mais diversas estratégias.

Durante algum tempo é possível nos esforçamos tanto, tanto! Até não aguentarmos mais, para ter uma chance mínima de não passar vergonha em uma avaliação qualquer de nossas capacidades intelectuais. Em outro momento, procrastinamos. Empurramos tudo com a barriga até não dar mais. Pelo menos assim, se fracassarmos, sabemos que não demos o nosso melhor. Autossabotagem: melhor amiga. Melhor forma de nos protegermos de ir atrás do que desejamos já confiantes de que vai dar tudo errado. Uma oportunidade para uma autodepreciaçãozinha leve também não deixamos passar.

Mas em uma coisa temos que nos obrigar a ter confiança: é possível vencer esta síndrome. E quando eu descobrir como eu te conto!

Brincadeira.

Eu estou lutando com a síndrome e vou compartilhando com vocês as minhas experiências!

 

Improvisação.

Cara, eu não faço a mínima ideia a respeito do que escrever hoje.

Há dias em que tudo falha. Todas as suas estratégias e planos bem pensados e pesquisados e fundamentado… Nada disso funciona e tudo parece desabar.

Chega a hora de improvisar.

Uma voz lá no fundo da minha cabeça fala: “Não está ok improvisar o tempo inteiro”! Concordo.

Mas que fique claro que não me refiro ao improviso como um modo relapso de lidar com as obrigações.

Estou há dois dias pensando no que escrever hoje, no dia 31 de outubro de 2017, e nada me vem à cabeça. Queria escrever alguma coisa sobre Halloween. Mas a história que me veio á cabeça é meio dramática e eu não quero estragar a festa de vocês, portanto o que me resta é escrever sobre a dificuldade de escrever.

Estou surpresa que isso tenha demorado tanto a acontecer. E a minha perspectiva é a de que isso ainda aconteça muitas vezes no futuro.

Então, me resta improvisar usando todas as minhas magníficas habilidades de escrita e as minhas experiências de vida. Vamos ver no que vai dar.

Até porque essa sensação não é nova para mim.

Me lembro como se fosse ontem das incontáveis vezes que eu cheguei na escola com mochila, cadernos e apostilas e encontrei meus amigos apenas com a caneta na mão, pois havíamos adentrado a semana de provas e eu, como de costume, não sabia disso.

Quando eu estava no Colégio GPI, onde estudei todo o meu ensino médio, meus amigos sempre me zoavam quando eu chegava com o material todo na semana de provas. Eles já sabiam que eu estava completamente desinformada. Veja bem, na semana de provas, só tinha a prova mesmo, que fosse uma ou duas, e acabou. Dpois de fazer a prova a gente era liberado. A galera só levava a caneta.

Chegava eu, segunda feira pela manhã no colégio, desavisada. O que eu fazia na prova? Improvisava. Aí, ao longo da semana, eu ia tirando o atraso dos estudos.

Sentava na carteira, olhava para a prova e utilizava todo o meu charme literário e o que tinha ficado das aulas para tentar conquistar uns décimos aqui, um pontinho ali; e, é claro, contava também com um pouco de sorte nas questões de múltipla escolha.

(Até nas provas de matemática, eu descrevia literariamente o meu raciocínio sobre os problemas e as minhas soluções, com medo do professor não entender o primor super elaborado que era o cálculo que eu fazia. As provas de geometria eram as mais loucas, eu já gostava de desenhar, eu criava figuras em cima da figura que vinha na prova e ia intuindo valores para os ângulos, chegando assim, à resposta da questão de um jeito mirabolante que eu tinha que explicar com palavras. Muitas vezes, eu deixava mais de uma alternativa de resposta – uma delas estrategicamente riscada – para tentar confundir o professor. Bons tempos. Nas minhas provas de matemática, uma imagem não era equivalente a mil palavras; pelo contrário, eram necessárias mil palavras para explicar as imagens que eu desenhava).

Minha nossa! Chegava a ser divertido fazer prova. Eu dava asas à minha imaginação.

Minha improvisação, naquela época, não era muito bem fundamentada.

Você já deve ter concluído que, todos os anos, eu ia parar na recuperação.

Eu só virei CDF na universidade. (até hoje eu não tenho certeza do que significa esta sigla, mas… como estamos falando em escola… não pude deixar de lembrar dela).

Minha iluminação foi no terceiro ano do ensino médio. Imagine eu, uma adolescente de dezesseis anos fazendo canto e dança, gostando de ler e escrever. Eu nunca tinha parado par apensar em profissões. Sabe aquelas crianças que falam desde novas: “Quero ser médica!”, “Quero ser veterinária!”. Eu não me lembro de ter tido esse tipo de desejo quando. Eu via muito anime, então, quando alguém perguntava para mim, quando eu tinha dez anos de idade, o que eu queria ser quando eu crescesse eu respondia: “Quero ser andarilha no Japão” (até hoje eu amo Samurai X). E eu levava esse sonho muito a sério. Eu fiz curso de japonês dos dez aos quinze anos e fiz Kung Fu também (embora por bem menos tempo, pois a minha mãe ficava apavorada comigo, pequena e deficiente visual, na aula com todas aquelas outras pessoas enormes que me batiam na hora de lutar em duplas no final).

Eu sempre tive uns sonhos assim meio aleatórios e nunca tinha considerado a sério uma carreira.

Quando eu optei por psicologia, foi muito por influência de pessoas ao meu redor. Eu dizia que queria entender o ser humano e a galera me orientou: “Vai fazer psicologia, então”. Ok.

Nunca me arrependi dessa decisão. Amo a psicologia, mas eu demorei a perceber que ela ia ter que conviver com o amor pela escrita. Não é a pior combinação. Psicologia e escrita andam bem juntas.

De qualquer modo, era necessário passar no vestibular.

No meio do ano, quando eu me decidi pela psicologia, ou seja, quando eu estabeleci um objetivo, eu mergulhei de cabeça. Estava no GPI, tinha aula até domingo do pré-vestibular.

Me lembro de chegar na escola um certo dia e dizer aos meus amigos que eu havia decidido passar na UFRJ. É uma história foda hoje em dia porque deu certo, não é mesmo? Decidi, me dediquei e passei. Ah… que alívio.

Na faculdade eu fui ganha para o mundo intelectual acadêmico e deu no que deu: não consegui sair deste universo até hoje e me faltam ainda mais três anos de doutorado. Vida que segue. Enfim…

Hoje em dia eu ainda improviso. A diferença é que eu me forço a ser muito segura das minhas capacidades intelectuais, coisa que a escola não ajudou a construir (tendo mesmo deixado uma insegurança profunda que se transformou atualmente na Síndrome do Impostor que me aflige. É por isso, e é possível que você tenha estranhado quando eu escrevi, que eu tenho que me forçar a ser segura quanto a minha capacidade intelectual. Autoconfiança intelectual é uma característica que a educação nem de longe estimula e, se bobear, destrói).

Bom, neste novo cenário, improvisar passa a significar adaptar o conhecimento que eu possuo a uma situação inesperada.

Para você ver como isso rende… Um improviso que parte de algum lugar. Gostei dos lugares aos quais eu fui levada por estes devaneios. Acho, inclusive, que podemos ficar por aqui, pois já consegui escrever um bom texto para a postagem de hoje.

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A intenção da “pintura” de ontem.

Ontem eu fiz um texto psicodélico (não estou mentindo, veja aqui), coisa que eu não costumo fazer.
Quando eu leio narrativas das quais eu não consiga retirar um sentido explícito (algo que faça sentido para mim, não falo nada da intuição do autor), eu fico desconfortável. Sinceramente, prefiro narrativas racionais.

Por isso mesmo acho que o exercício de ontem foi bom e talvez eu faça mais dele no futuro.
Por enquanto eu vou ser indulgente com as minhas necessidades racionalistas e vou discorrer sobre o sentimento que me dominou ontem.

A filha de uma amiga minha de infância adoeceu e, apesar de eu não ter falado com esta amiga nos últimos dias, fiquei apreensiva, torcendo pela saúde da menina e pensando na barra que minha amiga devia estar passando.
Foi quando me dei conta do quanto a gente cresceu.

A gente: a galera que ficava no meu portão comendo brigadeiro caseiro da mesma colher e dividindo uma garrafa Pet de água.

E a gente cresceu muito.

Cresceu e nossos universos sedimentaram de um modo que, ontem, me pareceu total e indestrutível.

Na infância e na adolescência, eu experimentei um milhão de atividades diferentes: dança, luta, língua japonesa, canto e por aí vai. Todas as carreiras e estilos de vida possíveis estavam ao meu dispor.

Conforme eu fui envelhecendo, conforme todos nós fomos envelhecendo, fomos fazendo escolhas aparentemente mais marcantes e duradouras. Fomos deixando de enxergar caminhos possíveis onde antes víamos algo que estava ao alcance da mão.

Acho que ontem, pensando na situação da minha amiga com a filha doente (que já melhorou e está toda serelepe novamente), eu olhei para as nossas vidas, a minha e a dela e de todos nós que crescemos juntos nas últimas décadas e perdi a esperança de que um mínimo dessa liberdade aguada que a gente prova no dia a dia fosse sobreviver ao peso das escolhas que fomos fazendo e das portas que fomos fechando. Como se outras vidas já não fossem possíveis (ou como se achássemos mesmo impossível desejarmos outras coisas).

A salvação foi que eu me lembrei de uma pergunta escrota que fizeram para um colega meu há uns dois anos atrás. Disseram: “Vem cá, o que há para se esperar da vida depois dos trinta além da morte”?

A resposta dele foi digna de um sábio oriental. Ele, com uma extrema sensibilidade, se lembrou das próprias angústias dos vinte e poucos anos, quando ele mesmo achava que era isso aí mesmo que a vida ia ser para sempre. A revelação foi que ele sentiu tudo mudar depois dos trinta. Ele sentiu um ânimo novo e impetuoso. Sentia que a vida estava só começando e que tudo era possível novamente.
Eu acrescentaria ainda, depois de parar para refletir sobre a resposta dele e observar as gerações anteriores a minha, que a vida recomeça a cada nova década.

Passamos por pequenas renovações anuais, mas o que me parece é que as pessoas, ao adentrarem uma nova década de vida, são sempre tomadas por um novo fôlego, um novo olhar para o futuro. E aquela liberdade pálida ganha corpo e se torna um universo de possibilidades tão rico quanto aquele que vislumbramos embasbacados éramos adolescentes.
A diferença é que, quando a gente envelhece, a gente tem talvez ainda mais meios de escolher seguir um desses caminhos que nos der na telha.

O único vilão que temos que combater é a nossa própria prisão mental que nos diz que o mundo aberto da juventude ficou para trás e que estamos presos às escolhas que fizemos pelas responsabilidades que adquirimos ao longo da vida.

Não falo de jogar tudo para o alto irresponsavelmente. Falo de acreditar em si mesmo, avaliar nossos recursos e possibilidades e nunca se deixar convencer de que “é isso aí mesmo e a vida nunca vai ser mais do que isso”.

Tenho o pé no chão ainda que esteja defendendo este discurso de esperança de que tudo vai ficar bem no final. Esse discurso não pode mais ser feito sem pensarmos nos preconceitos: machismo, racismo, LGBTfobia e todos os outros preconceitos que oprimem e matam pelo país afora. Existem posições desfavorecidas na nossa sociedade que dificultam em muito a busca de novos caminhos e alternativas. Dificultam verdadeiramente, sem espaço para o blá blá blá ridículo do “se se esforçar consegue”. Ainda assim, afirmo que há esperança. Esperança que muitas pessoas vão encontrar na luta por melhores condições de vida, igualdade, dignidade; esperança numa revolução. Estes são os agentes da mudança não apenas da vida própria, mas também são agentes de uma mudança há muito devida para todos. O que eu quero defender é que todo mundo tem que ter o direito de tentar ser feliz nesta vida e se sentir realizado de alguma forma.

Portanto, procure saber o que te motiva, se agarre a isso e siga em direção à mudança ou em direção à luta pela possibilidade da mudança. Vai te fazer bem.

Doidera, não é? Mas era este o raciocínio por detrás do quadro que eu gostaria de ter pintado (realmente pintado, com tinta e tudo) ontem e não consegui. Faz sentido para você?

 

Se eu soubesse pintar não teria escrito este texto.

Esse já é o quarto texto que eu começo a escrever hoje e nenhum dos anteriores me deixou satisfeita.

Cheguei em casa com uma forte vontade de pintar. Coloquei uma música no computador, peguei o meu material de pintura e pintei.

O problema é que eu pinto muito mal e fiquei muito frustrada. Desde que comecei a escrever, minha veia artística vem pressionando para desabrochar, mas eu não sei fazer nada além de escrever mesmo. O que eu queria era ter postado a minha pintura hoje. Mas eu não vou tirar foto desse negócio aqui para postar. Está feio demais. Eu não consegui pintar o que eu queria. Isso é muito desapontante. Quando se trata de um texto, eu vou escolher as palavras, o formato do texto, a pontuação e vou passar a minha voz para a narrativa (ou, pelo menos, eu consigo trabalhar com esse material e ver um resultado que, de alguma forma, me carrega junto). Com as tintas e o papel e os pincéis eu simplesmente não sei lidar. Ainda. Quem sabe no futuro…

Uma saída meio doida que me ocorreu é descrever a pintura que eu gostaria de ter pintado. Vamos a ela, por mais psicodélico que isso possa ser:

 

<<<Uma linha marrom nasce na ponta inferior esquerda de uma tela, fina e débil. Ela se sente insegura e chora a todo momento. Tem muito colo disponível. Ela se refestela. Conforme Marron avança em direção ao centro do quadro, ela se adensa e se torna cada vez mais amarela. Amarela de medo, amarela de dor de barriga, amarela por causa do brilho do sol, amarela por causa das flores que tem no cabelo. No ponto em que o marrom já não comparece e Amarelo domina a cena em um traçado grosso, mas leve e suave, diversos outros veios coloridos começam a despontar, desviando-se do caminho principal. Os frágeis tracinhos coloridos tomam o espaço branco ao redor, alguns mais grossos, mas ainda finos, outros tão, tão finos que quase não se vê. De repente, um dos finos capilares, do qual era difícil divisar a origem, ganha corpo e desponta bem marcado galgando o canto superior direito da tela. Ele é cheio de energia e paixão. Não recebe ordens e não leva desaforo para casa. Ignora tudo e todos ao redor e vai somente pela própria cabeça. Está vermelho de ódio e vermelho de dor, amor e tudo o mais que rima e termina em or, como calor, estupor, fedor, horror, vigor e por aí vai. Desse canal de tinta vermelho e sanguíneo, ainda correm alguns traçados laterais de cores vivas. Todas as cores se cruzam e bagunçam o meio da pintura que, no mais, poderia ter sido uma dança moderna no lugar de uma narrativa sem sentido. Não é possível seguir um só traço até o seu derradeiro fim.

Acompanhamos a Vermelha até o momento em que todas as cores do mundo, representadas, na minha pintura, por todas as tintas que eu possuo, desabrocham dando um último suspiro angustiado de sua ponta que, após encontrar a tal borda superior direita da tela, se volta para a diagonal oposta e começa um caminho descendente.

Contudo, sem que ninguém tivesse se dado conta, a despeito de todos os intensos protestos da pintora e se expressando quase que por meio de um sussurro, do meio das cores vivas que despontavam como raios da mancha vermelha se insinuava um fio marrom que se avoluma horrendamente conforme o traçado retorna a sua origem.

Marron segue fingindo segurança de si, firme, numa jornada de ponta cabeça em queda livre pelo meio da tela. Ele acha que volta para onde veio, mas ninguém sabe onde ele vai parar, mas ele finge saber e acreditar que está indo para onde decide ir. Todos os brilhantes fiozinhos de tinta coloridos que dominavam o restante do quadro foram arrancados por Marrom pela raiz. Alguns cotocos permanecem para contar a história do que Marrom poderia ter sido, mas Marrom tem muito medo de ser qualquer outra coisa além daquilo que se acostumou a ser por mero acaso. Se fosse outro o quadro, talvez Marrom ainda pudesse ter se tornado Verde, Rosa, Preto ou Laranja, mas neste quadro Marrom vai morrer Marrom.>>>

 

Talvez eu intitulasse o quadro de O CAMINHO.

A misteriosa geração de autores e editoras que só sabem fazer sempre as mesmas críticas aos novos escritores.

São duas as principais críticas aos novos escritores – ou, como dizem os críticos, aos aspirantes a escritores – que me chegaram aos ouvidos: escrever em blogs ou no facebook não faz de ninguém um escritor e que a nova geração de escritores não gosta de ler.

Parece uma sina: o ser humano é eternamente preocupado com o que o colega do lado está fazendo.

Antes de entrar nessa discussão é até bom salientar que eu não cheguei a conhecer este espécime que é o escritor que não gosta de ler. Todos os escritores que eu conheci gostavam e muito de ler. Para ser precisa, os escritores que eu conheci, achavam que não tinham lido o suficiente ainda e não se sentiam autorizados e se autoproclamarem escritores.

Bom, em primeiro lugar, a galera que está por aí escrevendo em blogs e no facebook – sim, eu inclusive – estão quebrando barreiras de vergonha e autocrítica e compartilhando os sentimentos que nos ensinaram a esconder ou negar, que nos disseram que eram errados ou vergonhosos. Isso é muito libertador e unificador também. Isso não faz de ninguém um escritor? Quem tem a fórmula que faz de alguém um escritor? Não estou falando de prática ou técnica, estou falando dessa sensação de que se você não escrever vai explodir, vai ser infeliz para sempre ou murchar até morrer. Da onde vem essa sensação? Muitas vezes, como eu já disse antes, seria até menos sofrido se livrar desse tipo de desejo.

Você pode me dizer: “Tem gente que quer ser escritor por modinha”. Muito mais fácil que essa galera que já é famosa se torne escritor por modinha, do que o cara que rala 40 horas semanais para se sustentar e, no tempo que sobra, escreve por que não pode escolher outra coisa senão escrever.

Na realidade o que tem de sobra é o contrário: gente que escreve para caralho, mas se sente incapaz e desestimulado – não estou falando de mim, quem me dera. Eu estou perseguindo o sonho, mas já esbarrei com muita gente que foi engolido pelo desânimo pelo meio do caminho que, inclusive, escrevia muito melhor do que muita gente sendo publicada por aí.

Há uma escassez de leitores, é verdade. Precisamos todos ler mais, é verdade. Mas no lugar de ficarem ressentidas com o povo, as editoras, especialmente as grandes editoras, deveriam investir muito, muito, muito mais na divulgação da leitura e nos vários, vários e vários novos e bons escritores que estão por aí.

Interessante também o fato de que essa crítica eu sempre ouço de escritores – os consagrados em alguma medida ou os próprios “aspirantes” – ou através de canais ligados a editoras.

Dizem que está difícil achar gente boa para publicar.

A vida do escritor é bastante complicada. Quando você se torna psicólogo, por exemplo, você recebe desde o início, ainda que pouco, e vai praticando e melhorando ao longo do tempo. Vem da sua profissão o seu sustento.

Quando você quer ser escritor não é assim que as coisas funcionam. É um trabalho raramente reconhecido pelo qual você não é remunerado e que demanda bastante.

Mas o que eles querem é que o meio literário seja elitista. Que vigorem as panelinhas intelectuais. Eles querem nos dizer o que ler, quem pode escrever, o que escrever e quem são os escritores de verdade.

O que é reconfortante é que a literatura sempre encontrou um jeito de se marginalizar e vai continuar encontrando enquanto existirem rebeldes que vão ouvir que escrevem mal e vão mandar um foda-se e vão continuar escrevendo ainda que para o público invisível que mora dentro da nossa cabeça.

Enfim, estou com muita raiva agora.  Estou insatisfeita com este texto e não sei se cheguei ao ponto que queria. Mas, como forma de protesto, vou publicá-lo mesmo assim.

Tributo ao sofrimento adolescente.

Mai gosta de ouvir músicas de bandas desconhecidas e super melancólicas no youtube acompanhando as letras, cantando e chorando junto enquanto pensa em suicídio.

Quando Mai acorda pela manhã, com o celular despertando às seis e meia, ela abre os olhos com as pálpebras pesadas. Suas mãos geralmente demoram a encontrar o celular que fica todo dia exatamente no mesmo lugar em sua mesinha de cabeceira. Ela desliga o alarme e volta a dormir. Passam-se mais uns quinze minutos até sua mãe vir bater na porta do quarto, gritando. A mãe grita porque Mai já está atrasada para a escola. Mai levanta irritada, vai para a escola com raiva. Ela pisa forte no chão, olha para baixo, anda sempre com as mãos enfiadas no bolso de um casaco preto que ela usa mesmo no pior dos calores. O fone de ouvido fica na orelha até o professor mandar tirar na sala de aula. Ela tira o fone para ouvir os outros adolescentes rindo da sua inadequação. Onde estão os seus amigos, Mai? E, mais importante, cadê o livro, Mai? Só trouxe esse caderno velho de novo? Algumas poesias por aí, rasgadas. E página depois de página, as folhas do caderno estão tomadas por rabiscos circulares feitos com caneta preta. Ela coloca a caneta na ponta da página e vai desenhando círculos até chegar ao centro do papel e ela continua riscando e riscando e riscando. A folha rasga, a caneta acaba e ela risca e risca e risca. Quando se dá conta ela está em casa com uma lâmina na mão fazendo mais um corte no braço. As bandas desconhecidas estão tocando no computador, ela canta junto e chora muito. A dor emocional é insuportável para ela. Dói. O clichê dói para caralho. Naquele momento dói mais do que tudo no mundo. Os cortes na pele são cada vez mais profundos. Seu sofrimento era clichê, até seu braço era clichê. Eles sangram como todo braço quando cortado por uma lâmina. 

No final, temos mais uma adolescente que tinha tudo para vencer na vida morta por suicídio.