Pintando Mandalas.

 

Até os meus vinte anos, eu odiava beterraba. Cozida, ralada… Não fazia diferença.

Certa vez, eu, minha mãe, minha avó e meu avô fomos passar uma semana no Hotel Fazenda Raposo. Esse hotel fica em Raposo, uma cidade com fontes de água naturais no norte do estado do Rio de Janeiro. A minha família é de lá. De Cardoso Moreira. Quando minha avó era jovem, ela ficou hospedada nesse mesmo hotel com meu bisavô e a família. Nós fomos lá para reviver essa experiência com ela quase cinquenta anos depois.

Eu amei o hotel. Tinha sauna (estava friozinho na época), fontes com vários tipos de água diferentes para beber se banhar (umas águas com gosto amargo que eu gostava bastante), muita comida da fazendo, de interior.

Rotina simples.

Acordar, ir até a fonte beber um copo d’água em jejum, tomar aquele café da manhã farto, com queijo e leite frescos, pão macio com manteiga de fabricantes da região, doce de mamão. Depois uma caminhada para ver os bichos, ouvir as histórias de boi brabo que minha avó contava, as epopeias de caminhoneiro do meu avô e aí já era hora do almoço. Nas tardes, marasmávamos na beira da piscina, bebíamos mais água da fonte, cochilávamos na sauna. O café da tarde tinha bolo. Bolo bom. De cenoura de milho, de aipim. Aí era voltar para o quarto, tomar banho, porque de noite às vezes tinha música no hotel ou na cidade, a gente curtia um pouco e voltava para o jantar. De volta ao quarto eu lia até dormir. Eu poderia viver uma vida inteira nesse ritmo homogêneo e suave.

Foi uma experiência singular em muitos aspectos.

Eu me lembro muito bem das refeições. Parecia que estávamos em um rodízio. Os garçons passavam de mesa em mesa perguntando aos poucos gatos pingados hospedados naquela época do ano: Mais arroz? Um feijãozinho? Almeirão talvez? (Ou que é isso, moço? É bom e saudável. Quero!). Quer mais carne? Beterraba? E lá estava ela: a tal da beterraba cozida. Eu disse sim.

Sim e foi um sim bem dito mesmo, sabe? Sem pestanejar.

Olhando para trás, eu imagino que foi justamente a singularidade da experiência que me fez comer aquela beterraba. E eu comi e gostei.

Hoje em dia eu gosto bem de beterraba cozida. Amo aquela que é feita junto com o feijão preto.

Não acho que é uma questão de mudança de paladar; acho que foi realmente uma questão afetiva. Eu ainda não como beterraba ralada, por exemplo. Já experimentei depois dessa viagem e não rolou mesmo. Mas a beterraba cozida, que foi servida lá, já conquistou um espaço no meu estômago emocional. A força da experiência daquela viagem rompeu barreiras. Eu não pensei muito, só disse sim.

Essa experiência é libertadora, amplificadora de horizontes, mais precisamente, e pode ser replicada.

Eu tenho ficado atenta para perceber momentos de grande engajamento emocional e, quando eles acontecem, tenho procurado ficar aberta a novas experiências.

Aconteceu recentemente com isso de pintar Mandalas que estava na moda há pouco tempo. Como um fenômeno pop, eu já torci o nariz.

Mas, durante uma viagem para o spa Maria Bonita, no qual passei uma semana com minha mãe, tivemos uma oficina de pintura de Mandalas e eu resolvi me engajar na atividade. Gostei da experiência. No entanto, como eram Mandalas para colorir e não beterrabas no feijão, tratava-se de uma vivência menos cotidiana e eu teria que correr atrás disso ativamente para continuar tendo a experiência de pintar Mandalas. E eu não fiz isso. Pelo menos não até recentemente.

Nesse meu novo estado de engajamento com diferentes formas de expressão artística, eu lembrei das Mandalas e fui dominada por aquele sentimento bom da viagem. Fui na livraria Leonardo Da Vinci e comprei um livro com várias delas para colorir. Quando comecei a pintá-las com os lápis de cor aquareláveis nos quais investi também, não lembrei do antigo preconceito, mas da boa sensação do spa.

Então eu penso o seguinte: eu não vou mais dizer categoricamente como antes “disso eu não gosto”, “odeio sei lá o quê” ou “Argh”, eu vou pensar mais em termos de “por enquanto eu não gosto muito disso, mas quem sabe no futuro”?

Eu não vou sair correndo atrás de experimentar coisas das quais eu não gosto, me forçando a apreciá-las. O importante é perceber que, episódios que carregam intensidade emocional nos afetam ao longo de nossa vida inteira. Se ficarmos atentos, podemos tirar proveito disso para expandir nossos horizontes.

Você deve estar pensando e eu também pensei nisso; acho que este é justamente o mecanismo psicológica que está por trás daquela exortação popular: “Nunca diga que desta água você não beberá jamais, pois a vida pode te surpreender”. Surpreende mesmo e é bom que seja assim. A única diferença é justamente esta: no ditado popular, isso soa como algo negativo. Era sempre meio que: “Olha… Não fala isso porque você não sabe o que o futuro te reserva. Um dia você vai ser dobrado pela vida e pode acabar sendo obrigada a fazer o que não gosta”. Pode até ser que seja assim. Mas eu te garanto que se passarmos a ver a nossa rigidez emocional de modo menos positivo, se nos mantivermos abertos para a mudança e percebermos que ela é boa, então, quando a vida nos apresentar a oportunidade de beber dessa “água”, vamos tirar o máximo de proveito desta experiência e transformá-la em algo enriquecedor.

Do Renascimento ao Século XVII d.C. Parte II

Capítulo V (Vou dividir o capítulo, na verdade, em três partes, para tornar a leitura mais palatável).

 

Quanto ao quadro geral do número de suicídios encontrado na época, cabe apontar para o seu aumento significativo. No entanto, este fato deve ser tomado apenas como demonstrativo de uma maior eficiência dos relatos deste tipo de morte e não como um aumento de fato da ocorrência do suicídio. (Ou seja, a ideia então é que não houve um aumento real do número de pessoas que tiram suas vidas ao longo de diferentes períodos históricos. O número de suicídios sempre foi estável proporcionalmente em relação a população absoluta).

Os relatos de morte por suicídio feitos por volta e a partir do século XVI começam a ocorrer com considerável eficiência e em maior número. Para que isso fosse possível não se deve deixar de considerar o já mencionado surgimento da imprensa, o grande número de jornais e folhetos que passam a circular cotidianamente, a maior facilidade da circulação de informações e a maior frequência e disponibilidade das traduções.

Pode-se atentar também para o que Foucault observou: o fato de que, neste período, começa a ocorrer um maior interesse do Estado em manter um controle mais rigoroso de toda sorte de eventos (1998). Surge nesse período o que ele denominou poder disciplinar, que encarna o interesse pelo controle minucioso dos corpos de todos os cidadãos. O próprio surgimento da estatística é apontado pelo autor como um instrumento desse controle. Começam a ser controladas as taxas de natalidade e mortalidade, o número de suicídios e assim por diante. Enfim, o que se verifica é o surgimento de diversos índices que favorecem o conhecimento e o controle dos indivíduos. Quanto ao controle do número de suicídios, especificamente, Minois cita à exaustão exemplos de todo tipo de listas ou locais nos quais as relações de causa e morte eram apresentadas, salientando que haviam aquelas dedicadas exclusivamente à morte voluntária (Minois, 1998, p.229 e 230).

Chegamos então ao momento oportuno para a introdução dos debates filosóficos a respeito do tema. E, mesmo que não fossem em grande número, os filósofos que fizessem deste um de seus principais temas, a grande maioria deles deu a sua contribuição para o debate (op. cit.).

Em um primeiro momento, a loucura emerge como um foco para o pensamento, na medida em que se apresenta como “refúgio, fuga e explicação” da sociedade e de tempos tão conturbados como os séculos XV, XVI e XVII, nos quais inúmeras guerras, pestes, intensos conflitos religiosos, mudanças na configuração política e econômica dos Estados, colonização de novas terras e muitas outras mudanças perturbam a consciência da época e, misturado com ela, sendo obscuro o limite que dela o separa, se encontra o suicídio.

O entendimento da loucura passa por uma brusca mudança em um curto período. As posições de Sébastien Brant e Erasmo de Rotterdam, tal como demonstrado por Minois (op. cit., p.100), exemplificam muito bem essa mudança, que se daria entre o entendimento da sabedoria e da loucura. A exemplificação mencionada seria feita pela apreciação de duas sentenças, cada uma de um dos autores: “procurar a morte é uma loucura, pois a morte sempre nos encontrará” – enunciada por Sébastien Brant – e “Quem são aqueles que por desgosto da vida se entregam à morte? Não estarão eles mais próximos da sabedoria?” – enunciada por Erasmo de Rotterdam. (Disputas intelectuais da época. O suicida é são ou louco? Qual é o sentido atribuído ao ato de tirar a própria vida? Essa é uma pergunta com a qual nos debatemos até hoje. A distância entre o pensamento dos gregos e o atual é bastante evidente em certo sentido, no que diz respeito ao debate do suicídio no ocidente. Mas com as discussões que surgem já aqui no renascimento é bem fácil se identificar. Já existem muitas ressonâncias com o modo de pensamento atual). O primeiro afirma então que é necessário ser louco para querer se matar e o segundo que é necessário ser louco para querer ficar vivo. O último ainda completa:

 

Basta ver todas as calamidades a que está sujeita a vida dos homens, a miséria e obscenidade de seu nascimento, a dificuldade da educação, as violências a que está exposto na infância, os medos a que está submetido na idade madura, o fardo da velhice, a dura necessidade de morrer, porque sempre ao longo da vida sofrerá todas as doenças que o assaltam, os acidentes que o ameaçam, os males que lhe caem em cima, os rios de fel que envenenam todas as coisas, sem falar dos males que o homem inflige ao homem: pobreza, prisão, desonra, vergonha, torturas, armadilhas, traição, injúrias, velhacarias (…). Como vê, penso eu, o que se poderia esperar se os homens fossem mais sábios: seria preciso outro barro e um novo Prometeu para o modelar (ibidem).

 

Outros aspectos desse debate se encontram nos estudos feitos por Montaigne. Ele afirma que o suicídio não é uma questão de moral abstrata, não podendo ser pensado em absoluto e valorado por posições universais. (Amo esse filósofo)! Apenas o indivíduo por si mesmo, perante uma situação particular poderia avaliá-la e a todas as possibilidades que apresenta, chegando por tal avaliação à saída que lhe pareça mais razoável, sendo apenas neste nível o suicídio passível de valoração.

A razão desponta neste momento como aquilo que deve iluminar qualquer sorte de reflexões e o suicídio não será considerado por outro prisma por Descartes. O filósofo não se deterá no tema, mas esclarecerá seu posicionamento em algumas de suas correspondências pessoais (op. cit., p. 202). A razão não nos diz nada sobre a morte, se existe ou não algo depois dela. Cometer suicídio seria, então, trocar o certo pelo incerto, o que constitui um erro. O suicida não é, nesta perspectiva, um pecador, mas alguém que comete um erro de juízo; e aquele que erra pune a si mesmo. (Deu para ver muito isso com o meu estudo. A galera não necessariamente se debruçava sobre o tema do suicídio, mas tinha que dar um pitaco).

Cabe observar que esta posição não deve ser tomada como representativa da dos racionalistas de um modo geral, assim como a posição de Hume, a seguir apresentada, não reduzirá de modo algum a dos empiristas. Pelo contrário, o que se encontra comumente é uma intensa discordância entre os filósofos e uma ambiguidade muito grande das posições particulares. (Justamente porque era uma discussão muito viva. Poucos grandes tratados filosóficos foram produzidos sobre o tema da morte e do suicídio especificamente por esses filósofos pops, mas eles sempre tinham algo a dizer. Sobre tudo; na verdade, eles sempre tinham algo a dizer. Falo isso com um pouco de amargor e ressentimento porque a academia, tal como eu a experimento, é muito rigorosa quanto a quem pode dizer alguma coisa. Como se a senioridade ou o título assegurassem que tudo que sai da boca de alguém são pérolas de sabedoria. Esses filósofos falavam cada absurdo. Leia os textos do Kant sobre mulheres, por exemplo, e você vai saber do que estou falando. Observação: se você acompanha meus textos, sabe que eu não perdoo crueldade e babaquice por conta do período histórico em que uma pessoa viveu, então não venha me dizer que era outra época. A “vida” sempre foi a “vida” e o ser humano sempre apenas teve uma destas e muitas mulheres morreram por causa dessas ideias e práticas e não voltarão à vida nunca mais. A gente fica pagando pau para as ideias dos filósofos, tentando salvá-los de suas atrocidades intelectuais e morais, mas resiste em ouvir os jovens, vivos, que querem gritar e expressar suas ideias. Se é para ouvir babaquice eu prefiro ouvir de alguém com quem eu consiga gritar de volta e não das páginas de um livro reverenciado escrito por um velho morto. Essa é a ideia. Parece que o caminho da graduação para o pós- doutorado é o caminho do “rejuvenescimento” do autor que você estuda. Como assim? Na graduação, a maioria dos autores que eu estudei eram senhores veneráveis que morreram velhos já há muitos anos, no mestrado, eu já comecei a estudar uma galera mais atual, se não o autor principal, pelo menos os comentadores, um ou outro vivo ainda. Agora, no doutorado eu estudo muita gente que está viva ainda e produzindo e que está na casa dos cinquenta anos! No pós-doc eu devo conseguir conhecer e debater com algum intelectual que regule comigo. É isso. Você tem que ir galgando degraus para ser ouvido. O problema é que você aprendeu a calar por tanto tempo, que quando chega a sua hora de falar, o que te resta a dizer já não carrega a potência da revolta da juventude, que sempre foi o que fez avançar o mundo. Eu vou parar por aqui hoje, porque acho essa ideia muito importante e quero que você medite sobre ela. Qualquer coisa discuta comigo nos comentários. Para a sua sorte, eu estou viva e você não é obrigado a baixar a cabeça para falar comigo :P).

 

DIAS, O. M. K. Perspectiva Histórica sobre a Morte de Si Mesmo no Ocidente. Monografia de fim de curso de Formação de Psicólogo, Instituto de Psicologia. Rio de Janeiro: 2013.

Medo da chuva. 

O medo de estar fora de casa em um dia de chuva. 
Outra quarta feira.
Depois de ver o meu bairro alagado, um pingo de chuva já me faz antever uma noite de desgraça, molhada, presa na rua da amargura até altas horas da madrugada.
Ah! Praça da Bandeira! Não alague! Me deixe retornar!
O bom do post de hoje é que tem um pouco mais para você ler aí preso no engarrafamento.

Enchente na Praça da Bandeira. 

Ontem, quarta feira de cinzas, fechando o carnaval,  choveu muito no Rio de Janeiro.
Hoje eu só acho importante informar aos moradores da cidade que, ao contrário do que diz a mídia, a Praça da Bandeira ainda inunda. Portanto, fiquem atentos em dias de chuvas!
Eu moro de frente para a Praça e fiquei de meia noite até as quatro da manhã acompanhando a enchente.
Muitas pessoas ficaram presas na própria Praça, em cima da passarela, em um ônibus que tentou mas não conseguiu atravessar a rua alagada, lojas inundaram e comerciantes perderam suas mercadorias, o trânsito ficou interditado por quatro horas até que a água finalmente abaixou e o tráfego foi normalizado.
Foi bastante tenso. Eu nuca tinha visto algo parecido. No meio da cidade, como é possível que um local fique completamente alagado. Uma piscina gigante, suja e com uma correnteza considerável! Os moradores se esforçando para salvar o que fosse possível.
Quando eu via as enchentes da Praça da Bandeira na televisão há anos atrás eu pensava: gente, é tudo aberto! É rua! Como é que enche?
Eu não sei muito bem ainda como enche, mas enche mesmo e enche muito. E é de uma hora para outra. Eu publiquei ontem no Blog que eu passei o dia cuidando do meu jardim. De noite, eu ainda estava no apego total com as minhas plantas, fiquei um bom tempo na varanda com elas, até que a chuva começou. Ainda fiquei um tempo olhando os raios (quem não gosta de ficar vendo o céu em dia de chuva?). Então eu encostei a janela e saí da varanda. Como continuou chovendo e ventando muito, eu voltei para fechar a janela completamente, não tinham se passado quinze minutos, e a Praça já estava de baixo d’agua. Para completar, havia faltado luz, situação que também só foi ser normalizada no fim da madrugada. 
Portanto fiquem alertas e tomem cuidado!

Cultivando relacionamentos.

Eu já falei para algumas pessoas que elas precisam ampliar e fortalecer seus laços sociais.

Não sou estranha a essas necessidades.

Eu já passei por forte necessidade de fazer novos amigos e cuidar dos laços já existentes.

Algumas pessoas são bastante sociáveis e, facilmente, vivem rodeadas de amigxs. Para outras, certo esforço é necessário para não acabar ficando mais tempo sozinha do que é saudável ficar.

Todo dia é dia de cuidar de relacionamentos; com xs amigxs, com companheirx, com a família, consigo mesmo.

Hoje foi dia de fazer coisas agradáveis com a minha mãe.

Temos a visão fortemente arraigada no senso comum de que os laços de afeto com a família são dados de realidade que não podem ser alterados; mas os laços familiares, assim como os laços de amizade, conjugais ou mesmo o nosso relacionamento com a gente mesmo, todos esses relacionamentos requerem cuidados.

Eu só consegui perceber isso depois que me mudei da casa de minha mãe.

Desde que passei a morar fora de casa, percebi que meu relacionamento com minha mãe precisava ser cultivado. Que os anos de rotina e convivência haviam feito se acumularem muitos momentos de brigas, cuja lembrança ofuscava momentos de atividades prazerosas em conjunto. Portanto, comecei a buscar mais momentos deste último tipo. Hoje passamos o dia replantando e cuidando das plantas do meu jardim (que está maravilhoso por sinal).

Esse tipo de cuidado deve ser dispensado a todos os relacionamentos que são importantes para nós e, por algum mistério (algum funcionamento equivocado da nossa psique), nós tendemos a não dar tanta atenção aos amigxs já conquistados, nossx companheirx, aos familiares que amamos. Deixamos mesmo de cultivar um bom relacionamento com a nossa mente e o nosso corpo. Deixamos de investir nos bons momentos que acabam ofuscados pelos desagrados.

Com companheirx nós só brigamos e já não partilhamos mais nada em comum além do tempo que passamos trancafiados juntos dentro de casa; procuramos xs amigxs quando precisamos desabafar e não nos preocupamos em saber da vida dx amigxs com interesse e profundidade; procuramos os familiares nas datas comemorativas ou quando precisamos de alguma coisa; desgostamos de nossos corpos e não investimos no autoconhecimento e nas atividades que recarregam nossas energias e nos dão prazer.

Com o tempo, essa dinâmica desgasta os relacionamentos.

Não é necessária uma DR para saber o que fazer para cultivar o relacionamento (embora eu não tenha nada contra discutir a relação de vez em quando), basta que você chame a pessoa para um café, para jogar conversa fora, ou que você a chame para fazer alguma atividade pela qual compartilhem interesse mútuo (ou, por que não, conhecer alguma atividade nova a qual a outra pessoa pode te apresentar? Pode ser que você goste. Eu, por exemplo, nunca tinha experimentado qualquer outra atividade artística além da escrita e da dança. Mas acabei me interessando pela pintura, recorte e colagem e muitas outras coisas por conta de algumas amigas que tinham esses interesses).

Se você estiver sem dinheiro, chame a pessoa para dar um pulo na sua casa ou se convide (isso, se convide mesmo) para ir na casa dela. Uma expressão sincera da vontade de estar junto, geralmente, é muito bem recebida.  

 

Ameaça de morte na fila do Mundial.

Início de mês, mas eu queria uma uma geléia de pêssego.
Fui ao supermercado Mundial.
A fila estava gigantesca. Uma mulher pediu que eu guardasse o lugar dela na fila.
Nas ela demorou a voltar. Muito. Eu achei que ela havia encontrado um caixa mais vazio ou mesmo desistido de compara alguma coisa. Um homem parou a trás de mim na fila.
A mulher chegou dois minutos depois.
Ela tomou o lugar dela na fila. Ficou parada, do meu lado, dizendo que não ia sair de lá de jeito nenhum.
Começou uma feia discussão entre ela e o homem. A certa altura, eu peguei o celular e registrei algumas coisas que a mulher dizia.
– “Meu Deus é o Deus da paz, não é o dos da confusão, não.
Você entra no mercado, você vai fazer sua compra, a fila está enorme, você pede para a pessoa guardar seu lugar na fila. Se não quando você termina a fila está lá no final!
Ela da sorte que eu sou da igreja. Porque eu já marquei a cara dele, já. Depois, é assim que o sujeito leva um tiro na cara. Tem gente morrendo à toa por aí, você quer brincar com o diabo. Não brinca com o povo de Deus não! Com o diabo você pode até brincar. Mas comigo não. Que eu sou de Deus.graças a Deus porque se não o senhor estava perdido, moço. Eu falei para a menina aqui guardar lugar, ela deve estar com medo de falar aí, mas eu não tenho medo não. E, moço, eu fiquei revoltada agora porque eu vim para comprar o leite, que tava na promoção, 2,99, e agora já não tá mais e eu vim ontem, só peguei dois leites, vim hoje para comprar a caixa, nem o azul nem o vermelho estão mais na promoção. Eu já não estou boa”.
A discussão ainda estava rolando quando eu fui embora do mercado. Muitas pessoas ao redor se envolveram no barraco.
E, a tal mulher, ainda saiu da fila algumas vezes para pegar outros produtos, jogou baratas padres que ela acabou pegando sem perceber pelo chão e me chamou para defendê-la ainda umas duas vezes. Eu permaneci calada e de cabeça baixa o tempo inteiro. Me estresso muito nesse tipo de situação. Não sei se devia ter agido de outra maneira. Mas eu me dei conta de uma coisa hoje: se eu me estresso tanto em um pequeno atrito na fila do caixa no Mundial, eu jamais seria capaz de encarar o aniversário do Guanabara.

Está na hora de mudar a marca do papel higiênico.

Eu já fui muitas vezes fazer compras com minha mãe e com minha avó. Sempre que íamos ao supermercado, fazíamos uma pesquisa de preço, é claro, mas a pesquisa se restringia, na maioria das vezes, a um grupo de marcas já conhecidas por nós, que estávamos habituadas a comprar.

Atualmente, quando eu vou ao mercado, faço a mesma coisa.

De vez em quando, meu marido vai ao mercado sozinho, sem mim, e, geralmente, quando isso acontece, ele volta com algum produto de uma marca que eu nunca ouvi falar na vida. Confesso, eu torço a cara e, vira e mexe, acho que a qualidade do produto é inferior a daqueles produtos que eu estou acostumada a consumir. Meu marido, por outro lado, não vê diferença nenhuma.

Recentemente, após ir ao banheiro, saí elogiando o papel higiênico. Tratava-se de um papel higiênico que vinha em maior quantidade, num rolo bem grosso, a folha era bastante macia, mas resistente ao mesmo tempo. Meu marido começou a se gabar, tratava-se de um papel higiênico de uma marca desconhecida, que ele havia comprado para experimentar. Eu não havia visto o saco do papel higiênico antes de usá-lo.

Na verdade, a sequência dos acontecimentos é um pouco confusa, deixa-me explicá-la de outra forma.

Na minha casa, costumamos comprar aqueles sacos enormes de papel higiênico, pois eles são mais econômicos, por isso passamos um bom tempo usando um determinado tipo de papel higiênico. Neste dia a que me referi especificamente, eu fui ao banheiro e, na hora de usar o papel, vi que o rolo estava novinho, de modo que precisava soltar aquela primeira folha que vem grudada. Ao usar o papel higiênico, me surpreendi com sua maciez, resistência e quantidade. Pensei que tínhamos que saber de que papel se tratava para comprar aquele mesmo tipo de papel higiênico para sempre. Saí do banheiro elogiando o papel e procurando o saco para ver a marca e o tipo. Foi quando meu marido confessou que o papel anterior, que era de uma marca que eu havia escolhido – eu sempre escolho, dentro do universo de duas ou três marcas específicas, aquela que estiver com o preço melhorzinho, isso vale para quase todos os produtos -,  havia acabado e ele comprara um pacote novo de uma marca aleatória que estava mais barata. O ponto é que, para mim, o rolo novo poderia ser o mesmo tipo de rolo da vez anterior. Eu não sabia que havíamos mudado de pacote. Eu não sou maluca. Eu não estou constantemente, todas as vezes que vou ao banheiro, analisando a qualidade do papel higiênico. Para mim, eu só havia dado a sorte de notar, naquele dia, que era um papel higiênico magnífico. Nada me indicava que não era o que eu havia escolhido. Aí eu pensei: “bom, eu sempre compro uma daquelas três marcas que têm, no fim das contas, os preços muito parecidos. Já que esse aqui é, sem dúvida, o melhor papel higiênico de todos, vou comprar só desse de hoje em diante”.

Eu já vinha desconfiando que poderia ser uma mera crença minha o fato de sempre ficar desgostosa com produtos de marcas desconhecidas, nesse dia do papel higiênico, eu tive apenas mais uma evidência de que as minhas crenças arraigadas sobre a qualidade dos produtos me impedem de economizar dinheiro muitas vezes e fazem com que eu tenha uma avaliação tendenciosa dos produtos.

Não estou nem dizendo que a qualidade dos produtos não varia. Deve até variar sim, sei lá. Mas, certamente, varia menos do que tendemos a acreditar – e a sentir por pura sugestão – no nosso dia a dia. Além disso, em uma breve pesquisa pela internet, você descobre que várias das marcas que estão disponíveis nos marcados são da mesma grande empresa, desde uma marca mais baratinha até a mais cara da prateleira. Algumas reportagens afirmam que dez grandes empresas controlam toda a indústria de alimentos. Apenas dez empresas controlando todo o mercado de alimentos do mundo. Pelo menos curioso, não? Que grande variação de qualidade pode existir aí?

A gente já sabe muito bem que, para roupa de marca, esse discurso é muito válido. “Marca não quer dizer nada”. Toda mãe tenta conscientizar seu filho de que aquela logo na camiseta não significa que ele é melhor ou pior do que ninguém. Essa mãe se empenha em conscientizar seu filho de que a marca não é importante, pois ela sabe que a marca chique, a marca da moda, não tem nada a ver com a qualidade da camisa que seu filho está usando. Ela compra tranquila uma camiseta em uma loja popular em Caxias, porque ela sabe que seu filho estará vestido e protegido do tempo com ela do mesmo jeito que estaria se usasse uma camisa do shopping.

Mas essa mesma mãe acaba sendo capturada pelas propagandas dos produtos utilizados no cuidado do lar. E se essa mãe tiver uma filha, suas predileções passarão adiante.

Por conta do machismo presente na educação das crianças, eu fui muito mais vezes ao mercado e era mais capturada pelas propagandas da TV a respeito de coisas voltadas para o lar e o cuidado da família do que o meu marido, por isso ele não tem a ligação quase emocional com certas marcas que eu tenho.

Claro que algumas marcas ascendem enquanto outras vão sendo esquecidas, mas isso pouco tem a ver com a qualidade dos produtos.

Bom, se não for através da luta mais ampla contra o capitalismo eu não sei muito como escapar dessa situação. Então, eu disse tudo isso para chegar a um ponto bem simples: desapega. Desapega da marca da sua infância e/ou da televisão e economize mais dinheiro experimentando marcas que você nunca usou antes (ou nem nunca ouviu falar). Você vai ver que é tudo a mesma coisa e, pelo menos, vai te sobrar um dinheiro no fim do ano para passar um fim de semana em Búzios.

 

Como começar o ano.

A Suave Arte Sueca da Limpeza da Morte, o minimalismo, a tradição do clutter clearing.

Novas tendências estão nos dizendo para reduzir o número de coisas que nós possuímos e para fazermos uma limpeza profunda na parte material da nossa vida (que sem dúvida tem impactos emocionais).

Radicalismos a parte, eu gosto de dar aquela limpeza geral e profunda na casa no início do ano. Janeiro e fevereiro são meses bastante estratégicos para realizar este tipo de faxina (eu geralmente realizo mais uma ou duas no ano, dependendo do meu estado de espírito e de quão turbulento estiver sendo o ano).

Como eu disse, esta tendência de limpar o ambiente e reduzir o número de pertences está na moda. Quem já experimentou vai provavelmente concordar comigo que dar essa atualizada nos seus pertences é super catártico e útil: você se livra do que está apenas ocupando espaço, você tem a oportunidade de doar peças de roupa ou pertences dos quais você pode abrir mão, e você ainda redescobre tesouros perdidos no fundo do armário.

Se essa limpeza se tornar um hábito em sua vida, você vai perceber que ela se tornará cada vez mais rápida e fácil de realizar. Quando isso acontecer, você já terá alcançado aquilo que é central em sua vida.

Nas primeiras vezes que eu fiz essa varredura completa em minha vida, não era nem sequer possível realizar essa tarefa em um só dia. Com o passar do tempo, o processo já era bem mais rápido, mas não menos significativo e gratificante.

Como há dez anos atrás, quando eu comecei a utilizar essa técnica de organização pessoal, esse assunto ainda não era muito comentado, eu cometi alguns erros. Eu comecei a vasculhar os meus pertences e me livras dos excessos quando eu já estava me sentindo completamente sufocada pelo acúmulo da tralha. Então eu fazia essa faxina com raiva. Eu acabei jogando muitas coisas fora que eu me arrependi de ter jogado. Cartas de ex-namorados, lembranças de eventos bobos com os amigos, agendas antigas, certas peças de roupa que tinham valor sentimental.

Eu teria guardado essas coisas, com moderação, mas teria guardado. Hoje em dia eu preservo esse tipo de pertence. Eu tenho uma caixa para roupas especiais, um scrapbook para cartas dos amigos, ingressos de cinema etc.

Você não precisa se desfazer de todo o seu passado. É importante manter aquilo que é especial para você. Caso você esteja na dúvida de algum item, mantenha-o entre os seus pertences e reavalie a necessidade de guardá-lo no próximo ano.

O importante é se livrar dos excessos.

Eu também já não sinto raiva durante o processo. Muito pelo contrário. Como eu disse, naquela época esse assunto não era muito debatido. No início eu sofria com o acúmulo de pertences e não tinha método para me livrar deles. Fui aprendendo aos poucos a diferenciar o que eu deveria guardar e o que era excesso. Também fui aprendendo aos poucos a valorizar mais os aspectos positivos do processo do que os negativos. Sim. Dá trabalho. Mas vale a pena.

Vale a pena experimentar.

E lembre-se, o objetivo é reduzir o número de pertences. Então não estamos falando de liberar um espaço para logo preenche-lo com mais um monte de bobagens. É para liberas um espaço que vai trazer mais e melhor circulação para sua vida (de energia, bons pensamentos, do seu olhar pela casa, ou mesmo apenas facilitar a manutenção da casa).

É claro que a bagunça diz algo sobre nós. Portanto, não apresse esse processo, principalmente se for a primeira vez que você vai coloca-lo em prática. Tenha o cuidado, principalmente, de tomar um tempo para entrar em contato com as suas experiências passadas a partir de seus pertences.

Cinco palavras sem sentido.

Eu já fiz um exercício numa oficina de escrita criativa que com sistema no seguinte: cinco pessoas da turma falavam cada um uma palavra e todos os participantes tinham que escrever uma narrativa que contivesse todas as cinco palavras sem variações. Por exemplo, se a palavra era sangue, tinha que usar sangue mesmo, não poderia ser sanguinolento.
Há um tempo eu vi uma cena no trem sobre a qual eu queria escrever, mas até hoje eu não sei como fazer esse texto.
Seguindo o procedimento proposto na oficina, trata-se de um texto que tem que conter as cinco palavras a seguir:

Hidrocefalia.
Cego.
Chokito.
Prestígio.
Latão.

 

Eu peguei o trem no meio da tarde para ir até o Engenho de Dentro visitar uma amiga. O vagão não estava lotado, mas não tinha lugar para sentar. Fiquei em pé perto da passagem de um vagão para o outro. Eram vagões assim como aqueles mais novos do metrô, que permitem que você passe de um vagão para outro através de uma estrutura de ligação sanfonada.

Logo assim que eu abri um livro para ler, um homem com uma menina em uma cadeira de rodas pararam bem na minha frente. O homem começou a falar com os passageiros:

– Senhoras e senhores, muito boa tarde! Desculpem interromper a viagem de vocês, mas eu venho aqui, com toda humildade, apelar para o coração de vocês. Se for possível, senhoras e senhores, fazer uma caridade… Esta é minha filha, senhoras e senhores. Ela nasceu com microcefalia, ela não anda, ela não consegue se alimentar ou ir ao banheiro sozinha. A mãe dela nos abandonou alguns anos atrás e eu, infelizmente, não posso trabalhar, senhoras e senhores, pois tenho que cuidar da minha filha, senhoras e senhores. A cabecinha dela, senhoras e senhores, acumula líquido e este líquido tem que ser drenado de duas a três vezes por dia, se não ela pode vir a falecer, senhoras e senhores. E só tem eu para fazer isso com ela. Ela não estuda, ela não fala, ela não tem como viver sem o meu auxílio, senhoras e senhores, e para poder ajuda-la, eu preciso da colaboração de vocês.

A essa altura, o homem já começou a ir andando vagarosamente pelo vagão recolhendo dinheiro. E outra voz começou a ganhar destaque.

– Muito obrigada pela compreensão e colaboração, senhoras e senhores. Que Deus abençoe o coração de vocês.

Era um homem cego idoso que vinha se aproximando da passagem que dava acesso ao meu vagão. Este home cego parou na minha frente e começou a falar.

– Muito boa tarde, senhoras e senhores. O cego vem pedir uma ajuda, pois eu não consigo arrumar emprego e tenho família para sustentar.

Mas nessa hora veio se aproximando novamente o homem com a filha na cadeira de rodas. Ele passou pelo homem cego e ficou a um metro dele, de costas, virado para os passageiros do vagão de onde o homem cego tinha vindo e ele reiniciou o seu discurso.

– Senhoras e senhores, muito boa tarde! Desculpem interromper a viagem de vocês, mas eu venho aqui, com toda humildade, apelar para o coração de vocês. Se for possível, senhoras e senhores, fazer uma caridade… Esta é minha filha, senhoras e senhores. Ela nasceu com microcefalia – a voz do cego se misturava com a dele – e foi assim que eu perdi a visão, senhoras e senhores. E se Deus me tirou a visão eu sei que foi na sabedoria dele e eu só peço que vocês me ajudem com qualquer moedinha – A cabecinha dela, senhoras e senhores, acumula líquido e este líquido tem que ser drenado de duas a três vezes por dia, se não ela pode vir a falecer – E eu entrei sim para as drogas. Eu não tenho vergonha de admitir. Por isso eu sei que Deus, em sua infinita sabedoria, tirou a minha visão. Então, eu já fui punido, senhoras e senhores. – Ela não estuda, ela não fala – Eu não enxergo e conto com a compaixão de vocês.

– Latão! Olha o latão! – Mais um sujeito passa por mim gritando. – Latão cinco reais! Latão para refrescar a sua viagem e começar a sua sexta feira!

– Então, quem puder colaborar, senhoras e senhoras, para evitar que essa criança maravilhosa venha acabe por aí morta, senhoras e senhores, qualquer ajuda eu agradeço.

– Pode colocar o dinheiro aqui no chapéu do cego.

– Ééééééééé… ochokitoprestígiobalahalls a um real… Ééééééééé… ochokitoprestígiobalahalls a um real…

– Ééééééééé… o chapéu do cego para evitar que essa criança maravilhosa a um real para refrescar a sua viagem.

Eu não pude ajudar ninguém. Eu tinha apenas cinquenta reais inteiros, virei as costas na minha estação e saí do trem.

FIM.

 

Ruim, não é? A história? Eu demorei a escrever por esse motivo. Essa história não tem moral, não tem fechamento, não tem epifania. Ela consiste em um monte de palavras aleatórias, absurdas, que jamais apareceriam juntas em uma história se não fosse a vida humana uma loucura.