Calçada

Eu estava descendo a rua Gonzaga Bastos em direção à 28 de Setembro, em Vila Isabel, nos últimos cinco minutos do meu horário de almoço. Eu ia me atrasar, era certo. Estava estressada, eu falava sozinha pensando desculpas para o atraso, quando fui obrigada a parar e arrancada de meus pensamentos, por uma dor intensa no dedão do pé. Eu tinha tropecei em um vaso feito de cimento que estava bem no meio da calçada.

Tentando me refazer da dor, vi a padaria nova, bem decorada, com uma vitrine atrativa, exalando cheiro de pão fresco, contrastando com o resto da paisagem. O dono se apoderou de uma parte da calçada. Criou um canteiro particular esquecendo a existência dos transeuntes. Fez uma espécie de cercadinho com vários vasos de plantas, muito vistosas e bem cuidadas, no qual os clientes podiam sentar confortavelmente. Um espaço de aconchego para quem não se importava com os barulhos da rua agitada e a fumaça dos carros.

Quando a padaria fechava, as mesas e cadeiras eram retiradas, mas os vasos, pesadíssimos, continuavam lá atravancando a passagem.

Não me informei se o dono teve autorização para usurpar parte da calçada, tomando para si o que estava ali para servir a todos. Me juntei a um grupo indignado que se recusava a comer no local.  Virou um hábito para mim passar pelo lugar reclamando alto para que todos ouvissem minha insatisfação.

Fiz cálculos dos prejuízos causados que afetavam a mobilidade das pessoas, num exemplo típico do uso das coisas públicas para atender aos interesses privados.  Os pedestres faziam acrobacias perigosas para conseguir se deslocar pela calçada invadida.

Foi neste tempo de reflexão exaltada e indignada que, notei um banco do outro lado da rua. Ali estava um menino pobre. Sua aparência contava uma história de negligência. Roupas sujas e rasgadas, cabelos desgrenhados e um olhar de tristeza sem tamanho. Tanta precariedade, olhos tão vazios, sem futuro. Me parecia um mendigo, embora não pedisse nada naquele momento. O menino roía as unhas nervosamente e tinha o olhar vidrado e direcionado para a padaria, de onde se via a exposição de frangos assados. Suculentos, com gordura caindo, provocação para alguns cachorros que rondavam a calçada. Conhecida como TV de cachorro, aquele conjunto de grelhas provocava um desejo de comer para qualquer um que passasse. Naquele momento fiquei inquieta ao ver o menino na mesma condição dos cachorros, olhando a TV com seus olhos de fome.

Me perguntei quem teria sido o primeiro a ignorar que mais além do cachorro que olha o frango de padaria tem um menino também passando fome. Lembrei-me de todas as vezes em que vi pessoas jogando porções de comida para os cães em restaurantes de beira de rua e recusando esmolas a pedintes. Corre-se da fome do pobre com medo de assalto.

Eu estava tão preocupada com o lado da calçada onde eu estava que não vi o menino sentado lá longe no banco. O cercadinho afastava também o menino. Uma espécie de mecanismo anti-mendigo disfarçado de ornamentação. O menino tinha medo da cegueira da cidade. A cegueira que faz você tropeçar em vasos de plantas privatizadores de calçadas públicas e olhar apenas para o próprio pé.

 

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