As vítimas da minha dissertação. Parte I: pulmão e estômago.

Meu pulmão e meu estômago bem sabem como é difícil escrever. Venho me debatendo com minha dissertação há dois anos e meio agora. E ela não acaba. Sempre tem mais um problema, mais um livro para ler, mais uma página para escrever e mais um inferno vivido a cada momento. Mais um cigarro para fumar e mais uma cerveja para beber. Na defesa, ao ser requisitada a falar sobre a bendita, eu deveria dizer: Foi muito bem fumada, praguejada e depois, me embriaguei. Aplausos, por favor. Assim funciona a academia. Eu não consigo acreditar que isso seja um segredo. Ninguém diz, mas todo mundo sabe. Comi mais empanado de frango congelado e macarrão instantâneo do que admito para mim mesma. Eu penso: mas teve aquele dia que eu comi legumes… Já fumei a ponto de acordar com ressaca de cigarro. E ouso dizer que tudo isso ainda me dá um certo orgulho, além do asco e da raiva que aparecem em primeira instância. Desculpe leitor, mas eu estou nessa fase, tentando parar de temer você. Até eu virar o jogo serei grossa mesmo. Mas falaremos disso em outro momento. Só me desculpo adiantadamente porque ainda não completei o processo de desprendimento do que os outros vão pensar de mim. Ainda agora, por exemplo, antes de começar a escrever, fumei um cigarro. E a cerveja já já vou botar no freezer. Estou angustiada. Escrevo este desabafo, mas deveria estar escrevendo a dissertação; faço comida, mas deveria estar escrevendo a dissertação; transo, mas deveria estar escrevendo a dissertação; durmo, mas deveria estar escrevendo a dissertação. Deveria diminuir o número de cigarros e a bebida, mas tenho que escrever a merda da dissertação. E fica ecoando a pergunta: e ajuda isso? NÃO. Nada ajuda. Não há nada que se possa fazer. É bom saber disso. Nada adianta. O prejuízo é eterno e a dissertação vai pegar poeira na biblioteca da universidade. E se virar livro famoso também pouco me importa. Nada na vida vale esse tormento todo. Se fosse um namoro eu terminava. Mas é academia. Nobre e digna. Uma ova!

Vanessa não se cala e não quer mais saber de porra nenhuma.

Vanessa não vai. Não vai ser o que quer ser. Não vai fazer nada do que queria fazer. Senta-se na frente do computador, mas queria uma máquina de escrever para sentir a porrada das letras no papel. Em vez disso dá porradas nas teclas do computador. E elas quebram-se cada vez mais. Foda-se. O que queria mesmo era que a folha pudesse dar um soco na cara do leitor. Não é isso que se espera da literatura? Da próxima vez que eu for doar sangue no Hemorio, vou roubar a minha bolsa de sangue e mandar com uma cópia especial da primeira edição para minha mãe. Ainda assim não vai ser suficiente. Vontade de parar de escrever não falta. E ela mente. Não tem vontade nenhuma de parar de escrever. Se morde por dentro apenas, porque ninguém lê. E essa história de escrever para si mesmo é merda. Eu escrevo para ficar rica e ser idolatrada. Apesar de ser arrogante e chata. Só estou com raiva. Uma puta de uma raiva, que, quando passa, deixa um vazio no peito e uma enorme saudade. Agora eu quero ver. Esse conto não tem resolução, não narra porra nenhuma. Quero mesmo é que todo mundo se foda. Vão todos tomar no cú e passar bem.

Esse texto é pelo artista que o meu amigo é e pelo artista que o meu amigo não é.

Essa semana me contaram que um certo escritor, admirador de Cézanne, afirmou que o quadro do pintor que mais o interessava era um quadro que Cézanne nunca havia pintado. Diz-se que Cézanne, durante um período de sua vida, ia todo dia até uma caverna para ver a luz do sol poente refletida na parede. Parecia que um quadro estava para nascer, mas foi o caso de um aborto. A ideia foi concebida, mas o quadro nunca foi pintado. E era esse o quadro que mais interessava ao escritor sobre o qual me contaram.

Hoje saí para tomar cerveja com um amigo cuja arte está no estado do quadro que Cézanne nunca pintou. Existem esboços, ideias, sonhos e desejos. Mas falta tempo, faltou condição de seguir um caminho específico no passado. Vai faltar dinheiro para o café da manhã, o almoço e o jantar no futuro.

Sua produção artística não é nula. Assim como Cézanne, ele já pintou outros quadros, num sentido figurado claro, porque o que ele faz mesmo é escrever. Mas a analogia se sustenta.

Percebi hoje, contudo, ouvindo a história do seu desejo de ser artista, que eu não tenho interesse apenas pelas coisas que ele produz, aprecio também das coisas que ele não produz e que, provavelmente, nunca vai produzir. Das telas que ele pintou do seu passado que só quem está ali pertinho ouvindo pôde ver, do sentimento que essas imagens produziram em mim.

Vocês conhecem Anna Pappenheimer?

Anna Pappenheimer morava na Baviera e tinha 59 anos em 1600, quando foi condenada por bruxaria. Ela era casada, teve sete filhos, quatro deles morreram. Três meninos ficaram vivos. Sua família pertencia às classes mais inferiores que existiam na época; ela era filha de um coveiro e seu marido limpava valas.

Acontece que, no ano de 1.600, um criminoso condenado acusou Anna e sua família de praticarem bruxaria. Nós todos já sabemos como essa história termina, não é? Anna e sua família foram levados a julgamento. Negaram todas as acusações. Após sofrerem inúmeras torturas – todos sabem nomear de cabeça uma ou outra tortura famosa daquele tempo, não é verdade? – a família confessou ter cometido assassinatos de mulheres e crianças, roubos, incêndios e toda sorte de atrocidades. A pena? Anna teve seus seios arrancados e enfiados em sua boca e na de seus dois filhos mais velhos, seu marido teve os braços quebrados e foi empalado pelo ânus, por fim, foram levados por um cortejo formado por pessoas comuns como eu e você, membros da igreja católica e outras autoridades até o local no qual seriam queimados vivos. Ao final do cortejo e antes da fogueira, contudo, tiveram que se ajoelhar perante uma cruz e confessar todos os seus crimes. No caso de Anna alguns deles eram: ter voado em um pedaço de pau ao encontro do satanás, ter tido relações sexuais com ele, ter cometido assassinatos e roubos por meio de bruxarias, ter se utilizados dos cadáveres de bebês não batizados para a fabricação de unguentos e por aí vai. Alguns relatos dizem que Anna ainda estava viva quando começou a ser envolvida pelas chamas e contam que seu filho menor assistiu a todo o espetáculo da ira divina. Ele tinha 10 anos na época e foi morto três meses depois acusado de ter cometido, ele mesmo – com a ajuda de satã é claro – mais 18 assassinatos.

Primeiro eu me pergunto qual é a importância de tomar conhecimento desse tipo de história? Claro. Esse conhecimento pode funcionar como um memorial do holocausto, esfregando na nossa cara as atrocidades que a humanidade põe em prática. De um ponto de vista mais romântico penso que isso é tudo que eu posso fazer por essas pessoas. Não falo pelas que sofrem atualmente e pelas quais eu tento de fato fazer alguma coisa, estou falando de quem já morreu mesmo. E quem já morreu há muito tempo atrás… A única coisa que dá para fazer é saber alguns nomes, conhecer o que a história nos permite saber sobre suas vidas, tomá-las como inspiração para algum dos meus textos. Essas pessoas morreram e ponto. E sim, sou muito sensível quando o assunto é a morte. Quando o assunto é um jovem assassinado na favela ou uma mulher queimada na inquisição. E não. Eu não desculpo a época. Não respeito o período histórico no qual eles viveram. Era um bando de filho da puta de merda que nem sei se acreditava na asneira que pregava. Não importa a época, a crença, não importam os costumes.

Mas não se precipitem na hora de me condenar por essa postura. Tampouco eu respeito a nossa época. Por que, os pós-modernos que me perdoem, mas a tortura e o assassinato apenas mudaram de roupa. A essência é a mesma. Nós temos os nossos julgamentos teatrais, os nossos, carrascos, as cruzes diante das quais devemos confessar nossos pecados – sem falar que a igreja católica ainda está aí.

A única coisa que havia de real em todo esse teatro – que existe ainda – era o sofrimento das vítimas.

A empatia e os comunistas.

A ação moral já foi muito estudada (na psicologia e na filosofia, por exemplo). O presente texto não é um estudo deste tipo. Apenas um comentário pessoal sobre o assunto.

Podemos pensar a causa da ação moral como sendo a empatia que sentimos pelo sofrimento alheio. A ação moralmente correta, baseada no sentimento de empatia, seria sinônimo de altruísmo. Vemos alguém sofrer e direcionamos a nossa ação para diminuir tal sofrimento. E quando observamos milhões de pessoas sofrendo todos os dias? Quando nos identificamos com seu sofrimento? Que tipo de atitude podemos tomar? Claro que podemos dar esmolas para os pedintes que nos abordam nas ruas, dar as roupas que não nos servem mais. Mas a esquerda não consegue e jamais conseguiria se satisfazer com isso. Vai às ruas, constrói greves e acumula frustrações. É a única maneira possível de dar uma resposta à angústia compartilhada com outros estudantes, trabalhadores, negros, mulheres, homossexuais, bissexuais, travestis, transgêneros e todas as outras pessoas que sofrem algum ou vários tipos de opressão.

A empatia justifica também as atitudes dos homens que lutam pelos direitos das mulheres, brancos que lutam contra o racismo, heterossexuais lutando contra a opressão das “minorias” de gênero.

Enquanto isso, o que a direita está fazendo? A direita está empaticamente lutando pela manutenção dos privilégios dos ricos? Realizando assim um ato de altruísmo? Não podemos dizer que sim. As “lutas” da direita são baseadas no medo da perda dos bens e privilégios que possui. Ou na vontade de acumular mais bens ou privilégios. Falamos aqui de egoísmo e ganância. Essa é a “moral da sociopatia”. Muitas funções sociais exigem esse tipo de falta de empatia: donos de empresa que precisam despedir seus funcionários para manter seus lucros elevados, sem se importar com o sustento desses funcionários e suas famílias; o torturador que precisa obter informações e que se tornou apático diante do sofrimento da vítima; o policial que persegue o “criminoso” sem se importar se ele é culpado ou não, nem com a segurança daqueles que estão ao seu redor; o estuprador de crianças que, incapaz de entender como a criança se sente na hora do abuso sexual, projeta nela seus próprios sentimentos de desejo; o espancador de mulheres, que não consegue enxergar além da sua própria carência e frágil masculinidade.

Começar é mais difícil?

Se o primeiro passo é sempre o mais difícil, deveria estar tudo mais fácil agora. Não é muito por aí que as coisas funcionam, não é mesmo? Cada passo é dolorido. De todas as coisas que fazemos todos os dias, qual delas se tornou mais fácil? Tentar manter uma conversa com alguém que você acabou de conhecer? Decidir o que fazer para comer quando você está sozinho em casa? Almoçar com a sua família no domingo? DR com namorado? Manter contato com seus mais amados amigos?

Acredito que o mesmo acontecerá com estes escritos. Eu posso até me acostumar com a dificuldade que é escrever e publicar algo, o que não quer dizer que escrever deixará de ser tão difícil. Mas, afinal, eu converso com estranhos na rua e nos ônibus, eu almoço com minha família todos os domingos, eu brigo com meu namorado e eu estou sempre ligando para os meus amigos e chamando eles para beber uma cerveja.