Resenha da primeira temporada da série “3%”.

A séria brasileira 3% se passa, aparentemente, em um futuro distópico. 97% da população brasileira vive no continente em uma situação extremamente desfavorável, enquanto os outros 3% da população vivem no MarAlto, uma sociedade supostamente muito mais desenvolvida e na qual tudo abunda.

Quando os adolescentes do continente completam 20 anos, eles têm a oportunidade de participar do Processo. O Processo é um método de seleção que separa os 97% dos outros 3%, ele é baseado na ideia de mérito individual.

Embora seja possível notar que, mesmo dentre a população do continente, existe uma diferença entre as “classes”, pois um dos personagens aparentemente tem uma funcionária doméstica que trabalha há anos para sua família, todos entram no Processo em plena igualdade, todos com as mesmas chances de competir. Supostamente. Logo vemos que não é bem assim. O Processo não tem nenhum tipo de apoio diferenciado para portadores de necessidades especiais, por exemplo. Notamos, contudo, uma igualdade ligeiramente maior do que a da nossa sociedade em termos de participantes negros.

A série conta com a marcante reprodução de duas lindas músicas brasileiras: Mulher do Fim do Mundo de Elza Soares e Último Desejo cantada por Maria Betânia. É um pouco espantoso ouvir estas músicas no ambiente da série. Admito. Mas é um espanto maravilhoso.

Chegamos ao ponto que eu ansiava. Estas músicas criam um elo forte entre a fantasia da tela e a nossa realidade. Desde o primeiro momento da série comecei a pensar no vestibular. Pouco mais de 3% da população brasileira consegue ingressar e concluir os estudos universitários. O Processo meritocrático de seleção não está lá no futuro distópico, está na nossa cara. E aqueles que passam costumam sim, do mesmo modo retratado pela série, se esquecer dos que ficam do “lado de cá” (como é chamado o continente na série) e se achar superior a eles. É criada a ilusão de que o vestibular/Processo é de fato justo e seleciona os mais preparados. Interessante notar que o idealizador do Processo aparece em alguns momentos treinando uma criança pela qual ele tem particular interesse em uma das provas do Processo. Assumimos que este menino estará mais preparado quando a sua hora chegar. Assim como aqueles que possuem ampla acesso à educação possuem mais chances de passar no vestibular do que aqueles que tiveram uma educação precária e condições de vida desfavoráveis tendo em vista o que é exigido do jovem na hora de saber se ele está apto para o ensino universitário.

Li muitas críticas à série que se referiam à pouca profundidade psicológica das personagens. De fato, diversos aspectos humanos são levantados sumariamente ao longo das provas às quais os candidatos são submetidos. Não há uma exploração profunda dos aspectos apresentados, mas o laço com a realidade é tão forte que os sentimentos despertados pela série dão conta plenamente de levar adiante e aprofundar os debates pincelados pela série.

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