“[Ela] me contou”.

Quando eu vi o meu amigo chagando acompanhado de dois amigos dele eu pensei? Meu Deus! É o menino alto! Eu comecei a ficar com medo de que ele tivesse me visto com o cara que eu estava ficando, mas ele nunca comentou nada a respeito disso.

Eu o tinha visto em um canto e ele devia estar lá justamente porque ele era muito alto. Muito, muito alto. Ele nem era tão bonito, eu acho, porque ele não estava chamando a atenção das meninas, mas chamou a minha porque eu mesma sempre fui alta e nunca tinha ficado com um rapaz mais alto do que eu, coisa que ele certamente era.

Mas eu havia tentado trocar uns olhares e ele nem me deu bola, então, quando ele chegou acompanhado do meu amigo eu pensei que aquela era a minha chance.

Nós começamos a dançar e eu me pendurava no pescoço dele e achava aquilo o máximo.

Aí a gente trocou telefone e começou a sair. Foi quando eu comecei a me dar conta de que uma das coisas mais bonitas que existe que é a batida do coração das pessoas. Com ele eu percebi como é maravilhoso simplesmente encostar a cabeça no peito do outro e ouvir o coração batendo. Antes eu era sempre obrigada a estar deitada com a pessoa ou a me curvar toda para ouvir o coração dela batendo. Com ele não é preciso nada disso. É cotidiano por causa da altura. Agora eu estou até fazendo uma pesquisa pessoal sobre o assunto. Eu tenho pedido para ouvir o coração das pessoas e eu percebi que cada pessoa tem uma batida própria. É muito lindo isso.

Semana que vem é o nosso primeiro aniversário de namoro e foi isso que eu pensei em dar para ele de presente, uma gravação com as batidas do coração dele, para que ele possa ouvir como é. Talvez isso com uma carta, falando da história do nosso relacionamento e explicando como isso é significativo para mim. 

“[Ele] me contou”.

Era a este momento que eu gostaria de trazê-lo, leitor. Por isso eu o convidei para que acompanhássemos Ana desde que ela bebeu aquela última dose de cachaça na quarta-feira.

Até agora pudemos ver Ana repetir um velho padrão. Era assim que ela estava há dois anos. Quando apareceram este novo trabalho e esta nova casa as coisas prometiam melhorar. Mas foi precisamente o caminho do novo trabalho para a nova casa que, numa quarta-feira de noite, levou Ana ao encontro da dose que a trouxe aqui, num sábado, três dias depois, a este bar e aos braços deste rapaz. Bonito, é verdade, mas sua beleza não significou nada quando um amigo de Ana se aproximou para cumprimentá-la acompanhado de dois outros homens que ele apresentou a Ana. Foi pelo da esquerda que ela se apaixonou. Será que ele viu que ela estava acompanhada?

Entenda uma coisa leitor, Ana já estava apaixonada pelo homem que chegou a esquerda de seu amigo desde antes deles serem apresentados, mas não havia percebido isso ainda. Não sabia que em breve se sentiria baixa pela primeira vez na vida enquanto se pendurava em seus ombros apenhascados, que poderia recostar a cabeça em seu peito a qualquer hora do dia ou da noite, em pé ou deitada, que ela ouviria o coração dele bater. Quando ela o vira pela primeira vez em um canto, encolhido, um rapaz alto, muito alto, mais alto do que ela própria ela não tinha ainda a mínima ideia de que estaria me contando esta história no nosso primeiro aniversário de namoro e atribuindo àquela abençoada cachaça a nossa união. Mas afirma, hoje em dia, que desde o primeiro momento em que me viu, já estava apaixonada.

Quem não quer gozar?

Vou copiar abaixo um extrato da minha monografia sobre a perspectiva feminista de Shulamith Firestone, considerada a mãe do feminismo radical, que publicou no início da década de 1970, o livro A Dialética do Sexo: 

 

O drama da divisão da sexualidade – em masculina e feminina – tem tristes e pesadas consequências para as mulheres. Em primeiro lugar, a autora afirma que

 

“mesmo as mulheres que parecem sexualmente ajustadas, raramente o são, na verdade. Devemos nos lembrar que uma mulher pode ter relações sexuais sem sentir nada; um homem não pode. Embora poucas mulheres, por causa da pressão exercida sobre elas para que se conformem com a sua situação, realmente repudiem seu papel sexual completamente (…), isso não significa que a maioria das mulheres se satisfaça sexualmente nas relações com os homens” (FIRESTONE, 1972, p. 58).

 

            Shulamith está afirmando que a relação sexual tende a ser menos satisfatória, na sociedade atual, para as mulheres. Além do prazer feminino ainda ser mal visto, em alguma medida, os problemas sexuais femininos, segundo a autora, causam muito menos prejuízo social do que os problemas sexuais masculinos. Isso levou, segundo Firestone (1972), muitos autores a concluir que as mulheres em geral sentem menos desejo sexual do que os homens. Mas é o patriarcalismo que repudia e nem de longe incentiva o prazer sexual feminino, enquanto aprova e incentiva o prazer sexual masculino.

 

Ok. Agora faça o seguinte experimento: tente se lembrar de clínicas ou tratamentos voltados para a melhora da saúde sexual.

Para mim, o resultado desse experimento é o seguinte: eu me lembro das propagandas do Boston Medical Group na televisão, que trata de disfunções sexuais masculinas, lembro do Viagra e lembro das revistas femininas ensinando 1000 maneiros de dar mais prazer sexual para o meu companheiro.

Existem, é claro, artigos em revistas femininas falando também como devo fazer para aumentar o meu prazer. Mas… Se você for querer a referência de uma clínica no Rio de Janeiro que trate especificamente das disfunções sexuais femininas… Aí já vai complicando. Remédio então, nem pensar. Nós somos vítimas de remédios que diminuem a libido – principalmente dos anticoncepcionais -, mas para aumentar a libido, não. Só tem o Viagra mesmo.

Sim. O anticoncepcional é maravilhoso e cumpriu importantíssima tarefa na libertação sexual da mulher, mas já dava para ter desenvolvido o masculino, não é mesmo? Ah, espera! Já existe, não é? E não foi liberado porque mesmo… hm… Putz! Lembrei! Causava efeitos parecidos com o anticoncepcional feminino… (http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/11/anticoncepcional-masculino-e-adiado-por-ter-reacoes-semelhantes-ao-feminino.html).

Isso soa estranho para você também ou só para mim?

Enfim…

Remédio não é bem uma boa solução para muito coisa, especialmente no que diz respeito à vida sexual. Só queria pontuar – retomando a questão do Viagra – que o masculino existe e o feminino ainda não existe.

Quando um homem se queixa de sua sexualidade, a sociedade permite que ele compre um comprimido barato na farmácia e/ou faça um tratamento multidisciplinar em alguma clínica para que ele tenha, supostamente, uma vivência sexual normal e satisfatória.

A mulher com queixas sexuais, quando ela pode expressá-las sem ser reprimida pelo machismo do companheiro, da família ou pela vergonha internalizada, precisa mergulhar em uma longa jornada interna de autoconhecimento e de melhoria da sua relação com o próprio corpo, desbravando o seu caminho em direção a uma vida sexual – relação com o corpo que é problemática também por consequência do machismo.

Beleza. Eu sou psicóloga. Sou a favor das longas jornadas internas, mas queremos gozar também. Relaxar e gozar. Sem esquentar a cabeça e sem maiores preocupações e esforços.

Mas os caminhos sociais para o fim dos problemas sexuais femininos ainda são imprecisos e espinhosos. Quando não rechaçados ostensivamente pela sociedade, que ainda trata o prazer sexual feminino como perigoso.

A miséria sexual feminina é extremamente invisibilizada.

Então chega desse blá blá blá de que sexo é bom para a mulher se terminar em conchinha. Conchinha é sensacional. Adoro. Mas o sexo é bom para a mulher quando termina em um intenso orgasmo.

 

 

Mofo na parede ou pombo na janela.

Estava brigando hoje de tarde com meu marido.
Eu estava super empenhada em fazer um discurso coerente, com uma boa argumentação apontando onde eu havia falhado…. Onde ele havia falhado…
Ele já não se mostrava tão interessado na discussão.
Eu não estava me aguentando:
– Eu queria ver, só ver!, o que é que ia acontecer se eu começasse a lidar com os problemas da maneira que você lida? O que aconteceria se começasse a nascer mofo na parede da nossa casa e nós resolvessemos simplesmente ignorar o problema? Ou cupins?
– Amor, a questão é que, para você, esses pequenos problemas do dia a dia são assim, como esse mofo na parede de que você falou ou como cupins que vão ruir a estrutura do relacionamento. Para mim, os problemas que nós temos são como um pombo que pousa na janela: vira e mexe você vai lá e espanta, mas não é nada de mais. Não afeta em nada o relacionamento.
Pensei por um tempo…
– Ok, amor. Você tem razão. Eu acabo perseguindo todas as discussões com muita seriedade. Mas quando eu começar a me empenhar em uma discussão que você achar desnecessária, você fala para mim que se trata apenas mais um pombo na janela para você. Quando você fica apenas se esquivando eu vou ficando cada vez mais irritada.
– Tudo bem. Eu posso tentar fazer isso.

Existem coisas na vida que são mesmo muito complicadas. Em outras ocasiões a dificuldade vem apenas da nossa cabeça-durice.