10 camisinhas e uma explicação. 

Havia ali uma pessoa que jogava de nove a dez camisinhas por noite pela janela do apartamento, enchendo a calçada de vizinhos revoltados que se acumulavam para contá-las pela manhã.
Começou com sete ou oito, eles diziam, agora já são dez!
É do apartamento de fulana! Não! Vem do apartamento de ciclano, eu tenho certeza!
Os vizinhos tiravam na sorte quem ia ter de recolhê-las.
Algum tempo se passou e começaram a aparecer pedaços de frango assado no meio das camisinhas usadas.
Olha que abusado! Não tem lixo em casa, não, bastardo?
Os xingamentos pioravam. Cada vez palavras de mais baixo calão. E a revolta dos moradores crescia.
Virou assunto de assembleia extraordinária de condomínio, cuja única pauta era a solução do mistério. Apenas um terço dos condôminos estava na reunião. Não houve meio de determinar quem era o perpetrador da indecência.
Ficou acertado que deveriam se revezar para vigiar a frente do prédio durante toda a madrugada.
A vigília começou no dia seguinte. Dez moradores se voluntariaram. Eles se alternavam, faziam turnos na portaria do prédio olhando para cima. Nada de camisinhas ou pedaços de frango na primeira noite. Nem na segunda ou na terceira, muito menos nas noites seguintes.
Logo, os moradores desistiram da empreitada.
Se acovardou o imbecil!
Uma semana depois, lá estavam as camisinhas, os pedaços de frango, alguns cigarros e uma garrafa de bebida quebrada.
Dessa vez, todos ficaram assustados. Parecia agora que aquilo tudo era obra do coisa ruim. Todos ficaram amedrontados. Nenhuma ação ou revolta aconteceu.
Com o tempo, a lixarada desapareceu.
O caso virou lenda no prédio. Assombração pura e simples ou recado do sujismundo para algum pecador que morava no edifício da pacata rua do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Pacata, porque aos domingos as crianças jogavam bola ali na rua e até pula-pula tinha em ocasiões especiais. As mesas do bar ao lado invadiam um terço da pista e, com os carros parados irregularmente na calçada do outro lado, a rua ficava fechada.
Mesmo com toda a pacacidade local, os moradores acharam que o inimigo do homem tinha parte nas atividades ali realizadas. O mérito estava encerrado. Com o diabo não se brinca. Vamos todos orar em silêncio dentro dos nosso corações.
Depois das festas, dos jogos da final, dos churrascos de domingo… Depois desses eventos a rua pacata ficava imunda. Latinhas de cerveja, pratos descartáveis, talheres e guardanapos. Ninguém ligava.
O problema não era lixo na calçada, eu havia compreendido, é o fato desse lixo ser composto de caminhas usadas. O problema era sexo. E tinha alguém ali fazendo sexo para caramba. E era isso que incomodava a todos.
Os moradores negavam essa interpretação que eu fui comentando com um e outro a meia boca pelos corredores.
Todos discordavam e ficavam revoltados. O problema era o lixo! O planeta! O aquecimento global!
Eventualmente, eu fui acusado de ser o pervertido das camisinhas, apesar do meu apartamento ser de fundos e eu fui escorraçado do prédio.

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