Pense direito. 

A maneira que nós pensamos influência a maneira como nos sentimos.
Albert Ellis, pai da Terapia Racional Emotiva nos fala da MUSTurbation (conceito em inglês difícil de ser traduzido, mas que significa algo como a “ditadura dos deveria”):
1- Eu devo me sair bem sempre ou eu não sou bom.
2- Você deve me tratar da maneira que eu quero, se não, você merece queimar no inferno.
3- O mundo deve me dar o que eu quero, quando eu quero, ou ele é um lugar terrível.
São esses pensamentos que alimentam nossa frustração quando as coisas não saem da maneira que nós demandados.
Por isso, o autor diz que temos que “pensar direito” e entender que não é o mundo que nos faz mal, mas sim a nossa maneira de encarar e de lidar com o mundo.
Se formos mais racionais ao pensar em nossas demandas, certamente aprenderemos a sofrer menos quando as coisas não saírem da maneira que desejamos. Isso nos dará inclusive forças para seguirmos em frente, para seguirmos buscando aquilo que desejamos.
Se você está em um relacionamento com alguém que trata você mal, e você pensa que esta pessoa é obrigada a te tratar bem, você insiste em um relacionamento fracassado com alguém que não vai mudar. Se você entende que a pessoa com quem você está não “tem que” coisa nenhuma, você termina o relacionamento e sai buscando o que você deseja.

Depois de ontem.

Eu sempre vivenciei intensas oscilações do humor. É um traço bipolar (não estou falando do transtorno psicológico, apenas de uma característica pessoal) que eu tenho. Eu experimento uma forte empolgação e uma intensa felicidade, daí acontece alguma coisa (como aquele incidente ontem no metro, sobre o qual você pode ler aqui) que me joga para baixo. Muito para baixo. Eu entro numa bad terrível.

Já notei esse funcionamento há alguns anos.

Eu acho que depois do episódio de ontem, eu corri o sério risco de entrar nesse estado mais deprimido.

Mas isso não aconteceu. Quando eu terminei de postar ontem no blog o texto e conversar com meu marido, eu já estava recuperada.

O processo de pensamento foi aquele descrito no texto. No lugar de focar no fato de que eu havia abaixado a cabeça e desviado, procurei explicações e formas alternativas de olhar para o que aconteceu. Além disso, conversei com uma pessoa de fora (meu marido) que me ouviu e não jogou lenha na fogueira (sim, porque tem gente que te vê irritada e alimenta seu ódio. Essa pessoa não quer te ver bem). Para completar, eu relatei o acontecido em um texto, o que foi catártico para mim.

Essa foi a tríade do equilíbrio do meu humor: pensar em explicações alternativas no lugar de focar no que me aborreceu, conversar com uma pessoa querida que se importa comigo e realizar uma atividade prazerosa para aliviar a tensão.

Bom, fica a dica. Vale a pena tentar da próxima vez que você sair dos eixos!Patrulha da escada do metrô. 

Pintando Mandalas.

 

Até os meus vinte anos, eu odiava beterraba. Cozida, ralada… Não fazia diferença.

Certa vez, eu, minha mãe, minha avó e meu avô fomos passar uma semana no Hotel Fazenda Raposo. Esse hotel fica em Raposo, uma cidade com fontes de água naturais no norte do estado do Rio de Janeiro. A minha família é de lá. De Cardoso Moreira. Quando minha avó era jovem, ela ficou hospedada nesse mesmo hotel com meu bisavô e a família. Nós fomos lá para reviver essa experiência com ela quase cinquenta anos depois.

Eu amei o hotel. Tinha sauna (estava friozinho na época), fontes com vários tipos de água diferentes para beber se banhar (umas águas com gosto amargo que eu gostava bastante), muita comida da fazendo, de interior.

Rotina simples.

Acordar, ir até a fonte beber um copo d’água em jejum, tomar aquele café da manhã farto, com queijo e leite frescos, pão macio com manteiga de fabricantes da região, doce de mamão. Depois uma caminhada para ver os bichos, ouvir as histórias de boi brabo que minha avó contava, as epopeias de caminhoneiro do meu avô e aí já era hora do almoço. Nas tardes, marasmávamos na beira da piscina, bebíamos mais água da fonte, cochilávamos na sauna. O café da tarde tinha bolo. Bolo bom. De cenoura de milho, de aipim. Aí era voltar para o quarto, tomar banho, porque de noite às vezes tinha música no hotel ou na cidade, a gente curtia um pouco e voltava para o jantar. De volta ao quarto eu lia até dormir. Eu poderia viver uma vida inteira nesse ritmo homogêneo e suave.

Foi uma experiência singular em muitos aspectos.

Eu me lembro muito bem das refeições. Parecia que estávamos em um rodízio. Os garçons passavam de mesa em mesa perguntando aos poucos gatos pingados hospedados naquela época do ano: Mais arroz? Um feijãozinho? Almeirão talvez? (Ou que é isso, moço? É bom e saudável. Quero!). Quer mais carne? Beterraba? E lá estava ela: a tal da beterraba cozida. Eu disse sim.

Sim e foi um sim bem dito mesmo, sabe? Sem pestanejar.

Olhando para trás, eu imagino que foi justamente a singularidade da experiência que me fez comer aquela beterraba. E eu comi e gostei.

Hoje em dia eu gosto bem de beterraba cozida. Amo aquela que é feita junto com o feijão preto.

Não acho que é uma questão de mudança de paladar; acho que foi realmente uma questão afetiva. Eu ainda não como beterraba ralada, por exemplo. Já experimentei depois dessa viagem e não rolou mesmo. Mas a beterraba cozida, que foi servida lá, já conquistou um espaço no meu estômago emocional. A força da experiência daquela viagem rompeu barreiras. Eu não pensei muito, só disse sim.

Essa experiência é libertadora, amplificadora de horizontes, mais precisamente, e pode ser replicada.

Eu tenho ficado atenta para perceber momentos de grande engajamento emocional e, quando eles acontecem, tenho procurado ficar aberta a novas experiências.

Aconteceu recentemente com isso de pintar Mandalas que estava na moda há pouco tempo. Como um fenômeno pop, eu já torci o nariz.

Mas, durante uma viagem para o spa Maria Bonita, no qual passei uma semana com minha mãe, tivemos uma oficina de pintura de Mandalas e eu resolvi me engajar na atividade. Gostei da experiência. No entanto, como eram Mandalas para colorir e não beterrabas no feijão, tratava-se de uma vivência menos cotidiana e eu teria que correr atrás disso ativamente para continuar tendo a experiência de pintar Mandalas. E eu não fiz isso. Pelo menos não até recentemente.

Nesse meu novo estado de engajamento com diferentes formas de expressão artística, eu lembrei das Mandalas e fui dominada por aquele sentimento bom da viagem. Fui na livraria Leonardo Da Vinci e comprei um livro com várias delas para colorir. Quando comecei a pintá-las com os lápis de cor aquareláveis nos quais investi também, não lembrei do antigo preconceito, mas da boa sensação do spa.

Então eu penso o seguinte: eu não vou mais dizer categoricamente como antes “disso eu não gosto”, “odeio sei lá o quê” ou “Argh”, eu vou pensar mais em termos de “por enquanto eu não gosto muito disso, mas quem sabe no futuro”?

Eu não vou sair correndo atrás de experimentar coisas das quais eu não gosto, me forçando a apreciá-las. O importante é perceber que, episódios que carregam intensidade emocional nos afetam ao longo de nossa vida inteira. Se ficarmos atentos, podemos tirar proveito disso para expandir nossos horizontes.

Você deve estar pensando e eu também pensei nisso; acho que este é justamente o mecanismo psicológica que está por trás daquela exortação popular: “Nunca diga que desta água você não beberá jamais, pois a vida pode te surpreender”. Surpreende mesmo e é bom que seja assim. A única diferença é justamente esta: no ditado popular, isso soa como algo negativo. Era sempre meio que: “Olha… Não fala isso porque você não sabe o que o futuro te reserva. Um dia você vai ser dobrado pela vida e pode acabar sendo obrigada a fazer o que não gosta”. Pode até ser que seja assim. Mas eu te garanto que se passarmos a ver a nossa rigidez emocional de modo menos positivo, se nos mantivermos abertos para a mudança e percebermos que ela é boa, então, quando a vida nos apresentar a oportunidade de beber dessa “água”, vamos tirar o máximo de proveito desta experiência e transformá-la em algo enriquecedor.

Uma hierarquia para os seus problemas.

A maior parte das pessoas do planeta não estão sofrendo com nenhum tipo de transtorno psicológico. Mas estas pessoas também não estão bem.

Pensando num continuo, sendo -5 o pior estado emocional possível e +5 o melhor estado emocional possível, onde você acha que a maioria das pessoas se encontra?

Você acertou se pensou no 0.

A verdade é que a maioria das pessoas não está mal, mas também não está bem. Estão ali andando em cima da corda bamba. Uma hora acham que estão com um pezinho na depressão e/ou na ansiedade, outra hora estão sentindo um leve sentimento de prazer e felicidade.

Um amigo meu me ensinou uma técnica maravilhosa há alguns meses para “limpar o ar” nos momentos em que nós começamos a nos sentir um pouquinho mais para baixo. É uma técnica bem simples e poderosa.

 

Em primeiro lugar faça uma lista dos seus problemas e de afazeres atrasados.

Agora, ordene os itens da lista em uma hierarquia, do maior e mais complicado, mais difícil de ser executado até o mais simples, o menor, mais tranquilo e rápido de se resolver.

Pense, para cada um dos itens, se você já enfrentou problemas iguais ou similares no passado. O que você fez que ajudou a resolver o problema que você pode repetir agora?

Por fim, “mãos à obra”! Comece a executar a sua lista, partindo do problema mais simples e irrelevante.

 

Isso mesmo. Comece pelo problema mais simples e irrelevante da sua lista.

Quando nós pensamos nos nossos problemas, queremos atacar logo o problema mais monstruoso, mais difícil, aquele que incomoda mais e que é mais difícil de resolver. O que acontece é que a chance de termos dificuldades na resolução desse problemão são grandes por uma série de questões que veremos adiante. A consequência é o desânimo, o acúmulo de problemas e a sensação de que não seremos capazes de dar conta deles.

Imagine que você é o super-herói de um desenho animado. A luta do herói nunca acontece diretamente com o grande vilão da história. Se fosse assim, o desenho só teria um episódio. O herói passa por uma série de inimigos, cada vez mais poderosos, adquirindo mais força e sabedoria e se preparando para enfrentar o chefão mais adiante. Esses são os problemas que você já enfrentou.

É importante sempre ter em mente como nós resolvemos nossos problemas no passado e o que aprendemos nestas ocasiões. O que podemos aproveitar e o que podemos melhorar em nossa resolução de problemas?

Além disso, quando o grande chefão aparece, ele sempre vem acompanhado dos seus capangas. Estes capangas são inimigos facilmente derrotáveis, mas que, se forem ignorados pelo herói, podem ser mortais. Esta é a imagem da sua lista atual de problemas: um ou dois problemas maiores e os seus capangas.

O herói precisa derrotar os capangas antes de atacar o chefão.

Com os seus problemas acontece a mesma coisa. Normalmente nós temos um grande problema – o chefão – e vários outros pequenos problemas – os capangas – que são facilmente derrotáveis, mas que, quando ignorados se somam ao chefão e dificultam muito a nossa luta.

Elimine os capangas em primeiro lugar. Elimine esses problemas pequenos que ficam ali sugando sua energia, te exaurindo mentalmente e drenando seu senso de autoeficácia.

Quando nós resolvemos esses problemas que estão lá no final da nossa hierarquia, nós adquirimos confiança e nos fortalecemos. No final, a chance de conseguirmos resolver então os maiores de nossos problemas, já será muito maior.

Poço sem fundo.

Interessante, porque eu precisei atingir várias vezes o fundo do poço antes de finalmente perceber que o poço não tem fundo.
Quando me dei conta da profundidade insólita do poço eu pensei: o suicídio, então, deve ser o real fundo do poço.
Mas nem nisso eu acredito mais.
O suicídio é a decisão de construir um fundo artificial no poço. Do tipo: daqui eu não passo mais. Então vou me matar porque se eu continuar vivo vou inevitavelmente continuar afundando.
Claro que eu estou viva ainda. E não estou miserável o tempo todo. Já estive muito mal no passado. Atualmente minha vida é linda. Isso não quer dizer que os sentimentos negativos não existem mais.
Nos momentos de infelicidade, eu tenho que fazer um esforço homérico para impedir que a tristeza atual dê as mãos com as mágoas do passado, me deixando devastada, vazia, em total desespero. E esse esforço geralmente é bem sucedido.
Isso me mostra que existe uma alternativa. A alternativa é parar de cavar.
Parar de cavar o fundo do poço. Porque se a gente cavar, vai se enterrar cada vez mais na lama, não é? Como o poço não tem fundo, quanto mais a gente cava, mais afunda.
Mas a gente não percebe isso e continua cavando. A gente não percebe que se parar de procurar, a gente encontra menos problemas e preocupações.
Eu tenho simplesmente tentado ignorar certas preocupações e pensamentos que eu remoía antes e que não me levavam a lugar nenhum.
Ignorar significa reconhecer que estão ali presentes, sem ficar me dedicando a pensar cada um dos pensamentos negativos que pipocam na minha cabeça. Parar de ruminar preocupação e partir para abordar as soluções.
Não conclua a partir daí que eu não penso na vida, não busco autoconhecimento ou que não tenho altos devaneios intelectuais.
Chafurdar nas nossas mágoas não é algo enriquecidor. Pelo contrário. Isso chega mesmo a nos impedir de transformar experiências negativas em potência.
Quando eu estou triste, eu escrevo, desenho, danço etc.
Quando eu estou no fundo do poço, eu não escrevo nem faço mais nada. Se bobear nem banho tomo (me julga, mas aposto que sabe do que eu estou falando!).
O fundo do poço é paralisante e não nos ilumina em relação a mossa essência. Não nos leva a concepções filosóficas profundas. O fundo do poço não é nobre. É podre. Lá só tem morte, lágrimas e desespero.
Portanto pare de chafurdar na lama do fundo do poço e encontre a sua forma de transformar sua tristeza em arte, criatividade e vida boa.

Cultivando relacionamentos.

Eu já falei para algumas pessoas que elas precisam ampliar e fortalecer seus laços sociais.

Não sou estranha a essas necessidades.

Eu já passei por forte necessidade de fazer novos amigos e cuidar dos laços já existentes.

Algumas pessoas são bastante sociáveis e, facilmente, vivem rodeadas de amigxs. Para outras, certo esforço é necessário para não acabar ficando mais tempo sozinha do que é saudável ficar.

Todo dia é dia de cuidar de relacionamentos; com xs amigxs, com companheirx, com a família, consigo mesmo.

Hoje foi dia de fazer coisas agradáveis com a minha mãe.

Temos a visão fortemente arraigada no senso comum de que os laços de afeto com a família são dados de realidade que não podem ser alterados; mas os laços familiares, assim como os laços de amizade, conjugais ou mesmo o nosso relacionamento com a gente mesmo, todos esses relacionamentos requerem cuidados.

Eu só consegui perceber isso depois que me mudei da casa de minha mãe.

Desde que passei a morar fora de casa, percebi que meu relacionamento com minha mãe precisava ser cultivado. Que os anos de rotina e convivência haviam feito se acumularem muitos momentos de brigas, cuja lembrança ofuscava momentos de atividades prazerosas em conjunto. Portanto, comecei a buscar mais momentos deste último tipo. Hoje passamos o dia replantando e cuidando das plantas do meu jardim (que está maravilhoso por sinal).

Esse tipo de cuidado deve ser dispensado a todos os relacionamentos que são importantes para nós e, por algum mistério (algum funcionamento equivocado da nossa psique), nós tendemos a não dar tanta atenção aos amigxs já conquistados, nossx companheirx, aos familiares que amamos. Deixamos mesmo de cultivar um bom relacionamento com a nossa mente e o nosso corpo. Deixamos de investir nos bons momentos que acabam ofuscados pelos desagrados.

Com companheirx nós só brigamos e já não partilhamos mais nada em comum além do tempo que passamos trancafiados juntos dentro de casa; procuramos xs amigxs quando precisamos desabafar e não nos preocupamos em saber da vida dx amigxs com interesse e profundidade; procuramos os familiares nas datas comemorativas ou quando precisamos de alguma coisa; desgostamos de nossos corpos e não investimos no autoconhecimento e nas atividades que recarregam nossas energias e nos dão prazer.

Com o tempo, essa dinâmica desgasta os relacionamentos.

Não é necessária uma DR para saber o que fazer para cultivar o relacionamento (embora eu não tenha nada contra discutir a relação de vez em quando), basta que você chame a pessoa para um café, para jogar conversa fora, ou que você a chame para fazer alguma atividade pela qual compartilhem interesse mútuo (ou, por que não, conhecer alguma atividade nova a qual a outra pessoa pode te apresentar? Pode ser que você goste. Eu, por exemplo, nunca tinha experimentado qualquer outra atividade artística além da escrita e da dança. Mas acabei me interessando pela pintura, recorte e colagem e muitas outras coisas por conta de algumas amigas que tinham esses interesses).

Se você estiver sem dinheiro, chame a pessoa para dar um pulo na sua casa ou se convide (isso, se convide mesmo) para ir na casa dela. Uma expressão sincera da vontade de estar junto, geralmente, é muito bem recebida.  

 

A imagem nua e crua do assédio sexual.

David Schwimmer, o ator que interpretou Ross na série “Friends”, junto com o diretor Sigal Avin, criou uma série de seis episódios que retratam cenas de assédio sexual baseados em fatos reais.
A série se chama #thatsharassment e o os episódio estam disponíveis na página do Facebook com o mesmo nome.
Os episódios são impactantes e têm o objetivo de mostrar o que é o assédio sexual e como ele acontece.

O que fazemos para não sofrer (e o que, de fato, deveríamos fazer).

O caminho do autoconhecimento é, em certa medida, uma passagem do egocentrismo para a aceitação do outro e do altruísmo.
No amor isso acontece quando abrimos mão da pessoa idealizada que sempre desejamos e nos empenhamos em construir uma boa convivência com a pessoa real que nós amamos.
Nós, mulheres, que crescemos com a imagem do príncipe encantado, evoluímos quando aceitamos o companheiro real por quem acabamos nos apaixonando. Isso não quer dizer que temos que aceitar que sejamos maltratadas ou violentadas por nossos companheiros, de maneira nenhuma.
Mas isso significa sim que vamos entendendo que amar alguém e viver feliz com essa pessoa é bastante diferente da fantasia que tínhamos quando crianças.
Quando resistimos a essa mudança do egocentrismo para a aceitação e compreensão do outro, achamos triste ter que abrir mão das nossas expectativas. Achamos que abrindo mão delas, estamos abrindo mão de algo realmente importante.
Na verdade, abrir mão da expectativa e lidar com as pessoas reais que estão ao nosso redor é a coisa mais saudável e sábia que podemos fazer. Quando abrimos mão das nossas expectativas em relação a pessoa amada, podemos começar a realmente conhecer essa outra pessoa. E é aí que se encontra qualquer possibilidade de mudança e evolução real no relacionamento.
Muitas vezes quando falamos em mudança, queremos apenas que o outro mude, enxergamos apenas a mudança pela qual o outro precisa passar, mas não há comunicação real entre as partes (novamente, não estou falando de casos que envolvem violência doméstica, nesses casos a violência deve acabar antes de qualquer outra discussão, pois a violência impede o diálogo e a compreensão entre os parceiros).
Quando abandonamos a expectativa e deixamos de estar centrados unicamente no nosso próprio ego, o outro consegue penetrar na nossa carne e nos fazer perceber nossas ações através de seus olhos. E nós, por outro lado, conseguimos ter empatia, uma compreensão muito mais profunda do outro. Ao contrário de nos descaracterizarmos nesse movimento, nos tornamos mais ainda o que verdadeiramente somos. Muitas vezes, inclusive, não enxergamos nossos próprios defeitos por estarmos sempre preocupados em apontar defeitos e falhas no outro. A visão que o outro tem de nós expande nossos horizontes.
Claro que nem sempre o outro está correto a nosso respeito, mas temos que saber ouvir e refletir sobre o que o outro pensa de nós, procurar enxergar nosso comportamento do jeito que o outro enxerga, para que possamos evoluir cada vez mais.
E se percebemos que o outro não está na mesma sintonia, provavelmente o relacionamento não terá uma vida muito longa, pois logo a discrepância entre os parceiros estará muito evidente. Uma pessoa estando muito mais evoluído em sua jornada existencial do que a outra. Quando essa discrepância existe, o relacionamento começa a nos fazer mal.
Quando somos egocêntricos, abrir mão de certos desejos é um sofrimento tremendo. Quando somos egocêntricos e o outro não faz o que queremos, nós esperneamos e gritamos até conseguir o queremos. Quando abandonamos esse lugar do egocentrismo, somos capazes de aceitar que o outro também tem desejos e limitações. Que as coisas não são sempre do jeito que nós queremos que elas sejam e nós não nos sentimos frustrados por isso. Se também, por outro lado, formos frustrados em nossos desejos e expectativas (porque ninguém é de ferro) saberemos lidar melhor com esse sentimento de frustração, entendendo que não se trata do fim do mundo. Procuraremos compreender o que levou o outro a agir (ou não agir) da maneira que esperávamos, saberemos se estávamos pedindo demais do outro naquele momento e, a parir daí, vamos tentar encontrar um terreno em comum que seja viável para os dois.
As pessoas que ainda estão agarradas ao seu ego e às suas expectativas acham triste ter que abandoná-las. Para algumas pessoas isso representa um sofrimento terrível. Elas perseguem alguém que seja o eco de seus desejos e idealizações achando que não encontrar essa pessoa significa não encontrar o amor verdadeiro. Essas pessoas estarão sempre infelizes em seus relacionamentos.
Só que não é triste abandonar idealizações e o apego absurdo ao próprio eu. Pelo contrário. É lindo e libertador e nos gera muito menos sofrimento.
Não crie novas idealizações, contudo. Isso não significa que você nunca mais vai sofrer. Os sentimentos negativos são parte essencial da vida. Mas você certamente vai sofrer menos e vai ser muito mais feliz. Vai ter relações amorosas mais profundas e significativas e vai ter um grande crescimento pessoal.
Temos que lutar, então, para nos livrarmos do mecanismo de defesa contra o sofrimento que muitas pessoas colocam em prática: fortalecer o egocentrismo e as expectativas, buscando um “amor verdadeiro” que seja o eco das próprias necessidades.
Muitas pessoas acreditam que têm que encontrar esse ser mágico para não sofrer nos relacionamentos amorosos. E elas não percebem que é justamente essa busca que as fazem sofrer muito mais do que sofreriam se abandonassem esse procedimento. Nesse sentido, é uma loucura o que fazemos para não sofrer, pois isso acaba nos fazendo sofrer mais.
Então, o que fazemos para sofrer menos? Abrimos mão das nossas convicções imaturas de que temos que achar um príncipe encantado em um cavalo branco que lê a nossa mente e não tem vontade própria, dando espaço para pessoas reais e relacionamentos reais, que são imensamente ricos e felizes mesmo com todos os seus defeitos.
(Eu escrevi o texto da perspectiva feminina, mas exatamente a mesma coisa vale para os homens. Eles também são muitas vezes egocêntricos e cheios de expectativas e idealizações a respeito das mulheres com quem se relacionam).

E, como o ser humano é muito complexo e não existe uma receita de bolo para todo mundo, temos que ressaltar que por outro lado, existem aquelas pessoas que aceitam qualquer coisa. 

Esse texto focou naquelas pessoas para as quais a balança pende para o egocentrismo e a idealização do outro. Mas existem aquelas pessoas para as quais a balança pende para o desprendimento de si mesmo e para a subjugação à vontade do outro. 

O caminho do meio é sempre o melhor.

Ser completamente desapegado também pode gerar muito sofrimento. O ponto é sempre encontrar um equilíbrio entre os companheiros. 

Educação positiva. 

Recentemente assisti a uma palestra sobre educação a luz da psicologia positiva.
A educação positiva trabalha com os pontos fortes dos alunos e preza pelo seu bem estar e tem como objetivo, não só a aquisição de conhecimentos, mas também a construção de um propósito de vida.

No ensino tradicional, tendemos a atentar apenas para os pontos em que o aluno é fraco e o obrigamos a se esforçar e a se dedicar duas vezes mais às matérias que ele não gosta. Isso é um massacre. 

Na educação positiva, porteiro lado, cada aluno seria valorizado por aquilo en que ele é bom. E o que ele não gosta e não é bom seria minimizado ou eliminado. Assim o aluno seria muito mais feliz e potente, pois estaremos trabalhando suas forças e não suas fraquezas. 

A apresentação foi ótima. O que me chamou atenção foi o meu incomodo assistindo à palestra. Eu estava sentindo raiva.
O palestrante ia falando do autoritarismo dos professores, da tirania das notas e das avaliações, do lugar do professor como detentor do saber e do aluno como aquele que não sabe nada, da dificuldade em lidar com as perguntas “fora da caixinha”, do banimento da criatividade etc.; ele apontava como todos esses fatores são negativos para a educação, mas eu ia ficando com raiva só de ser relembrada do meu tempo de escola.
Aquela raiva ancestral acumulada dos tempos da escola que ainda mora aqui dentro de mim.
Um exemplo magnífico da dificuldade em lidar com os alunos me chocou. Ele contou um certo professor pediu aos alunos como tarefa que desenhassem um auto-retrato. Um dos desenhos era simplesmente um monte de rabiscos. O professor chamou a atenção do aluno por não ter se empenhado na tarefa e o aluno disse: “professor, o senhor pediu um auto-retrato, mas não disse que era do lado de fora, eu fiz um auto-retrato do que eu sinto do lado de dentro”. Sem saber como se posicionar diante da resposta do aluno, o professor o encaminhou para a coordenação.
Por essas e outras eu ainda hoje sinto uma pura descrença da educação como forma de mudar o mundo. A escola era verdadeiramente um local de tortura para mim e eu sei que foi assim para muita gente. Sem dúvida propostas como a da educação positiva soam como uma esperança para o futuro, e, enquanto houver escola, que a gente se empenhe muito para não continuar traumatizado crianças em série.
Quem sabe no futuro a gente consegue dar conta daquelas propostas que defendem um modelo completamente alternativa de aprendizagem (e não meramente ensino de conteúdos como na escola tradicional), na qual a criança aprende no seu próprio tempo aquilo que a interessa?
Sonho… E muita luta dos profissionais de educação e de todo mundo.