Muita saudade. 

Eu chorei horrores depois de escrever o texto de ontem. Essa dor de perder alguém que a gente ama é intensa demais. Já fazem quase quinze anos que o meu pai faleceu e eu estou aqui chorando como um bebê.
Eu não quero perder ninguém mais. Ninguém.
Me lembro do filme Lovely Bones. É um filme pavoroso sobre uma menina que realiza um ato heróico de bondade e é assassinada pouco tempo depois. Desmorona a idéia de que quem faz o bem recebe o bem nessa vida. Faço uma analogia com a idéia de que quem já perdeu uma pessoa especial, não deveria ter que passar por isso nunca mais. Mas não é bem assim que as coisas funcionam, não é? Disso eu tenho medo. Pode ser que a vida ainda queira me tirar mais gente. Não, eu digo. Eu não quero que isso aconteça jamais. Que eu morra antes. Mas eu não tenho realmente essa escolha, tenho?

Hoje eu só acordei por um milagre. 

Hoje o despertador tocou cedinho. Mas, assim que eu olhei o relógio, eu lembrei que a minha paciente chegaria meia hora mais tarde essa segunda feira. Como eu me arrumo para sair de casa em quinze minutos, eu resolvi dormir mais um pouco. Dei o tempo de uma soneca no despertador e apaguei.
Tive então um pesadelo horrível. Meu pai, falecido há muitos anos, estava me perseguindo com uma garrafa de vidro. Ele ficava correndo atrás de mim e eu fugindo até que ele me alcançou. Chegamos ao ápice da pesadelo, meu pai ali na minha cara com a garrafa em punho, mas eu consegui desarmá-lo e jogar a garrafa de volta nele. Depois desse momento, com a adrenalina da situação, eu comecei a acordar e, no finalzinho do sonho, meu pai apareceu novamente, com uma cachorrinha que nós tínhamos quando eu era pequena. Ele estava tranquilo e sorridente.
Eu abri os olhos. Faltavam exatamente quinze minutos para eu estar no trabalho. O despertador não havia tocado. Eu tenho horror da idéia de perder a hora completamente algum dia porque eu trabalho dando aula e em consultório. Trabalhos que envolvem diretamente outras pessoas que ficariam muito prejudicadas caso eu falhasse dessa forma.
Eu pulei da cama, caí debaixo do chuveiro e comecei a pensar. Que coisa sonhar com meu pai novamente… Nos últimos anos esses sonhos têm sido raros. E porque um sonho tão tenso? Ele me perseguindo com aquela garrafa, mas aparecendo tranquilo no final… E aí me veio essa idéia maluca de que se não tivesse sido o sonho com o meu pai, ou melhor, o pesadelo que me gerou adrenalina, eu não teria acordado a tempo para trabalhar hoje. Nada teria me impedido de dormir até meio dia, ainda mais porque eu fui deitar já eram quase três da manhã e eu estava acordando apenas quatro horas depois.
Dá para compreender a idéia de um milagre quando um evento desses acontece.
E como são os pais, não é mesmo… Ainda depois de mortos ficam se preocupando e se sacrificando pela gente.

Relato de uma Trans  fora da marginalidade

Hoje eu tenho o prazer de apresentar mais um texto maravilhoso, forte e sensível ao mesmo tempo, da querida amiga Alexia. Que a luta dela possa ajudar e inspirar a todos!!!

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Em meu entendimento, a transexualidade pode ser conceituada como a condição na qual a pessoa não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer por conta de seu sexo biológico, o qual determina em nossa sociedade papeis de fêmea e macho e, por isso, sente necessidade de fazer a transição para o gênero ao qual ela se identifica. 

Apesar de me ver como uma garota desde que me entendo por gente – tenho memórias desde os 3 anos de idade, meu processo de transição foi bem tardio, pois – além de ter que vencer a resistência de família e sociedade, fugi dessa verdade a vida inteira – até mesmo por uma série de preconceitos que me foram plantados e enraizados ao longo da vida. 

Antes de iniciar a transição, pesquisei e estudei a temática por 2 anos aproximadamente (tenho que dar o exemplo, afinal sou profissional da informação), onde aprendi que gênero e sexualidade são coisas distintas (gênero é o que somos e sexualidade por quem sentimos atração), tomei conhecimento de termos como cisgênero (quem se identifica com o gênero atribuído ao nascer) e transgênero (quem não se identifica com o gênero atribuído ao nascer) e outros. Esse período foi essencial para que eu me despisse dos preconceitos internos, vencesse o acovardamento perante família e sociedade que eu tinha forte e me libertasse. 

Quando consegui entender o que eu sou – uma garota sim mas, por ter nascido em corpo classificado como masculino, sou considerada Transgênera, dei início a terapia hormonal, com acompanhamento de endocrinologista e psicóloga. Mas acredito que, mesmo percebendo transfobia, que antes era velada e agora anda um tanto mais evidente no local de trabalho, iniciar a transição tardiamente (março de 2018 completei 2 anos e meio) me possibilitou ser a profissional bem sucedida que sou hoje. 

De qualquer forma, vejo-me como privilegiada por ainda não ter sofrido violências por parte de pessoas desconhecidas (mesmo assim, ando sempre em estado de alerta em espaços públicos, principalmente quando estou sozinha); a transfobia que recebo costuma partir justamente de pessoas de meu círculo familiar, social e profissional. 

O Conselho Regional de Biblioteconomia, região 7 – CRB-7 (Rio de Janeiro) emitiu uma nota recentemente informando que foi o primeiro Conselho Regional de Biblioteconomia do Brasil a possuir uma bibliotecária transexual registrada a fazer uso de nome social, no caso eu. E agora estou, junto com o CRB-7, pioneira novamente na profissão, por ser também a primeira bibliotecária transexual com retificação de nome e sexo na documentação civil e, por consequência, no registro CRB. 

Muito da falta de conhecimento das pessoas, no geral, é atrelada ao preconceito internalizado da sociedade pois, mesmo o assunto sendo veiculado constantemente em vários canais e mídias, há uma resistência forte de uma grande parcela da população em querer compreender a questão, pois falta de informação e de acesso não é. É algo como “não sei, não quero saber, o que importa é o que eu acho” (sempre fundamentado em falsa moral). E – na boa, não vou pautar minha vida, minha existência, de acordo com crenças  e visão de mundo de gente que é ignorante porque assim o quer permanecer. 

Pesquisa e ações voltadas aos estudos de gênero com foco na diversidade, sexualidade e identidades ainda são um tanto tímidas e o tema ainda é pouco discutido de forma ampla e séria pela sociedade brasileira, sendo mais desenvolvidas em países onde a pesquisa e tecnologia são levadas a sério por parte do Governo, tanto que existe um protocolo elaborado pela Universidade da Califórnia e outro na Europa com orientações sobre terapia hormonal e outros estudos sobre a parte psicológica e social da transexualidade. 

A diversidade existe, as pessoas querendo ou não; gostando ou não e deve ser respeitada, pois o mundo é diverso e não há nada que fundamente nem justifique o ódio e a violência cometida contra quem é diferente.


Alexia de Oliveira é Graduada em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Pós-graduada em Gestão de Marketing pelo SENAC-SP e  Bibliotecária-chefe de um Centro Tecnológico no estado do Rio de Janeiro.

Curtindo um forró.

Minha mãe, quando gosta de um CD, passa uns cinco anos ouvindo exatamente o mesmo CD no carro.
Até a última vez que eu andei com ela, estávamos no Eric Clapton. Às vezes no repeat da música Pretendig.
Hoje eu percebi que, além de passar cinco anos ouvindo o mesmo CD, existe uma outra questão: são só uns quatro ou cinco CDs diferentes que se alternam. Depois de um ciclo, inicia-se outro. Como eu tenho ainda vinte e oito anos, eu não tinha percebido isso.
Tudo começou lá atrás, quando eu tinha uns treze anos. Ouvíamos Fala Mansa. Depois veio a Alcione, lá pelos meus dezoito anos. Passamos para Light House Family, dos meus dezoito aos vinte e três. Por fim, Eric Clapton, dos vinte e três aos vinte e oito.
Qual não foi a minha surpresa quando eu entrei no carro hoje e começou a tocar… Tchan, Tchan, Tchan, Tchan… Fala Mansa!!! Aí eu entendi tudo e muita coisa na minha vida fez sentido!
Eu também escutei sempre as mesmas músicas a vida inteira! E quando eu gosto de una comida, por exemplo, eu como ela uma semana seguida! Se eu pudesse, eu usaria a mesma roupa todo dia.
Não tenho essa questão de enjoar das coisas e querer sempre novidades. Sou bem apegada. Gosto de coisas familiares e repetidas. Entendi hoje o porquê. É de família.

Então, quando eu tiver trinta e três anos lá vai vir de novo:

“Ou ela ou eeeeeeeeeeuuu
É a resposta que eu mais gostaria de ter
Só não faço a pergunta
Pelo medo da falta que voceeeeeeeeeee vai fazeeeeeeeer”.

Ainda sobre a ansiedade. 

Falei ontem sobre a crise de ansiedade que eu tive na terça, dia primeiro de maio.
Pois é.
Sabe o que aconteceu ontem quando eu estava terminando de escrever o texto do blog? A pilha do teclado do meu computador começou a falhar, de modo que a letra “e” e a letra “c” Não estavam funcionando. Sabe como eu terminei de escrever? Dando control c/control v nessas letras. Deu um trabalho do cão. E muitas vezes isso acontece mesmo. A gente está se recuperando da crise e já vem uma outra coisa para jogar a gente para baixo. Sabe quando você está pensando: “Caralho! E mais isso agora! Que merda! Eu já não aguento mais”. Aí vem a vida e diz: “Que isso…! Toma mais essa aqui, oh! Tá vendo como você aguenta!” Foi bem isso. E a verdade é que a gente aguenta mesmo, tem que aguentar, então é melhor mesmo não se estressar para começo de conversa. Aquele trabalho que eu tinha que fazer (um artigo que eu vou entregar amanhã)? Não deu para terminar ontem porque não dava para digitar. Hoje eu trabalhei o dia todo (no consultório). De dez da manhã até dez da noite. O que sobra? Mais uma noite sem dormir.
Conversei com alguns amigos hoje nos intervalos que eu tive. Isso sempre ajuda. Compartilhar.
De resto o que a gente pode fazer? Eu tenho lidado muito melhor com os momentos de ansiedade. Ontem eu falei de algumas estratégias, mas ao logo do dia de hoje eu fiquei pensando… Tem uma coisa muito importante que eu não mencionei no texto de. A minha vida e as coisas que eu estou fazendo têm muito sentido para mim. Eu só estou fazendo coisas que eu amo fazer, que me empolgam. Isso é fundamental. Porque se ficar estressada e ansiosa já é ruim, imagina ficar estressada e ansiosa fazendo coisas que você odeia! Nossa! Terrível! Claro que toda atividade tem partes chatas e desagradáveis, mas se isso fizer sentido na sua vida, vai ser mais tranquilo de lidar. Por exemplo, buscando atividades que me trouxessem bem-estar e felicidade, eu comecei a fazer curso de desenho. Sabe qual é a passo inicial dessa nova aprendizagem? Desenhar garrafas, cadeiras, copos, xícaras… Porra, eu quero desenhar dragões!!! Mas para chegar lá, tem treze meses de curso básico antes. Eu não sei se eu vou ficar interessada em desenho para sempre, mas, por enquanto, se eu quero desenhar os tais dragões, eu tenho que aprender a desenhar e, para isso, tenho que começar pelos objetos inanimados desinteressantes. É isso. Essa parte é chata, mas, por enquanto, faz sentido para mim.
Essa questão do sentido é essencial para a vida como um todo, na verdade, mas no caso do enfrentamento das situações difíceis ela é fundamental.

Uma crise de ansiedade.

Nesse feriado eu tive uma crise de ansiedade. Tinha muita coisa para fazer e eu entrei numa bad achando que não ia dar conta.
Momentos como esse me atrapalham de vez em quando. A todos nós, na verdade.
Mas a crise de ansiedade em si não importa muito no fim das contas. O ponto principal é a maneira como você lida com ela, as estratégias que você possui para enfrentar sua ansiedade.
Eu estava no computador trabalhando quando aconteceu, na terça a noite, mas, de fato, eu já estava me sentindo mal desde segunda. Comecei a sacudir a perna fortemente, minha respiração ficou acelerada, parecia que meu sangue estava correndo rápido e com muita força nas veias, eu sentia o corpo todo palpitar e o coração bater forte demais, um leve formigamento nas extremidades. Além disso, minha visão começou a ficar embaçada. Se eu já não estivesse bem familiarizada com os sintomas da ansiedade e não tivesse consciência de que o momento tenso que eu estava vivendo poderia muito bem causar uma crise dessas, eu certamente iria para o hospital.
Ok. Mas eu sei de todas essas coisas. Que sentir ansiedade é normal… Que determinadas situações geram ansiedade… Que ansiedade dá e passa… Claro que sentir essas coisas é muito ruim.
É aqui que a situação complica.
Muitas pessoas, quando têm crises de ansiedade, colocam estratégias disfuncionais em prática para lidar com esse sofrimento.
Algumas pessoas mergulham em preocupações intermináveis. Elas se preocupam acreditando que, desse modo, estão fazendo todo possível para lidar com uma determinada situação da melhor maneira possível. Se eu tenho um trabalho para entregar, eu vou me preocupar com ele dia e noite, enquanto eu estiver lavando louça, jantando com meu namorado, assistindo tv com a minha família, antes de ir dormir… Asssim eu penso, penso e penso na tarefa, penso tanto que vou minimizar as chances de algo dar errado quando eu finalmente sentar para fazer a tarefa. Mas eu não consigo sentar direito para fazer a tarefa. Eu já pensei tanto nele, que já estou com raiva dela, ou construí expectativas muito altas e agora estou com medo de não alcançar meus próprios padrões, ou então eu simplesmente sento para fazer o trabalho, mas subitamente outra preocupação invade a minha cabeça e tira o meu foco.
Na psicologia, isso se chama transtorno de ansiedade generalizada.
No momento da crise aparecem esses sintomas físicos que eu mencionei no início. Então, desde segunda eu estava me preocupando, terça veio a crise.
Eu já perdi as estribeiras duas vezes. Congelei na rua, em plena crise, sem conseguir sair do lugar. Da primeira vez minha mãe foi me buscar, da segunda, meu marido. Acontece.
Depois disso eu precisei parar para pensar em como lidar com essas situações no futuro. Nenhum caminho melhor para começar uma investigação acerca de nós mesmos que não no nosso passado. Comecei a pensar em tudo que eu gostava de fazer, que me acalmava, quando eu era pequena. Eu pergunto isso para os meus paciente e às vezes eles riem pensando que eram só bobagens que eles jamais fariam hoje em dia: brincar de bonecas, por exemplo. Mas, se nós tivemos uma infância relativamente tranquila e saudável, esse foi o momento em que nós precisamos de mais proteção e também o momento em que efetivamente nos sentimos mais protegidos. Por isso as estratégias da infância são, na verdade, muito eficientes. Não precisa ser só dessa época, contudo, pode ser qualquer coisa que te acalmou no passado.
Para mim: da infância, a lembrança que eu resgatei foi uma suposta memória do jardim de infância na qual eu estava fazendo bolinhas de papel crepon colando para formar um desenho. Da adolescência, dançar bem loucamente ao som de música alta. Da idade adulta, conversar.
Então, o que eu fiz na terça à noite? Bolinhas de papel crepom, dancei Nirvana pra caramba e conversei horas com meu marido. Isso foi suficiente para me trazer perspectiva e tranquilidade.
O trabalho? É para sexta e ainda não está pronto, mas eu tenho certeza de que eu vou fazer o melhor possível e que, s algo der errado, não vai ser o fim do mundo. Certamente do jeito que eu estava terça, eu ia fazer tudo cagado e ainda ia sofrer horrores durante o processo.

Era uma vez… Só que não. 

Era uma vez um rei muito rico, belo e poderoso. Seu reinado foi muito logo e próspero, mas seus súditos e os nobres da corte se preocupavam, pois o rei ainda não havia se casado e não tinha herdeiros.
O rei finalmente resolveu se casar com uma jovem princesa de um reinado além-mar.
No entanto, uma feiticeira maligna amaldiçoou a união e, toda vez que a princesa tentava embarcar para encontrar seu amor, uma tempestade terrível impedia sua viajem. Ele resolveu então viajar com seus homens mais valentes para resgatá-la.
Após duras penas, o rei e rainha sentaram-se em seus tronos.
Mas antes que pudessem viver felizes para sempre, o rei foi em busca da bruxa que havia ameaçado a vida de sua amada, para que jamais precisassem se preocupar novamente.
O rei, então, descobriu que cem bruxas malignas se reunião em suas terras para realizar rituais satânicos matando criancinhas e bebendo seu sangue, realizando estes rituais malignos para atrapalhar a felicidade de homens e mulheres tementes a Deus.
Com a ajuda dos anjos o corajoso rei matou noventa e nove bruxas de uma só vez. A centésima ele levou para o seu castelo para servir de exemplo. Lá, ele envios ferros em brasa em sua língua e depois queixou-a viva. E todos os bons cristãos viveram felizes para sempre.

Só que não.

Esse seria mais um conto de fadas bizarro se não fosse uma história real. A história do Rei Jaime IV da Escócia e I da Inglaterra.

Fiquei sabendo dessa história a partir do livro “O Lado Sombrio dos Contos de Fadas”, de Karin Hueck. 

O livro é extremamente interessante, trazendo as versões originais de diversos contos e realizando uma análise de seus conteúdos  a partir dos significados simbólicos e de possíveis relações com eventos históricos reais. 

O fato real narrado no início deste texto, por exemplo,  ilustrativa o modo como os contos de fadas passaram a ser povoados por tantas mulheres malvadas trabalhando sob a influência do demônio. As bruxas começam a se tornar uma ameaça real e constante na vida das pessoas a partir do século XVI, período do reinado de Jaiminho justiceiro. 

Assustador. 

Mas vale muito a pena a leitura. 

Colaboração. 

Hoje, pirigava eu dormir direto.
Cheguei muito cansada do trabalho, comi, deitei e apaguei depois.
Se não é pelo meu marido me acordar falando que eu precisava levantar para escrever no Blog, eu teria dormido até amanhã.
Quantas vezes no consultório eu não ouço dos pacientes autorecriminações, menosprezos de uma determinada conquista, tudo porque eles não obtiveram aquele resultado “sem a ajuda de ninguém”.
Tem aquela reflexão que diz que a gente nasce sozinho e morre sozinho. Essa frase passa a idéia que o ser humano é um ser que jamais consegue escapar do fato doloroso de sua solidão existencial. Sabe aquele filme que passou no cinema, Três Outdors Para Um Crime? Então, tem uma fala genial nesse filme. Um homem escreve para sua esposa que ele não nasceu sozinho, pois a mãe dele estava lá quando ele nasceu (e, convenhamos, nossa mãe está SEMPRE presente quando a gente nasce) e agora, no fim da vida, ele também não estava sozinho, pois a esposa estava lá com ele (assim também acontece com todos nós, chegamos ao fim da vida acompanhados pelas pessoas que conquistamos ao longo de nossa caminhada). A conclusão é que aquela frase inicial (e muitos dos meus pacientes) estão completamente equivocados. Ninguém faz nada nesse mundo sozinho. Ainda bem! Ter a ajuda de uma outra pessoa não é demérito nenhum.
Se não fosse pelo meu marido, eu já teria ficado alguns dias sem escrever no Blog. Ainda bem que ele está presente na minha vida, colaborando com meus sonhos e projetos e me incentivando sempre! Aproveito para agradecer aos queridos amigos, é claro, que já participaram ativa e intensamente da elaboração de vários textos e de incontáveis momentos importantes da minha vida. Agradeço a vocês que estão lendo também, pois vocês são uma alegria feliz e inesperada nessa jornada. Quando eu comecei a postar, eu imaginei que, no máximo, minha mãe e meu marido leriam os textos e que isso já ia ser lucro, mas vocês vieram e deram ainda mais sentido a esse projeto!
Agora, se me dão licença, vou aproveitar que meu marido veio aqui verificar se eu voltei a dormir ou se eu estou escrevendo mesmo e vou encerrando por aqui para aproveitar o fim de noite pré-feriado para fazermos alguma coisa boa juntos! Beijos!

Creme ou doce de leite?

Tive uma discussão séria com meu marido hoje.
Eu fui ao mercado de noite para comprar as coisas da janta e ele me pediu para comprar dois mini-sonhos para ele de sobremesa. Um de doce de leite, o sabor do outro eu poderia escolher para surpreendê-lo.
Eu comprei um de doce de leite e outro de creme.
Quando ele viu o sabor do segundo exclamou: creme?! Quem gosta de creme?! Começou a discussão. Eu respondi que creme era o melhor sabor do mundo! E ele ficou insistindo que não, que o de doce de leite era melhor e que ninguém gostava do de creme.
Mas que absurdo!
Lembrei da época em que éramos pequenos lá em Jardim América. O padeiro passava na Rua 16 pela manhã e no fim da tarde. Quando ele vinha de noite, todas as crianças se juntavam ao redor, porque ele dava os doces que haviam sobrado de graça para nós. Era uma festa! Segundo o meu marido, todos brigavam pelo sonho de doce de leite. Eu já não tenho tanta certeza de que era assim não. Eu me lembro de ter que disputar sempre pelo sonhos de creme. Nós comíamos tudo ali na rua mesmo, sentados nos portões das casas, com as últimas luzes no horizonte, trocando selinhos por mais um pedaço do sonho do colega, falando sobre as preocupações que nos assolavam na época, rindo também, entre um assunto sério e outro. Era tudo doce. Os sonhos, os beijos, os risos, os choros. Mas antes que eu me deixe levar mais ainda pela poesia dos fins de tarde do bairro da minha avó, vamos voltar à questão.
Meu marido sugeriu por fim, para que pudéssemos sanar essa dúvida de uma vez por todas, que eu fizesse uma enquete: qual sabor de sonho vocês preferem: creme ou doce de leite?