Santa Apolônia. 

Na antiguidade, alguns filósofos (Sêneca, por exemplo) acreditavam que dor de dente era um motivo legítimo para o suicídio (quem já passou por isso afirma que a dor é tremenda).
Falei isso para o meu dentista hoje e ele me presenteou com duas histórias bizarras (fascinantes para mim, como escritora).
A primeira foi uma história que o avô dele contava. Meu dentista já tem uma certa idade e o avô dele morreu há uns trinta e cinco anos com mais de oitenta anos, então o avô do meu dentista nasceu em torno de 1890. Tem muito, muito tempo. Nenhuma das duas grandes guerras tinham acontecido; o telefone havia sido inventado apenas vinte anos antes; o primeiro filme da história ainda não havia sido filmado. Lá naquela época, a prática da odontologia era muito diferente da atual, começando pelo fato de que aqueles que cuidavam dos dentes da população não precisavam ter uma formação específica (para você ter uma idéia, a profissão foi regulamentada no Brasil em 1964).
Bom, lá naquela época, contava o avô do meu dentista, numa cidade do interior, a população tinha a oportunidade de tratar as dores de dentes só de vez em quando, nas épocas em que um certo frade visitava o local. O frade caminhava pelas ruas tocando uma sineta e carregando uma mala grande e pesada. Quando algum necessitado ouvia a sineta, chamava o frade até a sua casa, e ali na porta da rua mesmo, o frade abria sua mala grande e pesada que estava cheia de alicates e arrancava o dente do queixoso.
“Sem anestesia, sem nada”, meu dentista complementa. E eu falei: “Nossa devia ser uma dor horrível”. “Quando não levava à morte”, ele completa.
E então, apontando para a imagem de uma santa em seu consultório, me conta a história de Santa Apolônia.
Apolônia de Alexandria foi perseguida pelos romanos nas suas investidas contra o povo cristão no início da nossa Era, por volta de 250 d.C. Quando atacada, ela teve todos os seus dentes violentamente quebrados ou arrancados e não sobreviveu ao ataque. Ela se tornou mais tarde, a padroeira dos dentistas e daqueles que sofrem com dor de dente.
Cacete. Ir ao dentista é sofrido ainda hoje em dia, mesmo com cadeiras confortáveis, reclináveis, ar condicionado e tudo limpinho. Fico me perguntando se esse horror todo do passado deixou uma marca no nosso DNA. Antes, o barulho da tal sineta devia causar o horror que temos hoje ao ouvir o som da broca (só de escrever me dá nervoso).
Certa vez eu conheci uma menina que disse que amava o som da broca do dentista e eu me afastei na hora! Eu pensei: “Jesus! Essa mulher não é de Deus não”! (que fique claro que isso é uma piada. Eu não acho que a mulher tinha ligação alguma com o capeta até porque eu nem acredito que um tal ser exista. Eu ia deixar esses comentários subentendidos, mas na situação atual é melhor não abrir margem para dúvida alguma).
Um mal necessário, pelo menos a minha visita ao dentista de hoje foi muito interessante. Pensei até em retomar um conto que eu esbocei há uns três anos sobre uma mulher com problemas nos dentes.

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