Psicologia positiva e Coaching: sobre a dificuldade de estabelecer e alcançar metas. 

Como é esse negócio de cumprir metas? Este é um assunto extremamente atual. Todo mundo tem uma meta, seja de malhar três vezes por semana… Melhorar a alimentação… Fazer aquela faculdade ou pós-graduação… Comprar um carro ou apartamento…. E as pessoas estão falhando em cumprir suas metas.
Eu fiz formação em Psicologia Positiva aplicada ao Coaching e atualmente, uma parte importante do meu trabalho no consultório, é o de ajudar as pessoas a estabelecer e alcançar suas metas.
Mas percebemos que trabalhar com metas não é tão fácil assim para muitas pessoas. Nesse texto é justamente essa dificuldade que eu quero abordar.
Por que as pessoas têm tantas dificuldades nesse processo? Alguns dos principais fatores que interferem no alcance das metas são:

1- Mudar os planos no meio do caminho: ao estabelecer uma meta, temos que evitar mudar de idéia é ir até o final. Quando mudamos de idéia muitas vezes não vamos conseguir cumprir a meta, pois nuca vamos investir nela por tempo suficiente. Mas, se você é como eu e não consegue fazer uma coisa só de cada vez, não tem problema. Você pode acumular metas, isso não é a mesma coisa que mudar de meta e abandonar um caminho pela metade.

2- Investir em metas que vão contra seus valores, princípios, propósito: não rola mudar a meta o tempo inteiro, você não vai chegar a lugar nenhum, mas se você escolheu uma meta que está te fazendo miserável, abandone-a, pelo amor de Deus!!! Sem culpa, sem remorso!!! Parte para outra porque essa meta que te traz majoritariamente emoções negativas, vai sugar toda a sua energia e a sua vontade de viver. Então, se este for o caso, desiste. Ok?

3- Reorganize a sua vida levando a meta em consideração: não vai dar certo perseguir uma meta, por exemplo, de ficar mais tempo com a sua família, se você não terminar aquela pós-graduação primeiro. Ou seja, ou seus recursos de tempo e dinheiro são limitados, portanto, seu planejamento de metas deve levar a sua disponibilidade de recursos em consideração. Eu público no Blog todos os dias e estou investindo no meu trabalho no consultório e como professora de pós-graduação. Quero me destacar no trabalho. Essas metas na área de lazer e ocupacional (trabalho e estudo) tomam atualmente grande parte dos meus recursos. Ano que vem, eu vou focar em outras duas áreas da vida. (Só para matar a curiosidade, as áreas básicas da vida são seis: ocupacional, patrimonial, lazer, saúde, espiritualidade, afetivo-emocional). Mas não dá para focar em tudo ao mesmo tempo. Não tem recurso para isso.

4- Falta de motivação: perseguir metas exige sacrifícios e dedicação. Se você não está tão motivado assim, vai ser difícil manter o pique. Então, saber claramente o que você vai ganhar ao atingir a meta e se sentir extremamente atraído por esse resultado é fundamental. Eu quero muito, muito, muito ser reconhecida na minha área, isso me dá forças para passar por mestrado, doutorado, pós-graduação, várias monografias etc. Porque eu acredito que ser reconhecido na própria área começa com competência (e depois passa por um bom marketing pessoal, não há como negar isso). Não é fácil. Mas o que eu vou alcançar é uma das coisas mais importantes do mundo para mim. Por isso eu vou seguindo (às vezes com a força do ódio, é verdade, mas, na maioria das vezes, com imensa alegria).

Ache sua motivação, avalie seus valores e veja se suas metas estão de acordo com eles, distribua seus recursos, organize sua agenda, assim você vai aumentar significativamente a chance de obter sucesso para com suas metas!!!

Pessoas interessantes. 

Elas andam por toda parte.
Essa é a resposta para uma pergunta que li num livro dia desses: “Por onde andam as pessoas interessantes”?
Por toda parte. É a resposta.
“Conversar com uma pessoa é como ler um livro”.
Sim. Todas as pessoas têm uma história interessante. Ou talvez seja apenas por acreditar nisso que eu seja psicóloga e escritora. Sinto uma imensa curiosidade pela vida das outras pessoas. Quero ouví-las, entendê-las, conseguir compreender o que estão sentindo. Nunca ouvi uma história chata. Se você ouvir por tempo suficiente, pérolas começam a brotar dos discursos das pessoas.
Nem sempre estamos dispostos a ouvir, é claro. Eu tenho meus dias nos quais estou tão submersa em meus próprios pensamentos que não tem espaço para mais ninguém dentro da minha cabeça. Mas isso não diz nada das outras pessoas e sim do meu momento.
Então esse papo de que “fulano é realmente interessante, Beltrano, não” (comentário que normalmente expressa um preconceito cultural que você ouve muito no meio de gente cult que se acha a cerejinha do bolo das capacidades intelectuais e artísticas) me irrita e desgosta muito.
Onde estão as pessoas interessantes? Olhe para o lado. Aí está ela.

Caso 1: Senhora K.

CAPÍTULO I – Próxima estação: Uruguaiana.

Katarina desceu na estação Uruguaiana do metrô super atrasada, atropelando as pessoas que andavam lentamente na sua frente.
– Licença. Com licença! – Se a pessoa não se mexesse, ela forçava passagem. – Com li-cen-ça. Obrigada.
A estação estava lotada. O que não era nem um pouco comum para aquela hora do dia. Putz… É chuva. Deve ter começado a chover… Espero que não esteja tudo alagado.
A sensação dentro da estação era terrível. Um calor abafado, muito úmido. As pessoas ao redor molhadas de água da chuva e cheirando a suor, cozinhando dentro de seus casacos e cachecóis exagerados. Karina estava com uma blusa branca bem levinha e não sentia frio. A calça que era obrigada a usar por conta da reunião para a qual estava indo estava colando nas pernas dilatadas pelo tempo quente.
Quando chegou na saída da estação, sentiu uma brisa fresca carregada de gotículas de água. Muitas pessoas na sua frente, paradas. Forçou caminho.
– Ah! Não acredito! – O Centro da Cidade já estava debaixo d’água. – E agora? Eu já estou atrasada.
Karina refletiu por cinco segundos antes de tomar uma decisão, se é que se pode dizer que ela realmente tomou uma decisão depois de um processo consciente de raciocínio. Mais parece que ela sentiu uma mistura de diversas emoções. Sentiu um senso de responsabilidade, empurrou para o fundo da mente a censura por já estar atrasada (talvez se tivesse ido mais cedo tivesse chegado no trabalho antes da chuva), sentiu algo que deve ser parecido com o que sentiam os gladiadores romanos, uma adrenalina de quem está prestes a enfrentar um inimigo monstruoso e encarar a própria morte (na ausência dos leões, nos resta o medo dos ratos que bóiam nas águas poluídas que inundam o Rio de Janeiro). Com tudo isso, ela resolveu agir. Esfiar o pé na água podre, mergulhar a perna até o joelho naquela nojeira e ir andando o mais rápido possível, ainda pegando chuva, até o trabalho. O que ela deveria ter levado em consideração para tomar essa decisão, era o fato de que a tal reunião não era nem um pouco importante. Não teria problema algum se ela não comparecesse. Ela deveria ter pensado que ia fazer um papelão chegando lá encharcada para um compromisso irrelevante. Todos olhariam para ela e falariam:
– Olha lá a maluca da Katarina. Enfiou o pé na água, cruz credo, essa mulher vai pegar uma doença. Essa água imunda aí da rua, agora ainda está lá toda molhada no ar condicionado. Eu hein… Tá doido. Será que não sabe, gente, que essa reunião não é nada demais? Deve ter pirado de vez.
Mas nada disso passou pela sua cabeça, portanto ela meteu o pé bravamente na água podre e foi.

 

OBS: O presente texto é de caráter puramente ficcional.

A felicidade está nas pequenas coisas. 

Tem coisa melhor do que dormir quando se está com muito sono? Fazer xixi quando estamos apertados?
O prazer simples de satisfazer nossas necessidades biológicas.
São prazeres extremamente subestimados. Mas é bom sabermos que todo prazer vale a pena. Por menor que seja. Na verdade, os estudiosos da felicidade afirmam que um número abundante de pequenas doses de felicidade ao logo da vida fazem de nós pessoas muito mais felizes do que poucos episódios de felicidade intensa.
Claro que não se trata só de buscar satisfação na realização de simples necessidades biológicas, esse é apenas um exemplo de prazer subestimado. Aproveite cada pequeno momento de satisfação cotidiana. Aprenda, em primeiro lugar, a identificar estes momentos na sua vida e depois saboreie esses momentos. Aproveite os grandes acontecimentos sim, sem dúvida. Mas sabia que a felicidade depende muito mais das pequenas alegrias.
Busque a felicidade nas pequenas coisas da vida. Isso vai fazer diferença na sua vida.

Não tente controlar sua ansiedade. 

Você tenta controlar sua ansiedade
E ela escapa.
É como o amor…
Quanto mais forte você tentar prendê-lo,
Mais fora de controle ele se encontra.
A ansiedade se agrava com suas tentativas de controlá-la.
Não é para não fazer nada.
Trabalhe seu corpo e sua mente sempre.
Eu fui no ortopedista há uns tempo atrás.
Dor nos ombros e nas costas.
Ele não passou remédio,
Passou exercício físico:
Está doendo porque não está sendo exercitado adequadamente.
A ansiedade é a dor do seu cérebro quando você não está trabalhando certas crenças e regras de comportamento e pensamento que você tem.
Trabalhe sua mente e cuide do seu corpo. A ansiedade vai ceder.

Sexfulness

Em clima de comemoração do Dia dos namorados, texto excelente do meu amigo muito competente, Prof. Esp. Leonardo Vasconcelos.

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Quão satisfeito(a) você está com sua vida sexual? Essa pergunta consta no Instrumento de Avaliação de Qualidade de Vida da Organização Mundial da Saúde, o que nos faz lembrar uma questão óbvia, mas muitas vezes negligenciada: a satisfação sexual é importante para a qualidade de vida.

Como observado pela psicóloga Olivia Klem Dias no III Simpósio Latino Americano de Psicologia Positiva, a pesquisa acadêmica em sexualidade ainda é muito focada sobre o sexo disfuncional. Em contraposição a isso, Dias apresentou um panorama do estudo da sexóloga Peggy Kleinplatz sobre os componentes para o sexo ótimo. Estar presente, focado e imerso na experiência sexual foi a condição mais relatada por quem diz experimentar um sexo excelente.

De fato, em um artigo de Gilbert e Killingsworth publicado na Science¸ constatou-se que em cerca de 47% do tempo as pessoas estavam pensando em algo diferente do que estavam fazendo. E das 22 duas atividades listadas na pesquisa, “fazer sexo” era a que exibia o menor índice de divagação.

Podemos citar três maneiras de estar presente, focado e imerso na experiência sexual: flow, savoring e mindfulness.

O termo flow foi cunhado por Mihaly Csikszentmihalyi e se refere a um estado de imersão total enquanto se pratica uma atividade. O flow vem de uma intensa concentração em torno de suas próprias ações e de seu feedback imediato. Como metáfora, pense no flow sexual como dois amantes dançando que estão tão envolvidos com a atividade deixam de ser dois dançarinos para se tornarem a própria dança.

A atenção consciente voltada para uma experiência de prazer com o objetivo de aumentar a duração, a intensidade e/ou a apreciação da mesma é uma condição relacionada ao conceito de savoring. Embora o savoring também permita saborear as memórias de experiências positivas passadas, e através da imaginação antecipar as experiências positivas futuras. É o ato de saborear o prazer do aqui e agora que mais condiz com o tema em questão.

A definição operacional dada pelo precursor do movimento mindfulness no Ocidente Jon Kabat-Zin é: “um foco de atenção deliberadamente voltado ao momento presente e livre de julgamentos”.  Para a pesquisadora Laurie Mintz, o sexo mindful acontece quando você está total e completamente imerso nas sensações físicas do seu corpo.

Dessa forma, definimos sexfulness como a capacidade de estar presente, focado e imerso na experiência sexual através da alternância de estados de flow, savoring e mindfulness.

3 Práticas para exercitar o sexfulness:

1) Toques Suave com Meditação de Escaneamento Corporal.

A meditação de escaneamento corporal faz parte de muitos programas de mindfulness e consiste em focar nas sensações corporais ao longo do corpo. Escolham um áudio de meditação guiada de escaneamento Corporal (Body Scan). Enquanto um dos parceiros faz a meditação o outro desliza suavemente a ponta dos dedos nas áreas correspondentes ao foco de atenção.

2) Fluxo de Carícias.

“King out” que literalmente significa “deixar o rei fora” é uma prática de alcançar o máximo de prazer, mas sem consumar a penetração. Explorem ao limite o poder dos beijos e carícias não com o objetivo de servirem como “preliminares”, mas como um fim em si mesmas.

3) Respiração PC.

A musculatura pubococcígea (PC) é encontrada em ambos os sexos e se estende desde o osso púbico até o cóccix. A respiração PC é um dos exercícios recomendados pela terapeuta sexual Helena Nista e consiste em combinar uma respiração abdominal profunda associada com contrações dos músculos PC, os mesmos usados quando se quer prender a urina.

Passos para Respiração PC:

– Faça respirações abdominais profundas.

– Ao inalar contraia os músculos PC.

– Ao exalar relaxe os músculos PC.

Repita esse procedimento quantas vezes se sentir confortável tanto durante a masturbação quanto durante o sexo com o parceiro(a).

Apesar do interesse generalizado pelo sexo em nossa sociedade, o assunto ainda é cercado de tabus e preconceitos. Como nos lembra o psicólogo Todd B. Kashdan: “Qualquer exame sério da vida boa deve examinar cuidadosamente o que os seres humanos pensam, se preocupam e fazem. A sexualidade não pode ser ignorada. Vá em frente e aproveite.”


Leonardo Vasconcelos é Físico, Analista de TI, Professor e Especialista em Psicologia Positiva. Um amante apaixonado pelo aprendizado nos mais diversos campos, das mais curiosas formas. Curte metal e cervejas artesanais, de preferência IPAs.

Referências:

BRYANT, Fred B.; VEROFF, Joseph. Savoring: A new model of positive experience. Psychology Press, 2017.

CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly; LARSON, R. Flow and the foundations of positive psychology. Dordrecht: Springer, 2014.

KASHDAN, Todd B. For a Profound Sense of Meaning in Life, Have Sex. Psychology Today, 2017. Disponível em: <https://www.psychologytoday.com/us/blog/curious/201706/profound-sense-meaning-in-life-have-sex?page=1&gt;. Acesso em: 05 jun. 2018.

KILLINGSWORTH, Matthew A.; GILBERT, Daniel T. A wandering mind is an unhappy mind. Science, v. 330, n. 6006, p. 932-932, 2010.

KLEINPLATZ, Peggy J. et al. The components of optimal sexuality: A portrait of” great sex”. The Canadian Journal of Human Sexuality, v. 18, n. 1/2, p. 1, 2009.

MINTZ, Laurie. Mindful Sex Is Mind Blowing Sex. Psychology Today, 2017. Disponível em: <https://www.psychologytoday.com/us/blog/curious/201706/profound-sense-meaning-in-life-have-sex?page=1&gt;. Acesso em: 05 jun. 2018.

A ciência na qual você acredita e os livros de autoajuda. 

Hoje eu vi todo os livros da sessão de autoajuda de uma livraria no Centro da Cidade. Vocês não tem idéia da quantidade de livros que se chamam “Cure sua Vida”. Tinha uns dez, pelo menos. E também, toda a bancada dos mais vendidos das livrarias são Best Sellers do The New York Times!! Quantos Best Sellers o New York escolhe por ano?! Que coisa…!!!
Cara, que doideira. Eu comprei quatro livros sobre os quais pretendo comentar em breve. Todos os temas eram de Psicologia Positiva: Resiliência; Autoestima; Propósito; e Talentos.
Resiliência é a nossa capacidade de aprender lições positivas com as adversidades da vida.
Autoestima é a capacidade de nos sentirmos amados.
Propósito é aquilo que buscamos em nossa vida, que deixarmos depois como nosso legado.
E talentos são os nossos potenciais inatos que precisam ser desenvolvidos ao longo da vida.
Todos na seção de autoajuda, mas todos muito bons e importantes. Eu sei… Eu também tinha (talvez ainda tenha) um pouco de preconceito com a idéia de autoajuda. Mas eu tenho percebido que eu estava errada por ter esse preconceito (assim como todo preconceito, este se mostrou extremamente negativo). Temos que ter cuidado com toda informação que chega até nós. Temos que desenvolver capacidade crítica. Mas, no fundo, estamos fadados a consumir a ciência na qual acreditamos. Por exemplo, hoje eu vi um livro chamado (alguma coisa do tipo) “Porque diminuir o colesterol não reduz o risco de doenças cardíacas”. Isso vai contra tudo que o Bem Estar vem nos dizendo!! Mas tá lá na prateleira dos mais vendidos da livraria.
Acredite no que te faz feliz! No que te faz viver bem! Escolha aquilo no que você acredita a partir dos critérios que fazem sentido na sua vida!

Sexualidade na Perspectiva da Psicologia Positiva.

No último sábado, dia 19 de maio, eu apresentei um trabalho no III Simpósio Internacional de Psicologia Positiva sobre sexualidade. O simpósio foi sensacional e eu fiquei extremamente feliz com o convite para falar sobre este tema.

Trata-se de um tema ainda muito pouco estudado. A área da Psicologia Positiva por si só já é bastante nova, nasceu em 1998 com os trabalhos de M. Seligman. Um estudo da sexualidade dentro desta perspectiva então nem se fala. Mas é bastante interessante e vale a pena conhecer.

O que eu queria com partilhar com vocês hoje, portanto, é um resumo da minha apresentação.

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O estudo da sexualidade do ponto de vista da psicologia positiva vai abordar os aspectos positivos da sexualidade humana, permitindo-nos compreender o que é o funcionamento sexual excelente. A partir dos estudos de Kleinplatz (2009), apresentaremos, então, os oitos aspectos que fazem com que a relação sexual seja excelente.

O pai da sexologia foi o médico psiquiatra Kraffit-Ebing que, no século XIX, escreveu o livro Psychopathia Sexualis, no qual narrava casos clínicos de pacientes com desvios e patologias sexuais.

Alguns anos mais tarde, por volta da metade do século XX, outros grandes teóricos da sexualidade, como Kinsey (1949, 1954), Masters e Johnson (1976, 1981), Kaplan (1977) e Hite (1982), contribuíram enormemente para o conhecimento que possuímos atualmente das patologias sexuais e também contribuíram com o conhecimento dos aspectos fisiológicos e psicológicos do funcionamento sexual normal.

Nenhum desses conhecimentos, contudo, nos ajudou a compreender o funcionamento sexual ótimo, que poderia fazer com que a terapia sexual ajudasse os seus clientes não apenas a ter um sexo funcional, mas um sexo de qualidade.

A partir a quebra de paradigma realizada pela psicologia positiva com Seligman (2003; 2011), vem tornando-se cada vez maior o interesse em compreender os aspectos positivos do ser humano e as formas de potencializar seu desenvolvimento. Isto ocorreu também no campo da sexologia. Os pesquisadores começaram a procurar compreender os aspectos e as caraterísticas que estão para além do sexo meramente funcional, livre de de patologias, que poderiam fazer com que a sexualidade fosse vivida em seu pleno potencial.

Os oito aspectos que fazem com que a relação sexual seja excelente de acordo com Kleinplatz (2009), portanto, são:

  1. Estar presente: pode ser entendido como o estado de flow (CSIKSZENTMIHALYI , 1999) que pode ser experimentado durante o ato sexual. Um estado no qual a pessoa se encontra completamente absorvida no momento presente. “You’re not a person in a situation. You are the situation” (KLEINPLATZ, 2009).
  2. Conexão: refere-se ao modo profundo como as pessoas se conectam durante o ato sexual. Depende de uma ligação intensa entre os parceiros para ocorrer. Podemos utilizar a metáfora shakespeareana da besta de duas costas para imaginar esta forma de ligação entre duas pessoas. “I am one, sir, that comes to tell you your daughter and the Moor are now making the beast with two backs” (SHAKESPEARE, 1993). Esse tipo de intimidade entre os parceiros que experimentam um sexo excelente faz com que eles sintam que estão em sintonia um com o outro. Não importa que o relacionamento já dure anos ou que tenha durado apenas algumas horas, trata-se de uma ligação sentida como um forte alinhamento entre os amantes.
  3. Intimidade sexual e erótica: os parceiros devem experimentar respeito mútuo, carinho, admiração e profunda aceitação antes de iniciarem uma relação sexual excelente. Não é possível ter esse tipo de relacionamento íntimo de qualidade sem se sentir cuidado e sem cuidar do outro. Confiança é a palavra chave aqui.
  4. Comunicação e empatia: o sexo excelente requer excelente comunicação tanto verbal quanto não verbal. Os parceiros têm que ser capazes de se comunicar através do toque e de compreender os sinais que o outro emite. Ao mesmo tempo, devem ser capazes de expressar verbalmente seus desejos e necessidade um para o outro de forma, clara, aberta e desinibida.
  5. Transparência, autenticidade e desinibição: essa característica pode ser entendida como uma espécie de “nudez emocional”. É o fato de se colocar aberto diante do outro, expondo a si mesmo como se é verdadeiramente. É a possibilidade de se revelar inteiramente para o outro.
  6. Transcendência: Maslow afirmava que “There are many paths to heaven, and sex is one of them” (1971). Isso que dizer que o sexo apresenta uma dimensão epifânica, que nos faz ver as coisas sob uma nova luz. Não se trata necessariamente de uma experiência de cunho religioso, mas de uma experiência que nos transporta para além de nós mesmo e que nos faz experimentar as coisas de uma nova maneira. Uma dimensão de paz, cura, transformação, benção, que podem conferir um caráter transcendente para a experiência da relação sexual.
  7. Explorar, assumir riscos e se divertir: o sexo pode ser extremamente engraçado e essa característica é uma das que o torna excelente. Quando estamos experimentando algo novo, quebrando a rotina, nos aventurando com o parceiro, em todos esses momentos o sexo se apresenta como uma oportunidade de descobrir e experimentar coisas novas. Essa exploração conjunta, esse desbravamento de novos horizontes, é um importante elemento da sexualidade humana.
  8. Entrega: vulnerabilidade e rendilção são os aspectos essenciais neste último tópico. Depois de passar por todos os aspectos anteriores, resta apenas mergulhar de cabeça nessa experiência incrível, expondo-se de maneira completa e autêntica e se rendendo às sensações do momento. Nesse sentido, “Sex is a leap of faith” (KLEINPLATZ, 2009).

Tendo em vista os oito componentes citados, Kleinplatz (2009) afirma que o futuro da terapia sexual vai requerer que os profissionais se ocupem cada vez mais das vivencias sexuais saudáveis não apenas como forma de auxiliar os clientes na promoção de vidas intimas muito mais prazerosas, com relações sexuais excelentes, mas também a prevenir o próprio adoecimento sexual.

 

As principais referências bibliográficas que eu utilizei neste trabalho foram:

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais. Tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento … [et al.]. Revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli… [et al.].Porto Alegre: Artmed, 2014.

 

CARVALHO, Antonio, SARDINHA, Aline. Terapia Cognitiva Sexual: uma proposta integrativa na psicoterapia da sexualidade. Rio de Janeiro: Editora Cognitiva, 2017.

 

CSIKSZENTMIHALYI, M. A descoberta do fluxo: a psicologia do envolvimento com a vida cotidiana (1997). Tradução de Pedro Ribeiro – Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

 

HITE, Shere. O Relatório Hite: um profundo estudo sobre a sexualidade feminina. Tradução de Ana Cristina Cesar. São Paulo: Difusão editorial, 1982.

 

KAPLAN, Helen Singer. A Nova Terapia do Sexo: tratamento dinâmico das disfunções sexuais. Tradução de Oswaldo Barreto e Silva. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1977.

 

KINSEY, Alfred; POMEROY, Wardell & MARTIN, Clyde. Conducta sexual del Varón. México: Editorial Interamericana, 1949.

 

KINSEY, Alfred; POMEROY, Wardell; MARTIN, Clyde; GEBHARD, Paul. A Conduta sexual da mulher. Rio de Janeiro: Atheneu, 1954.

 

KLEINPLATZ, P. J. Transforming Sex Therapy: integrating erotic potential. The Humanistic Psychologist. 24, 190-202. Ano: 1996.

 

KLEINPLATZ, P. J.; MÉNARD, A. D.; PAQUET, M-P.; PARADIS, N.; CAMPBELL, M.; ZUCCARINO, D.; MEHAK, L. The components of optimal sexuality: A portrait of “great sex”. The Canadian Journal of Human Sexuality, Vol. 18 (1-2), ano 2009. Disponível em; <http://juliacolwell.com/wp-content/uploads/2017/05/The-components-of-optimal-sexuality-Kleinplatz-et-al.-2009.pdf&gt;. Acessado em 01/05/2018.

 

KLEINPLATZ, P. J. Lessons from Great Lovers. In S. Levine, S. Althof, & C. Risen (eds.), Handbook of Adult Sexuality for Mental Health Professionals. 2ª edição. Nova Iorque: Brunner-Routledge, 2010.

 

MASLOW, A. H. On the Farther Reaches of Human Nature. Nova Iorque: Viking, 1971.

 

MASTERS, William; JOHNSON, Virginia. A incompetência sexual: suas causas seu tratamento. 2. ed. Tradução de Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.

 

MASTERS, William & JOHNSON, Virginia. A Conduta Sexual Humana. São Paulo. 4ª ed. Civilização Brasileira, 1981.

 

SELIGMAN, M. E. P. Felicidade Autêntica. Rio de Janeiro: Ponto de Leitura, 2003.

 

SELIGMAN, M. E. P. Florescer: uma nova e visionária interpretação da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

 

SHAKESPEARE, W. Othello. M.R. Ridley (ed.) The Arden Edition of the works of William Shakespeare. London and New York: Routledge, 1993.

Rotina: um mal necessário. 

Rotina é uma coisa engraçada… Ruim com ela, pior sem ela.
A minha “rotina” é muito louca. Com o consultório e as aulas, cada dia estou em um lugar diferente. Nos dias em que acordo com mais sono eu fico desnorteada, do tipo: “que dia é hoje? Para onde eu tenho que ir? Hoje é Tijuca, Vila Isabel, Botafogo, Ipanema, Barra? Consultório ou aula?” maior loucura. Fora o medo de ter esquecido de anotar algum compromisso na agenda e acabar esquecendo de cumprir alguma obrigação.
Às vezes eu fico sonhando com um emprego de escritório, todo dia, de nove às seis… Tradicionalzão… Sabe? Eu sei que seria uma merda. Eu ia começar a me sentir sufocada em menos de um mês. Prefiro a minha bagunça mesmo no fim das contas, o que não quer dizer que essa ausência de rotina seja completamente positiva. Eu ando bastante, estou sempre na rua vendo gente e tomando cafés diferentes. Por outro lado, eu gasto muito tempo me deslocando de um lado para o outro e fica difícil fazer programações de médio e longo prazo.
A gente precisa mesmo na vida de uma certa estrutura e organização. Acho que por isso mesmo eu prezo e busco sempre ter atividades extras em horários fixos, ter metas diárias. Tudo isso ajuda a criar uma rotina mínima que é muito boa para a saúde mental.

Ainda bem que não somos mais crianças. Os psicólogos do desenvolvimento vêm dizendo que a rotina é essencial para o bom desenvolvimento da criança. Dá para entender o porquê. Sua ausência afeta até os adultos, imagina o que não faz com os pequenos!

Meu marido acha que esse é uma fase que estamos vivendo. Essa vida de doutorando que trabalha de maneira autônoma. Quem sabe? O importante é que a gente tem que arranjar um jeito de não sofrer ou de sofrer menos com isso enquanto não dá para mudar. E criar, nas brechas que existem, os pilares dessa vida louca.

Você pode substituir ações negativas e destrutivas por ações positivas e construtivas. 

“É uma loucura fazer sempre as mesmas coisas e esperar obter resultados diferentes”.

Parece óbvio, não é mesmo? Talvez ninguém discordasse dessa frase se você a dissesse assim desta maneira. Mas se você parar para observar com cuidado e atenção a vida de certas pessoas, você vai perceber que é difícil para muita gente transformar esta verdade preciosa em ações.
Algumas pessoas, se tivessem consciência de suas ações, te diriam o seguinte: “Não! Discordo! Eu acho que a gente pode ficar fazendo senpre exatamente a mesma coisa e obtendo a cada repetição um resultado diferente. Veja lá em casa, por exemplo, eu chegava da rua e brigava com a minha mulher todo dia e ela ficava falando para eu me acalmar, queria sentar conversar e entender qual era o problema, mas não adiantou de nada, eu continuei chegando em casa e brigando com ela todo dia. Até que chegou uma época em que ela no lugar de querer conversar para tentar resolver o problema, passou a brigar comigo de volta. Mas isso também não adiantou de nada, claro. Ela sabe gritar e eu sei gritar também, ora! Então eu continuei chegando em casa da rua, do trabalho, todo dia e brigando e brigando com ela até que veio o tempo em que ela simplesmente passou a me receber calada e me ouvir esbravejar sem esboçar nenhum tipo de reação e depois ir para a cozinha terminar de aprontar o jantar sem me encher a paciência. Portanto não venha você me dizer que se a gente fizer sempre a mesma coisa vai obter sempre o mesmo resultado, porque eu acabei de te provar que isso não é verdade”.
Bom, parabéns para o asno que conseguir pensar desse jeito, ele merece certamente uma medalha porque para ser estúpido assim é preciso se esforçar bastante, não é verdade?
Não.
Não é difícil encontrar quem esteja mergulhado nesse tipo de rotina sem se dar conta. A gente não pode olhar para este exemplo, para a vida do amigo, e julgar o que está acontecendo com ele como se fosse algo que nunca vai acontecer conosco, porque olhar para o outro e críticar é mole, mas olhar para a nossa própria vida e ver o que estamos fazendo de errado não é tão fácil assim. Não existe vacina contra estupidez, todos estamos sujeitos a ela.
Você nunca se pegou repetindo a mesma maneira prejudicial e doentia de lidar com alguma pessoa ao seu redor? Mesmo que se trate de uma pessoa que você ama? Adicione a isso o nosso medo da mudança e você tem a receita da miséria.
Então, se nós quiséssemos destrinchar a frase lá do início do texto para entender seu significado profundo teríamos algo do tipo: ” Se você ficar sempre repetindo as mesmas ações negativas, as coisas vão entrar num processo de mudança continua, mas sempre para pior. O que não adianta é fazer sempre a mesma coisa ruim e querer que as coisas ao seu redor comecem a melhorar”. O que tem que acontecer é que você tem que abraçar a mudança e começar a substituir as ações negativas por ações positivas e construtivas e então coisas boas poderão acontecer na sua vida.