Eu acabei de falar sobre isso ontem!

Cara, ontem eu falei sobre isso. Mas tenho que acrescentar um episódio que aconteceu hoje!
Meu marido está fazendo aniversário. E o que ele queria era ir ver Os Vingadores no cinema comendo besteira.
Escolhemos um cinema onde tem pipoca com manteiga e passamos nas Lojas Americanas para comprar os doces.
Estou eu passando por um dos corredores da loja quando um cara vira para mim é começa a falar (como eu falei para vocês, eu costumo parar para ouvir).
– Isso aqui é um veneno. Eu já perdi 35 e cinco quilos.
Eu:
-Parabéns!
Ele:
– É. Eu perdi trinco e cinco quilos contando quatro farinhas da minha vida. Açúcar, sal, aranha de trigo e cocaína.
Mano, não se inicia esse tipo de conversa com um estranho no corredor de uma loja, eu comecei a pensar. Mas, aí pensa, conversa com quem? Ou esse cara perdeu tudo e é sozinho e precisa falar com estranhos mesmo, ou a família dele não deve suportar ele falando em cocaína, porque, se ele realmente foi viciado e a coisa foi seria, a família deve ter sofrido muito.
Eu vejo isso realmente como desejo de conexão. Um maluco sozinho no shopping sexta a noite em crise, sem saber se levava consigo uma caixa de tortuguita.
Ele falou mais:
– Eles passam um gás pela farinha, por todo tipo de farinha eles passam esse gás que é fosforado, e esse gás faz muito mal, destrói a saúde da gente. Por isso eu emagreci só cortando farinha e eu falo da cocaína também que é para eu não esquecer. Mas eu posso, né? Uma vez só. Já emagreci 34 quilos. Não vou comer isso todo mês, nem todo dia, nem nada.
Sim, senhor, vai ser feliz e eu espero que você encontre um amigo.

Atendendo a pedidos. “Histórias de vida não solicitadas”. 

As pessoas gostam e muito de falar de si mesmas. (Vide eu e meu Blog que versa majoritariamente sobre questões da minha vida cotidiana).
Esse é o segredo para iniciar um relacionamento com qualquer pessoa. Deixe ela falar sobre a vida dela tanto quanto ela quiser, incentive-a, compartilhe um pouco apenas, uma ou outra informação que vá ao encontro do que ela está te falando só para encorajalá-la a falar mais e pimba! Ela vai gostar de você. Se a pessoa falar sobre ela por uma hora, fale de você por um minuto. Esta é a proporção. Você vai conseguir abrir as portas do coração de quem você quiser. Somos todos desesperados para falar de nós mesmos.
E a verdade é que muitas vezes nem é necessário que ninguém pergunte nada.
Eu já perdi a conta do número de pessoas desconhecidas de quem eu sei boa parte da vida. São pessoas que falam em ônibus, em salas de espera de consultório, na mesa ao lado do restaurante.
Como encarar essa situação se não como um sinal de profunda solidão e uma tentativa de se conectar com as outras pessoas e se sentir acolhido?
E aí está a grande armadilha. Junte o nosso desejo desesperado de falar de nós mesmos, com o desejo do outro de falar de si mesmo. Você terá duas pessoas olhando uma para a cara da outra, mas elas estarão conversando cada uma com seus botões. Quem nunca ouviu esse tipo de conversa esquizofrênica? Uma pessoa fala que perdeu a mãe e a outra responde que o filho está indo para a faculdade?
Quase não há comunicação entre as pessoas.
Eu já faço experimentos para comprovar essa teoria há algum tempo. Vira e mexe puxo conversa com pessoas aleatórias na rua.
– Quente hoje, não é mesmo?
– É.
-E essa fila aqui, hein? Você está aqui há muito tempo?
– Ih, minha filha, vou te falar que isso aqui é sempre assim. Olha, eu estou aqui agoniada porque meu filho vem me pegar e ele vem de carro porque ele vai deixar a esposa dele em casa agora na hora do almoço e eu vou estar aqui presa nessa fila e ainda tem tanta coisa para eu fazer hoje que você nem imagina porque a menina que vai buscar os panos vai passar lá em casa…
E por aí vai.
Não vale só para puxar assunto com senhoras em fila de banco não.
Para paquera também serve.
– Ah, é? E como é esse esse trabalho que você faz? E deixa ele discursar pedindo, de vez em quando, que ele explique uma coisa ou outra. Não tem mistério. O outro apenas tem que se sentir especial e importante para você. Qual é o motivo que você acha que leva algumas pessoas a se apaixonarem por seu terapeutas? De quem, diga-se de passagem, elas não sabem absolutamente nada. 

Falar de si mesmo para os outros já nos faz sentir mais próximos do interlocutor. Se este, de fato, se engajar na conversa e escutar atentamente, é gerado um efeito de proximidade apaixonante para que discorre sobre si mesmo. 

Muitas pessoas sentem-se sozinhas e não sabem como iniciar esse uma conversação (tem quem sai falando de si mesmo na esperança de pescar um ouvinte e tem quem quer ouvir mesmo. No caso dos tímidos ou introvertidos geralmente existe essa dificuldade). Quer saber a técnica? Pergunte. Só isso. Como eu disse, esse é o segredo para se iniciar um relacionamento.
Voltando aos casos das histórias de vida não solicitadas, poderíamos nos perguntar se essas pessoas que se expõem tanto são loucas. Isso é falta de noção? Acho que é simplesmente em desejo de se conectar. O que a gente mais precisa na vida é fazer laços, mas somos totalmente estragados e, apesar da nossa maior necessidade ser a de estar em grupo e ter pessoas ao redor,  não sabemos nos conectar tão bem assim. Nos sentimos profundamente solitários. Então acabamos falando de nossa vida com o intuito de atrair as outras pessoas seja por meio de sua admiração, cumplicidade, inveja… Qualquer tipo de laço ainda é melhor do que nenhum laço. 

Não pensa, só vai lá e faz.

Há dois meses a minha rotina ficou tão pesada que eu parei de ir nas aulas de pole dance. Passei um mês só estudando e trabalhando. Quase pirei. Eu fiz isso por anos e anos no passado, mas de uns tempos para cá, como eu já falei com vocês, comecei a mudar muitas coisas na minha vida e hoje em dia já não saberia viver só de obrigações. Então, depois de um mês de massacre eu comecei o curso de desenho. E hoje eu fico muito feliz em dizer que voltei para o pole dance!

Sabe o que me fez sair em primeiro lugar? O horário. Com meus novos compromissos, eu só conseguiria ir na dança oito da manhã! E eu tenho aquela dificuldade para dormir.

Hoje o despertador tocou… Eu cochilei mais dez minutos… Ele tocou de novo e eu fiquei pensando… ponderando… ponderando… os prós e contras de fazer aula de dança considerando como estou sobrecarregada… eu assumiria um compromisso oito horas da manhã… e se eu não conseguir dormir direito ainda por cima…

Aí eu resolvi não ir para a aula.

Imediatamente, contudo, eu pulei da cama. Lembrei do meu marido falando: “Não pensa! Só levanta e vai!” E foi isso que eu fiz. Estavam na minha cabeça as imagens de mim zumbizando (semi-morta de sono) no trabalho, do esforço físico que teria que fazer na aula, das obrigações que eu talvez não conseguisse cumprir depois, mas eu fiquei cantando em voz alta como uma estratégias par anão me prender a nenhum desses pensamentos. Eles estavam ali pairando, mas eu não estava pensando ativamente em nenhum deles. É como quando uma pessoa babaca fica te enchendo o saco e você tem que fingir que ela não existe, sabe? Uma hora ela desiste. É assim que temos que tratar nossos pensamentos quando eles querem nos atrapalhar. Quando tem algo que você tem que fazer, que você sabe que é bom para você, seja levantar para fazer exercícios, seja se declarar para aquela pessoa que você está afim, simplesmente não pense! Só vai lá e faz. Você já está preparada, certamente já pensou o suficiente sobre o assunto, o que falta é fazer. E na hora do “vamos ver” os pensamentos, muitas vezes, nos paralisam.

Muita saudade. 

Eu chorei horrores depois de escrever o texto de ontem. Essa dor de perder alguém que a gente ama é intensa demais. Já fazem quase quinze anos que o meu pai faleceu e eu estou aqui chorando como um bebê.
Eu não quero perder ninguém mais. Ninguém.
Me lembro do filme Lovely Bones. É um filme pavoroso sobre uma menina que realiza um ato heróico de bondade e é assassinada pouco tempo depois. Desmorona a idéia de que quem faz o bem recebe o bem nessa vida. Faço uma analogia com a idéia de que quem já perdeu uma pessoa especial, não deveria ter que passar por isso nunca mais. Mas não é bem assim que as coisas funcionam, não é? Disso eu tenho medo. Pode ser que a vida ainda queira me tirar mais gente. Não, eu digo. Eu não quero que isso aconteça jamais. Que eu morra antes. Mas eu não tenho realmente essa escolha, tenho?

Hoje eu só acordei por um milagre. 

Hoje o despertador tocou cedinho. Mas, assim que eu olhei o relógio, eu lembrei que a minha paciente chegaria meia hora mais tarde essa segunda feira. Como eu me arrumo para sair de casa em quinze minutos, eu resolvi dormir mais um pouco. Dei o tempo de uma soneca no despertador e apaguei.
Tive então um pesadelo horrível. Meu pai, falecido há muitos anos, estava me perseguindo com uma garrafa de vidro. Ele ficava correndo atrás de mim e eu fugindo até que ele me alcançou. Chegamos ao ápice da pesadelo, meu pai ali na minha cara com a garrafa em punho, mas eu consegui desarmá-lo e jogar a garrafa de volta nele. Depois desse momento, com a adrenalina da situação, eu comecei a acordar e, no finalzinho do sonho, meu pai apareceu novamente, com uma cachorrinha que nós tínhamos quando eu era pequena. Ele estava tranquilo e sorridente.
Eu abri os olhos. Faltavam exatamente quinze minutos para eu estar no trabalho. O despertador não havia tocado. Eu tenho horror da idéia de perder a hora completamente algum dia porque eu trabalho dando aula e em consultório. Trabalhos que envolvem diretamente outras pessoas que ficariam muito prejudicadas caso eu falhasse dessa forma.
Eu pulei da cama, caí debaixo do chuveiro e comecei a pensar. Que coisa sonhar com meu pai novamente… Nos últimos anos esses sonhos têm sido raros. E porque um sonho tão tenso? Ele me perseguindo com aquela garrafa, mas aparecendo tranquilo no final… E aí me veio essa idéia maluca de que se não tivesse sido o sonho com o meu pai, ou melhor, o pesadelo que me gerou adrenalina, eu não teria acordado a tempo para trabalhar hoje. Nada teria me impedido de dormir até meio dia, ainda mais porque eu fui deitar já eram quase três da manhã e eu estava acordando apenas quatro horas depois.
Dá para compreender a idéia de um milagre quando um evento desses acontece.
E como são os pais, não é mesmo… Ainda depois de mortos ficam se preocupando e se sacrificando pela gente.

Relato de uma Trans  fora da marginalidade

Hoje eu tenho o prazer de apresentar mais um texto maravilhoso, forte e sensível ao mesmo tempo, da querida amiga Alexia. Que a luta dela possa ajudar e inspirar a todos!!!

####################

Em meu entendimento, a transexualidade pode ser conceituada como a condição na qual a pessoa não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer por conta de seu sexo biológico, o qual determina em nossa sociedade papeis de fêmea e macho e, por isso, sente necessidade de fazer a transição para o gênero ao qual ela se identifica. 

Apesar de me ver como uma garota desde que me entendo por gente – tenho memórias desde os 3 anos de idade, meu processo de transição foi bem tardio, pois – além de ter que vencer a resistência de família e sociedade, fugi dessa verdade a vida inteira – até mesmo por uma série de preconceitos que me foram plantados e enraizados ao longo da vida. 

Antes de iniciar a transição, pesquisei e estudei a temática por 2 anos aproximadamente (tenho que dar o exemplo, afinal sou profissional da informação), onde aprendi que gênero e sexualidade são coisas distintas (gênero é o que somos e sexualidade por quem sentimos atração), tomei conhecimento de termos como cisgênero (quem se identifica com o gênero atribuído ao nascer) e transgênero (quem não se identifica com o gênero atribuído ao nascer) e outros. Esse período foi essencial para que eu me despisse dos preconceitos internos, vencesse o acovardamento perante família e sociedade que eu tinha forte e me libertasse. 

Quando consegui entender o que eu sou – uma garota sim mas, por ter nascido em corpo classificado como masculino, sou considerada Transgênera, dei início a terapia hormonal, com acompanhamento de endocrinologista e psicóloga. Mas acredito que, mesmo percebendo transfobia, que antes era velada e agora anda um tanto mais evidente no local de trabalho, iniciar a transição tardiamente (março de 2018 completei 2 anos e meio) me possibilitou ser a profissional bem sucedida que sou hoje. 

De qualquer forma, vejo-me como privilegiada por ainda não ter sofrido violências por parte de pessoas desconhecidas (mesmo assim, ando sempre em estado de alerta em espaços públicos, principalmente quando estou sozinha); a transfobia que recebo costuma partir justamente de pessoas de meu círculo familiar, social e profissional. 

O Conselho Regional de Biblioteconomia, região 7 – CRB-7 (Rio de Janeiro) emitiu uma nota recentemente informando que foi o primeiro Conselho Regional de Biblioteconomia do Brasil a possuir uma bibliotecária transexual registrada a fazer uso de nome social, no caso eu. E agora estou, junto com o CRB-7, pioneira novamente na profissão, por ser também a primeira bibliotecária transexual com retificação de nome e sexo na documentação civil e, por consequência, no registro CRB. 

Muito da falta de conhecimento das pessoas, no geral, é atrelada ao preconceito internalizado da sociedade pois, mesmo o assunto sendo veiculado constantemente em vários canais e mídias, há uma resistência forte de uma grande parcela da população em querer compreender a questão, pois falta de informação e de acesso não é. É algo como “não sei, não quero saber, o que importa é o que eu acho” (sempre fundamentado em falsa moral). E – na boa, não vou pautar minha vida, minha existência, de acordo com crenças  e visão de mundo de gente que é ignorante porque assim o quer permanecer. 

Pesquisa e ações voltadas aos estudos de gênero com foco na diversidade, sexualidade e identidades ainda são um tanto tímidas e o tema ainda é pouco discutido de forma ampla e séria pela sociedade brasileira, sendo mais desenvolvidas em países onde a pesquisa e tecnologia são levadas a sério por parte do Governo, tanto que existe um protocolo elaborado pela Universidade da Califórnia e outro na Europa com orientações sobre terapia hormonal e outros estudos sobre a parte psicológica e social da transexualidade. 

A diversidade existe, as pessoas querendo ou não; gostando ou não e deve ser respeitada, pois o mundo é diverso e não há nada que fundamente nem justifique o ódio e a violência cometida contra quem é diferente.


Alexia de Oliveira é Graduada em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Pós-graduada em Gestão de Marketing pelo SENAC-SP e  Bibliotecária-chefe de um Centro Tecnológico no estado do Rio de Janeiro.

Curtindo um forró.

Minha mãe, quando gosta de um CD, passa uns cinco anos ouvindo exatamente o mesmo CD no carro.
Até a última vez que eu andei com ela, estávamos no Eric Clapton. Às vezes no repeat da música Pretendig.
Hoje eu percebi que, além de passar cinco anos ouvindo o mesmo CD, existe uma outra questão: são só uns quatro ou cinco CDs diferentes que se alternam. Depois de um ciclo, inicia-se outro. Como eu tenho ainda vinte e oito anos, eu não tinha percebido isso.
Tudo começou lá atrás, quando eu tinha uns treze anos. Ouvíamos Fala Mansa. Depois veio a Alcione, lá pelos meus dezoito anos. Passamos para Light House Family, dos meus dezoito aos vinte e três. Por fim, Eric Clapton, dos vinte e três aos vinte e oito.
Qual não foi a minha surpresa quando eu entrei no carro hoje e começou a tocar… Tchan, Tchan, Tchan, Tchan… Fala Mansa!!! Aí eu entendi tudo e muita coisa na minha vida fez sentido!
Eu também escutei sempre as mesmas músicas a vida inteira! E quando eu gosto de una comida, por exemplo, eu como ela uma semana seguida! Se eu pudesse, eu usaria a mesma roupa todo dia.
Não tenho essa questão de enjoar das coisas e querer sempre novidades. Sou bem apegada. Gosto de coisas familiares e repetidas. Entendi hoje o porquê. É de família.

Então, quando eu tiver trinta e três anos lá vai vir de novo:

“Ou ela ou eeeeeeeeeeuuu
É a resposta que eu mais gostaria de ter
Só não faço a pergunta
Pelo medo da falta que voceeeeeeeeeee vai fazeeeeeeeer”.

Ainda sobre a ansiedade. 

Falei ontem sobre a crise de ansiedade que eu tive na terça, dia primeiro de maio.
Pois é.
Sabe o que aconteceu ontem quando eu estava terminando de escrever o texto do blog? A pilha do teclado do meu computador começou a falhar, de modo que a letra “e” e a letra “c” Não estavam funcionando. Sabe como eu terminei de escrever? Dando control c/control v nessas letras. Deu um trabalho do cão. E muitas vezes isso acontece mesmo. A gente está se recuperando da crise e já vem uma outra coisa para jogar a gente para baixo. Sabe quando você está pensando: “Caralho! E mais isso agora! Que merda! Eu já não aguento mais”. Aí vem a vida e diz: “Que isso…! Toma mais essa aqui, oh! Tá vendo como você aguenta!” Foi bem isso. E a verdade é que a gente aguenta mesmo, tem que aguentar, então é melhor mesmo não se estressar para começo de conversa. Aquele trabalho que eu tinha que fazer (um artigo que eu vou entregar amanhã)? Não deu para terminar ontem porque não dava para digitar. Hoje eu trabalhei o dia todo (no consultório). De dez da manhã até dez da noite. O que sobra? Mais uma noite sem dormir.
Conversei com alguns amigos hoje nos intervalos que eu tive. Isso sempre ajuda. Compartilhar.
De resto o que a gente pode fazer? Eu tenho lidado muito melhor com os momentos de ansiedade. Ontem eu falei de algumas estratégias, mas ao logo do dia de hoje eu fiquei pensando… Tem uma coisa muito importante que eu não mencionei no texto de. A minha vida e as coisas que eu estou fazendo têm muito sentido para mim. Eu só estou fazendo coisas que eu amo fazer, que me empolgam. Isso é fundamental. Porque se ficar estressada e ansiosa já é ruim, imagina ficar estressada e ansiosa fazendo coisas que você odeia! Nossa! Terrível! Claro que toda atividade tem partes chatas e desagradáveis, mas se isso fizer sentido na sua vida, vai ser mais tranquilo de lidar. Por exemplo, buscando atividades que me trouxessem bem-estar e felicidade, eu comecei a fazer curso de desenho. Sabe qual é a passo inicial dessa nova aprendizagem? Desenhar garrafas, cadeiras, copos, xícaras… Porra, eu quero desenhar dragões!!! Mas para chegar lá, tem treze meses de curso básico antes. Eu não sei se eu vou ficar interessada em desenho para sempre, mas, por enquanto, se eu quero desenhar os tais dragões, eu tenho que aprender a desenhar e, para isso, tenho que começar pelos objetos inanimados desinteressantes. É isso. Essa parte é chata, mas, por enquanto, faz sentido para mim.
Essa questão do sentido é essencial para a vida como um todo, na verdade, mas no caso do enfrentamento das situações difíceis ela é fundamental.

Uma crise de ansiedade.

Nesse feriado eu tive uma crise de ansiedade. Tinha muita coisa para fazer e eu entrei numa bad achando que não ia dar conta.
Momentos como esse me atrapalham de vez em quando. A todos nós, na verdade.
Mas a crise de ansiedade em si não importa muito no fim das contas. O ponto principal é a maneira como você lida com ela, as estratégias que você possui para enfrentar sua ansiedade.
Eu estava no computador trabalhando quando aconteceu, na terça a noite, mas, de fato, eu já estava me sentindo mal desde segunda. Comecei a sacudir a perna fortemente, minha respiração ficou acelerada, parecia que meu sangue estava correndo rápido e com muita força nas veias, eu sentia o corpo todo palpitar e o coração bater forte demais, um leve formigamento nas extremidades. Além disso, minha visão começou a ficar embaçada. Se eu já não estivesse bem familiarizada com os sintomas da ansiedade e não tivesse consciência de que o momento tenso que eu estava vivendo poderia muito bem causar uma crise dessas, eu certamente iria para o hospital.
Ok. Mas eu sei de todas essas coisas. Que sentir ansiedade é normal… Que determinadas situações geram ansiedade… Que ansiedade dá e passa… Claro que sentir essas coisas é muito ruim.
É aqui que a situação complica.
Muitas pessoas, quando têm crises de ansiedade, colocam estratégias disfuncionais em prática para lidar com esse sofrimento.
Algumas pessoas mergulham em preocupações intermináveis. Elas se preocupam acreditando que, desse modo, estão fazendo todo possível para lidar com uma determinada situação da melhor maneira possível. Se eu tenho um trabalho para entregar, eu vou me preocupar com ele dia e noite, enquanto eu estiver lavando louça, jantando com meu namorado, assistindo tv com a minha família, antes de ir dormir… Asssim eu penso, penso e penso na tarefa, penso tanto que vou minimizar as chances de algo dar errado quando eu finalmente sentar para fazer a tarefa. Mas eu não consigo sentar direito para fazer a tarefa. Eu já pensei tanto nele, que já estou com raiva dela, ou construí expectativas muito altas e agora estou com medo de não alcançar meus próprios padrões, ou então eu simplesmente sento para fazer o trabalho, mas subitamente outra preocupação invade a minha cabeça e tira o meu foco.
Na psicologia, isso se chama transtorno de ansiedade generalizada.
No momento da crise aparecem esses sintomas físicos que eu mencionei no início. Então, desde segunda eu estava me preocupando, terça veio a crise.
Eu já perdi as estribeiras duas vezes. Congelei na rua, em plena crise, sem conseguir sair do lugar. Da primeira vez minha mãe foi me buscar, da segunda, meu marido. Acontece.
Depois disso eu precisei parar para pensar em como lidar com essas situações no futuro. Nenhum caminho melhor para começar uma investigação acerca de nós mesmos que não no nosso passado. Comecei a pensar em tudo que eu gostava de fazer, que me acalmava, quando eu era pequena. Eu pergunto isso para os meus paciente e às vezes eles riem pensando que eram só bobagens que eles jamais fariam hoje em dia: brincar de bonecas, por exemplo. Mas, se nós tivemos uma infância relativamente tranquila e saudável, esse foi o momento em que nós precisamos de mais proteção e também o momento em que efetivamente nos sentimos mais protegidos. Por isso as estratégias da infância são, na verdade, muito eficientes. Não precisa ser só dessa época, contudo, pode ser qualquer coisa que te acalmou no passado.
Para mim: da infância, a lembrança que eu resgatei foi uma suposta memória do jardim de infância na qual eu estava fazendo bolinhas de papel crepon colando para formar um desenho. Da adolescência, dançar bem loucamente ao som de música alta. Da idade adulta, conversar.
Então, o que eu fiz na terça à noite? Bolinhas de papel crepom, dancei Nirvana pra caramba e conversei horas com meu marido. Isso foi suficiente para me trazer perspectiva e tranquilidade.
O trabalho? É para sexta e ainda não está pronto, mas eu tenho certeza de que eu vou fazer o melhor possível e que, s algo der errado, não vai ser o fim do mundo. Certamente do jeito que eu estava terça, eu ia fazer tudo cagado e ainda ia sofrer horrores durante o processo.